imagem: pinterest.com

Em 2019, eu havia feito um desafio literário com 40 livros (tendo, também, o objetivo de ler mais 10 que estivessem fora do desafio. Entretanto, como já comentei nas postagens anteriores a essa, não consegui cumprir todo o desafio, mas, ainda que eu não o tenha cumprido, o desafio me motivou bastante, assim, farei novamente. Por isso, em 2020, conhecendo melhor minha nova vida de teacher, decidi fazer um desafio menos audacioso: o objetivo é ler 35 livros no total ( sendo, aproximadamente, 3 livros por mês)

O desafio não inclui títulos, inclui apenas tipos/gêneros de literários os quais o leitor deve encaixar em suas leituras. Não há necessidade de cumpri-lo em ordem e, ainda, quem quiser ler só alguns também está convidado. A medida em que eu for lendo, vou postar no instagram e, claro, vou atualizando essa lista aquiPara motivar ainda mais os leitores, tratarei sempre de divulgar o livro que estarei lendo no momento para que, quem quiser, possa me acompanhar e possamos discutir a respeito.
Vamos ver o desafio, então?

1. Um livro escrito por uma mulher
2. Um livro publicado em 2020
3. Um livro publicado em 2019
4. Um livro indicado por um amigo
5. Um livro em Espanhol
6. Um livro em Inglês
7. Um livro considerado um clássico
8. Um livro de poemas
9. Uma HQ
10. Um livro que comecei a ler e não terminei
11. Um livro escrito por um Brasileiro
12. Um livro estrangeiro
13. Um livro escrito por um autor negro
14. Um livro escrito por uma autora negra
15. Um livro escrito por um autor periférico
16. Um livro sobre sociedade
17. Um livro sobre política
18. Um livro escolhido pela capa
19. Um livro que já foi censurado/banido
20. Um livro escrito no século passado
21. Um livro escrito por um autor asiático
22. Um livro que eu sempre quis ler
23. Um livro escrito por um autor com menos de 30 anos
24. Um livro de fantasia
25. Um livro de contos
26. O primeiro livro de um autor
27. Um livro escrito na década de 60
28. Um livro sobre guerra
29. Um livro infantil
30. Um livro com menos de 150 páginas
31. Um livro sobre escrita
32. Um livro sobre racismo
33. Um livro sobre feminismo
34. Uma distopia
35. Um livro de um/a autor/a que eu goste muito

Vamos participar?

com amor, 
Ane Karoline


Imagem: Ane Karoline

Se eu fechar os olhos e me concentrar bastante, consigo ver o meu eu de um ano atrás: obviamente, muito mais imaturo e menos saudável que o meu eu atual, mas o mais interessante - que é o que nos cabe aqui - é lembrar com fiquei estarrecida ao terminar o ano tendo lido apenas vinte e cinco livros em 2018. Bom, se existir uma dimensão atemporal na qual todos os nossos eus se encontrem, espero que meu eu de 2018 não fique ainda mais estarrecido: esse ano li apenas quinze livros. Em 2019, li dez livros a menos que em 2018, mas tudo bem. 

Tudo está bem porque vivi um avalanche. Contive incêndios, chorei petróleo e evitei desabamentos. Aprendi e ensinei tanto, ao ponto de passar noites sem dormir e cochilar no meio de uma reunião de trabalho. Dois mil e dezenove foi meu ano da emancipação, foi meu ano nesse território novo que é a vida adulta, foi meu ano de engolir o choro para acalentar quem estava chorando, foi meu ano de lagarta - a parte primordial da metamorfose. Ainda assim, e talvez exatamente por isso, descobri que a literatura vive em mim, ou melhor, que não existo sendo quem sou sem a literatura. Eu não deixei de ler. Li ao menos uma página por dia - ainda que o cansaço me fizesse dormir logo em seguida. Além disso, e o que considero mais importante, falei sobre literatura todos os dias - o que me rendeu ótimas conversas. Saber que a literatura está presente em cada célula minha me torna mais eu. 

Assim, posso dizer que, apesar de poucos, li excelentes livros esse ano. Há alguns anos eu não lia livros com tamanho potencial transformador. Sou muito grata a todos esses autores, e suas respectivas palavras, por terem me encontrado. 

Vale lembrar que nem todos os livros aqui listados foram lançados em 2019, mas eu os li em 2019. 

Imagem: Ane Karoline
Sem hesitar, o melhor livro que li em 2019. Eu o conheci, primeiramente, em uma aula de literatura no ano de 2017 através de um breve comentário da professora. O subtítulo do livro jamais me saiu da cabeça: "Diário de uma favelada". Pois bem, em 2019 encontrei o livro na escola onde leciono e pude, finalmente, lê-lo. O devorei em dois dias e fiquei outros tantos pensativa. Tenho lido autores incríveis, tenho lido a tal alta literatura, tenho lido cânones e jamais li as vísceras de alguém expostas em páginas de papel. Está tudo lá, todas elas, as vísceras de Carolina impressas em todas aquelas páginas - que originalmente foram escritas com muito suor e sangue. A destreza com que escreve a autora me intrigou, em primeiro lugar, acerca do conceito de talento (o qual sempre questionei e sempre julguei estar ligado à técnica, mas que técnica teria Carolina?) e, em segundo lugar, sobre o sangue de tantos brasileiros derramado, em vão, no chão do Brasil. O livro dói, sobretudo para mim - que também venho da favela. O livro é grande e engradece também. Se eu tiver que indicar a leitura universal de um livro aos brasileiros, o livro é esse. Desculpe, Machado. 

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Comecei a ler Virginia Woolf em 2018 e caminho, desde então, sabendo que tem uma mulher a mais segurando em minha mão. Ganhei esse livro de aniversário e foi um baita presente acetado, se eu não tivesse lido o "Quarto de despejo" esse teria sido o melhor livro do ano. Woolf faz uma análise comparativa histórica sobre atuação das mulheres na sociedade, sobretudo, no que tange aos impedimentos para uma atuação tal qual desejada pelas próprias mulheres. De sua forma analítica, a autora discute como vários acontecimentos históricos poderiam ter acontecido de forma mais acertada - ou menos trágica - se as mulheres tivessem podido atuar mais ativamente, como desejavam. É um livro curto, direto e perspicaz, vale cada linha da leitura. Indico, inclusive, para quem quer conhecer mais acerca de equidade e feminismo

Sim, mais uma mulher de escrita incrível. Sim, mais um livro que me deixou estupefata. Para não me estender aqui, vou utilizar a resenha que fiz ontem (professora em paz com seu recesso)  para  deixar claro o quão maravilhoso é esse livro. Leia a resenha AQUI. 

