Paulo e Eduardo descobrem um corpo morto na beira do lago. Eles estavam ali para brincar, mas acabaram se deparando com uma cena sangrenta e macabra de assassinato. A mulher assassinada era Anita, esposa do dentista da cidade. Duas crianças de cara com a morte, com a podridão da vida. Certamente eles não seriam os mesmos depois daquilo.

Junta-se aos dois garotos o velho Ubiratan, que mora no Asilo São Simão e não tem ninguém com quem conversar ou jogar xadrez, o que o obriga a escapar diversas vezes, pulando o muro da instituição, para ver algo de interessante na cidade. De modo muito inusitado, o velho e os dois moleques entram no arriscado empreendimento de tentar descobrir quem matou Anita, mas eles não esperavam que essa morte envolveria a elite da cidade e toda a classe política econômica que comandava aquele pedaço de terra.

Escrito de forma rápida e intensa, quase como um torpedo, o livro de estreia do autor Edney Silvestre nos presenteia com vários momentos belos e catárticos. Todas as personagens têm os seus esqueletos no armário. Todos os traumas nos são apresentados, ou melhor, são jogados na nossa cara. Em algumas ocasiões podem até causar desconforto, mas a crueza de tudo também encanta ao não nos poupar nenhum detalhe sórdido das pessoas que habitam aquela cidade.

Ao final, o livro é uma síntese da história do Brasil e seus sucessivos golpes, conchavos, lascívias e dissabores. É uma leitura que deixa um gosto amargo na boca. Porém, fica aquela esperança de que afeições verdadeiras e amizades reais possam ser maiores do que o horror espalhado pela humanidade. Ainda existem Paulos e Eduardos no mundo, felizmente.



Ela está sempre lá. Quando chego do trabalho cansada, quando estou em um trânsito terrível, quando estou triste, quando estou feliz, quando preciso relaxar, quando quero ser produtiva. Ela me guia, me mostra os caminhos mais doces e sempre tem a frase que eu preciso ouvir. Ela me ajuda a dar conselhos e, quando eu quero muito ajudar alguém mas não sei o que dizer, basta correr e dizer "acho que sei um livro que pode te ajudar". A literatura. Ela tem me salvado desde que aprendi a ler e esse ano de 2018 não foi diferente: a literatura me ajudou a respirar.

Esse ano, em especial, foi muito diferente dos anteriores: por conta da conclusão da graduação, li apenas vinte e cinco livros. Entretanto, foi mais difícil escolher os meus dez preferidos já que, pelo tempo limitado, selecionei com muito cuidado os livros que leria. Assim, os que indico aqui são a nata preciosa que tive o prazer de encontrar esse ano e quero, com muito carinho, indicar para vocês que me leem. 

É importante lembrar que nem todos os livros aqui listados foram lançados em 2018, mas eu os li em 2018. De alguns deles teremos resenhas completas em 2019 e, por isso, farei apenas um breve resumo agora. 

1.Um teto todo seu - Virgínia Woolf
Foi minha estréia com a incrível Virgínia Woolf e fala justamente sobre o meu dilema: como uma mulher que ainda não é financeiramente independente pode escrever livremente e se manter? Fiz uma resenha dele em março AQUI.




2. I know why the cageg bird sings - Maya Angelou
Esse livro vai ganhar uma resenha especial sobre ele — a qual ainda não tive tempo de fazer, mas terei. Porém, já adianto que é um livro autobiográfico e extremamente sensível. Angelou escreveu muito poemas incríveis, mas foi o romance que dela que de fato me marcou. É um livro que consegue perpassar muitos temas difíceis de serem discutidos através da figura representativa da Maya. A leitura é indispensável. 

3. O Sol na cabeça - Geovani Martins
Como brasileira, posso dizer que esse foi um dos melhores livros que li na vida. É lançamento do ano da Companhia das Letras e escrito por um autor também lançamento. Fiz resenha dele em abril AQUI.


4. Os homens explicam tudo para mim - Rebeca Solnit
Eu comprei esse e-book acidentalmente, mas acabou sendo um encontro. Devorei o livro em dois dias para tentar engolir o nó — necessário — que trouxe à minha garganta. Solnit vai além do feminismo e traz outras discussões e reflexões extremamente necessárias acerca da vida em sociedade e, acima de tudo, sobre respeito. Tem uma mini resenha dele AQUI


5. Pedagogia da autonomia  - Paulo Freire
Em seis anos de licenciatura, não havia lido ainda Paulo Freire. Ao escrever meu trabalho final, senti a necessidade e, ainda que não tenha sido uma leitura obrigatória e nem tenha entrado, de fato, em em meu trabalho, Freire me libertou com seu ideal pedagógico. É uma reflexão libertária e essencial. 


6. Mulheres de cinzas -  Mia Couto
É o primeiro livro da trilogia "As areias do imperador" em que Mia Couto trata sobre a chegada de Portugal à Moçambique. Foi minha primeira leitura de um romance histórico e notei o poder que esse tipo de literatura tem: a força história unida à estética literária. Leitura essencial. Não vou me delongar pois em Janeiro teremos resenha da trilogia completa. 

7. Sombras da água - Mia Couto
É o segundo livro da trilogia "As areias do imperador" acima citada. 

8. O bebedor de horizontes - Mia Couto
É o terceiro e último livro da trilogia "As areias do imperador" acima citada. 

9. O que é lugar de fala? - Djamilla Ribeiro
Em 2018 tive ainda o prazer de participar de uma #MaratonaDeLeiturasFeministas e o primeiro livro lido foi justamente essa obra esclarecedora da Djamilla Ribeiro. Ainda que eu tenha estado em um estado de pesquisa constante nos últimos dois anos, esse livro me foi essencial por diversas razões mas, sobretudo, para entender mais sobre respeito. Até então, o conceito de lugar de fala me era muito problemático, mas ao ler o livro, percebi a simplicidade do assunto. É um livro curtinho e muito simples, obrigatório para quem quer entender mais sobre respeito e vida em sociedade.



10. O que é empoderamento? - Joice Berth
Ainda impulsionada pela maratona, o livro de Joice Berth foi o segundo a ser lido e também me esclareceu outro termo que me parecia extremamente abstrato — empoderamento. A autora dialoga com Paulo Freire ao pensar em um empoderamento coletivo social e não individualizado. Além disso, me ajudou a visualizar melhor como a mulher negra é posta na sociedade brasileira.

com muito amor — e desejando um lindo 2019, 

Ane Karoline

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Não sei se todo mundo é assim, mas eu percebo o jeitão de um cara aproveitador. Eu mesmo não suporto esse tipo, podem me acusar de tudo, de ser o desgraçado que for, mas aproveitador não. Acontece que esses caras não me enganam e o tal vendedor de seguros era um desses, afinal, ele é um vendedor de seguros. Confesso que, talvez por orgulho, eu não contava com o fato de ele ser esperto, ser um bom vendedor de seguros. Quando encontrei com eles dois no shopping, eu só conseguia construir uma imagem ruim dele na minha mente, como se, por estar com ela, ele fosse um imbecil; mas não. O cara é esperto e me tratou no maior papo aproveitador: ofereceu seguros, planos, mundos e fundos. A coisa toda ficou enrolada porque ele disse que o escritório estava em reforma isso e aquilo e, por fim, não estava atendendo no escritório, só por telefone. Lembrei dela falando que tudo se quebra e se transforma para se reconstruir, se reformar; se isso fosse verdade, eu deveria estar caminhando para a reforma, pois essa confusão toda, essa história de não querê-la mas não esquecê-la, ia acabar me quebrando em mil malditos pedaços. Quem sabe, quebrado, morto, despedaçado, eu não virasse um daqueles mosaicos, uma das obras de arte dela, quem é que sabe de alguma coisa?

