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Demais.
Fica ressoando.
A palavra demais fica ressoando demais em minha mente.

You tend to feel too much. 

Sentir demais, falar demais, querer demais. Até, imagine só, exagerar demais. Exagerar demais é pleonasmo, mas também encaixa, também serviu como acusação: você exagera demais. Acabou que, somando as falhas e diminuindo as faltas, deixei de ver como acusação e aceitei -  exagerar demais suits me pretty well

A verdade é que não é exatamente exagero. Eu pego sentimentos para criar, pego-os miúdos e vou cuidando, cultivando, deixo-os graúdos e eles me engolem. Aqui, então, é que eu começo a conversa: estão todos por aí, espalhados, os meus sentimentos. Alguns caindo pelo chão, alguns sendo pisoteados, alguns sendo esquecidos e apagados, alguns sendo cuidados. É que eu tenho muitos, criei vários, catei alguns e me deram outros tantos.

 Eu vou caminhando e sentindo todos eles entranhados em mim. Alguns, os que ficam na cabeça, me lembram o que quero esquecer. Outros, por vezes entopem minhas vias aéreas; por vezes me dão asas. Entretanto, a maioria fica suspensa no ar. Em alguns dias, são massas leves de ar, em outros, são massas densas e quentes que se enroscam nos meus pés e me fazem tropeçar. Não sei se caio ou se me deixo derrubar.

You tend to fall too much.

Cair demais, levantar ainda mais.

Você tenta demais, 
e, então, 
fall apart.

Eu tento demais, 
para, então, 
encontrar 
minhas partes. 

Catando sempre os cacos, sem deixar o demais para trás. O demais é o meu excepcional.

com amor, 
Ane Karoline



Fotografia com baixa velocidade (com câmera estabilizada)
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Pensei que seria diferente. O mundo todo girando, seguindo em uma corrida desenfreada em marcha ré, e eu parada, tentando. Eu quero andar para frente. Eu tento tanto, mas minhas pernas são pequenas e eu juro que estou correndo e eu vou enfrentar o mundo todo que vem trotando em marcha ré. A última parte sã da minha cabeça gira e entoa como ciranda: 

What the hell were you thinking? 
What the hell? 
What? 
The hell.
Eu pensei que seria diferente, respondo. 

Alguém me disse um dia que uma menina morreu enforcada com os próprios cabelos, com os próprios sonhos, consigo mesma. Eu fico sem ar, cadê meu fôlego? Eu acordo todos os dias às 3h da manhã para ver se meu cabelo está preso. Todas as noites na hora das bruxas, dos diabos. Eu pequenininha já pensava: eu não posso morrer, tenho que ajudar a mamãe. Uma criança pequenininha já pensa esse tipo de coisa. Eu, miúda, pensava que cresceria e seria grande, imensa, pensava que seria diferente. Pensei que não teria mais pesadelos com aquele dia: a gente indo visitar o vovô e alguém ataca o ônibus. Meu cabelo cheio de caquinhos de vidro, a mamãe passando pente fino e repetindo que eu não tinha nenhum arranhãozinho. Nada. Eu tinha só oito anos e o fôlego falta ainda hoje para contar. Eu tinha só oito. Com oito anos e os pezinhos sangrando, um monte de caquinhos de vidro verde no chão, era vidro de guaraná Kuat, e os pezinhos correndo para pedir ajuda. Eu sem fôlego ainda hoje, acredita? A professora me encarava e reclamava de não ter ido à aula e eu chorava sem lágrimas para dizer que minha décima andorinha tinha morrido. Tudo mentira. Aprendi logo: tudo é mentira. Eu nunca nem tive uma andorinha, é claro, mas queria ser livre como uma. 
peito 
pesa
e eu fico sem ar.

O negócio é que os pezinhos doíam. Meu deus! A professora não deixava tirar as galochas: não pode. Eu pensei que quando passasse mil horas, mil dias, mil semanas... Eu pensei que seria diferente. Eu pensava: quando eu crescer. 
Talvez eu ainda não tenha crescido tudo, será?
Eu ando muito é por isso: para ver se cresço. E crescer dói tanto, meu bem. Eu cresço e, ainda assim, a lama me vem até o pescoço. E eu entendendo tudo. E eu vendo tudo. Eu vendo tudo para não ter que ver mais o cachorro enlameado de ferrugem. 
Eu pensei que seria diferente.
Eu pensei que o mundo caminhava para frente.
Agora vejo: o mundo todo em marcha ré, a onda de gente, de lama, de bicho, de planta, tudo descendo a ladeira. Desmoronando. E eu tentando subir. Eu tentando correr para frente. Vamos!

50
anos
em 
5.
O sofrimento de cinquenta anos em vinte-e-cinco. 