Imagem: Ane Karoline

Novamente um livro escrito por autora mulher - as mulheres que me leem saberão a importância dessa enfase que aqui dou. Pois bem, esse foi um dos primeiros livros que li esse ano - se não me engano, foi o segundo. Na época em que o li (gosto de contextualizar), estava me recuperando de uma intoxicação medicamentosa terrível e estava me sentindo extremamente injustiçada. Abri o livro e a autora começa a narrar entrevistas feitas com adultos que foram crianças sobreviventes da segunda guerra mundial, dois tapas, um de cada lado da minha face: desisti imediatamente da minha sensação de ter sido injustiçada. Se espremêssemos esse livro, escorreriam lágrimas que são dolorosas em si mesmas - unidas às minhas. Ainda que já soubesse, me vi chocada com a crueldade ocorrida durante a guerra, por isso, acabei também fazendo uma resenha sobre os livros de guerra (sobre as duas grandes guerras) que li - na qual discorro com mais cuidado sobre esse livro. Leia a resenha AQUI.  

Os três próximos livros, incluindo este, ampliaram minha visão acerca de negritude e racismo. Esse foi o primeiro livro de Baldwin que li e que também me dilacerou e derreteu na mesma proporção. A escrita de Baldwin é fluída, é cuidadosa, é dotada de uma técnica despretensiosa e extremamente refinada. A angústia de Tish (a protagonista) ao longo de todo o romance em busca de libertar seu amado Fonny da prisão - a qual ela julga ser injusta. É doloroso e, ao mesmo tempo, surpreendente notar as cenas descritas pelo autor se formando e ilustrando o racismo terrivelmente institucionalizado - dificultando cada passo das personagens. O que me move ainda mais é perceber que o livro foi publicado em 1974 e que parece tão atual. Leitura obrigatória. A indiferença cega.

Imagem: Ane Karoline


Esse foi o segundo livro que li de Balwin e devo confessar: o meu exemplar está caindo aos pedaços. O fato é que são 530 páginas intensas e vivas demais, levei o livro para absolutamente todos os lugares que fui. Enquanto meus alunos realizavam uma tarefa, eu li; enquanto esperava no banco, eu li; enquanto esperava no hospital, eu li; enquanto estava no engarrafamento, quis largar o volante para ler. Mais uma vez, Baldwin me cativou e me ensinou muito. 

Antes que eu tivesse ouvido falar desse livro, uma pessoa me contatou no instagram perguntando se eu tinha o livro para emprestar. Eu não tinha, mas tive que ter. Tê-lo lido antes de ler Baldwin me fez entender um pouco do que eu precisava para ler as entrelinhas de Baldwin, me preparou. Eu gostaria de recomendar esse livro, sobretudo, aqueles que jamais viveram em guetos/favelas/periferias, aqueles que não sabem como é que se faz para sobreviver ao ódio, a pão e água. Logo no começo da narrativa, há um diálogo bem explicativo sobre o que estou tentando dizer: "The hate you give little infants fucks everybody" ("O ódio que você passa para as crianças acaba com todo mundo"). Quem só recebe ódio, não sabe dar amor. Quem só recebe ódio, não pode ser cobrado por amor. Esse é um livro sobre medo, sobre autoconhecimento, sobre racismo, e, sobretudo, sobre a falta de amor. 

Por último, mas não menos importante está a única HQ que li em 2019. É também sobre a segunda guerra - sobretudo, sobre o holocausto - e é, certamente, uma das narrativas melhor estruturadas que já vi em HQs. Não me estenderei porque já fiz resenha sobre essa belezinha. Leia a resenha AQUI

com muito amor - e desejando um esplêndido 2020, 
Ane Karoline

Imagem: Ane Karoline


Em 2018, a livraria Saraiva realizou uma promoção, 50% de desconto em livros literários, em detrimento do Dia Internacional da Mulher. Eu comprei alguns livros e, dentre eles, um livro pelo qual eu já tinha interesse há um tempo, mas achava muito caro; Mulheres que correm com os Lobos, da Clarissa Pinkola.  A primeira pessoa interessada pelo livro foi a minha irmã e, por isso, acabei adiando a leitura. Sempre que pegava o livro, desistia de lê-lo. Até que aconteceu, dia 05 de outubro deste ano eu decidi lê-lo. Por que, afinal, julguei importante dizer tudo isso antes de começar a falar do livro propriamente? Porque a minha relação com a literatura é cíclica e sazonal - depende de como estou me sentindo, a fase pela qual estou passando... Enfim, o livro da Clarissa é exatamente sobre isso: ciclos, vida, morte e autoconhecimento.

Depois da minha entrada na vida adulta e, sobretudo, depois do ingresso e conclusão da faculdade, minha opinião acerca de produções literárias está bem mais aguçada, assim como meus gostos mais definidos. Assim, digo com tranquilidade que eu jamais havia lido um livro tão denso. Eu jamais havia lido algo que me forçasse a pausa, que me fizesse ter que fechar o livro para pensar sobre ele antes de ter condições de continuar - algumas vezes, por minutos; algumas vezes, por dias. Eu jamais havia lido qualquer coisa parecida. 

Pois bem, afinal, que livro é esse, então? É mais difícil explicar que sentir, mas ouso tentar.  Mulheres que correm com os lobos, por ter sido escrito por uma psicanalista junguiana, tem um alto teor técnico. Pinkola traz análises profundas a repeito da psiqué feminina, perpassando conceitos chaves da psicanálise. Em suas quase 600 páginas, a autora discorre acerca da vida prática da mulher moderna e como os estilos de vida do século XXI têm, consequentemente, distanciado as mulheres de sua potência feminina natural - que, aqui, nada tem a ver com o que é atualmente visto como feminilidade de gênero culturalmente imposta.  A potência feminina natural, nomeada de Mulher Selvagem, descrita por Pinkola é, sobretudo, relacionada ao autoconhecimento, à conexão com o eu interno - anterior a qualquer conexão e/ou interferência externa. 
Trecho da obra. Imagem: Ane Karoline

A mérito de exemplificação e didática, a autora faz uso de histórias/contos/ditos/lendas populares ao longo de todo livro, partindo sempre da prerrogativa de busca da conexão com o eu interior. Ela lista sinais (sejam comportamentais ou psicológicos) do que seria uma desconexão com o eu interior, com a intuição, com a mulher selvagem. Dentre tantos, um dos que mais me chamou atenção foi relacionado aos sonhos. Eu, que sempre tive pesadelos severos (a ponto de não conseguir dormir por mais de uma noite seguida) e nunca consegui encontrar um padrão e/ou solução para o problema, me vejo estampada em um capítulo inteiro do livro (capítulo 2): a mulher que tem pesadelos perturbadores. Me assustou e me tranquilizou na mesma proporção ler sobre esse fenômeno de uma perspectiva feminina e da psicanálise - é doloroso finalmente aceitar que há algo me incomodando em minha vida e que preciso resolver e, ao mesmo tempo, é reconfortante saber que não sou a única. 