Demorou dois dias de uma insistência dos infernos para conseguir marcar com o vendedor de seguros da cara rosa. Acabamos marcando em um bar de chopp dentro do mesmo shopping que eu tinha visto as mãos dele na cintura dela. Fui cedo, mas ele já estava lá; adiantado. Tá aí, ela deveria gostar disso nele também, com aquele jeitinho dela de quem gosta de chegar não sei quantas horas antes. Além de esperto, ele também foi bem mais firme do que eu esperava; cheguei, e ele foi logo me recebendo de pé e com aperto de mãos. Era ele mesmo, bem ali, com aquela cara rosa e as mesmas olheiras da foto; tive que me lembrar várias vezes de que não havia razão para ser hostil com ele. Não ainda. O cara é esperto, mas é chato, me dispersei várias vezes e, já puto com ele, resolvi perguntar logo sobre os seguros para casais. Qual você me recomenda, joguei, qual é o que você usa com sua namorada? Olhei bem fundo para a cara roliça dele, como quem não quer nada, ele vacilou, fez cara de abobalhado. Ele gosta dela, filho da puta. Está dormindo com ela. Comecei a ficar nervoso.  Vou pedir um chopp, você quer? Ele disse que tinha um compromisso depois e que ia dirigir. Mas e esse teu seguro aí, não cobre isso não? Ele sorriu e disse que o seguro cobria tudo, nos melhores hospitais do quinto dos infernos, disse que, inclusive, a namorada dele estava viajando para São Paulo, ou Recife, não prestei atenção. A namorada dele estava viajando com cobertura do seguro e, por isso, ele estava tranquilo. Tomei uma golada de chopp quente, desceu rasgando. Mas que coisa, eu falei, que coisa; achei que sua namorada morasse aqui. Percebi-o todo desconfortável. Claro, porra, claro. Escondendo uma namorada e bancando o romântico com a manteiga derretida pintora. A cara de aproveitador dele não me enganou nem por foto, só mesmo ela para acreditar em um cara desses. Minha vontade foi dizer: e aquela com quem você estava agarrado aqui no shopping? Ela é o que para você? Minha vontade foi jogar na cara dele os cinco anos de história que eu tinha com ela, dizer que se eu ligasse, se eu a convidasse para qualquer cineminha barato, ela iria. Minha vontade foi perguntar se ele estava com ela na noite anterior, se foi por isso que ela não retornou. Ao invés disso, aceitei comprar o seguro individual. Mais uma golada de chopp quente, odiei aquele chopp porque eu não consigo odiá-la.

Insisti em assinar o contrato no mesmo dia, sabe-se lá por que razão. Eu só queria manter contato com ele até que eu pudesse saber de tudo. Ele até brincou, querendo ser engraçado, dizendo que eu não morreria em um dia. Quem é que sabe? Insisti. O contrato, ele falou, pode até ser assinado hoje, mas vamos ter que dar uma passadinha na casa da minha prima; ela está indo embora do país, hoje é despedida dela, acabei deixando minha pasta lá. Menos de quinze minutos depois, eu estava seguindo o golzinho dois mil e quinze dele em direção à casa.

Quando cheguei, não vi mais nada. Não sei quem abriu a porta, não sei como entramos, não vi mais ninguém; só o vendedor de seguros indo até ela, parabenizando pela viagem e pegando a pasta na mesinha onde ela descansava os pés. Ela estava nua, a alma nua. Um vestido que eu nunca a tinha visto usar, o cabelo meio preso na frente, o rosto bem exposto, os ombros também nus. Sorria como se nada nesse mundo a incomodasse, como se eu não tivesse ligado para ela noites antes, como se ela nunca tivesse conversado comigo até tarde, como se nunca tivesse chorado por mim, como se nunca tivesse pintado quadros para mim. Sorria como se eu não existisse mais no quadro da vida dela.


Com a casa cheia, aposto que até agora ela nem me viu; se viu, fez que não, e fez bem. Nem a barba eu fiz. Não fiz nada, não tive coragem para me levantar de onde o vendedor de seguros, primo dela, me ofereceu lugar para sentar. Continuo olhando para o copo de plástico com cerveja quente, ouvindo barulhos, risadas, ela cantarolando, eu morto. Parece que o tal seguro não me protegeu desse tipo de morte sem sangue que foi morrer dentro dela. 

Ane Karoline

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A gente tem tanto medo de estar devendo, tanto medo de ser cobrado pelo que fez e deixou de fazer, que quando, finalmente, decide fazer alguma coisa entra em colapso e começa a se enfiar em problema. Isso é teoria minha, não tem base científica, ela iria adorar. Formulei isso enquanto conferia pela vigésima vez no GPS o caminho que deveria tomar e vi um cara com uma lanterna sinalizando para o acostamento. Não um cara qualquer com uma lanterna qualquer, era um policial na verdade. Porra. Habilitação vencida. Antes de abrir o porta luvas, lembrei que pedi o Júnior para limpar o carro e ele tirou os documentos de lá. Porra. Fui parando, desesperado, nem desliguei o GPS e só me lembrei dele quando ouvi “recalculando rota”. Abaixando o vidro, olhei para as minhas bermudas sujas de molho do sanduíche e me lembrei da última mensagem de ano novo dela “Que você tenha o melhor ano da sua vida, mesmo que você seja um mentiroso”. Certo.

- Boa noite. - fui logo tentando agilizar o processo com o meio metro de policial que me abordava.
- Vamos descobrir agora, ligue a luz interna, por favor. Documentação em mãos.
- Esqueci em casa.
- Onde é que o senhor mora e aonde está indo a essa hora?
- Eu moro duas quadras para trás, vim comprar um sanduíche. – apontei para as bermudas sujas de molho – vim de pijama mesmo, acabei até me sujando.
- E porque o senhor pegou essa via? - Ele me olhou desconfiado. Mentiroso filho da puta, ele deveria estar pensando. Era o mesmo jeito que ela me olhava quando me questionava sobre nós, parece que me lia: mentiroso. Minto. Se for para me salvar, minto. Minto até se for para evitar a fadiga, como era com ela.
- Eu ia pegar o próximo retorno, é mais iluminado e ali embaixo está um fumaceiro desgraçado.
- Desce do carro, por favor. – ele se afastou da porta para que eu a abrisse e se alongou olhando ao redor preguiçosamente. Quando desci, tirei o celular do suporte que ficava acoplado ao duto do ar para que, por via das dúvidas, ele não visse o GPS. Ele deu uma boa olhada no carro, perguntou sobre porte de armas e me deixou ir. Se foi sorte ou azar é que eu não sei. Não sei o que eu fui procurar quando saí de casa, não sei o que eu estava procurando quando fui falar com ela pela primeira vez, mas amaldiçoo as duas vezes: continuei sem encontrar.