Eu pensei que seria diferente. Seis anos para me emprestarem a tal beca preta por dez minutos, tudo preto, meus olhos lá vidrados e eu sem ver ninguém. Mesmo assim, eu juro para você, eu apostei tudo em nós. Em todos nós. Em todos os nós que achei que poderia desatar. Eu apostei tudo que eu tinha: eu mesma. Let's go, guys, can you, please, 
listen?
Eu tento tanto... Será que tento pouco? Try harder...
Cadê meu fôlego? Me solta! Eu preciso de ar. 
Eu preciso correr porque eu pensei que seria diferente e não é possível que não seja. Nada é possível. Vou ao cinema de novo, então, já que é assim. Vou ao cinema de novo e não é possível que eu não sinta nada. Pega a minha mão, vai, faz com que eu sinta alguma coisa. Faz com que eu sinta dor, pelo menos. Vai embora de novo e me deixa aqui sozinha para que eu sinta aquele choque no peito. Alguém tá ouvindo meu coração ainda? Ele tá batendo tão forte mas tão lento, ele não aguenta tanta força. 
What the hell were you thinking, afinal de contas?
Achou que daria conta?
É que eu pensei que seria diferente e foi por isso que fiz tudo que fiz: vai valer a pena, vai ser diferente, eu vou passar mais tempo com meus pais, vou passar mais tempo com minha melhor amiga que se casou anteontem e não me convidou. 
Silêncio. 
E minha cabeça, meu bem? Minha cabeça ainda está no lugar dela em cima do pescoço? Olha aí para mim que eu não quero passar por doida. Olha aí pra mim. Olha. Ok, guys, expressões idiomáticas: what the hell were you thinking? Diferente... Mas diferente de quê, meu Deus do céu? Eu falei com Ele, eu queria jogar na cara D'Ele: eu pensei que ia ser diferente! Pai nosso que estais no céu... E Ele? Calado. Deus calado. Tá me ouvindo? Ele só me olha, mas calado. Antigamente Ele sussurrava, hoje não. Desde o dia em que Ele ficou calado, eu fiquei também. Não sei mais falar nada, não fale comigo. Se ficar difícil demais de mentir, eu só vou dizer: uô ren rai, estou bem, em chinês. Quem foi que me ensinou isso? Quem foi que me deu essa cabeça imensa que pensa tanto? Que pesa tanto? What were you thinking back then? Eu sei que eu pensei que seria diferente e foi por isso que caminhei com pés sangrentos até aqui. 
Mas e se não for?
Eu não sei. 

Ane Karoline

imagem: pinterest

Tão cheia de coisas, culpas, contos, e crises que quase nunca vejo o céu. Olhar, eu olho, e sei que ainda está lá, de cenário; sei que não desmoronou sobre nossas cabeças. Mas ver é outra coisa, coisa rara. Acontece vez em nunca e é sem aviso, é assim: quando eu não espero nada, quando não estou procurando nada, eu tenho tempo de ver. Ver o céu é de um vazio tão absoluto, intergaláctico, inexplicável, é quase antimatéria. É um vazio que me atinge sem me tocar e, por mais biruta que seja, me faz plena. A razão é coisa simples: o vazio do céu me empurra para a frente, me sentir vazia faz com que eu saia que nem doida atrás de alguma coisa para me completar, ou alguma coisa a qual contemplar. Coisa essa que não acho nunca, mas me movo. Enquanto me movo, estou viva.

Só que viver dá nisso, a gente coleciona um monte de bugiganga, mágoa de tudo quanto é gente, frase de tudo quanto é panfleto, senhas de mil e quinhentos logins e informação da vida de gente que nem conhece a gente. É coisa que não acaba mais. E eu apareço, fazendo esses discursos com propriedade, porque eu sou doutora nisso: de tanto me encher de coisas, me perco na bagunça que eu faço dentro de mim. E como é que resolve uma coisa dessas? Porque mapa não resolve, garanto, eu decorei o mapa mundi quando tinha doze anos de idade, para nada. Quando me perdi e tentei me mapear, não me serviu, um mapa daquele tamanho. É doidice, mas acontece. 

Acontece que é física: dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Quando a gente se enche de coisas desnecessárias, não sobra lugar para nós. Foi numa dessas, perdida na vida, que caí de cara no chão, me despedacei e perdi tudo. Aí fiquei vazia: fiquei sem certezas, amores e ideologias. Foi assim que vi o céu. E foi nesse embalo, de ficar vazia e de ver céu, que percebi a beleza da coisa: a gente é cheio de vazios, frestas e vãos. E a graça é essa, através desses vazios que um céu bonito consegue espaço para entrar e cativar a gente.Os vazios nos movem e nos mudam. Encanto precisa de espaço vazio para entrar. Gente completa, saciada e cheia de certezas deve perder um monte de coisas. 
Ane Karoline


Primeiro texto do desafio: 15 dias escrevendo sobre.


imagem: we heart it
                                      

Talvez você não goste do que vai descobrir mas eu, daqui, fico olhando você e te percebo engasgado: sempre querendo dizer alguma coisa, sentindo mais do que mostra (ou mostrando o que não sente, para esconder o que sente), sem o atrevimento para revelar o que acha, só vivendo no morno, pisando em ovos, sem a coragem para dar um baita grito, ou para se desculpar.  Por sensatez, e amor aos próximos, respeito essa escolha de vocês que não dizem o que querem dizer. Respeito, mas não faço uso da mesma filosofia. Sei que o silêncio pode até ser ouro, mas só quando não há mais nada a ser dito.

