imagem: pinterest.com

Em 2019, eu havia feito um desafio literário com 40 livros (tendo, também, o objetivo de ler mais 10 que estivessem fora do desafio. Entretanto, como já comentei nas postagens anteriores a essa, não consegui cumprir todo o desafio, mas, ainda que eu não o tenha cumprido, o desafio me motivou bastante, assim, farei novamente. Por isso, em 2020, conhecendo melhor minha nova vida de teacher, decidi fazer um desafio menos audacioso: o objetivo é ler 35 livros no total ( sendo, aproximadamente, 3 livros por mês)

O desafio não inclui títulos, inclui apenas tipos/gêneros de literários os quais o leitor deve encaixar em suas leituras. Não há necessidade de cumpri-lo em ordem e, ainda, quem quiser ler só alguns também está convidado. A medida em que eu for lendo, vou postar no instagram e, claro, vou atualizando essa lista aqui. Para motivar ainda mais os leitores, tratarei sempre de divulgar o livro que estarei lendo no momento para que, quem quiser, possa me acompanhar e possamos discutir a respeito.
Vamos ver o desafio, então?

1. Um livro escrito por uma mulher
2. Um livro publicado em 2020
3. Um livro publicado em 2019
4. Um livro indicado por um amigo
5. Um livro em Espanhol
6. Um livro em Inglês
7. Um livro considerado um clássico
8. Um livro de poemas
9. Uma HQ
10. Um livro que comecei a ler e não terminei
11. Um livro escrito por um Brasileiro
12. Um livro estrangeiro
13. Um livro escrito por um autor negro
14. Um livro escrito por uma autora negra
15. Um livro escrito por um autor periférico
16. Um livro sobre sociedade
17. Um livro sobre política
18. Um livro escolhido pela capa
19. Um livro que já foi censurado/banido
20. Um livro escrito no século passado
21. Um livro escrito por um autor asiático
22. Um livro que eu sempre quis ler
23. Um livro escrito por um autor com menos de 30 anos
24. Um livro de fantasia
25. Um livro de contos
26. O primeiro livro de um autor
27. Um livro escrito na década de 60
28. Um livro sobre guerra
29. Um livro infantil
30. Um livro com menos de 150 páginas
31. Um livro sobre escrita
32. Um livro sobre racismo
33. Um livro sobre feminismo
34. Uma distopia
35. Um livro de um/a autor/a que eu goste muito

Vamos participar?

com amor, 
Ane Karoline

Imagem: Ane Karoline


Em 2018, a livraria Saraiva realizou uma promoção, 50% de desconto em livros literários, em detrimento do Dia Internacional da Mulher. Eu comprei alguns livros e, dentre eles, um livro pelo qual eu já tinha interesse há um tempo, mas achava muito caro; Mulheres que correm com os Lobos, da Clarissa Pinkola.  A primeira pessoa interessada pelo livro foi a minha irmã e, por isso, acabei adiando a leitura. Sempre que pegava o livro, desistia de lê-lo. Até que aconteceu, dia 05 de outubro deste ano eu decidi lê-lo. Por que, afinal, julguei importante dizer tudo isso antes de começar a falar do livro propriamente? Porque a minha relação com a literatura é cíclica e sazonal - depende de como estou me sentindo, a fase pela qual estou passando... Enfim, o livro da Clarissa é exatamente sobre isso: ciclos, vida, morte e autoconhecimento.

Depois da minha entrada na vida adulta e, sobretudo, depois do ingresso e conclusão da faculdade, minha opinião acerca de produções literárias está bem mais aguçada, assim como meus gostos mais definidos. Assim, digo com tranquilidade que eu jamais havia lido um livro tão denso. Eu jamais havia lido algo que me forçasse a pausa, que me fizesse ter que fechar o livro para pensar sobre ele antes de ter condições de continuar - algumas vezes, por minutos; algumas vezes, por dias. Eu jamais havia lido qualquer coisa parecida. 

Pois bem, afinal, que livro é esse, então? É mais difícil explicar que sentir, mas ouso tentar.  Mulheres que correm com os lobos, por ter sido escrito por uma psicanalista junguiana, tem um alto teor técnico. Pinkola traz análises profundas a repeito da psiqué feminina, perpassando conceitos chaves da psicanálise. Em suas quase 600 páginas, a autora discorre acerca da vida prática da mulher moderna e como os estilos de vida do século XXI têm, consequentemente, distanciado as mulheres de sua potência feminina natural - que, aqui, nada tem a ver com o que é atualmente visto como feminilidade de gênero culturalmente imposta.  A potência feminina natural, nomeada de Mulher Selvagem, descrita por Pinkola é, sobretudo, relacionada ao autoconhecimento, à conexão com o eu interno - anterior a qualquer conexão e/ou interferência externa. 
Trecho da obra. Imagem: Ane Karoline

A mérito de exemplificação e didática, a autora faz uso de histórias/contos/ditos/lendas populares ao longo de todo livro, partindo sempre da prerrogativa de busca da conexão com o eu interior. Ela lista sinais (sejam comportamentais ou psicológicos) do que seria uma desconexão com o eu interior, com a intuição, com a mulher selvagem. Dentre tantos, um dos que mais me chamou atenção foi relacionado aos sonhos. Eu, que sempre tive pesadelos severos (a ponto de não conseguir dormir por mais de uma noite seguida) e nunca consegui encontrar um padrão e/ou solução para o problema, me vejo estampada em um capítulo inteiro do livro (capítulo 2): a mulher que tem pesadelos perturbadores. Me assustou e me tranquilizou na mesma proporção ler sobre esse fenômeno de uma perspectiva feminina e da psicanálise - é doloroso finalmente aceitar que há algo me incomodando em minha vida e que preciso resolver e, ao mesmo tempo, é reconfortante saber que não sou a única. 