Depois de demorar vinte e três minutos dirigindo na velocidade da via, estacionei porcamente na garagem de casa, dei uma checada no celular e vi que o Maurício estava online, mandei uma mensagem convidando para jogar em casa na sexta, para testar. Ele respondeu rápido e eu acabei contando por alto o que tinha acontecido, longos minutos de espera se passaram antes que ele respondesse “liga para ela” e eu liguei. Liguei no impulso, coisa que não era muito minha, ela que era toda impulsiva, toda cheia das maluquices de quem não pode esperar, não pode ponderar e age de forma passional. Três toques. A voz dela era sonolenta, grogue “alô?”. Eu não disse nada, desliguei e disse para o Maurício que não liguei, que a ideia era ridícula. Madrugada de um domingo para segunda, imagina só se eu iria ligar para ela, e se o tal vendedor de seguros atendesse? Certo, ela não costumava ser do tipo que levava um cara para dormir na casa dela, mas e se agora ela fosse? Como é que eu tinha chegado a esse ponto, não sei; tão pouco saberia dizer se era adrenalina, sono ou as cervejas que havia tomado na tarde do domingo. Tudo que sabia era que o tal vendedor de seguros não atendeu o telefone dela e não ligou de volta perguntando quem era; havia uma chance de eles não estarem dormindo juntos e, de repente, isso me pareceu vital: descobrir se ela estaria dormindo com ele, descobrir se ela pintava quadros dele nu com aquele rosto roliço dele, descobrir se eles dividiam a cama e sabe-se lá o quê mais dividiam.

A coisa de pedir conselho para o Maurício era essa: ele não tem paciência e te joga logo no meio do caos. Me mandou procurá-la e, mesmo sem admitir isso para ele, eu fui sem hesitar; como se só precisasse de um cachorro de rua para me olhar como confirmação. Na hora não deu nada, ela dormiu, mas e depois? E se ela ligasse de volta? Eu ia ter que mentir de novo, que diferença isso faria à essa altura? Demorei vinte minutos, ainda dentro do carro, sujo e com frio feito um vagabundo, para conseguir decidir que, caso ela ligasse, eu diria que liguei sem querer, que esbarrei no celular, aliás, que o celular estava no bolso, eu, no bar, esbarrei no celular e nem percebi. No minuto seguinte, decidi como descobriria se estavam juntos ou não; era só isso, prometi para mim mesmo, só descobriria e depois a mandaria para o quinto dos infernos de onde ela nunca deveria ter saído.
Caminhando para dentro de casa, procurei novamente o perfil do vendedor de seguros, encontrei o telefone, abri o aplicativo de mensagens e digitei o que eu achei que seria o atestado de óbito dela dentro de mim “Tenho interesse em fazer um seguro. Podemos nos encontrar amanhã?”

Ane Karoline


Existem muitas definições de amor, existem muitas formas de demonstrar amor; não raramente, as definições e demonstrações divergem entre si, tornando o processo de amar turbulento. Há quem diga que por amor tudo é possível, que o amor tudo suporta, o amor tudo arrisca, o amor tudo perdoa, mas será que por amor um herói pode se tornar vilão? 

Sobre este conflito escreve Amanda Nunes em seu romance 60 horas. Um romance repleto de aventuras, desventuras, rupturas e reviravoltas, no qual um sargento da polícia militar brasileira (Hudson) vê-se coagido a passar por cima de sua boa índole na tentativa de salvar o amor de sua vida (Gabriela).  Após acordar de uma noitada da qual não se recorda com clareza, Hudson percebe a ausência inesperada de sua esposa; enquanto busca por sua esposa em casa, ele percebe uma dor inexplicada na nuca e, em seguida, encontra sua emprega em uma situação na qual ele jamais esperaria.  A partir de então, Hudson entra em uma busca desenfreada para salvar a vida de sua esposa e a sua própria. 


O livro 60 horas é repleto de reviravoltas e recheado com muita ação, as descrições detalhadas são capazes de criar cenários específicos na mente do leitor de forma a envolvê-lo nos acontecimentos descritos. Por conta da quantidade de acontecimentos (a maioria inesperados), o livro consegue ser interessante para diferentes públicos: aborda suspense, perseguição policial, ficção científica e romance. Ainda assim, apesar de conter violência e muita perseguição, o livro é característico para quem gosta de romances envolvendo paixões viscerais; Hudson é implacável em função de seu amor por Gabriela e, além disso, há vários momentos de flashbacks apaixonados na narrativa. 

Para além das questões de estrutura da narrativa, 60 horas é um livro que, ainda que sutilmente, aborda questões importantes das diferentes esferas sociais brasileiras; entre elas, o tráfico de drogas e a corrupção policial. O romance foi planejado e escrito de forma a evidenciar questões emocionais mas, ainda assim, acaba por notabilizar a problemática do financiamento e controle do tráfico de drogas nas grandes metrópoles brasileiras - inegavelmente, muitas vezes, apoiado pela polícia em troca de propinas - como retratado, por exemplo, nos filmes Tropa de Elite.

Para mim, alguém que lê mais distopias e contos claricianos, o livro foi um desafio e uma forma de abertura a novos horizontes - entre eles, à nova literatura brasileira que aborda, inclusive, realidades periféricas. Muito me entreteu a leitura do romance, me senti correndo uma maratona com tantas reviravoltas e aventuras, e considero o arco do herói bem construído pela autora: um personagem de boa índole que acaba por cometer crimes, ainda que heróicos, e, sob penas, consegue resgatar sua integridade - ainda que afetada. Aos amantes de aventuras, ação, suspense e narrativas policiais, a leitura de 60 horas está muito bem recomendada!

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:
autora: Amanda Nunes 
editora: Autografia
ano: 2015
minha nota: 8
LINK DO EBOOK: https://www.amazon.com.br/dp/B01MQY7GVP

Contato da autora:
email: ac.nunes@outlook.com.br
instagram: @a.c.nunes

Com amor, Ane Karoline

imagem: stocksnap.com


Uma neblina desgraçada me cegou logo na esquina da minha casa quando tive a ideia ridícula de sair de casa na noite da minha sarjeta. Depois vi que era fumaça e fechei a entrada de ar externo do ar-condicionado para não me engasgar com tanta fumaça, já me bastava estar engasgado comigo mesmo; engasgado com minha covardia. Se eu dissesse que já havia tomado uma decisão quando saí de casa, estaria mentindo: saí impulsionado pela raiva, sem destino, sem rumo certo; mas vontade eu tinha. Uma vontade velha, moradora do meu peito desde o dia em que ela me chamou de “meu bem” pela primeira vez – queria que ela sumisse, sempre quis que ela desaparecesse, que eu nunca a tivesse conhecido. Fiquei pensando foi que se batesse o carro, se eu morresse ali naquela fumaça, ela nem saberia, ou saberia? Se eu morresse, ela iria no meu velório? Se ela fosse, iam dizer: vossa santidade, manipuladora e destruidora de sanidade mental, chegou; e chegou na companhia do cara com quem ela ria no shopping. É só pensar nela que a morte já vem fértil em minha mente, morte de quem, era o que eu queria saber, quem é que vai ter que morrer para que eu possa voltar a viver. E ela que vivia dizendo que eu não pensava em nada, olha aí, minha cabeça um nó.