Trecho da obra . Imagem: Ane Karoline

Pelo que posso dizer, o exemplo sobre os sonhos é apenas uma das muitas situações terapêuticas e reais encontradas no livro. A narrativa é um chamado ao despertar, é um chamado feminino à união - consigo mesma e com as outras mulheres; as mulheres que vieram antes, as que vivem agora e as que ainda virão. É um livro de leitura essencial a qualquer mulher adulta, sobretudo em uma sociedade, ainda, patriarcal e que, por anos, tem explorado, de forma midiática estrutural e econômica, a falácia  de que as mulheres são inimigas/rivais.
Trecho da obra. Imagem: Ane Karoline
A todas as mulheres que agora me leem - sobretudo àquelas que, durante esses dois meses, me perguntaram sobre a leitura, fizeram comentários, me chamaram em um canto, me contaram suas próprias histórias: eu sempre soube, mas agora estou certa, que, ao ler esse livro, nós sabemos exatamente sobre o que cada palavra diz. Cada história de cada mulher já existente existe em nós. Juntas, somos uma matilha imbatível. Isso serve para a humanidade inteira. 

com amor, 
Ane Karoline

imagem: Instagram

Sempre considerei a História uma ferramenta indispensável para a vivência humana plena, mas agora, mais do que nunca vejo como ela se faz necessária. Quanto mais se sabe sobre o que já aconteceu, mais progressivamente é possível caminhar. Entretanto, nem todo mundo gosta de estudar História, né? Por isso, resolvi discuti-la de uma forma diferente: através da literatura. 

Desta forma, como as guerras, em especial a segunda guerra mundial, me são de grande interesse no que tange a tentar compreender como se estabeleceram, decidi trazer a indicação de três livros que tratam de histórias reais de pessoas reais que estiveram na Segunda Gerra Mundial. Vamos conferir?

imagem: instagram

1. O diário de Anne Frank - Anne Frank
Lembro-me de estar cursando o quinto ano quando a professora de língua portuguesa nos entregou um texto confuso, repleto de onomatopeias, e disse que era um trecho do Diário de Anne Frank. De início, me interessei pelo livro porque todos os meus colegas brincavam dizendo que era o meu diário. Anos depois eu, finalmente, puder o livro. 

O livro é exatamente o que o título diz ser: o diário real de Annelies Marie Frank, ma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto (entenda melhor o Holocausto AQUI). O diário foi escrito de 12 de junho de 1942 até 1º de agosto de 1944, sem nenhuma intenção de ser publicado. Em 1944 o governo holandês esteve buscando testemunha oculares da guerra e, após não ter mais dúvidas de que a filha estava morta, o pai dela único sobrevivente da família, Otto Frank, deu o diário para o governo sem lê-lo. 

A estrutura do livro é a de diário, tudo foi mantido como Anne escreveu: datado. Anne relata a rotina de sua família e seus jovens anseios, ela destaca em especial as mudanças e opressões sofridas após a ascensão nazista ao poder. Para quem quer saber mais sobre a guerra a partir do olhar mais sensível de uma pessoa em especial, esse é o livro ideal. 

2. As últimas testemunhas: crianças na segunda guerra mundial - Svetlana Aleksiévitch
Assim que abri o pacote com esse livro e vi a capa, soube que ia gostar. Comecei a lê-lo em uma semana muito difícil em que eu estava extremamente doente e acabei tendo que colocá-lo de lado. Assim, terminei semana passada.

Por mais que eu tenha estudado sobre a guerra, sobre o Holocausto, sobre o nazismo, sobre regimes totalitários, a leitura desse livro foi um soco no estômago. Doeu, doeu, doeu cada página, cada linha, cada narrativa, cada pedacinho de mim. Entretanto, se eu soubesse previamente todas as lágrimas que me causaria, ainda assim leria, precisamos fazer algo acerca da crueldade humana, mesmo que a única coisa possível seja conhecê-la e torná-la pública.

O livro é composto de relatos de pessoas russas que eram crianças na época da guerra, cada relato contém o nome, a idade da pessoa na época da guerra e a profissão atual. Algumas pessoas eram de famílias judias, outras não, mas todas relatam em uníssono: viram e viveram coisas que não deveriam acontecer a nenhum ser humano. Elas relatam como suas famílias foram dizimadas, como elas sobreviveram comendo até mesmo barro e, sobretudo, como é doloroso ainda lembrar de tudo. É livro muito denso, mas necessário. O trabalho de Aleksiévitch, além de ter uma impecável estética literária, é um patrimônio histórico e jornalístico incontestável.

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3. Maus: A história de um sobrevivente - Art Spiegelman
Como alguma coisa pode ser, ao mesmo tempo, leve e pesada? Eu digo: um livro em quadrinhos sobre guerra. Esse livro, que foi indicação da minha amiga do blog Oi da Lari,  eu li exatamente no mesmo dia em que terminei o livro anteriormente mencionado.

O fato é que eu, após a infância (quando eu lia os gibis da turma da mônica), nunca fui muito de ler história em quadrinhos. Entretanto, todas as que li foram indicações de amigos e me agradaram bastante; não foi diferente com Maus. 

Art conta a história de seus pais, judeus, durante o holocausto de uma forma extremamente convidativa: ele mostra como seu pai o contou a história e, ainda, como seu pai tem uma personalidade difícil.  É muito interessante como Art conta toda a história sem idealizações: seu pai foi, sim, vítima do holocausto, mas não é retratado como herói por isso. Os quadrinho me ensinaram muito sobre a guerra e, sobretudo, sobre o holocausto.

com amor, 
Ane Karoline


imagem: Ane Karoline

Há alguns anos, quando iniciei minha graduação, ouvi falarem sobre Mia Couto. Entretanto, se por destino ou coincidência não sei, acabei me pondo a ler Mia Couto apenas ano passado quando, agora vejo, eu me fiz como gente o suficiente para compreender a magnitude de suas palavras. A escola dos livros aconteceu por acaso: recebi os livros da equipe da Companhia das Letras e me pus a lê-los. Com o que me deparei, não tenho palavras para descrever.

