5 Surprising Scientific Facts about Earth’s Climate - Foundation for Economic Education
imagem: pinterest.com

Existem lugares e lugares. Existem lugares-cartões-postais: para onde muita gente quer ir, para onde muita gente vai nas férias e para onde uma quantidade ainda maior de gente não pode ir - não pode pagar para ir. Essas pessoas que não podem ir aos lugares-cartões-postais moram nos lugares-capas-de-jornais: para onde ninguém quer ir, onde muita gente morre, onde não tem mar, onde não tem escola, onde não tem hospital, onde não tem emprego. Cresci em um lugar-capa-de-jornal. Crescendo em um lugar assim, a opção menos dolorosa de diversão encontrada pelos meus pais foi a Disney. Sim, a Disney. Não, não o parque monumental em Orlando, a Disney em casa - em formato de fitas VHS de todos os filmes. Esse hábito, que me era quase diário, me trouxe muitas coisas boas - inclusive, me livrando dos perigos reais aos quais brincar na rua me exporia - e muitas coisas ruins também - idealização de vida a partir do imperialismo, busca por padrões de beleza, dificuldade em me impor como mulher... Afora as problemáticas (que são assunto para outra conversa), a Disney me permitiu sonhar. É nesse ponto que entramos na data de três de janeiro de 2020, hoje. 

Não sei como era o cinema nos anos 90, quando eu era criança, porque meus pais nunca puderam nos levar ao cinema - fui ao cinema, pela primeira vez em 2001 com minha madrinha. Entretanto, eu sei como é o cinema hoje: hoje o filme Frozen 2 está em cartaz e eu e o João tivemos a chance de ir assisti-lo. Eu tenho 24 anos, o João tem 2, nos conhecemos hoje porque nos sentamos lado a lado para acompanhar as peripécias inventadas no reino gelado. A classificação indicativa do filme é livre, ou seja, o João e eu estamos dentro da mesma categoria: temos idade suficiente para ver o filme. Entretanto, ele tem coisas que eu não tenho - pelo menos, não mais - como coragem de falar com estranhos, espontaneidade à flor da pele, 100% de energia e tamanho suficiente para ficar de pé na poltrona do cinema. Eu, claro, também tenho coisas que ele não tem - pelo menos, ainda - como mais paciência, mais tempo de concentração, história maior para contar, muita vergonha e idade para ter visto Frozen 1. 

Infelizmente, minha história com o João foi muito breve. Acontece que ele é muito conversador, logo nos primeiros minutos, ele decidiu me contar que o cinema estava escuro igual às florestas e que os lobos vivem nas florestas. Assim, ele achou que seria apropriado começar a imitar um lobo, uivou por alguns segundos e todos riram. Pela celebração, e pela demora do Olaf em aparecer na tela, João continuou a uivar - agora de pé na cadeira. Os "shhhhhhh!" começaram. 
"O lobo faz assim ó: auuuuuu"
"shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!"
"o sapo não lava o pé, não lava porque é lelé"
"shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!"
cochichando: "sabe como o lobo faz, mamãe?"
"shhhhhhhhhhhhh"
Após cerca de quinze minutos, o João já havia construído seu próprio show de pé na minha frente, dançando, pulando, cantando e uivando, ora perguntando sobre o filme, ora contando histórias inventadas. A impaciência ao redor venceu e a mãe do João resolveu que era demais, pegou o João pelo braço e foram embora. Dei uma olhada em volta: maioria de adultos. Os adultos terminaram, então, de consumir o american dream sem o João. Eu vim para casa pensando: será mesmo que não cabia o João ali? Onde mais haveria de caber uma criança que em uma sessão de um filme com classificação infantil? Cabia sim.