Sei lá para onde eu ia, só ia. Pista limpa, livre, sem carro, sem gente, sem nada; a BR que leva para a casa dela estava livre, quinze minutos para chegar lá. Beirando a insanidade, afogado na sandice, entrei rasgando no Drive-thru no meio do caminho para lá. Que diabos era que eu estava fazendo é que eu não sei, sorte foi ter sido lembrado pela fome de que eu estava prestes a fazer idiotice. Débil mental, ela me explicava sentada no meu colo, é uma pessoa de mente fraca. Então era eu, me tornei débil mental, controlado por sentimentos. Ainda que fosse ódio, ainda que fosse raiva, ainda que fosse aquela sanha desmedida de quem dá cinquenta facadas em um cachorro morto, ainda era eu sendo controlado por sentimentos. O que vai querer, senhor? A voz da moça perguntava e eu, tentando parecer o são, tentando fazer a voz mais firme que eu tinha, fiz meu pedido. O que me dá raiva é que na beira da porcaria do balcão de espera tem pinturas dependuradas, para quê diabos pinturas dependuradas ao redor de um balcão de espera? Isso me dá raiva porque ela é pintora e, então, eu tenho raiva de tudo quanto é pintura porque eu não consigo sentir raiva dela. Não sei dizer se é boa pintora, ela me perguntava e eu não sabia dizer, não sou crítico de arte. O que eu pude notar, pelo que andei sondando da vida dela, é que ela melhorou muito; agora parece que pinta com mais confiança, parece que sabe o que está fazendo, parece que não precisa mais da minha aprovação. Inferno, não precisa mais da minha aprovação, como se eu quisesse analisar arte de uma artistazinha de beira de esquina; nunca nem gostei de arte. Se é boa pintora, então, eu não sei, mas sei que pintou com eficiência um quadro ruim de mim para todo mundo.


Pintora, artista, como diria ela, pode até ser útil para a sociedade. Mas e quanto a um cara que vende seguros? Sentado no carro, no meio da madrugada, com uma mão eu comia o sanduíche, com a outra procurava a maldita foto que ela postou com o cara. Achei o perfil dele e ele é vendedor de seguros. Digamos que ela seja útil, digamos que ela seja única, como ela deve achar que é, mas e quanto a um cara que vende seguros? Qualquer um pode vender seguros! Se ele some, se ele desaparecesse, outro vai lá e faz igual ou melhor que ele. Se alguma coisa se quebrasse nela também, talvez eu me consertasse; se ele morresse, talvez eu voltasse a viver. Na foto, que eu já tinha visto dezenas de vezes em dois dias (ou três, perdi as contas), ela, abraçada nele, sorria de um jeito menos tenso, de um jeito muito mais espontâneo do que quando tiramos nossa única foto juntos; mais viva, mais segura. Olhei novamente para a cara safada dele: barba torta, olheiras de quem passa noites acordado vendo pornografia na internet, as bochechas roliças amassadas pelo sorriso; ele olhava para ela como se só esperasse pelo momento de devorá-la, como se ela fosse uma cigana que tem algum tipo de sumo de vida.  Nesse rumo de pensamento, parece até que a vida é ela; quem a tem, tem vida. O foda é que eu não tive peito de ir lá me sentir vivo com ela, não tive coragem para tentar, perdi logo a paciência com o jeito nhem-nhem-nhem dela. Enquanto ela estava só, vá lá, eu sentia que ainda emanava vida para mim, ainda era minha; isso antes de ela se enlaçar com um vendedor de seguros. Foi esse vendedor de seguros aparecer para eu ficar cheio de nóia, dois dias pensando, repensando, sondando. Antes disso, eu nem queria saber, me perguntavam dela e eu fazia pouco caso; tá maluco que eu vou ficar com uma mulher adulta que ainda quer ir para a Disney? No dia que ela me veio com essa, cortei logo: se for para gastar isso tudo, que seja para a Europa, porra. Agora, Disney? O tal vendedor de seguros deve ter aceitado, imagino a cara dele concordando, engolindo os caprichozinhos dela, escutando as pseudociências dela, levando ela para ver filme infantil e comer com guardanapinho de pano no colo. Puta que pariu, o cara vende seguros, olhei o perfil dele todo e vi que a vida dele toda se resume a ser um banana, que diferença faz se um cara desses existe ou não? O imbecil, achando-se grande empreendedor, colocou o endereço no perfil. Débil mental. Ativei o localizador, limpei a boca na manga do casaco, girei a chave na ignição e comecei a odiar esse vendedor de seguros porque eu não consigo odiá-la. 


Ane Karoline

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Deitado de barriga para cima, mais uma vez sem sono, sem vontade de dormir, sentindo minhas costas já afundando no colchão pelo longo tempo na mesma posição, mas sem vontade de me virar para o lado. Sabia que se me virasse para o lado, os óculos iriam ficar naquela posição desconfortável e, então, eu os tiraria, fecharia os olhos na vã tentativa de dormir. Depois desistiria, abriria os olhos e ficaria olhando o teto sem vê-lo. Essa história de olhar sem ver é coisa dela também, ela deve ter me rogado uma praga, pedido para os anjos para que essas frases de efeito ficassem rondando minha cabeça – vai saber, ela era meio mística, meio tudo. Frequentemente isso se repete, quando eu estou mais cansado e com raiva; ela me vem quando eu estou fraco; é como se meu cérebro soubesse que quando forte, não preciso dela.

Percebi, mais uma vez, que não dormiria e, remotamente, pensei em ler um livro. Ler alguma coisa, que fosse. Ri de mim mesmo: eu nem gosto de ler. Ela deveria estar lá, lendo às pampas e conhecendo palavras melhores que “às pampas”. Olhei a tela do celular: 23:57. Ela deveria estar dormindo, será? Será quem tem aula cedo? Pensei ter visto em algum lugar, ou alguém me falou que sim: ela tem que acordar cedo às segundas. Devo ter visto em algum lugar, ninguém me falou não, eu não falo dela com ninguém, eu não falo dela para ninguém. Os poucos que sabem, nem me perguntam mais... Já tem o quê? Cinco, seis anos? Espero que em mais cinco, ela suma. Evapore da minha cabeça como minha paciência evaporava com ela. O único amigo que fala nela é sempre para me deixar puto de raiva, é sempre para me dizer que eu ainda gosto dela. Nunca gostei, eu respondo. E não minto, não sei mesmo se gostei, por isso não sigo o conselho do Maurício e não vou falar com ela, se eu for falar, ela vai querer certezas, vai se negar a ficar com alguém em dúvida. Que raiva que eu tenho disso. O que eu vi no shopping não parecia uma certeza, não parecia um para sempre, não parecia porcaria nenhuma; mas se for comigo, ela quer certeza, quer me atormentar com perguntas para as quais eu não tenho as repostas.