Nunca havia lido um romance histórico antes e, portanto, o gênero foi-me totalmente novo e revelador, retificando a minha ideia de uma literatura que vai muito além da estética, uma literatura com uma função histórica e um potencial social inigualáveis (vide também literatura política AQUI). Pois bem, vamos aos livros. 

A trilogia foi nomeada de As areias do imperador e é composta, em ordem cronológica, pelos livros: Mulheres de Cinza, Sombras da água e O bebedor de horizontes. Em linhas gerais, a trilogia acontece no sul de Moçambique, quando era governada pelo rei Moçambicano Ngungunyane — o último dos líderes do Estado de Gaza. Desta forma, Mia Couto traça a trajetória dos dias finais do reinado do Leão de Gaza, destronado pelos Portugueses. 

No primeiro livro, Mulheres de Cinza, a protagonista que guiará o leitor é apresentada: Imani, de etinia Vatxopi. Além da poética voz de Imani, o primeiro livro também é composto de cartas escritas pelo soldado Português Germano de Melo para Portugal. No primeiro momento, Imani apresenta sua aldeia, alguns de seus costumes familiares e o cenário Moçambicano. Em seguida, por ser a única falante de Português da região, a moça e a família ficam encarregados de receber Germano de Melo e encaminhá-lo para o quartel Português da aldeia. É importante ressaltar que a família de Imani se via divida entre receber bem o soldado português ou não. Vivendo em dias de guerra e vendo os seus sendo dizimados pelo exército do rei de Gaza, o pai e o irmão mais novo de Imani acabam por acolher bem Germano, na esperança de que Portugal cuide da província, derrote o rei de Gaza e os proteja. Entretanto, a cada carta do soldado, vai ficando claro para o leitor sua total incapacidade de lidar com Ngungunyane.

imagem: Ane Karoline


O segundo livro se inicia já de forma bem mais caótica: a guerra causou na família de Imani várias perdas, o estado de Gaza está em crise e Germano de Melo sofreu um grave acidente. Neste livro, as reflexões de Imani a respeito de sua vida, sua juventude, sua relação com Germano (a qual começou a tomar proporções românticas) e sua feminilidade. Imani, seu pai, Germano e sua amiga Bianca acabam sendo recebidos em uma igreja para que seja tratada a enfermidade de Germano. Boa parte acontece na ilha até que o conflito, de fato, é apresentado. Este livro tem papel fundamental na trilogia justamente por ser o que apresenta a queda do rei de Gaza.

No terceiro livro, Ngungunyane é levado para Lisboa e muito melhor se percebe as intenções de Portugal. Após a queda do rei, Imani, em sua maestria com as palavras, reflete que:

Não era apenas um imperador vencido que os portugueses exibiam. Era África inteira que ali desfilava, descalça, rendida e humilhada. Portugal precisava daquela encenação para desencorajar novas revoltas entre os africanos. Mas necessitava ainda mais de impressionar as potências europeias que competiam na repartição do continente. 

Nesse sentido, esse livro foi, para mim, o mais dilacerador. Mostra, ainda que em uma escala isolada, a monarquia Portuguesa explorou o continente africano, como despatriou os africanos e fez deles escravos. Imani, por exemplo, obrigada a aprender português na infância, é colocada em situação de traição para com seus conterrâneos, ficando em situação de conflito consigo mesma. 

Assim, a maior parte do terceiro livro acontece durante a viagem para Lisboa, mas muitas descobertas são feitas durante esse tempo de enclausuramento dos prisioneiros africanos. 

Minha opinião

Muito, e cada dia mais, tem me interessado saber a história do povo brasileiro e, por isso, tenho me perguntado muito sobre as raízes, sobre o suor e o sangue sobre os quais o país foi construído. Quando li, então, a trilogia, foi como dar um salto lá trás e para olhar uma brecha do que ocorreu no continente africano com a chegada dos colonizadores europeus, como o povo africano foi dizimado, desrespeitado e humilhado. A trilogia é uma aula de história daquelas bem difíceis de serem digeridas, só que escrita pelas mãos brilhantes de Mia Couto; uma aula de grande importância para que possamos dar um passo para trás para conseguir vislumbrar ao menos um pouco da riqueza do continente africano, para que possamos ver a riqueza dos seres humanos quando conectados à natureza, à energia de todos os outros (vivos e mortos), a si mesmos. É uma trilogia que traz uma chance desconstruir essa imagem pobre e torta do continente africano que temos hoje, a imagem que a personagem Bianca, branca e italiana, descreve como:

Noutros lugares (...) as crianças choram como quem aprende a rezar: esperam que as coisas melhorem. As crianças africanas não. Choram sem voz, choram para si mesmas, como se vivessem o seu último dia. As lágrimas imitam-lhe as barrigas: inchadas mas sem nada dentro. 

Nota: 10/10 

Com amor, 
Ane Karoline


Em geral, eu sempre tenho uma ideia do que eu pretendo ler no ano seguinte, entretanto, não tenho costume de fazer uma lista muito fechadinha para que eu não me frustre depois. Para o ano de 2018, como estive muito atarefada com o fim da graduação, acabei lendo o que convinha com meu tempo livre, mas para o ano de 2019, resolvi fazer diferente: criei meu próprio desafio literário. No total, pretendo ler 50 livros, mas decidi estabelecer apenas 40, para deixar uma margem livre para os livros que vierem. Por fim, uni tipos de leitura que acho extremamente necessárias (como leituras políticas) a leituras que me dão imenso prazer e das quais eu estava afastada (poemas) para, com muito carinho, criar um desafio. 

O desafio não inclui títulos, inclui apenas tipos/gêneros de literários os quais o leitor deve encaixar em suas leituras. Não há necessidade de cumpri-lo em ordem e, ainda, quem quiser ler só alguns também está convidado. Além disso, para alguns tipos eu já tenho possíveis livros os quais quero ler, os quais ficam como sugestões para vocês. Vamos ver o desafio, então?