Trecho da obra . Imagem: Ane Karoline

Pelo que posso dizer, o exemplo sobre os sonhos é apenas uma das muitas situações terapêuticas e reais encontradas no livro. A narrativa é um chamado ao despertar, é um chamado feminino à união - consigo mesma e com as outras mulheres; as mulheres que vieram antes, as que vivem agora e as que ainda virão. É um livro de leitura essencial a qualquer mulher adulta, sobretudo em uma sociedade, ainda, patriarcal e que, por anos, tem explorado, de forma midiática estrutural e econômica, a falácia  de que as mulheres são inimigas/rivais.
Trecho da obra. Imagem: Ane Karoline
A todas as mulheres que agora me leem - sobretudo àquelas que, durante esses dois meses, me perguntaram sobre a leitura, fizeram comentários, me chamaram em um canto, me contaram suas próprias histórias: eu sempre soube, mas agora estou certa, que, ao ler esse livro, nós sabemos exatamente sobre o que cada palavra diz. Cada história de cada mulher já existente existe em nós. Juntas, somos uma matilha imbatível. Isso serve para a humanidade inteira. 

com amor, 
Ane Karoline

imagem: Ane Karoline

Há alguns anos, quando iniciei minha graduação, ouvi falarem sobre Mia Couto. Entretanto, se por destino ou coincidência não sei, acabei me pondo a ler Mia Couto apenas ano passado quando, agora vejo, eu me fiz como gente o suficiente para compreender a magnitude de suas palavras. A escola dos livros aconteceu por acaso: recebi os livros da equipe da Companhia das Letras e me pus a lê-los. Com o que me deparei, não tenho palavras para descrever.

Nunca havia lido um romance histórico antes e, portanto, o gênero foi-me totalmente novo e revelador, retificando a minha ideia de uma literatura que vai muito além da estética, uma literatura com uma função histórica e um potencial social inigualáveis (vide também literatura política AQUI). Pois bem, vamos aos livros. 

A trilogia foi nomeada de As areias do imperador e é composta, em ordem cronológica, pelos livros: Mulheres de Cinza, Sombras da água e O bebedor de horizontes. Em linhas gerais, a trilogia acontece no sul de Moçambique, quando era governada pelo rei Moçambicano Ngungunyane — o último dos líderes do Estado de Gaza. Desta forma, Mia Couto traça a trajetória dos dias finais do reinado do Leão de Gaza, destronado pelos Portugueses. 

No primeiro livro, Mulheres de Cinza, a protagonista que guiará o leitor é apresentada: Imani, de etinia Vatxopi. Além da poética voz de Imani, o primeiro livro também é composto de cartas escritas pelo soldado Português Germano de Melo para Portugal. No primeiro momento, Imani apresenta sua aldeia, alguns de seus costumes familiares e o cenário Moçambicano. Em seguida, por ser a única falante de Português da região, a moça e a família ficam encarregados de receber Germano de Melo e encaminhá-lo para o quartel Português da aldeia. É importante ressaltar que a família de Imani se via divida entre receber bem o soldado português ou não. Vivendo em dias de guerra e vendo os seus sendo dizimados pelo exército do rei de Gaza, o pai e o irmão mais novo de Imani acabam por acolher bem Germano, na esperança de que Portugal cuide da província, derrote o rei de Gaza e os proteja. Entretanto, a cada carta do soldado, vai ficando claro para o leitor sua total incapacidade de lidar com Ngungunyane.

imagem: Ane Karoline


O segundo livro se inicia já de forma bem mais caótica: a guerra causou na família de Imani várias perdas, o estado de Gaza está em crise e Germano de Melo sofreu um grave acidente. Neste livro, as reflexões de Imani a respeito de sua vida, sua juventude, sua relação com Germano (a qual começou a tomar proporções românticas) e sua feminilidade. Imani, seu pai, Germano e sua amiga Bianca acabam sendo recebidos em uma igreja para que seja tratada a enfermidade de Germano. Boa parte acontece na ilha até que o conflito, de fato, é apresentado. Este livro tem papel fundamental na trilogia justamente por ser o que apresenta a queda do rei de Gaza.

No terceiro livro, Ngungunyane é levado para Lisboa e muito melhor se percebe as intenções de Portugal. Após a queda do rei, Imani, em sua maestria com as palavras, reflete que:

Não era apenas um imperador vencido que os portugueses exibiam. Era África inteira que ali desfilava, descalça, rendida e humilhada. Portugal precisava daquela encenação para desencorajar novas revoltas entre os africanos. Mas necessitava ainda mais de impressionar as potências europeias que competiam na repartição do continente. 

Nesse sentido, esse livro foi, para mim, o mais dilacerador. Mostra, ainda que em uma escala isolada, a monarquia Portuguesa explorou o continente africano, como despatriou os africanos e fez deles escravos. Imani, por exemplo, obrigada a aprender português na infância, é colocada em situação de traição para com seus conterrâneos, ficando em situação de conflito consigo mesma. 

Assim, a maior parte do terceiro livro acontece durante a viagem para Lisboa, mas muitas descobertas são feitas durante esse tempo de enclausuramento dos prisioneiros africanos. 