Afora a insônia e essa indignação que me gerou o fato de tê-la visto, mal nenhum ela me fez, o mal dela é amar, aliás, o tal jeito dela de amar. Ama e acha que a gente tem que amar de volta, que a gente tem que gritar isso na rua, tem que apresentar para os conhecidos. A desgraça que seria se eu levasse ela em casa... Isso ela não vê, nunca viu. Na primeira piada machista do meu pai ela ia fazer o quê? Revidar? Quando minha mãe deixasse de jantar com a gente para lavar as louças ela ia responder o quê? Um discurso? Evito esse tipo de coisa. Quando eu pensava, quando eu penso – porque eu ainda penso – em trazê-la em casa, pensava no trampo que ia ser para termos, pelo menos, um segundo de paz no meu quarto, sem ninguém para encher o saco; antes disso ia ter que atravessar meio mundo de gente e eu pisando em ovos por causa das opiniões fortes dela. Quer opinar em tudo também, inferno. Tá, eu também gosto de ter minha opinião, mas não fico gritando por aí, levantando bandeira de tudo quanto é porcaria o tempo todo. Pronto, conseguiu me estressar mesmo sem estar aqui. Só em lembrar, já me dá raiva de tudo: raiva porque eu ainda moro com meus pais, porque ela é difícil de lidar, porque eu fico calado, por tudo, raiva de tudo; agora fico me perguntando porque já passa da meia noite e continuo pensando essas porcarias. Tem gente babaca, como o Maurício , que diz que depois do que eu vi ontem estou triste. Engoli em seco? Sim. Achei esquisito e tudo, mas triste não estou, não sinto nada. Triste é quem perde parente em acidente de carro, triste é quem descobre que o padrinho morreu, triste é quem tem câncer. Eu fiquei triste quando achei que ela tivesse câncer – o que foi o primeiro motivo pelo qual eu meti o pé e saí fora pela primeira vez – porque ela reclamava de dores de cabeça, tinha espasmos. Com dezessete anos, como eu ia lidar com espasmos? Não deu. As dores de cabeça dela deveriam ser eu porque agora ela, pelo que sei, não as tem mais; ontem ela ria e não parecia ter dor de cabeça nenhuma. Não perguntei nada para ela, mas eu sondo; é melhor assim, ser sombra que presença.

Sombras somos os dois: ela, com aquele jeitinho, e eu. Ela nem me viu, eu acho, mas parece que acendeu a porra de uma dinamite no meu cérebro, uma dinamite que está para explodir; dois dias sondando, pensando, repensando. Escuto uma música, lembro; vejo um negócio aqui, outro ali, eu lembro dela. Eu nem gosto dela, tenho certeza disso. Se me chega alguém e me oferece um trocado qualquer: ela ou o dinheiro? Eu escolho o dinheiro! Por que é, então, que ela fica fazendo aparições na minha mente, surgindo quando estou distraído, em flashes que se repetem mais que a música hit do carnaval? Nem para isso ela serviu, nem para ser carnavalesca, nem para ser uma desgraçada que gosta das coisas que eu não gosto, nem para ser uma ordinária que age de um jeito que dá nojo, que assim eu tomaria logo ódio e não teria essas epifanias esporádicas. Se é que já não tenho ódio, talvez essa obsessão seja ódio por ela ter estragado tudo; aparecendo com aquele jeito de “quero te conhecer”, assistindo minhas coisas preferidas, cantando as músicas da banda que eu gosto nos tons mais agudos que eu já escutei, um tom capaz de penetrar minha mente e me atormentar.

02:23 e eu acordado ainda, se é que a cólera deixa alguém realmente acordado. É certo que alguma coisa despertou em mim nos últimos dois dias, alguma coisa que me diz para acabar logo com isso. Escuto o barulho abafado de alguém abrindo a torneira do banheiro, encaro o teto como que assombrado, mas assombrado por dentro, o fantasma dela me persegue e não me deixa seguir em frente. Ainda hoje, mesmo sei lá quantos mil dias depois, lembro de como ela fazia um beijo parecer uma coisa importante; parecer um momento especial, e isso me assombra. Essas importâncias ridículas me perturbam como se me cobrassem alguma coisa que eu sei que não devo a ninguém. Será que sei? Ela tem esses misticismos, eu não. Eu sempre planejei as coisas pensando na realidade, sem especulações fantasiosas, sem pseudociências, sem sentimentalismo irracional; e, ainda assim, fiquei atazanado quando ela não me mandou um “feliz aniversário” esse ano. É por isso que tem algo errado, o fantasma de alguém que não significa nada para mim, me atormenta; pior, o fantasma de uma pessoa viva. Viva demais. A cabeça já doendo, os olhos ardendo de cansaço, decido que tenho que me livrar dessas memórias quentes e festivas, ilusões, memórias agitadas de alguém que não deveria estar roubando minha paz. Ela vai ter que sumir, da minha mente e da minha vida, de um jeito ou de outro sobrou para mim resolver isso. Às 02:57, no ápice da raiva, peguei as chaves do carro, joguei o casaco velho da universidade no ombro direito e saí fechando a porta com cuidado para não acordar ninguém em casa.




Ane Karoline

"A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece."
                                                                                                                                                         Veracidade





       "Não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios",
diz Isabella de Andrade em seu livro "Veracidade". Eu concordo e assino embaixo: vivemos querendo preenchê-los. O fazemos porque dói. Qualquer sinal de vazio, dói que é uma coisa. Mas existe, sim, coisa mais dolorida que os vazios que fazem morada nos buracos dentro de nós: a tentativa desesperada de preencher esses vazios; vãs tentativas, tentativas naufragadas de preenchimento. Impulso humano é esse de caminhar em busca da plenitude, mesmo que não se saiba que plenitude é essa, afinal. Caminha-se em busca do que nem se sabe, de um caminho certo, caminho verdadeiro, veracidade, voracidade. 

Eu, que sou voraz, quando leio um livro, engulo os livros, devoro as páginas. Com Veracidade, foi diferente: a escrita de Isabella me engoliu - cheia de doçura, mas o fez. Cada palavra colocada despretensiosamente com um cuidado todo pessoal, bordadas. Uma escrita contemporânea e atemporal, simples e complexa, que em frase curta resume um dramalhão da humanidade inteira. Jogos de repetições bem colocados, como quem sabe que na vida a gente repete passos todos os dias, mas nunca de forma igual. Escrita sensível que incentiva, empurra o ser à criação.  Isabella discute as belezas e mazelas do processo de criação do artista; o que ronda o criador e a criação.

É um livro muito simbólico. A palavra silêncio, a exemplo,  tanto aparece no texto, quanto se faz presente quando lida, silêncio que grita: silêncio é necessário para respirar. A autora consegue criar uma atmosfera de convite à reflexão, sem jamais deixar de ser leve, doce, suave. É um livro que vem de encontro, não em contraste.

Tenho lido bastante nos últimos anos, lido de tudo, lidado com tudo, e poucas coisas me tocaram como Veracidade. Eu, como ser sensível, como ser criador, como ser humano, me senti atravessada pela afabilidade das palavras que li; me lembrei de Clarice Lispector, me lembrei de mim, lembrei do meu primeiro amor e dos amores que ainda sinto, me lembrei da humanidade inteira - algumas vezes a gente sente tanto e vive tão pouco. Por fim, concluí com Isabella que inquietude é coisa de gente e que "nem todos os pontos, nem todas as vontades e nem todos os amores, precisam virar conexão".

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:

Onde comprar o livro: Mandar mensagem no email: isabelladeandrade@gmail.com 
ou na loja da Editora: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=343




Sobre a autora:
Autora do livro Veracidade (Patuá, 2015), Isabella de Andrade é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e graduanda em Artes Cênicas no mesmo local. Trabalha atualmente como repórter de cultura do jornal Correio Braziliense e já trabalhou como arte-educadora no CCBB. Acredita firmemente no poder transformador e enriquecedor da arte na vida e no desenvolvimento de cada indivíduo. Estuda as possibilidades do jornalismo literário, da literatura, da poesia, da dramaturgia e uma possível convivência harmônica entre eles. É autora e produtora do projeto de arte e cultura www.ociclorama.com. Brasiliense apaixonada pelo céu da capital e pelo modo como as palavras nos possibilitam viver várias vidas. 