Disso eu tenho certeza: entalada em não morro. Se, por acaso, eu achar que alguma coisa deve ser dita, vou dizer - seja por grito, fala, palestra, mensagem, fumaça, canção, sussurro, abraço, choro ou carta. Não vou dissimular, esperar que você ligue, fingir que não me importo, desdenhar e nem jogar. Se você soubesse da amargura que sinto só de pensar em todas as coisas que eu perderia se decidisse bancar a desinteressada proposital, nem tentaria fazer esse joguinho comigo - e nem com ninguém. Até porque eu também sei jogar, todo mundo sabe. Eu jogaria se quisesse, mas não quero. Essa competição de quem demonstra menos é tão tola que quando a percebo me retiro - o desinteresse não me interessa.

Esse medo de perder alguém por dizer o que sinto, eu não tenho. Não que não me importe com as pessoas, pelo contrário, as quero bem perto. E é por isso que quem quer que me conheça, vai me conhecer assim, de cara limpa, à flor da pele e emoções que gritam, abraçam e beijam. Quem quer que eu ame, vai receber amor assim: exposto, gritado, escancarado. Quem quer que me interesse ou, minimamente, me cative vai saber, vai ter notícias minhas. Porque é assim que eu vejo a vida: intensa e breve. Intensa demais para fingir que não se afeta pelas pessoas, e breve demais para não dizer isso a elas. Sendo assim, nesse breve espaço - intenso- de tempo, que é a vida, não dá para perder tempo com gente desinteressada. 



O conselho que te deram está incompleto. Também me disseram que doía. Me disseram que eu não deveria me basear no que vi no cinema e nem no que li. Achei um exagero, um engano. Eu, que sempre insisti em ver o copo meio cheio, guardei os conselhos na gaveta e fui me aventurar. Me convenci de que esse tal pessimismo era coisa de gente que gosta de dramatizar: onde é que já se viu amor machucar? A coragem, pensei, não vai ser necessária, mas vou levar. 
Que jornada! Esqueceram de me dizer que é loucura. E que louca fui, agora vejo. Imprudente. Corajosa. Amor é coisa de gente que tem coragem. Desvairada me joguei nesse mar de amor que eu mesma criei e na falta de reciprocidade, desaguei em mim mesma. O amor, que permiti que em mim habitasse, se fez tão genuíno que já não esperava nada em troca, só esperava. Suportava. E, por um longo tempo, suportei com uma esperança inigualável, quase com prazer. Esperei que essa tempestade que sou tanto batesse no coração dele que furasse: abrisse espaço para o amor. 
Mais uma vez o falatório popular fracassou: não abri espaço nenhum em um coração sem ardor. Me afoguei em meu próprio amor e nas fantasias que criei -foram muitas. Mas a gente pode aprender o que quiser, não é mesmo? Aprendi a nadar até me encontrar. Foi um esforço imenso, eu acho que você não vai lembrar mas eu tinha medo. Não tenho mais. Nadei um oceano inteiro de desilusões, julgamentos, e frustrações. E dessa vez foi por mim. Perdi o fôlego várias vezes, meu corpo, infinitas vezes, fraquejou, quase morri. Mas foi por mim e, quando é assim, o cansaço é recompensado: renasci. 
Das dores que senti, a facada dos olhares que me diziam "eu te avisei" foi uma das maiores. Doeu, como me disseram que doeria. Foi diferente dos filmes porque o meu final feliz foi sozinha. Me avisaram mesmo, mas tem algo que não me disseram: como é bom amar! O jeito doce como a vida faz sentido, como o Sol brilha mais bonito e como os sentimentos são tão desmedidos. A gente cresce: tomba, cai, se machuca, se desconstrói e se reinventa. Uma companheira de batalha me contou: amar alguém só pode fazer bem, pelo menos a nós mesmos, quando ao outro não convém. 
Portanto, aqui vai: dói. Dói quando dá errado e quando dá certo também dói. Não parece em nada com os filmes: os nossos finais são muito mais criativos e a gente tem uma vida inteira para reinventá-los. Um amor mal sucedido não estraga a nossa vida para sempre. E, no fim das contas, vale a pena. Vale a pena porque, quando passa, prepara a gente para que vier: nos traz coragem e nos traz fé. 

Revigorada, Ane Karoline (o texto foi escrito pela sugestão de Jéssica Carvalho)