1. Um livro histórico (“As últimas testemunhas”)
2. Um livro que eu gostaria de ter lido em 2018 (“The hate you give” )
3. Um lançamento de 2018 (“Becoming Michelle”)
4. Um lançamento de 2019
5. Um clássico brasileiro (“Grande Sertões: Veredas”)
6. Um clássico estrangeiro (“Persuasion”)
7. Um livro teen (“Depois dos 15”)
8. Um livro sobre sociedade (“Racismos”)
9. Um livro de suspense ("os mistérios ABC")
10. Um livro recomendado por alguém que você admira (“Quarto de despejo”)
11. Um livro de um autor negro  ("Terra Estranha - James Baldwin)
12. Um livro de autor asiático
13.Um livro escrito por uma mulher ("As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra?)
14. Um livro sobre feminismo (“Women, race and class”)
15. Um livro sobre educação (“No princípio era a educação”)
16. Um livro técnico (“Educação do homem integral”)
17. Um livro em outro idioma ("The happy prince" - Oscar Wilde)
18. Um livro ganhado de presente (“Dias de despedida”)
19. Um livro com a palavra “amor” no título (“Os números do amor”)
20. Um livro em espanhol (“La multitud errante”)
21. Um livro em quadrinhos (MAUS)
22. Um livro que sempre quis ler (“Ensaio sobre a cegueira”)
23. Um livro de um autor que nunca li ("Se a rua Baele falasse")
24. Um livro sobre política (“Eduardo Cunha: pseudônimo”)
25.  Um livro de poemas 
26. Um livro escrito por alguém com menos de 30 anos
27. Um livro escrito há mais de 10 anos ("Quarto de Despejo" - Carolina Maria de Jesus)
28. Um livro sobre ditadura
29. Um livro com um título de uma palavra
30. Um livro com uma cor no nome (“The color purple”)
31. Uma peça teatral
32. Um livro que já foi banido
33. Um livro de memórias
34. Um livro que eu consiga terminar em um dia (“A princesa salva a si mesma nesse livro”)
35.  Um livro de fantasia (“O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”)
36. O primeiro livro de um autor (“Uma coisa absolutamente fantástica”)
37. Um livro best-seller ("The happy prince and other stories")
38. Um livro de contos (“Contos – Lygia Fagundes Teles)
39. Um livro lançado antes de você nascer (“Mrs. Dollaway”)
40. Um livro escolhido pela capa





Ela está sempre lá. Quando chego do trabalho cansada, quando estou em um trânsito terrível, quando estou triste, quando estou feliz, quando preciso relaxar, quando quero ser produtiva. Ela me guia, me mostra os caminhos mais doces e sempre tem a frase que eu preciso ouvir. Ela me ajuda a dar conselhos e, quando eu quero muito ajudar alguém mas não sei o que dizer, basta correr e dizer "acho que sei um livro que pode te ajudar". A literatura. Ela tem me salvado desde que aprendi a ler e esse ano de 2018 não foi diferente: a literatura me ajudou a respirar.

Esse ano, em especial, foi muito diferente dos anteriores: por conta da conclusão da graduação, li apenas vinte e cinco livros. Entretanto, foi mais difícil escolher os meus dez preferidos já que, pelo tempo limitado, selecionei com muito cuidado os livros que leria. Assim, os que indico aqui são a nata preciosa que tive o prazer de encontrar esse ano e quero, com muito carinho, indicar para vocês que me leem. 

É importante lembrar que nem todos os livros aqui listados foram lançados em 2018, mas eu os li em 2018. De alguns deles teremos resenhas completas em 2019 e, por isso, farei apenas um breve resumo agora. 

1.Um teto todo seu - Virgínia Woolf
Foi minha estréia com a incrível Virgínia Woolf e fala justamente sobre o meu dilema: como uma mulher que ainda não é financeiramente independente pode escrever livremente e se manter? Fiz uma resenha dele em março AQUI.




2. I know why the cageg bird sings - Maya Angelou
Esse livro vai ganhar uma resenha especial sobre ele — a qual ainda não tive tempo de fazer, mas terei. Porém, já adianto que é um livro autobiográfico e extremamente sensível. Angelou escreveu muito poemas incríveis, mas foi o romance que dela que de fato me marcou. É um livro que consegue perpassar muitos temas difíceis de serem discutidos através da figura representativa da Maya. A leitura é indispensável. 

3. O Sol na cabeça - Geovani Martins
Como brasileira, posso dizer que esse foi um dos melhores livros que li na vida. É lançamento do ano da Companhia das Letras e escrito por um autor também lançamento. Fiz resenha dele em abril AQUI.


4. Os homens explicam tudo para mim - Rebeca Solnit
Eu comprei esse e-book acidentalmente, mas acabou sendo um encontro. Devorei o livro em dois dias para tentar engolir o nó — necessário — que trouxe à minha garganta. Solnit vai além do feminismo e traz outras discussões e reflexões extremamente necessárias acerca da vida em sociedade e, acima de tudo, sobre respeito. Tem uma mini resenha dele AQUI


5. Pedagogia da autonomia  - Paulo Freire
Em seis anos de licenciatura, não havia lido ainda Paulo Freire. Ao escrever meu trabalho final, senti a necessidade e, ainda que não tenha sido uma leitura obrigatória e nem tenha entrado, de fato, em em meu trabalho, Freire me libertou com seu ideal pedagógico. É uma reflexão libertária e essencial. 


6. Mulheres de cinzas -  Mia Couto
É o primeiro livro da trilogia "As areias do imperador" em que Mia Couto trata sobre a chegada de Portugal à Moçambique. Foi minha primeira leitura de um romance histórico e notei o poder que esse tipo de literatura tem: a força história unida à estética literária. Leitura essencial. Não vou me delongar pois em Janeiro teremos resenha da trilogia completa. 

7. Sombras da água - Mia Couto
É o segundo livro da trilogia "As areias do imperador" acima citada. 

8. O bebedor de horizontes - Mia Couto
É o terceiro e último livro da trilogia "As areias do imperador" acima citada. 

9. O que é lugar de fala? - Djamilla Ribeiro
Em 2018 tive ainda o prazer de participar de uma #MaratonaDeLeiturasFeministas e o primeiro livro lido foi justamente essa obra esclarecedora da Djamilla Ribeiro. Ainda que eu tenha estado em um estado de pesquisa constante nos últimos dois anos, esse livro me foi essencial por diversas razões mas, sobretudo, para entender mais sobre respeito. Até então, o conceito de lugar de fala me era muito problemático, mas ao ler o livro, percebi a simplicidade do assunto. É um livro curtinho e muito simples, obrigatório para quem quer entender mais sobre respeito e vida em sociedade.