Instagram: @isabella_deandrade e @ociclorama



Ane Karoline


Filhos de uma terra nova, recém descoberta, fértil, viva. Uma terra grande, com uma cor em cada canto - cheia de cantos e encantos. Terra essa que, de tão viva, é cobiçada. Tão viva que é maltratada. Somos nós, filhos dessa terra, Brasil. No entanto, filhos que pouco sabem sobre a história dessa terra: gente que carrega nas veias o sangue de quem nem imagina; gente que pisa no chão banhando de sangue de quem construiu o país. Sou eu também gente dessa gente: sem memória. Não foi minha carne que sentiu, não vi, não sei. Mas não fujo desse papel, pego minha carapuça e ela me serve direitinho: a história do meu país eu tenho que saber; nossa história não começa quando a gente nasce, começa muito antes.

Assim, caminhando com força atrás de pertencimento e entendimento a respeito do passado e do atual cenário político/econômico do Brasil - e do mundo- foi que tive a sorte de encontrar autores que me ajudaram, seguem ajudando. Com muito carinho, separei 5 dos melhores romances sobre ditadura e política que li até o momento. São livros que mostram um dos papeis essenciais da literatura: gritar os fatos, denunciar. São livros carregados de sensibilidade e verdade. 

    1. As meninas - Lygia Fagundes Telles
Um dos livros mais bem escritos que já tive a sorte de conhecer, Telles é uma autora muito sensível e cuidadosa com as palavras. É um romance sobre três jovens amigas que vivem em um pensionato mas que, ao mesmo tempo, vai muito além disso: engloba política, moral, questões filósoficas humanas e muita sensibilidade. Além disso, é um livro que se passa em cenário brasileiro. 
 
    2. K. Relato de uma busca - Bernardo Kucinski 
Literalmente: o relato de uma busca. Um irmão que conta a história de um pai a procura da filha - desaparecida política no período da ditadura no Brasil. Ana Rosa Kucinski era professora do departamento de química da USP, reconhecida como vítima da ditadura pela recente comissão nacional da verdade. É uma história dentro da história do Brasil contada de forma muito bonita. 

    3. Sombras de reis barburdos - José J. Veiga
Dentre as diversas formas existentes de contar uma história, Veiga escolheu uma distopia: usa todas as metáforas possíveis para contar o que aconteceu e acontece diante dos nossos olhos diariamente. O livro é narrado em primeira pessoa e é um livro de memórias do personagem Lucas - escrito a pedido de sua mãe. 

   4. Brasil nunca mais - Paulo Evaristo Arns
Um relatório completo, resultado do esforço de mais de 30 brasileiros que se dedicaram durante quase seis anos a rever a história do período ditatorial no país, reescrevendo-a a partir das denúncias feitas em juízo por opositores do regime de 64, bem como o livro publicado pela Editora Vozes, tiveram papel fundamental na identificação e denúncia dos torturadores do regime militar e desvelaram as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil.

    5. Ainda estou aqui - Marcelo Rubens Paiva
Mais um lar em que falta alguém, dessa vez é pai: Rubens Paiva, deputado perseguido e assassinado pela ditadura militar brasileira. Quem conta a história é o filho, Marcelo Rubens Paiva, que faz questão de relatar as lutas passadas pela família e, sobretudo, o papel primordial da mãe - agora com alzhaimer. Apesar de ser primordialmente uma biografia, o relato de algo que realmente aconteceu, o romance não é de forma alguma enfadonho; é sensível e muito esclarecedor. 

E então, vamos ler? 

Com amor, 
Ane Karoline





imagem: pinterest


Ontem era meio de semana, meio de mais uma semana que fica no meio de um mês que fica dentro de um ano desses que são computados na vida da gente. Mas, sim, ontem era meio de semana e aparentava sábado, uma dessas aparências que cegam: a gente tem que ficar se lembrando que uma coisa não é outra coisa, que é para não ser enganado. O fato é que ontem aparentava sábado porque, em primeiro lugar, fui ter com Luiza uma daquelas tardes tranquilas que quem tem o privilégio de ter amigos pode ter; em segundo lugar, me pareceu mais sábado porque era dia de faxina na casa de Luiza e, nem sei desde quando, tenho em meu imaginário que sábado é dia de faxina, me acostumei com essa ideia. A gente se acostuma com cada besteira.

Logo que avistei Luiza vi que vinha toda diferente me receber: o cabelo estava solto, como quem, finalmente, tivesse entendido a beleza que existe nos cachos. Além disso, pasmei ao vê-la usando o vestido que vestira em seu noivado - há oito anos atrás. Estranhei porque aquele vestido lhe era caríssimo por ser uma lembrança importante do noivado com o outro lá e, agora, ela o estava vestindo para limpar a casa? A gente se arruma como pode, daí já vi que Luiza estava era se arrumando.

Eu tinha ranço do tal vestido, mas ontem gostei dele: parecia que deixava Luiza florida. No meio da arrumação, ela era toda sorrisos e nostalgia. Eu a ajudando a separar as coisas que queria guardar e as que jogaria fora ou doaria e, ao mesmo tempo, me divertindo com as lembranças que cada objeto trazia, cada caso que ela me contava ou os que eu mesma me lembrava, de longa data que era nossa amizade. O tempo todo os estranhamentos daquela situação me consumiam, não pelo desapego -que é coisa boa - mas por ser Luiza a desapegada. Contando aqui, para você que não conhece a Luiza, não parece importante, né? Mas é. Veja bem, Luiza é o tipo de gente que guarda o ingresso todas as vezes que vai ao cinema, e cola numa agendinha. Ela guarda papeis de bala que ganhou de pessoas especiais, guarda todas as fotos, cartas e bilhetes, guarda um monte de coisas que ninguém liga, se importa com tudo. Tudo amontoado, café cheirando e a gente conversando conversas desimportantes, que a gente só conversa com gente que é importante para a gente. Tanta coisa que, no meio de tudo, Luiza acabou foi derramando um pouco de café no tal vestido de noivado, uma florzinha que era rosa ficou toda amarronzada - o vestido veranil de Luiza, virou outono. Me alarmei por lembrar de toda a frescura dela com aquele vestido, mas ela fez que nem ligou: faz mal não, esse vestido não se estende em meu armário mais não, chegou ao fim.  Um vestido novo daqueles, pensei. Fiquei remoendo esse negócio mesquinha de vestido até que larguei esse pensamento e, por querer concluir alguma coisa, concluí que Luiza havia mudado. A gente muda, oras. Toda a gente muda; muda até de casa, não vai mudar de gosto? 

Tudo empacotado para doar ou jogar fora, eu já achando que Luiza tinha virado uma alma superior que se desapega de bens materiais, até que ela me aparece com um palito de pirulito todo imundo e todo amassado. Veio, com os olhos marejados, dizendo que era criancinha e morava na terrinha e o avô havia comprado o pirulito, que ela tanto queria, com umas moedas da passagem - ele havia voltado para casa andando aquele dia. Não questionei nada mas, certamente, meu rosto gritava a confusão que se plantava em minha mente ao vê-la guardar quinquilharias e jogar outras coisas fora. Ela logo viu, sorriu e me disse: não fique besta não, tudo depende do valor que a gente dá. Se uma coisa já nos perdeu o valor, para que ficar insistindo em encaixá-la em nossa vida?