O que ainda falta no João, por falta de idade, tem que sobrar no adulto: senso de coletividade. A gente não existe só, isolado, aleatório, descontínuo. Pelo contrário, somos a continuidade da criança que fomos. A infância não existe antes, descolada, não é uma pré-vida: a infância já é a vida, a criança é gente. Gente precisa ter experiências, gente precisa conviver com gente, gente precisa viver. Excluir uma criança de um local público é roubar dela a chance de conviver, viver e crescer. Excluir uma criança, com seu comportamento infantil, de um local público, é, também, excluir quem está em situação parental, é excluir, acima de tudo, a chance de quem está em situação parental de viver momentos públicos com a criança, não há nada que substitua isso. 

Se, no filme infantil, o João ainda não tinha maturidade para ficar sentadinho e calado por duas horas, talvez coubesse a todos nós ali - não só à mãe dele, que fez o que pôde - ajudá-lo a passar pela experiência de estar ali pela primeira vez. Poderíamos tê-lo ensinado sobre empatia, paciência e sobre respeitar o espaço alheio, mas não o fizemos. Uma criança é responsabilidade da sociedade inteira. Por fim, posso dizer que me arrependi um bocado de não ter batido um papo verdadeiro com ele e de não  tê-lo convidado para aproveitar a história do filme comigo, sem deixar de ser criança, sem deixar de sonhar.

com amor e educando para a paz, 
Ane Karoline

Image result for manifestações por educação
imagem: google
Meu dias não começam mais no começo. Alguns deles acabam e nem sequer começaram. Explico: escuto o alarme, abro os olhos, penso sobre o ontem, o hoje, o amanhã e sobre a perspectiva de que sejam exatamente iguais. Suspiro. Levanto o corpo da cama sem levantar a alma, faço de um tudo enquanto espero que o dia comece. Eu fico esperando que algo aconteça, algo que me arrebate, algo apareça para mostrar que o mundo ainda vale a pena, para, então, o meu dia começar. Nem sempre acontece, então, nem sempre o dia começa, só passa. Acontece que, dia desses, um dia começou e saiu começando vários outros depois dele.

Alarme, olhos abertos, pensamento em perspectiva, chão frio, água quente, café amargo, trânsito, a mesma vaga difícil de estacionar. O livro, marcado na mesma página há três semanas, pesando um pouco mais a cada dia dentro da bolsa. O sono incompatível com o montante de horas dormidas. Outro café, frio e com poeira dentro. Suspiro. Entro na sala de aula e enfrento a odisseia diária até a minha mesa.
- Teacher!
- Miss!
- Teachêer! 
- Você sabia que ontem...
- Teacher, olha aqui...
- Miss, my homework...

Até aí, dia ainda adormecido. Caminho com a calma de uma esfinge, deposito a bolsa na mesa, ouço uma vozinha atrás de mim
- Teacher, você está tired?

Entre enganá-la e decepcioná-la, optei pela segunda. Sorri como pude e disse que sim. Foi aí que tudo começou. 
- Mas cansada de quê? Você também faz judô? Eu faço judô até alguma hora bem tarde da noite e, mesmo assim, não fico cansaaaada, sabe? É que eu gosto muito de judô, eu vou ser uma grande judoca quando eu for grande. Como é judô em inglês?

Alguma coisa se moveu dentro de mim. Nem mesmo a empolgação que sempre me toma ao ver o bilinguismo operante foi capaz de me distrair do ocorrido, alguma coisa na paixão da fala dela me sacudiu. Minha mente começou a girar sobre dois detalhes:
A paixão pelo judô e a esperança de ser uma grande judoca. 

Tudo começou a girar em torno da vozinha "mesmo assim, não fico cansada". A lousa, os livros, os vinte e cinco pares de olhos me olhando, as burocracias, os aprendizados diários, Charles Dickens por ler, meu romance por escrever, tudo girando e o peso do insight caindo como um raio sobre a minha cabeça. 

A esperança e a paixão trazem sentido à vida, a servidão não.