10. O que é empoderamento? - Joice Berth
Ainda impulsionada pela maratona, o livro de Joice Berth foi o segundo a ser lido e também me esclareceu outro termo que me parecia extremamente abstrato — empoderamento. A autora dialoga com Paulo Freire ao pensar em um empoderamento coletivo social e não individualizado. Além disso, me ajudou a visualizar melhor como a mulher negra é posta na sociedade brasileira.

com muito amor — e desejando um lindo 2019, 

Ane Karoline

Título: A Estrada da Noite
Autor: Joe Hill
Editora: Arqueiro
Páginas: 320

Nota: 4/5

Judas (ou Jude) Coyne é guitarrista e líder de uma das maiores bandas de rock da história. Excêntrico e com bastante personalidade, ele gosta de coisas que a maioria das pessoas apresenta repulsa. Uma de suas manias mais diferentes é o hábito de colecionar objetos macabros, como um livro de uma bruxa da idade média, uma fita cassete com cenas de mortes reais, etc. Certo dia ele fica sabendo que alguém está leiloando um fantasma na internet. A pessoa promete entregar o paletó do morto para quem der o lance mais alto, e junto com a peça de roupa o comprador levaria também o espírito do falecido. Jude não pensa duas vezes e compra o fantasma para integrar a sua coleção macabra, no entanto ele acaba se surpreendendo quando o fantasma de fato aparece em sua casa e torna a sua vida um inferno.

O espírito em questão é o padrasto de uma de suas ex-namoradas, Anna, que acabou se suicidando depois que ele lhe deu um pé na bunda. Com o intuito de vingar a enteada, o morto passa a assombrar Jude de todas as formas possíveis. Ele tenta fugir, mas o fantasma parece estar sempre um passo a frente no objetivo de tirar a sua vida. No meio de todo esse terror, a atual namorada de Jude, Marybeth (que é chamada de Geórgia pelo roqueiro) acaba se envolvendo e também torna-se alvo do espírito vingador. A situação torna-se cada vez mais crítica, até que eles descobrem fatos do passado que revelam que a história que eles conhecem não é tão verdadeira assim e que os objetivos do fantasma podem ser bem mais sujos e maléficos do que aparenta.

Em seu livro de estreia, Joe Hill nos apresenta uma história convincente e bem amarrada, que se utiliza de elementos sobrenaturais para falar sobre sentimentos e escolhas humanas. Apesar do pano de fundo assustador e macabro, o centro do livro está na redenção humana e em como podemos escapar das maldades dos vivos, que muitas vezes são bem piores que os mortos.


Título: A Incendiária

Autor: Stephen King
Editora: Suma
Ano de publicação: 2018
Páginas: 448
Nota: 4/5

Andy McGee e Vicky Tomlinson eram dois universitários comuns, que viviam de forma pacata e só queriam se formar. Tudo muda quando ambos aceitam participar de um experimento controlado no departamento de psicologia (eles ofereciam 200 dólares aos voluntários, e quem é ou já foi universitário sabe que dinheiro é algo que sempre falta no bolso). O Dr. Wanless, chefe do experimento, garantiu que não haveria efeitos colaterais graves e que todos poderiam ficar tranquilos, porém muita coisa saiu do controle... O teste em si tratava da administração de uma substância chamada "Lote Seis", que era nada mais do que um programa do serviço de inteligência dos Estados Unidos, gerenciado por um órgão chamado Oficina, para desenvolver habilidades psiônicas, como telepatia, dominação mental, entre outras paranormalidades.

Felizmente, Andy e Vicky não apresentaram nenhum comportamento drástico, mas viram outros voluntários enlouquecerem e até mesmo arrancarem os próprios olhos. Apesar de todo esse cenário gore, os dois acabaram se aproximando e se apaixonando, o que levou a um casamento e a formação de uma nova família. E foi aí que os problemas deles começaram.

Vicky acabou desenvolvendo uma telecinese fraca, em que fazia portas se fecharem ou luzes piscarem quando ficava agitada, já Andy percebeu que conseguia exercer domínio sobre a mente das pessoas, obrigando-as a fazer aquilo que ele desejava, mas seu 'poder' também não era espalhafatoso e acabou passando despercebido pela Oficina. No entanto, não deu pra esconder as coisas estranhas que aconteciam na casa da família McGee quando nasceu Charlie, filha de Andy e Vicky, que demonstrou possuir um poder muito mais impressionante e destrutivo que o de seus pais: a menina criava fogo a partir da própria mente. Quando ela sentia cólica, quando estava com fome, quando chorava... Qualquer alteração de humor que Charlie sofria era marcada pela incineração de alguma coisa dentro de casa. Isso deixou os seus pais em pânico e despertou o interesse da Oficina, que percebeu que a filha do casal havia herdado os genes modificados pelo experimento a qual seus pais haviam sido expostos.

Com a possibilidade de usar o poder de Charlie nas guerras em que os EUA estavam envolvidos, a Oficina inicia uma caçada para capturar a garota e descobrir o potencial de seu poder. A partir daí, a vida dos McGee se torna um inferno. Fugindo das emboscadas que os agentes da Oficina criam a todo instante, Charlie se vê obrigada a usar o poder para salvar a vida da família, e isso pode desencadear uma série de desastres que nem a própria menina aparenta conseguir controlar. 

Com críticas pesadas aos métodos desumanos que os governos usam para alcançar seus objetivos, A Incendiária cria uma trama de ficção interessantíssima para tratar sobre questões como o abuso de poder do estado, a falta de respeito pelos cidadãos, a política de que "o fim justifica os meios" e todas as atrocidades que sabemos que são cometidas pelos governantes com a desculpa de que são pelo bem comum.

Stephen King nos conta uma história forte, com seu característico dom de prender a atenção do leitor da primeira a última página. Esse clássico dos anos 80 sem dúvida é um dos grandes trabalhos de King, que sempre sai de sua zona de conforto e escreve sobre variados temas. A editora Suma, através da coleção Biblioteca Stephen King, fez um ótimo trabalho ao relançar essa obra com nova tradução e com uma edição espetacular. Recomendadíssimo!

P.S. Também não posso deixar de agradecer pela cortesia da Editora Suma, que disponibilizou o livro para que lêssemos assim que foi lançado e pudéssemos escrever essa resenha. Obrigado!



Quem é fruto da periferia tem sempre a cabeça muito cheia. Não é uma escolha: a pessoa nasce e vai crescendo, vai crescendo, vai se fazendo gente e percebendo que a vida de quem nasceu ali é mais difícil que a vida de uns outros tantos. É correndo de bala perdida, ou carregando um fuzil no ombro que, ali por volta dos doze, treze anos, o filho da favela percebe que a vida é selvagem: matar ou morrer. É vendendo o almoço para comprar a janta e entregando panfleto de loja de calçado que a molecada aceita logo cedo o seu destino desgraçado. 