Minha opinião

Muito, e cada dia mais, tem me interessado saber a história do povo brasileiro e, por isso, tenho me perguntado muito sobre as raízes, sobre o suor e o sangue sobre os quais o país foi construído. Quando li, então, a trilogia, foi como dar um salto lá trás e para olhar uma brecha do que ocorreu no continente africano com a chegada dos colonizadores europeus, como o povo africano foi dizimado, desrespeitado e humilhado. A trilogia é uma aula de história daquelas bem difíceis de serem digeridas, só que escrita pelas mãos brilhantes de Mia Couto; uma aula de grande importância para que possamos dar um passo para trás para conseguir vislumbrar ao menos um pouco da riqueza do continente africano, para que possamos ver a riqueza dos seres humanos quando conectados à natureza, à energia de todos os outros (vivos e mortos), a si mesmos. É uma trilogia que traz uma chance desconstruir essa imagem pobre e torta do continente africano que temos hoje, a imagem que a personagem Bianca, branca e italiana, descreve como:

Noutros lugares (...) as crianças choram como quem aprende a rezar: esperam que as coisas melhorem. As crianças africanas não. Choram sem voz, choram para si mesmas, como se vivessem o seu último dia. As lágrimas imitam-lhe as barrigas: inchadas mas sem nada dentro. 

Nota: 10/10 

Com amor, 
Ane Karoline


Em geral, eu sempre tenho uma ideia do que eu pretendo ler no ano seguinte, entretanto, não tenho costume de fazer uma lista muito fechadinha para que eu não me frustre depois. Para o ano de 2018, como estive muito atarefada com o fim da graduação, acabei lendo o que convinha com meu tempo livre, mas para o ano de 2019, resolvi fazer diferente: criei meu próprio desafio literário. No total, pretendo ler 50 livros, mas decidi estabelecer apenas 40, para deixar uma margem livre para os livros que vierem. Por fim, uni tipos de leitura que acho extremamente necessárias (como leituras políticas) a leituras que me dão imenso prazer e das quais eu estava afastada (poemas) para, com muito carinho, criar um desafio. 

O desafio não inclui títulos, inclui apenas tipos/gêneros de literários os quais o leitor deve encaixar em suas leituras. Não há necessidade de cumpri-lo em ordem e, ainda, quem quiser ler só alguns também está convidado. Além disso, para alguns tipos eu já tenho possíveis livros os quais quero ler, os quais ficam como sugestões para vocês. Vamos ver o desafio, então?

1. Um livro histórico (“As últimas testemunhas”)
2. Um livro que eu gostaria de ter lido em 2018 (“The hate you give” )
3. Um lançamento de 2018 (“Becoming Michelle”)
4. Um lançamento de 2019
5. Um clássico brasileiro (“Grande Sertões: Veredas”)
6. Um clássico estrangeiro (“Persuasion”)
7. Um livro teen (“Depois dos 15”)
8. Um livro sobre sociedade (“Racismos”)
9. Um livro de suspense ("os mistérios ABC")
10. Um livro recomendado por alguém que você admira (“Quarto de despejo”)
11. Um livro de um autor negro  ("Terra Estranha - James Baldwin)
12. Um livro de autor asiático
13.Um livro escrito por uma mulher ("As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra?)
14. Um livro sobre feminismo (“Women, race and class”)
15. Um livro sobre educação (“No princípio era a educação”)
16. Um livro técnico (“Educação do homem integral”)
17. Um livro em outro idioma ("The happy prince" - Oscar Wilde)
18. Um livro ganhado de presente (“Dias de despedida”)
19. Um livro com a palavra “amor” no título (“Os números do amor”)
20. Um livro em espanhol (“La multitud errante”)
21. Um livro em quadrinhos (MAUS)
22. Um livro que sempre quis ler (“Ensaio sobre a cegueira”)
23. Um livro de um autor que nunca li ("Se a rua Baele falasse")
24. Um livro sobre política (“Eduardo Cunha: pseudônimo”)
25.  Um livro de poemas 
26. Um livro escrito por alguém com menos de 30 anos
27. Um livro escrito há mais de 10 anos ("Quarto de Despejo" - Carolina Maria de Jesus)
28. Um livro sobre ditadura
29. Um livro com um título de uma palavra
30. Um livro com uma cor no nome (“The color purple”)
31. Uma peça teatral
32. Um livro que já foi banido
33. Um livro de memórias
34. Um livro que eu consiga terminar em um dia (“A princesa salva a si mesma nesse livro”)
35.  Um livro de fantasia (“O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”)
36. O primeiro livro de um autor (“Uma coisa absolutamente fantástica”)
37. Um livro best-seller ("The happy prince and other stories")
38. Um livro de contos (“Contos – Lygia Fagundes Teles)
39. Um livro lançado antes de você nascer (“Mrs. Dollaway”)
40. Um livro escolhido pela capa





Ela está sempre lá. Quando chego do trabalho cansada, quando estou em um trânsito terrível, quando estou triste, quando estou feliz, quando preciso relaxar, quando quero ser produtiva. Ela me guia, me mostra os caminhos mais doces e sempre tem a frase que eu preciso ouvir. Ela me ajuda a dar conselhos e, quando eu quero muito ajudar alguém mas não sei o que dizer, basta correr e dizer "acho que sei um livro que pode te ajudar". A literatura. Ela tem me salvado desde que aprendi a ler e esse ano de 2018 não foi diferente: a literatura me ajudou a respirar.

Esse ano, em especial, foi muito diferente dos anteriores: por conta da conclusão da graduação, li apenas vinte e cinco livros. Entretanto, foi mais difícil escolher os meus dez preferidos já que, pelo tempo limitado, selecionei com muito cuidado os livros que leria. Assim, os que indico aqui são a nata preciosa que tive o prazer de encontrar esse ano e quero, com muito carinho, indicar para vocês que me leem. 

É importante lembrar que nem todos os livros aqui listados foram lançados em 2018, mas eu os li em 2018. De alguns deles teremos resenhas completas em 2019 e, por isso, farei apenas um breve resumo agora. 