Nada no mundo me obrigava a estar ali, de pé por horas, insistindo em criar experiências de construção de conhecimento com aqueles seres humanos com menos de uma década de vida. Eu estava ali, empenhando todo o meu suor e sangue, por opção. A razão, então, de os dias terem se metido no limbo sem começos e sem finais estava clara: a servidão sistemática havia enforcado a minha paixão e bombardeado minha esperança. 

Nada no mundo, com exceção da mão invisível do capitalismo, me obrigava a estar ali. Certo. E, tampouco, nada no mundo me incentivava a estar ali. Ao contrário, as quatro horas diárias no trânsito, os mendigos nas ruas, o medo, a violência constante, o ódio, os telejornais, a política, o trabalho infantil, o racismo, o sexismo, o desespero, a fome, a miséria, a falta de perspectiva de melhora... Ao contrário, tudo me abatia, literalmente, me cortava aos pedaços e me servia aos lobos. Tudo, tudo, tudo caiu sobre a minha cabeça ali no meio daquela sala de aula. Eu não fazia judô, mas tudo isso me cansava muito mais do que levar uma boa surra de uma judoca profissional. A desesperança espanca calada. 

Pensei em Brown, 
what principles?

Olhando para eles, miúdos em estatura e imensos em amor, sentia, finalmente, meu sangue pulsando. O afeto, a vontade, a paixão, estava tudo ali escondido dentro de mim. Não há em mim qualquer desgosto ao ensinar, mas onde foram parar os principles? Onde foi parar fé de Freire e o cientificismo de Chomsky? Escorreram pelos meus dedos, mas quando? 

As pessoas, vestidas de verde e amarelo, berrando, vieram à minha mente. Os discursos do presidente, professores em retirada, estudantes recebendo bala da polícia, a verba que ninguém sabe se vem, o ataque à ciência, o medo, trabalhadores condenados ao trabalho perpétuo. O país vendo os professores como inimigos. Entendi e doeu once more. A minha paixão pela educação, os principles de Brown, a fé de Freire, tudo sendo esmagado pelo ódio e pela servidão ao capital e é necessário um esforço danado para se levantar, para não se deixar esmagar, para respirar fundo e continuar - ainda que não se saiba bem o quê. Meu cansaço é esse, pensei. Estou cansada é de não me deixar esmagar, não posso me deixar esmagar. 

Respirei, olhei para ela, minha cabeça a mil. Sorri. Respondi
- We say judo

Continuar, ainda que cansada. Swim under the storm.  Comecei minha aula, comecei o dia. 

com amor, 
Ane Karoline

imagem: pinterest


Demais.
Fica ressoando.
A palavra demais fica ressoando demais em minha mente.

You tend to feel too much. 

Sentir demais, falar demais, querer demais. Até, imagine só, exagerar demais. Exagerar demais é pleonasmo, mas também encaixa, também serviu como acusação: você exagera demais. Acabou que, somando as falhas e diminuindo as faltas, deixei de ver como acusação e aceitei -  exagerar demais suits me pretty well

A verdade é que não é exatamente exagero. Eu pego sentimentos para criar, pego-os miúdos e vou cuidando, cultivando, deixo-os graúdos e eles me engolem. Aqui, então, é que eu começo a conversa: estão todos por aí, espalhados, os meus sentimentos. Alguns caindo pelo chão, alguns sendo pisoteados, alguns sendo esquecidos e apagados, alguns sendo cuidados. É que eu tenho muitos, criei vários, catei alguns e me deram outros tantos.

 Eu vou caminhando e sentindo todos eles entranhados em mim. Alguns, os que ficam na cabeça, me lembram o que quero esquecer. Outros, por vezes entopem minhas vias aéreas; por vezes me dão asas. Entretanto, a maioria fica suspensa no ar. Em alguns dias, são massas leves de ar, em outros, são massas densas e quentes que se enroscam nos meus pés e me fazem tropeçar. Não sei se caio ou se me deixo derrubar.

You tend to fall too much.

Cair demais, levantar ainda mais.

Você tenta demais, 
e, então, 
fall apart.

Eu tento demais, 
para, então, 
encontrar 
minhas partes. 