Concordei e entendi: é por isso que a gente se sente tão deslocado em algumas relações, a gente perde o valor para as pessoas mas elas ficam nos segurando ali, sem cuidar. A diferença aqui, entre gente e o vestido de Luiza, é que os objetos não podem escolher entre ir e ficar, não podem decidir a hora de partir. A gente pode. 

Ane Karoline

imagem: pinterest


É inesgotável o assunto do amor- ao contrário do amor sentido: que acaba. Antes de acabar, a gente sente aquele quentinho  no coração, sente aperto, agonia e gratidão, e mesmo quando acaba, o assunto fica. É livro, filme, peça e canção, é inesgotável. A sensação que dá é que sempre existe mais alguma coisa para falar, para expor, para compartilhar, para descobrir sobre esse sentimento tão simples e tão misterioso. Todo mundo tem uma opinião: o amor é assim, o amor é assado. Eu mesma, vez ou outra, me arrisco a falar do amor - quem não? - e seja ele fraternal, maternal ou apaixonado, ainda tem muito a ser dito. Sendo assim, resolvi separar 5 dos meus livros favoritos que, de diferentes e inusitadas formas, trazem o amor à tona. 

1- Razão e Sensibilidade - Jane Austen
   Ah, mas já vou começar com um clássico? Vou! Preconceitos de lado, vamos arregaçar as manguinhas para ler esse livro maravilhoso. Quero deixar bem claro que, apesar de haver a presença de relacionamentos amorosos/afetivos/apaixonados no livro, o amor que mais me impressionou foi o fraternal e familiar, sobretudo entre as duas irmãs mais velhas. É um livro surpreendente e cheio de reviravoltas. Carrega humor, drama e muitas aventuras.

2- Queria ver você feliz - Adriana Falcão
  E eu lá deixo de contemplar a literatura nacional e contemporânea? Jamais! Esse livro é sensacional e, o melhor: é a narrativa de uma história real! O livro é de leitura fácil, leve e muito bom, também, para quem não tem o hábito da leitura. O próprio amor é colocado como personagem e o livro é fascinante, escrito com muito capricho e carinho. 

3- Passarinho - Crystal Chan
    Um livro do qual que nunca tinha ouvido falar, nunca vi  nenhuma recomendação e nem resenha, comprei de promoção porque achei o nome interessante. Me surpreendi: livro maravilhoso. A capacidade de narrativa da autora é sensacional e põe em cheque muitas convenções sociais e tabus. A narrativa, contada pela personagem principal, traz um ponto de vista simples e quase ingênuo sobre o amor. Livro lindo.

4- Orgulho e preconceito - Jane Austen
    Ok, não é história focada em amor - como o título sugere. No entanto, o comportamento da personagem Elisabeth é sempre carregado de amor: com a irmã, com a família e consigo mesma. É, literalmente, um clássico e, com toda certeza, uma das maiores referências ao Romance da Literatura Internacional.

5- Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector 
   Sempre consigo encaixar Clarice porque ela consegue encaixar tudo em uma única linha. Esse livro é uma de suas obras mais conhecidas e coloca em cheque o amor, dentro da crise existencial humana, através da personagem Lóri em seu relacionamento Ulisses, com Deus e consigo mesma. 

Não deixem de ler! Aguardo os comentários. 

com amor, 
Ane Karoline 

imagem: we heart it

Ontem foi domingo e ninguém me ligou. Eu só percebi isso hoje quando, por sinal, alguém me ligou. Foi o maior susto porque quase ninguém me liga e eu, também, quase não ligo para ninguém - me importo com um monte de gente, mas não ligo para elas. Por isso, hoje quando o telefone tocou, me espantei. Assombro gostoso é esse de quando a gente é tomado no susto porque não estava esperando nada e nem ninguém. Não que eu seja desesperançosa, pelo contrário, eu espero por um monte de coisas: ganhar na loteria, a descoberta da cura do câncer e que minha vizinha responda ao meu bom dia. Mas não espero por ninguém, não estou esperando por ninguém. Não espero que ninguém apareça, que ninguém fique e, muito menos, que ninguém volte. E não é por falta de gente, tem muita gente que vale a pena. Inclusive, eu amo muita gente vividamente: sem dúvidas, sem poréns, sem julgamentos e sem fingimento. Mas não preciso ligar para essas pessoas para amá-las. Ontem, no domingo, não liguei para ninguém e continuo amando um monte de gente. 

 O que acontece comigo é eu sou livre. Não alimento e nem crio relações baseadas em dependência -física ou psicológica. Eu digo isso sempre que conheço alguém: eu sou um espírito livre. As pessoas desacreditam disso, até perceberem que eu não atendi ao telefone por estar muito entretida com um, céu, um filhote de cachorro ou uma canção. A ausência da minha ligação não é desleixo, é harmonia: imagina se te ligo e te roubo da primeira festa de aniversário de sua prima caçula? Não ligo não. Inclusive, antes de ontem era sábado e eu só fiz uma ligação, para a pizzaria. Sábado eu não falei com nenhum dos meus amigos e até hoje não sei o que estavam fazendo mas lembrei deles: minha amiga, que gosta de pizza de banana, me ensinou a comer pizza doce- e foi uma dessas que pedi, quando liguei para a pizzaria. Isso não tem preço, digo, essa oportunidade de estar ligado a alguém sem estar preso. Estou ligada à minha amiga fã de pizza de banana, sempre vou me lembrar dela quando vir uma pizza doce, mas posso aproveitar uma pizza doce sem estar fisicamente com ela. Esse é o meu fascínio com a liberdade: nos abre portas para conhecermos o mundo.

Por ser livre é que tudo me cativa. De alguma forma, tudo que vejo, sinto, ouço, leio, me constrói um pouquinho mais, mas sem me amarrar. É por não estar amarrada por certezas, que me permito aprender mais. É por não estar presa a ninguém, que me permito ver as pessoas, além de olhá-las. É por não estar presa a uma personagem, que me é possível reinventar quem eu sou. Funciona de um jeito tão natural que me seria impossível de explicar com fidelidade, mas é mais ou menos assim: eu achei que eu não gostava de sushi, não entendia a lógica de comer um peixe cru, mas um alguém muito gentil me levou para comer sushi e, apesar de ser desconhecido, eu provei. Agora eu gosto de sushi. O desprendimento da minha alma me abre portas, oportunidades e a mente. 

Foi por isso que mais um domingo se passou sem que eu percebesse que ninguém havia me ligado: estou ligada a um monte de gente mas ontem não as vi e nem falei com elas, porque eu estava conversando com outras pessoas e provando caldo de abóbora pela primeira vez. Também não esperei que ninguém me ligasse porque certeza é uma cela da qual estou liberta. Jamais quero ter a certeza que alguém vai me ligar - imagina se alguém me liga por obrigação? Em nome de tudo que é mais sagrado: não quero. Eu sei que é um choque, eu mesma me assustei quando percebi que não sou grudada com nada, mas já aceitei a autonomia do meu ser e, ainda, quero mais. Quero ser sempre mais livre do que fui no minuto anteirior. Quero ser sempre solta, leve, e receber ligações de alguém que me liga porque, realmente, anseia em falar comigo, não para mostrar isso. Quero uma soltura de uma forma tão singular que chego a pensar que liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome.