1.Um teto todo seu - Virgínia Woolf
Foi minha estréia com a incrível Virgínia Woolf e fala justamente sobre o meu dilema: como uma mulher que ainda não é financeiramente independente pode escrever livremente e se manter? Fiz uma resenha dele em março AQUI.




2. I know why the cageg bird sings - Maya Angelou
Esse livro vai ganhar uma resenha especial sobre ele — a qual ainda não tive tempo de fazer, mas terei. Porém, já adianto que é um livro autobiográfico e extremamente sensível. Angelou escreveu muito poemas incríveis, mas foi o romance que dela que de fato me marcou. É um livro que consegue perpassar muitos temas difíceis de serem discutidos através da figura representativa da Maya. A leitura é indispensável. 

3. O Sol na cabeça - Geovani Martins
Como brasileira, posso dizer que esse foi um dos melhores livros que li na vida. É lançamento do ano da Companhia das Letras e escrito por um autor também lançamento. Fiz resenha dele em abril AQUI.


4. Os homens explicam tudo para mim - Rebeca Solnit
Eu comprei esse e-book acidentalmente, mas acabou sendo um encontro. Devorei o livro em dois dias para tentar engolir o nó — necessário — que trouxe à minha garganta. Solnit vai além do feminismo e traz outras discussões e reflexões extremamente necessárias acerca da vida em sociedade e, acima de tudo, sobre respeito. Tem uma mini resenha dele AQUI. 


5. Pedagogia da autonomia  - Paulo Freire
Em seis anos de licenciatura, não havia lido ainda Paulo Freire. Ao escrever meu trabalho final, senti a necessidade e, ainda que não tenha sido uma leitura obrigatória e nem tenha entrado, de fato, em em meu trabalho, Freire me libertou com seu ideal pedagógico. É uma reflexão libertária e essencial. 


6. Mulheres de cinzas -  Mia Couto
É o primeiro livro da trilogia "As areias do imperador" em que Mia Couto trata sobre a chegada de Portugal à Moçambique. Foi minha primeira leitura de um romance histórico e notei o poder que esse tipo de literatura tem: a força história unida à estética literária. Leitura essencial. Não vou me delongar pois em Janeiro teremos resenha da trilogia completa. 

7. Sombras da água - Mia Couto
É o segundo livro da trilogia "As areias do imperador" acima citada. 

8. O bebedor de horizontes - Mia Couto
É o terceiro e último livro da trilogia "As areias do imperador" acima citada. 

9. O que é lugar de fala? - Djamilla Ribeiro
Em 2018 tive ainda o prazer de participar de uma #MaratonaDeLeiturasFeministas e o primeiro livro lido foi justamente essa obra esclarecedora da Djamilla Ribeiro. Ainda que eu tenha estado em um estado de pesquisa constante nos últimos dois anos, esse livro me foi essencial por diversas razões mas, sobretudo, para entender mais sobre respeito. Até então, o conceito de lugar de fala me era muito problemático, mas ao ler o livro, percebi a simplicidade do assunto. É um livro curtinho e muito simples, obrigatório para quem quer entender mais sobre respeito e vida em sociedade.



10. O que é empoderamento? - Joice Berth
Ainda impulsionada pela maratona, o livro de Joice Berth foi o segundo a ser lido e também me esclareceu outro termo que me parecia extremamente abstrato — empoderamento. A autora dialoga com Paulo Freire ao pensar em um empoderamento coletivo social e não individualizado. Além disso, me ajudou a visualizar melhor como a mulher negra é posta na sociedade brasileira.

com muito amor — e desejando um lindo 2019, 

Ane Karoline

Título: A Estrada da Noite
Autor: Joe Hill
Editora: Arqueiro
Páginas: 320

Nota: 4/5

Judas (ou Jude) Coyne é guitarrista e líder de uma das maiores bandas de rock da história. Excêntrico e com bastante personalidade, ele gosta de coisas que a maioria das pessoas apresenta repulsa. Uma de suas manias mais diferentes é o hábito de colecionar objetos macabros, como um livro de uma bruxa da idade média, uma fita cassete com cenas de mortes reais, etc. Certo dia ele fica sabendo que alguém está leiloando um fantasma na internet. A pessoa promete entregar o paletó do morto para quem der o lance mais alto, e junto com a peça de roupa o comprador levaria também o espírito do falecido. Jude não pensa duas vezes e compra o fantasma para integrar a sua coleção macabra, no entanto ele acaba se surpreendendo quando o fantasma de fato aparece em sua casa e torna a sua vida um inferno.

O espírito em questão é o padrasto de uma de suas ex-namoradas, Anna, que acabou se suicidando depois que ele lhe deu um pé na bunda. Com o intuito de vingar a enteada, o morto passa a assombrar Jude de todas as formas possíveis. Ele tenta fugir, mas o fantasma parece estar sempre um passo a frente no objetivo de tirar a sua vida. No meio de todo esse terror, a atual namorada de Jude, Marybeth (que é chamada de Geórgia pelo roqueiro) acaba se envolvendo e também torna-se alvo do espírito vingador. A situação torna-se cada vez mais crítica, até que eles descobrem fatos do passado que revelam que a história que eles conhecem não é tão verdadeira assim e que os objetivos do fantasma podem ser bem mais sujos e maléficos do que aparenta.

Em seu livro de estreia, Joe Hill nos apresenta uma história convincente e bem amarrada, que se utiliza de elementos sobrenaturais para falar sobre sentimentos e escolhas humanas. Apesar do pano de fundo assustador e macabro, o centro do livro está na redenção humana e em como podemos escapar das maldades dos vivos, que muitas vezes são bem piores que os mortos.

imagem: Ane Karoline

Ninguém me ensinou, ninguém sequer me avisou. Ninguém bateu em minha porta para me alertar, pegou em minha mão para me ensinar e, muito menos, me incentivar. Eu descobri por mim mesma, com livros nas mãos, o que ninguém quis me dizer: uma mulher também pode escrever.