Catando sempre os cacos, sem deixar o demais para trás. O demais é o meu excepcional.

com amor, 
Ane Karoline



imagem: pinterest


- Não é que o mundo fica girando o tempo todo?
- Não é.
- É ou não é?
- É, Mariana.
- Mas a gente não percebe, não é?
- É.


Eu menti para ela. Mariana, com seus intensos olhos castanhos e seus cachinhos, me lembrava cachinhos dourados - historinha que ela mesma, no auge de seus seis anos de idade, não conhecia. Eu menti para ela porque afirmei não perceber o mundo girando comigo dentro, mas percebo: Mariana não conhecer cachinhos dourados já me mostra que o mundo está aí dando todo tipo de giro doido e eu, tonta, dentro. 

Minha vertigem é por isso: minha cabeça quer parar um pouquinho para pensar, mas o mundo inteiro girando o tempo todo e eu não consigo ficar caminhando em círculos assim. Quero caminhar em linha reta, quero partir da vértice e ir: fazer isso, depois fazer aquilo, depois se formar, depois escrever o livro, depois ir à disney, depois beijar na França, depois ter um Golden Retriever, depois ser mestre em ioga, depois fazer isso, depois fazer aquilo outro, e... O mundo girando. O mundo dando voltas malucas feito um kamikaze e eu tentando ficar de pé: quando decido dar um passo, o chão não está mais lá. 

Todo mundo que estava aqui, todos os que sabiam meu endereço, meu telefone, meus gostos, meus sabores, meus amores, meus desejos e meus medos: todos giraram também. Provavelmente estão do outro lado, provavelmente estão na China, quem sabe? Sei que não estão aqui, nada está aqui, nada fica aqui, tudo gira, e eu, junto, capoto. Mas eu finjo que não. Eu ando por aí tentando manter o queixo erguido, tentando manter um pé na frente do outro, tentando equilibrar tudo que sou, tentando ignorar o mundo inteiro chacoalhando.

 A verdade é que, depois de um tempo, a gente percebe o mundo girando, Mariana, mas a gente finge que não vê. A gente finge que não vê o mundo girando e atropelando tudo para não endoidecer, para tentar, além de existir, viver. 

Ane Karoline

Fotografia com baixa velocidade (com câmera estabilizada)
imagem: pinterest

Pensei que seria diferente. O mundo todo girando, seguindo em uma corrida desenfreada em marcha ré, e eu parada, tentando. Eu quero andar para frente. Eu tento tanto, mas minhas pernas são pequenas e eu juro que estou correndo e eu vou enfrentar o mundo todo que vem trotando em marcha ré. A última parte sã da minha cabeça gira e entoa como ciranda: 

What the hell were you thinking? 
What the hell? 
What? 
The hell.
Eu pensei que seria diferente, respondo. 

Alguém me disse um dia que uma menina morreu enforcada com os próprios cabelos, com os próprios sonhos, consigo mesma. Eu fico sem ar, cadê meu fôlego? Eu acordo todos os dias às 3h da manhã para ver se meu cabelo está preso. Todas as noites na hora das bruxas, dos diabos. Eu pequenininha já pensava: eu não posso morrer, tenho que ajudar a mamãe. Uma criança pequenininha já pensa esse tipo de coisa. Eu, miúda, pensava que cresceria e seria grande, imensa, pensava que seria diferente. Pensei que não teria mais pesadelos com aquele dia: a gente indo visitar o vovô e alguém ataca o ônibus. Meu cabelo cheio de caquinhos de vidro, a mamãe passando pente fino e repetindo que eu não tinha nenhum arranhãozinho. Nada. Eu tinha só oito anos e o fôlego falta ainda hoje para contar. Eu tinha só oito. Com oito anos e os pezinhos sangrando, um monte de caquinhos de vidro verde no chão, era vidro de guaraná Kuat, e os pezinhos correndo para pedir ajuda. Eu sem fôlego ainda hoje, acredita? A professora me encarava e reclamava de não ter ido à aula e eu chorava sem lágrimas para dizer que minha décima andorinha tinha morrido. Tudo mentira. Aprendi logo: tudo é mentira. Eu nunca nem tive uma andorinha, é claro, mas queria ser livre como uma. 
peito 
pesa
e eu fico sem ar.