Os filhos da favela são muitos e estão por aí, aglomerados em qualquer ônibus velho; mesmo assim, não são representados: uma maioria esmagadora que vive sendo esmagada. Nem nos livros, nem nos filmes, nem nas telenovelas; ninguém parece querer retratar aqueles que mantém o país andando, ninguém parece achá-los dignos de representação - nem eles mesmos. QWN

Contrariando a maré, Geovani Martins escreve O Sol na Cabeça. O livro é um grito determinado a contar histórias de pessoas silenciadas através da re-humanização daqueles que são sempre marginalizados. Em seus contos, o autor traz à tona as condições de vida das pessoas que vivem nas periferias do Rio de Janeiro no Brasil, coloca sua escrita sobre a linha tênue que existe entre a realidade e a ficção abordando temas reais e atuais através de seus personagens fictícios - os quais, inclusive, representam muitas pessoas reais. 

Dentre os temas abordados no livro estão: o problema do tráfico de drogas nas comunidades, a criminalização de crianças, corrupção policial e intolerância religiosa. Martins coloca tudo de uma forma tão rasgada e natural que é um soco na boca do estômago do leitor ao se deparar com a realidade cruel tão nua - realidade essa que, sempre que possível, é posta de lado, é tida como normal. Citando o autor: "A gente se acostuma com cada bagulho sinistro, que pena é coisa que dá e passa".

De minha parte, só posso dizer que vejo o livro como um manifesto extremamente importante na literatura brasileira. Além disso, acrescento que é muito bem escrito e, sobretudo, que os contos são muito interessantes. Recomendo a leitura a todos e, em especial, a todos os brasileiros.

NOTA: 9,5/10

Ane Karoline


Título: Tartarugas até lá embaixo
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2017
Páginas: 256

Nota: 4/5


John Green é protagonista de um dos maiores fenômenos literários recentes: sua obra encontra cada vez mais espaço entre jovens e adultos que procuram por livros relevantes e que conversem com suas dores e questões íntimas. Autor do best-seller A culpa é das estrelas e outros três grandes sucessos editoriais, Green finalmente voltou à ativa com o seu mais novo livro, intitulado Tartarugas até lá embaixo. Título curioso, né? Mais curiosa ainda é a temática da obra: o transtorno obsessivo compulsivo (TOC). 

(Aqui eu preciso fazer uma pausa e dizer que, quando descobri o tema do livro, fiquei bastante animado. Sou portador de TOC desde os 7 anos de idade e sempre me entristeci ao ver como o transtorno quase sempre é abordado na mídia, de forma superficial e rasa, prestando um desserviço para quem luta por reconhecimento e melhores condições de vida para quem sofre com esse distúrbio ou qualquer outra desordem mental.)

A trama é narrada em primeira pessoa por Aza Holmes, uma adolescente de 16 anos que enfrenta problemas com o TOC desde quando se entende por gente. As suas obsessões são, em sua maioria, relacionadas ao medo de contrair bactérias e doenças virais que podem levar à morte. O seu círculo de convivência se resume a sua mãe e sua amiga Daisy, e é esta segunda que inicia uma jornada que mudará para sempre a vida de Aza.

Daisy convence a amiga a se juntar a ela em uma investigação sobre o sumiço do dono das empresas Pickett, o maior conglomerado empresarial da cidade, a qual desapareceu recentemente após se tornar alvo de uma investigação sobre corrupção. A polícia está oferecendo uma recompensa de 100 mil dólares para quem der pistas sobre o paradeiro do empresário e Daisy crê que, pelo fato de Aza ter tido uma pseudo-amizade na infância com o filho do magnata, elas podem se reaproximar da família Pickett e investigarem o caso, afinal não é todo dia que surge uma oportunidade de faturar essa grana toda.

O problema é que Davis, filho do bilionário e alvo principal dos planos de Daisy e Aza, se mostra muito mais humano e profundo do que as duas amigas imaginaram, o que cria espaço para o desenvolvimento de uma relação de amizade (ou até algo mais) e a resposta para as questões internas desses três adolescentes.

Perpassando toda a história, as obsessões e compulsões de Aza exprimem o sofrimento de quem enfrenta o TOC no dia a dia,  considerado pela OMS um dos dez transtornos mais debilitantes. John Green permite que mergulhemos na mente de um obsessivo-compulsivo e vivamos a espiral, metáfora usada por Aza para descrever o sentimento de impotência gerado pelos sucessivos pensamentos intrusivos que obrigam o portador a realizar compulsões no intuito de aliviar a sua mente agitada.

No geral, é um livro muito bom e necessário para os dias em que vivemos, onde os transtornos psíquicos viraram epidemia e o número de pessoas diagnosticadas dobra diariamente. Eu fico extremamente feliz por ver que um autor relevante como o John Green tenha entrado nessa luta pela saúde mental e espero que esse livro ajude muitas pessoas a reconhecerem os seus problemas e encontrarem forças para se manterem lutando por mais qualidade de vida.

Em um mundo doente, se manter são é um trabalho árduo, mas quando somos compreensivos e honestos com a nossa própria história, a luta se torna menos debilitante e passamos a contar com uma ajuda importantíssima: a nossa própria.

imagem: Ane Karoline

Ninguém me ensinou, ninguém sequer me avisou. Ninguém bateu em minha porta para me alertar, pegou em minha mão para me ensinar e, muito menos, me incentivar. Eu descobri por mim mesma, com livros nas mãos, o que ninguém quis me dizer: uma mulher também pode escrever.

Lembro com vividez o quão absorta eu ficava em minhas tardes aos dez anos de idade: buscava palavras que ligassem os hiatos, rimas, palavras que completassem as lacunas em meus poemas inventados. Escrevia pouco ou quase nada, mas inventava. Nasci inventiva com paixão pela rima, pela prosa e pela poesia - que, por sinal, me dizem mais da vida do que manuais prescritivos secamente escritos. Não fosse essa curiosidade latente, então, eu não teria descoberto; não teria me aberto para a escrivinhação.  Ainda que todos ao meu redor tivessem já, muito cedo, percebido meu anseio em criar  toda hora, nunca direcionaram a mim a palavra escritora. Escritora, inclusive, foi uma palavra que conheci muito, muito recentemente. Me apresentaram, e a isso eu sou grata, os grandes poetas um a um, mas, infelizmente, não me mostraram poetisa alguma. Aprendi, ao contrário, que poetisa é o feminino de poeta; poeta é quem escreve poesia; a poetisa é só uma derivação do verdadeiro criador. 