Lembro com vividez o quão absorta eu ficava em minhas tardes aos dez anos de idade: buscava palavras que ligassem os hiatos, rimas, palavras que completassem as lacunas em meus poemas inventados. Escrevia pouco ou quase nada, mas inventava. Nasci inventiva com paixão pela rima, pela prosa e pela poesia - que, por sinal, me dizem mais da vida do que manuais prescritivos secamente escritos. Não fosse essa curiosidade latente, então, eu não teria descoberto; não teria me aberto para a escrivinhação.  Ainda que todos ao meu redor tivessem já, muito cedo, percebido meu anseio em criar  toda hora, nunca direcionaram a mim a palavra escritora. Escritora, inclusive, foi uma palavra que conheci muito, muito recentemente. Me apresentaram, e a isso eu sou grata, os grandes poetas um a um, mas, infelizmente, não me mostraram poetisa alguma. Aprendi, ao contrário, que poetisa é o feminino de poeta; poeta é quem escreve poesia; a poetisa é só uma derivação do verdadeiro criador. 

Mesmo eu tendo mantido diários bagunçados e escrito cartas confusas a todos aqueles com quem convivi em meus tenros anos, nunca me falaram sobre Clarice Lispector; meu professor de português do oitavo ano, quando o questionei sobre ela, me disse apenas que ela era uma escritora "confusa e muito emotiva". Seria melhor, segundo ele, ler algo mais concreto como Machado de Assis. Ele poderia ter me explicado que realismo e modernismo são duas escolas literárias diferentes ao invés de depreciar uma grande escritora - que, ali, estava sendo lida por uma mocinha de treze anos. Talvez eu o tenha assustado. Falo de Clarice mas poderia falar de Cecília Meireles, Adélia Prado e Cora Coralina. Falo de escritoras brasileiras para mostrar o quão fácil seria terem me apresentado tais mulheres de caneta afiada, mas poderia falar das precursoras, poderia falar de Jane Austen, de Emily Bronte, George Eliot e Virginia Woolf. 

Digo tudo isso, construo toda essa teia, para dizer que muito mais fácil, menos insegura e menos dolorosa teria sido minha jornada se tivessem me mostrado os fatos: existiram e existem mulheres extraordinárias e, muitas delas, na literatura. Quando descobri que mulheres podem lutar como Dandara, militar como Hipólita Jacinta, pensar como Nísia Floresta e escrever como Lygia Fagundes Telles, percebi que não estava só. Quando descobri Um teto todo seu, de Virginia Woolf, percebi que ser mulher não é ser o que esperam que sejamos, é ser o que, verdadeiramente, se é e, sobretudo, o que se quer ser: e eu quero ser escritora. 

Durante todo o mês de março, então, em busca de me tornar o que sou e, sobretudo, o que quero ser, me coloquei a ler livros  escritos por mulheres. Reli um e li cinco; seis livros extraordinários escritos, organizados e traduzidos por mulheres extraordinárias. Segue a lista e minha impressão sobre os mesmos. 

1. The Sun and Her Flowers - Rupi Kaur 
Página 143 - the sun and her flowers

   Ano passado (2017) falei em outro texto sobre o livro "Outros jeitos de usar a boca" (originalmente honey and milk) que é o primeiro livro da poetisa Rupi Kaur. The Sun and Her Flowers (traduzido no Brasil para O que o sol faz com as flores) é o segundo livro de poemas da escritora e, ainda mais intensamente que o primeiro, explora a sensibilidade e as obscuridades do universo feminino. Dessa vez, Kaur extrapola para temas de maior profundidade e consegue, em sua síntese, criar uma harmonia singular entre as palavras de forma a convidar o leitor para uma autodescoberta. De todos os poemas, o que mais gostei (apesar de ser muito difícil escolher só um) foi o escrito para a mãe dela, cujo nome é to witness a miracle.

2. Todos os meus ex-heróis são machistas - Taís Bravo

  Também no ano passado, aproveitei a black friday para comprar alguns ebooks baratinhos na Amazon. Contudo, ainda não tive tempo de ler todos e entre os não lidos estava esse livro da Taís Bravo.  Todos os meus ex-heróis são machistas  é um livro pequeno, li em alguns minutos, mas de um impacto gigantesco; me atingiu fortemente. Taís Bravo, usando fluxo de pensamento, discorre sobre as impressões e repressões com as quais conviveu por ser uma mulher e, sobretudo, uma mulher forte e opinativa. 

3. Para educar crianças feministas - Chimamanda Adichie

  Conheci Chimamanda através de um vídeo de sua palestra de nome O perigo da história única  (onde ela fala sobre problemas de representatividade, sobretudo negra, na literatura). Depois de algum tempo, vi sua palestra Todos nós deveríamos ser feministas (onde ela explica de uma forma maravilhosa e bem didática o que é o feminismo e como é benéfico para a sociedade como um todo - homens e mulheres). Na mesma onda de black friday que comprei o livro da Taís Bravo, comprei esse de Chimamanda Adichie pois eu, como professora, me preocupo muito em como não perpetuar o machismo e ensinar nossas crianças formas livres e mais humanas de viver em sociedade. O livro não é exatamente direcionado a professores, mas é uma ótima leitura; ela escreve uma carta para uma amiga Nigeriana, que acaba de ter uma filha, respondendo à pergunta dessa amiga em como educar sua filha para ser feminista. Durante todo o livro, Chimamanda discorre sobre como devemos ensinar às crianças a igualdade e explica como o feminismo e a ideia de igualdade entre os gêneros é benéfica para a sociedade. 

4. Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil - Duda Porto de Souza e Aryane Cararo

  Em reconhecimento ao meu trabalho como escritora e à minha personalidade de leitora voraz, a Companhia das Letras e a Editora Seguinte me mandaram um dos melhores presentes que uma mulher pode receber no dia das mulheres: um livro. Não um livro qualquer, mas um livro que traça a história de mulheres essenciais na história do Brasil - e que, em sua maioria, não são conhecidas. Mulheres das quais eu jamais havia ouvido falar, mulheres que lutaram por direitos dos quais desfruto hoje, mulheres extraordinárias estão reunidas no livro de forma interessantíssima, sucinta e, por sinal, muito bem ilustrada. Além de uma exposição histórica e biográfica dessas mulheres, o livro conta com um panorama histórico da vida das mulheres no Brasil e com um glossário de termos, em geral, desconhecidos. É um livro que, por mim, seria leitura base de história no segundo ensino fundamental (eu sou uma grande incentivadora da educação através da literatura).

5. Profissões para mulheres e outros artigos feministas - Virginia Woolf

   Somente depois de ingressar na Universidade (que, por sinal, é uma das maiores Universidades em pesquisas literárias do mundo), pude ouvir o nome de Virginia Woolf. E, somente agora, em 2018 a li pela primeira vez. Por se tratar de algo muito recente, ainda não sou capaz de dizer o quão grata sou e o quão enormemente cresci através deste livro; é uma pequena coletânea de ensaios e cartas de Virginia Woolf nos quais ela, brilhantemente, discute as mulheres escritoras e como as mulheres são vistas dentro das outras profissões. 

6. Um teto todo seu - Virginia Woolf

   Por último, mas não menos importante (na verdade, esse foi o livro que me inspirou a fazer esse post), venho falar sobre Um teto todo seu. Esbarrei por acaso com esse livro na livraria e, só depois de começar a lê-lo, percebi que se tratava de um lindíssimo ensaio, justamente, sobre escritoras; sobre mulheres da ficção e quais os obstáculos para que uma mulher escreva. Woolf discute bastante sobre os séculos XV e XVI, quando as mulheres eram condicionadas a depender financeiramente de seus maridos (por não serem permitidas a trabalhar e nem a terem posses) e como isso dizimou as chances de que as escritoras pudessem ter voz. Sem mais delongas, recomendo esse livro a todas as escritoras, sobretudo, as iniciantes. 

E então, vamos ler?

Agradecimento especial à Companhia das Letras que tem me enviado livros regularmente e feito de mim uma escritora em construção. 

com amor, 
Ane Karoline



Nasci com um buraco flexível bem no meio do meu peito Algumas vezes ele cresce e se dilata ao ponto de sugar todo o meu ar e me sufocar. Outras vezes ele diminui ao ponto de quase não ser perceptível - quase. Ele nunca some, nunca desaparece. Por muitas vezes ter me sentido incomodada, tentei preenchê-lo com todos os tipos de coisas palpáveis e não palpáveis: dinheiro, presentes, viagens, sentimentos, pessoas e relações. Nunca consegui, algumas coisas me sufocaram, outras me deixaram em pedaços; o buraco continua aqui vazio. 

Vazio esse que por vezes é de um silêncio tão cortante que me freia, me congela; outras tantas, um vazio que grita e me diz para ir buscar mais, para aprender, para conhecer o mundo e a mim mesma  - é um buraco que me guia, que tem vida. Admito, é claro, que pela dor que o vazio me trazia, muitas vezes andei curvada; mas agora sei que é isso que me faz continuar: a parte que me falta. 

Boa parte da minha apreciação por essa parte que me falta foi adquirida após a leitura do livro A parte que falta - que é o livro ilustrado mais simples e simbólico com o qual já me encontrei.  Escrito por Shel Silverstein, que conseguiu com uma ilustração quase infantil demonstrar um drama da humanidade, o livro levanta a questão do sentir-se incompleto e da busca pela plenitude através de um personagem sem nome que busca a parte que falta nele. Durante sua trajetória, o personagem encontra diversas partes que poderiam completar-lhe mas que acabam causando diversos problemas, trazendo, assim, o questionamento: será que precisamos mesmo estar completos? Será que a plenitude é encontrada com algo fora de nós? E o melhor: será que existe plenitude?

Tudo que posso dizer é que muito mais nos valem esse livro e uma reflexão tão intensa que essa busca ilusória por uma plenitude impossível de alcançar. E você, o que tem feito com a parte que te falta?



NOTA: 9/10

Ane Karoline

imagem: https://www.instagram.com/anekar0line/

Todo coração que bate, e todo coração que já bateu, guarda um segredo; guarda palavras nunca ditas, sentimentos nunca expostos e desejos reprimidos. Pensando nisso, Emily Trunko resolveu criar duas páginas no tumblr (Last Message Received & Dear My Blank) com a intenção de conceber espaços onde as pessoas pudessem se expressar e expor os segredos e palavras que as sufocavam. 