Ane Karoline, 
(Quarto texto do desafio "15 dias escrevendo sobre")



A minha primeira vez foi há um tempo atrás. Vivi uns bons e duradouros anos antes de perder a ignorância. Inicialmente, eu não entendi o que estava acontecendo. Eu, que sempre estive sob um estado de tranquilidade e estabilidade, me assustei, me abalei. Quando aconteceu, logo percebi: nada é eterno. Não porque as coisas acabam, mas porque elas se transformam. 

É a minha memória mais antiga: eu tinha três anos de idade e alguém me disse que, em breve, eu teria um irmãozinho ou irmãzinha. De início, eu não entendi o real significado, além de que teríamos mais uma pessoa em casa. Foi assim que minha estabilidade foi se esvaindo: minha mãe começou a dar mais atenção ao tal bebê que viria. Essa foi minha primeira vez, a primeira vez em que perdi alguém, ou achei que tivesse perdido.

As vezes que se seguiram foram, definitivamente, piores, sucessivamente piores, progressivamente piores. A saga continuou com a primeira amiguinha da escola, que logo achou alguém com canetinhas e adesivos mais interessantes que os meus; em seguida, minha prima favorita mudou de cidade; mais tarde, minha amiga de infância desacreditou dos meus sonhos; a professora preferida de inglês perdeu a voz e parou de lecionar justamente quando meu irmão mudou para outro estado. Em seguida, perdi o meu primeiro amor, que não era amor... E a lista poderia virar um livro: as pessoas que eu, pobrezinha, perdi na vida. Mas não virou por uma simples razão: chegou o dia em que eu entendi.

O entendimento não foi um insight, não foi mágica, não foi cursinho e nem vídeo aula, foi a experiência. Eu, adolescente que era, dramática que ainda sou, vi meu avô falecer e percebi que eu não iria vê-lo nunca mais. Eu, com esses olhos míopes, meu metro e meio, e minha tendência ultra romântica, não posso mais vê-lo,  e nem tocá-lo. Isso é, obviamente, uma perda. Eu perdi a presença física dele, perdi o cheiro dele e a mão enrugada dele, apertando a minha. Mas não o perdi. Não o perdi, primeiramente, porque ele - e todas as pessoas que, de alguma forma partiram - ainda existe em mim pela forma como me transformou. A minha professora preferida de inglês, por exemplo, eu não a vejo há 10 anos, mas ela existe, para mim, em cada palavra em inglês que leio. As pessoas, e as relações, tomam formas diferentes de existir para nós, a medida que o tempo passa. A primeira vez que perdi alguém, inclusive, acabou se transformando no dia em que ganhei outro alguém.   

Dessas transformações que a vida gera, eu ganhei uma habilidade de não perder mais ninguém. Somando os distanciados: vô, prima, amiga, amor e mãe, acabei não perdendo nada. O que aconteceu, pela primeira vez, há anos atrás, não aconteceu mais. Não perco mais ninguém não só pelo fato de mantê-los comigo em formas e níveis inimagináveis de quem eu sou, mas pela razão mais simples de todas: não tem como perder o que não se tem, ninguém pertence a ninguém.

Ane Karoline
(Terceiro texto do desafio "15 dias escrevendo sobre:")

Imagem: weheartit.com


Historinhas a gente tem aos montes - contos, estórias e história-  de vida nossa e das vidas alheias. Todas as vidas merecem ser contadas, e agora é hora de Isabel. Isabel tinha uma coisa, uma coisa diferente, e muita gente a julgava tola. Mas a verdade é que ela sempre fora uma acreditadora: sempre acreditou na força do destino, era uma caçadora de sentidos. Parece papo místico, mas é praticidade. Isabel acreditava que tudo acontece por uma razão, tudo tem um motivo que, mais cedo ou mais tarde, vai aparecer e vai gritar para nós: oi, eu sou a razão pela qual você passou tal coisa. 

Reclamava pouco, a Isabel. Se tropeçasse, era sinal para trocar os sapatos; se a comida fizesse mal, era para que ela se alimentasse melhor; se perdesse o ônibus, era para evitar acidente; se tivesse um tumor no cérebro, era para valorizar a vida. Até dos relacionamentos acabados, Isabel sempre levava algo bom, quando questionada, arrumava exemplo até não caber mais: "Quando Lucas me traiu, aprendi que devo me amar em primeiro lugar."; "Quando Amanda me abandonou, aprendi que podemos fazer novos amigos." e quando os exemplos acabavam, ou não convenciam, ela acrescentava: "Todo mundo passa pela nossa vida por uma razão."

Seguiu assim, acreditando, até conhecer Miguel. E, aí, acreditou mais. Miguel: todo inteligente, todo misterioso, todo meias palavras, todo, todo. Miguel: mesma turma de Introdução à Linguística de Isabel. Miguel e Isabel: seis letras cada um. Seis vezes três (pois se conheceram no dia três de fevereiro) é dezoito: a mesma idade tinham. Para Isabel, não tinha como negar, o destino estava ali, gritando, berrando e explicando que as relações anteriores fracassaram somente para que ela encontrasse Marcos. 

Outra coisa coisa que Isabel tinha era uma mania de ser persistente. E, com Miguel, foi. Persistiu por longos três anos, procurando sentido e dizendo a si mesma: temos uma conexão, temos uma conexão, temos uma conexão. Até que, enfim, Isabel se cansou. Quando foi embora, Miguel não hesitou: "Não temos conexão, tínhamos afeto e afeto acaba".Acabou-se Isabel.

De tanto procurar, cair e levantar, Isabel resolveu aceitar que de todas as relações anteriores havia levado alguma coisa, aprendido alguma coisa, sempre restava o amor -  da relação com Miguel, só restara a dor. Aí, quis que ele não existisse. Fechava e abria os olhos, esperando que ele fosse apagado da história da vida dela. Não que quisesse que ele morresse, não, queria é nunca tê-lo conhecido. 

A verdade é que a dor maior foi perceber que estava errada, que não havia razão nenhuma, que Miguel nunca lhe trouxera bem nenhum. Deixou-a aos pedaços, tentando recolher-se e encontrar-se nas palavras; tentando se organizar nas páginas e páginas que escrevia para ele. Páginas que ele mesmo fazia questão de jogar fora. A Isabel toda cheia dos clichês, se doía toda por perceber que havia desperdiçado sua poesia com um Miguel tão indiferente, tão insosso. O Miguel era um poço vazio, oco, um vão, um abismo, onde a Isabel tentou plantar poesia. E enquanto estava entretida com Miguel, não faltava gente em quem investir a poesia de Isabel. Tinha até gente que pedia: "Me escreve, Isabel". E ela nada, só tinha olhos para o Miguel.

Depois que Miguel se foi, a magia foi parcialmente destruída. Ele deixou para a Isabel a pior compreensão: nem tudo na vida tem uma razão. Hoje Isabel sente a vida como uma eventualidade, e se dói, porque é dolorido demais se sentir solta ao acaso.

Calha que o acaso tem leis imprevisíveis e Isabel, talvez, ainda não tenha conseguido é compreender esse erro. Foi, sim, um erro. Miguel foi o erro da vida de Isabel, o erro trágico de Isabel. Todo herói precisa de erro trágico, Miguel foi o erro cometido para que Isabel se tornasse heroína - e o mérito é todo dela.

O texto acima foi escrito em resposta a um e-mail de um/a leitor/a. Quer contar algo? Pedir um conselho? Conversar? Mande seu e-mail para: papocomjulieta@gmail.com

Forte abraço! <3