O negócio é que os pezinhos doíam. Meu deus! A professora não deixava tirar as galochas: não pode. Eu pensei que quando passasse mil horas, mil dias, mil semanas... Eu pensei que seria diferente. Eu pensava: quando eu crescer. 
Talvez eu ainda não tenha crescido tudo, será?
Eu ando muito é por isso: para ver se cresço. E crescer dói tanto, meu bem. Eu cresço e, ainda assim, a lama me vem até o pescoço. E eu entendendo tudo. E eu vendo tudo. Eu vendo tudo para não ter que ver mais o cachorro enlameado de ferrugem. 
Eu pensei que seria diferente.
Eu pensei que o mundo caminhava para frente.
Agora vejo: o mundo todo em marcha ré, a onda de gente, de lama, de bicho, de planta, tudo descendo a ladeira. Desmoronando. E eu tentando subir. Eu tentando correr para frente. Vamos!

50
anos
em 
5.
O sofrimento de cinquenta anos em vinte-e-cinco. 

Eu pensei que seria diferente. Seis anos para me emprestarem a tal beca preta por dez minutos, tudo preto, meus olhos lá vidrados e eu sem ver ninguém. Mesmo assim, eu juro para você, eu apostei tudo em nós. Em todos nós. Em todos os nós que achei que poderia desatar. Eu apostei tudo que eu tinha: eu mesma. Let's go, guys, can you, please, 
listen?
Eu tento tanto... Será que tento pouco? Try harder...
Cadê meu fôlego? Me solta! Eu preciso de ar. 
Eu preciso correr porque eu pensei que seria diferente e não é possível que não seja. Nada é possível. Vou ao cinema de novo, então, já que é assim. Vou ao cinema de novo e não é possível que eu não sinta nada. Pega a minha mão, vai, faz com que eu sinta alguma coisa. Faz com que eu sinta dor, pelo menos. Vai embora de novo e me deixa aqui sozinha para que eu sinta aquele choque no peito. Alguém tá ouvindo meu coração ainda? Ele tá batendo tão forte mas tão lento, ele não aguenta tanta força. 
What the hell were you thinking, afinal de contas?
Achou que daria conta?
É que eu pensei que seria diferente e foi por isso que fiz tudo que fiz: vai valer a pena, vai ser diferente, eu vou passar mais tempo com meus pais, vou passar mais tempo com minha melhor amiga que se casou anteontem e não me convidou. 
Silêncio. 
E minha cabeça, meu bem? Minha cabeça ainda está no lugar dela em cima do pescoço? Olha aí para mim que eu não quero passar por doida. Olha aí pra mim. Olha. Ok, guys, expressões idiomáticas: what the hell were you thinking? Diferente... Mas diferente de quê, meu Deus do céu? Eu falei com Ele, eu queria jogar na cara D'Ele: eu pensei que ia ser diferente! Pai nosso que estais no céu... E Ele? Calado. Deus calado. Tá me ouvindo? Ele só me olha, mas calado. Antigamente Ele sussurrava, hoje não. Desde o dia em que Ele ficou calado, eu fiquei também. Não sei mais falar nada, não fale comigo. Se ficar difícil demais de mentir, eu só vou dizer: uô ren rai, estou bem, em chinês. Quem foi que me ensinou isso? Quem foi que me deu essa cabeça imensa que pensa tanto? Que pesa tanto? What were you thinking back then? Eu sei que eu pensei que seria diferente e foi por isso que caminhei com pés sangrentos até aqui. 
Mas e se não for?
Eu não sei. 