Há dois anos, a página Last Message Received, se tornou um livro organizado por Trunko como uma seleção muito sensível e bem ilustrada de algumas das mensagens que as pessoas expuseram no site. As mensagens são todas, de alguma forma, de despedidas e partidas entre pessoas reais pelos mais diversos motivos (morte, desencontro, desavença, briga, abuso), sendo assim, uma compilação de sentimentos capaz de desestabilizar o leitor através da identificação e da comoção. Além disso, o livro acaba trazendo uma intensa reflexão a respeito de despedidas e partidas repentinas: se alguém que você ama partisse hoje, qual teria sido sua última mensagem (ou últimas palavras) para essa pessoa? É um manifesto em favor do cuidado e empatia para com os que no cercam. Aqui no Brasil, o livro "Últimas mensagens recebidas" foi publicado pela Editora seguinte (do Grupo Editorial Companhia das Letras) e traduzido pelo Fabricio Waltrick.
NOTA: 7/10




Para a felicidade e simpatia dos leitores, Emily Trunko resolveu organizar também mensagens do site Dear my Blank no livro "Letters never sent". Por se tratar de uma compilação de cartas e não de mensagens, esse segundo livro é bem mais denso que o primeiro: é composto por diversas cartas as quais nunca foram enviadas por seus autores - também pelos mais diversos motivos. O livro é divido em seis assuntos (querido eu, querido mundo, amor, coração partido, amor não correspondido e obrigado) baseados, claro, nos assuntos das cartas e são todos especiais à sua maneira. Particularmente, a parte que mais me tocou foi a das sessão "querido eu", por se tratar de uma sessão de cartas tratando de sentimentos relativos ao quanto, não raramente, nos cobramos irracionalmente. A densidade e beleza de cada carta torna o livro um mosaico de espontaneidade, uma obra de arte autêntica de sentimentos genuínos. Para nós, aqui no Brasil, o livro tem o nome de "Cartas Secretas Jamais Enviadas" e também foi publicado pela mesma editora.
NOTA: 8/10



Para saber um pouco mais sobre os livros, a Editora Seguinte produziu um vídeo com "5 motivos para lê-los": 

Ane Karoline

Título: Sete minutos depois da meia noite
Autor: Patrick Ness
Editora: Novo Conceito
Ano de publicação: 2016
Páginas: 160

Nota: 4/5


Sete minutos depois da meia noite conta a história de Conor O’Malley, um garoto de 13 anos que levava uma vida normal em um pequeno vilarejo da Inglaterra, até ver tudo ao seu redor desmoronar quando sua mãe é diagnosticada com uma doença terrível. A vida pacata que ele conhecia é virada de cabeça para baixo, e onde antes existia um menino inocente, passou-se a ver alguém cheio de mágoas e culpa.

Tudo muda quando, em uma de suas noites intranquilas, exatamente às 00h07, um monstro resolve lhe visitar. Esse monstro é nada menos que a árvore plantada no cemitério da igrejinha vizinha à sua casa, um velho teixo por qual sua mãe demonstra curiosa afeição. O problema é que o monstro não quer assustar ou ferir Conor fisicamente, na verdade seria melhor se assim fosse, porque o que ele cobra é algo muito mais caro e doloroso: a verdade.

Para obter a verdade do garoto, o monstro lhe conta três histórias que mostram que a vida nem sempre é tão simples como imaginamos. O bem e o mal geralmente se misturam, o que torna a realidade bem diferente das visões idealistas e açucaradas que vemos na TV. Dessa maneira, Conor vai aprendendo um pouco mais sobre a vida e os desafios que ela apresenta para cada ser humano, mas isso não torna menor o peso de compartilhar a sua verdade...


Extremamente sensível e carregado de intensidade, esse livro revela as dores de uma criança que se vê obrigada a amadurecer de um dia para o outro, carregando pesos que um corpo infantil não consegue suportar sem ficar com marcas profundas. Patrick Ness nos presenteia com uma história forte, mas ao mesmo tempo suave, que nos proporciona ótimos momentos de reflexão sobre quem somos e quem queremos ser.

Títulos: O Azarão, Bom de Briga e A Garota que Eu Quero
Autor: Markus Zusak
Editoras: Bertrand Brasil e Intrínseca

Nota: 5/5

Cameron Wolfe é um garoto comum, membro de uma família comum e habitante de uma cidade comum do subúrbio da Austrália. Os seus dias se resumem a brigar com seu irmão, Rube, a assistir TV e a se apaixonar platonicamente por garotas que nem sequer notam a sua existência. Essa série de livros seria irrelevante se, de fato, estivéssemos falando de um garoto comum, mas como nos lembra Lewis, não existem pessoas comuns, e Cameron, ou Cam, como gosta de ser chamado, descreve e desnuda o mundo com tal sensibilidade que nos questionamos se de fato estamos lendo palavras de um jovem inexperiente que não entende nem a si próprio.  Nos três volumes que integram a série, a saber, O Azarão, Bom de Briga e a Garota que Eu Quero, assistimos ao processo de amadurecimento de um adolescente e todas as dores e sabores que acompanham esse momento. Cam é desafiado a todo e tempo e, através de suas experiências, descobre que a vida não exige força para lutar sempre, mas sim para nunca desistir de apanhar.

Esses livros me proporcionaram grandes reflexões, e eu quero partilhar pelo menos duas com você. A primeira foi sobre como nós simplesmente objetificamos e rotulamos as pessoas que dividem esse planeta conosco. Já parou para pensar nos sentimentos que habitam o interior do carteiro que todo mês deixa as contas na sua porta? E nos anseios do cobrador do ônibus que diariamente libera a catraca para você passar e coloca algumas moedas nas suas mãos? E nos sonhos aquela senhora que limpa o chão do seu serviço ou da sua escola / faculdade? Já parou para imaginar quais são as dores e as alegrias que essas pessoas vivenciam? Já se perguntou ao menos quais devem ser os seus nomes?
Conhecer os pensamentos e lutas diárias de Cameron Wolfe me fez perceber que qualquer um, mesmo alguém que você julgue como inútil, parvo ou extremamente ignorante, possui uma história para contar, e essa história é digna de ser ouvida porque é sobre um ser humano. Cam é só um garoto normal, mas que sente e vive o mundo da sua própria maneira, assim como todos os outros 6.999.999.999 de indivíduos que habitam a Terra. Precisamos ter mais consciência disso.