Mesmo eu tendo mantido diários bagunçados e escrito cartas confusas a todos aqueles com quem convivi em meus tenros anos, nunca me falaram sobre Clarice Lispector; meu professor de português do oitavo ano, quando o questionei sobre ela, me disse apenas que ela era uma escritora "confusa e muito emotiva". Seria melhor, segundo ele, ler algo mais concreto como Machado de Assis. Ele poderia ter me explicado que realismo e modernismo são duas escolas literárias diferentes ao invés de depreciar uma grande escritora - que, ali, estava sendo lida por uma mocinha de treze anos. Talvez eu o tenha assustado. Falo de Clarice mas poderia falar de Cecília Meireles, Adélia Prado e Cora Coralina. Falo de escritoras brasileiras para mostrar o quão fácil seria terem me apresentado tais mulheres de caneta afiada, mas poderia falar das precursoras, poderia falar de Jane Austen, de Emily Bronte, George Eliot e Virginia Woolf. 

Digo tudo isso, construo toda essa teia, para dizer que muito mais fácil, menos insegura e menos dolorosa teria sido minha jornada se tivessem me mostrado os fatos: existiram e existem mulheres extraordinárias e, muitas delas, na literatura. Quando descobri que mulheres podem lutar como Dandara, militar como Hipólita Jacinta, pensar como Nísia Floresta e escrever como Lygia Fagundes Telles, percebi que não estava só. Quando descobri Um teto todo seu, de Virginia Woolf, percebi que ser mulher não é ser o que esperam que sejamos, é ser o que, verdadeiramente, se é e, sobretudo, o que se quer ser: e eu quero ser escritora. 

Durante todo o mês de março, então, em busca de me tornar o que sou e, sobretudo, o que quero ser, me coloquei a ler livros  escritos por mulheres. Reli um e li cinco; seis livros extraordinários escritos, organizados e traduzidos por mulheres extraordinárias. Segue a lista e minha impressão sobre os mesmos. 

1. The Sun and Her Flowers - Rupi Kaur 
Página 143 - the sun and her flowers

   Ano passado (2017) falei em outro texto sobre o livro "Outros jeitos de usar a boca" (originalmente honey and milk) que é o primeiro livro da poetisa Rupi Kaur. The Sun and Her Flowers (traduzido no Brasil para O que o sol faz com as flores) é o segundo livro de poemas da escritora e, ainda mais intensamente que o primeiro, explora a sensibilidade e as obscuridades do universo feminino. Dessa vez, Kaur extrapola para temas de maior profundidade e consegue, em sua síntese, criar uma harmonia singular entre as palavras de forma a convidar o leitor para uma autodescoberta. De todos os poemas, o que mais gostei (apesar de ser muito difícil escolher só um) foi o escrito para a mãe dela, cujo nome é to witness a miracle.

2. Todos os meus ex-heróis são machistas - Taís Bravo

  Também no ano passado, aproveitei a black friday para comprar alguns ebooks baratinhos na Amazon. Contudo, ainda não tive tempo de ler todos e entre os não lidos estava esse livro da Taís Bravo.  Todos os meus ex-heróis são machistas  é um livro pequeno, li em alguns minutos, mas de um impacto gigantesco; me atingiu fortemente. Taís Bravo, usando fluxo de pensamento, discorre sobre as impressões e repressões com as quais conviveu por ser uma mulher e, sobretudo, uma mulher forte e opinativa. 

3. Para educar crianças feministas - Chimamanda Adichie

  Conheci Chimamanda através de um vídeo de sua palestra de nome O perigo da história única  (onde ela fala sobre problemas de representatividade, sobretudo negra, na literatura). Depois de algum tempo, vi sua palestra Todos nós deveríamos ser feministas (onde ela explica de uma forma maravilhosa e bem didática o que é o feminismo e como é benéfico para a sociedade como um todo - homens e mulheres). Na mesma onda de black friday que comprei o livro da Taís Bravo, comprei esse de Chimamanda Adichie pois eu, como professora, me preocupo muito em como não perpetuar o machismo e ensinar nossas crianças formas livres e mais humanas de viver em sociedade. O livro não é exatamente direcionado a professores, mas é uma ótima leitura; ela escreve uma carta para uma amiga Nigeriana, que acaba de ter uma filha, respondendo à pergunta dessa amiga em como educar sua filha para ser feminista. Durante todo o livro, Chimamanda discorre sobre como devemos ensinar às crianças a igualdade e explica como o feminismo e a ideia de igualdade entre os gêneros é benéfica para a sociedade. 

4. Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil - Duda Porto de Souza e Aryane Cararo

  Em reconhecimento ao meu trabalho como escritora e à minha personalidade de leitora voraz, a Companhia das Letras e a Editora Seguinte me mandaram um dos melhores presentes que uma mulher pode receber no dia das mulheres: um livro. Não um livro qualquer, mas um livro que traça a história de mulheres essenciais na história do Brasil - e que, em sua maioria, não são conhecidas. Mulheres das quais eu jamais havia ouvido falar, mulheres que lutaram por direitos dos quais desfruto hoje, mulheres extraordinárias estão reunidas no livro de forma interessantíssima, sucinta e, por sinal, muito bem ilustrada. Além de uma exposição histórica e biográfica dessas mulheres, o livro conta com um panorama histórico da vida das mulheres no Brasil e com um glossário de termos, em geral, desconhecidos. É um livro que, por mim, seria leitura base de história no segundo ensino fundamental (eu sou uma grande incentivadora da educação através da literatura).

5. Profissões para mulheres e outros artigos feministas - Virginia Woolf

   Somente depois de ingressar na Universidade (que, por sinal, é uma das maiores Universidades em pesquisas literárias do mundo), pude ouvir o nome de Virginia Woolf. E, somente agora, em 2018 a li pela primeira vez. Por se tratar de algo muito recente, ainda não sou capaz de dizer o quão grata sou e o quão enormemente cresci através deste livro; é uma pequena coletânea de ensaios e cartas de Virginia Woolf nos quais ela, brilhantemente, discute as mulheres escritoras e como as mulheres são vistas dentro das outras profissões. 

6. Um teto todo seu - Virginia Woolf

   Por último, mas não menos importante (na verdade, esse foi o livro que me inspirou a fazer esse post), venho falar sobre Um teto todo seu. Esbarrei por acaso com esse livro na livraria e, só depois de começar a lê-lo, percebi que se tratava de um lindíssimo ensaio, justamente, sobre escritoras; sobre mulheres da ficção e quais os obstáculos para que uma mulher escreva. Woolf discute bastante sobre os séculos XV e XVI, quando as mulheres eram condicionadas a depender financeiramente de seus maridos (por não serem permitidas a trabalhar e nem a terem posses) e como isso dizimou as chances de que as escritoras pudessem ter voz. Sem mais delongas, recomendo esse livro a todas as escritoras, sobretudo, as iniciantes. 

E então, vamos ler?

Agradecimento especial à Companhia das Letras que tem me enviado livros regularmente e feito de mim uma escritora em construção. 

com amor, 
Ane Karoline