Outro pensamento que me acompanhou durante essas leituras foi a importância de se ter um porto seguro para onde voltar quando tudo der errado. No caso de Cameron, esse oásis é a sua família. O clã Wolfe, que é composto por sua mãe, seu pai e por seus irmãos (Steve, Sara e Rube). A mãe trabalha como faxineira em casas de bairros nobres, o pai é encanador, já o irmão mais velho (Steve) é o bem sucedido da família que tem um bom trabalho e conseguiu ir pra faculdade, enquanto a sua irmã vive apenas namorando e sofrendo (coisas que são quase sinônimas). Rube, o único irmão que eu ainda não apresentei, é apenas um ano mais velho que Cam, o que torna os dois muito próximos, pois além de irmãos eles são os melhores amigos um do outro. Na verdade, Cameron não tinha lá muitos amigos, então ou ele era amigo de Rube ou então não era de mais ninguém (não que isso fosse o único motivo para os dois serem tão próximos, mas ajudava).
Essa família simples e suburbana possui em seu âmago o instinto do animal que lhes emprestou o sobrenome, e, como uma alcateia, todos se protegem e cuidam uns dos outros quando alguém se fere. Essa relação familiar, longe de ser perfeita, pois são vários os percalços que surgem durante o caminho, como o desemprego do Sr. Wolfe, a péssima habilidade culinária de sua companheira, a soberba de Steve e a preguiça de Cam e Rube, mas é na hora das crises que eles mais se aproximam e permitem conhecer um ao outro, estreitando ainda mais os laços que já os unem tão tenazmente. É impossível não lembrar de Chesterton quando ele disse que "a coisa mais extraordinário do mundo é um homem comum, uma mulher comum e os seus filhos comuns".

Resumindo, a trilogia de Markus Zusak versa sobre a dificuldade da vida em um mundo onde ninguém se importa com ninguém, o que dificulta ainda mais a já conturbada existência de um adolescente, porém o autor também dá pistas durante a sua escrita sobre o que realmente vale a pena nessa jornada cheia de obstáculos, mas também de momentos únicos e inebriantes que fazem todo o resto valer a pena.
No mais, fico por aqui e torço para que, se um dia você decidir também viajar por essas páginas, perceber que o simples é a coisa mais sofisticada que existe, pois nós não somos seres humanos por causa das grandes glórias que alcançamos, mas sim por partilharmos das mesmas limitações enquanto uma raça que sofre para encontrar o seu lugar em um mundo hostil.

"A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece."
                                                                                                                                                         Veracidade





       "Não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios",
diz Isabella de Andrade em seu livro "Veracidade". Eu concordo e assino embaixo: vivemos querendo preenchê-los. O fazemos porque dói. Qualquer sinal de vazio, dói que é uma coisa. Mas existe, sim, coisa mais dolorida que os vazios que fazem morada nos buracos dentro de nós: a tentativa desesperada de preencher esses vazios; vãs tentativas, tentativas naufragadas de preenchimento. Impulso humano é esse de caminhar em busca da plenitude, mesmo que não se saiba que plenitude é essa, afinal. Caminha-se em busca do que nem se sabe, de um caminho certo, caminho verdadeiro, veracidade, voracidade. 

Eu, que sou voraz, quando leio um livro, engulo os livros, devoro as páginas. Com Veracidade, foi diferente: a escrita de Isabella me engoliu - cheia de doçura, mas o fez. Cada palavra colocada despretensiosamente com um cuidado todo pessoal, bordadas. Uma escrita contemporânea e atemporal, simples e complexa, que em frase curta resume um dramalhão da humanidade inteira. Jogos de repetições bem colocados, como quem sabe que na vida a gente repete passos todos os dias, mas nunca de forma igual. Escrita sensível que incentiva, empurra o ser à criação.  Isabella discute as belezas e mazelas do processo de criação do artista; o que ronda o criador e a criação.

É um livro muito simbólico. A palavra silêncio, a exemplo,  tanto aparece no texto, quanto se faz presente quando lida, silêncio que grita: silêncio é necessário para respirar. A autora consegue criar uma atmosfera de convite à reflexão, sem jamais deixar de ser leve, doce, suave. É um livro que vem de encontro, não em contraste.

Tenho lido bastante nos últimos anos, lido de tudo, lidado com tudo, e poucas coisas me tocaram como Veracidade. Eu, como ser sensível, como ser criador, como ser humano, me senti atravessada pela afabilidade das palavras que li; me lembrei de Clarice Lispector, me lembrei de mim, lembrei do meu primeiro amor e dos amores que ainda sinto, me lembrei da humanidade inteira - algumas vezes a gente sente tanto e vive tão pouco. Por fim, concluí com Isabella que inquietude é coisa de gente e que "nem todos os pontos, nem todas as vontades e nem todos os amores, precisam virar conexão".

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:

Onde comprar o livro: Mandar mensagem no email: isabelladeandrade@gmail.com 
ou na loja da Editora: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=343




Sobre a autora:
Autora do livro Veracidade (Patuá, 2015), Isabella de Andrade é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e graduanda em Artes Cênicas no mesmo local. Trabalha atualmente como repórter de cultura do jornal Correio Braziliense e já trabalhou como arte-educadora no CCBB. Acredita firmemente no poder transformador e enriquecedor da arte na vida e no desenvolvimento de cada indivíduo. Estuda as possibilidades do jornalismo literário, da literatura, da poesia, da dramaturgia e uma possível convivência harmônica entre eles. É autora e produtora do projeto de arte e cultura www.ociclorama.com. Brasiliense apaixonada pelo céu da capital e pelo modo como as palavras nos possibilitam viver várias vidas. 

Instagram: @isabella_deandrade e @ociclorama



Ane Karoline