Ane Karoline

 
imagem: pinterest

    Chegava na borda da piscina ofegante, sem ar algum nos pulmões, as vias nasais ardendo como se em um passado distante eu houvesse sido um dragão fumegante capaz de soltar fogo pelas ventas, mas na versão humana só restara o incêndio; dentro de mim, por sinal. Todas as vezes em que apoiava as duas mãos molhadas na borda de cerâmica ouvia o barulhinho agudo do cronômetro e o grito: mais rápido, dá para ser mais rápido e mais fundo, o mergulho tem que ser mais fundo. Ao mergulhar de costas para reiniciar, me perguntava como é possível se sentir incendiada, seca, em chamas, mesmo estando imersa em tanta água. 
   Cheguei a pensar que o conjunto dos questionamentos mentais era exatamente o que me fazia atrasar, não conseguia entender o que me atrasava. Nadava, nadava, nadava e não conseguia acelerar o percurso nem por um segundo; nadando sem sair do lugar como quem corre sob o sol e pensa que as pernas não são fortes ou grandes o suficiente, ou como quem está preso em um labirinto e, ainda que trilhe diferentes caminhos, ainda que planeje diferentes estratégias, não consegue resultados diferentes. Ainda que em movimento, eu me sentia paralisada, condenada pela água parada da piscina. Não tinha correnteza e nem onda para me atrapalhar: só eu só a me boicotar. Nadando sempre numa água estática, a mesma água com cloro e sem vida; não era mar, tenho certeza absoluta de nunca ter nadado na liberdade do mar, meus braços e pernas curtos estapearam sempre uma água inerte e infértil, para chegar sempre ao mesmo lugar. 
   No mergulho também não conseguia evoluir: ao tentar mergulhar mais fundo, ficava logo com medo de ancorar e abria os olhos, pupila com cloro não dá. Em todas as tentativas de me entregar ao mergulho, de ir fundo, mergulhar de cabeça, acabava com os olhos vermelhos e inchados como quem chora três dias seguidos por perder o avô ou por perder uma prova de intercâmbio. A diferença é que meus olhos acabavam secos, ardendo muito, e o peito cheio de água - muito diferente do alívio que se sente depois de chorar por três dias seguidos. Mergulhava de costas, saltava ou entrava devagarinho e o resultado era sempre o mesmo: olhos inchados, falta de ar e peito muito cheio, pesado. 
   A última coisa da qual me lembro, além dos gritos, é do cronômetro apitando cada vez mais alto como que para me dizer: mais rápido, mais rápido, mais rápido, você está atrasada, ainda não chegou lá, ainda não conseguiu, não foi rápida o suficiente, você é lenta, você é tardia. Abri a boca e soltei a respiração, que há tanto prendia, dentro d'água. Me permitindo afundar, ancorar, fui movida apenas pelos espasmos do meu próprio afogamento, percebi os barulhos diminuindo gradativamente enquanto constatava que ninguém apareceria para me salvar. 
    Era como se minha vida fosse, então, líquida e não aquele peso duro, seco e estanque. Era como se tivesse que me derreter inteira para tomar outra forma. Era como se... tudo, porque nada, de fato, era. E,então, eu acordei. O despertador me chamava para  natação diária que é a vida.

Ane Karoline

imagem: pinterest


No reflexo no espelho, olho nos olhos do caos: fundos, amarronzados e derretidos. Olho-os tanto que me perco neles, vejo-os líquidos, como um poço sem fundo, infinito e enigmático. Não é como se reconhecesse algo aqui, pelo contrário, perco-me cada vez mais, mas sigo em hipnose, como quem não pode evitar se afundar. Olho o caos tão de perto que não sei mais se o enigma se dá pelo acumulo de coisas ou, ao contrário, pela ausência de tudo; o vazio me parece tão caótico quanto a multidão. 

Por um instante ou dois, consigo me segurar na realidade e amplio a imagem, olho ao redor dos olhos do caos: olheiras esverdeadas, uma sobrancelha mais arqueada que a outra, manchas, muitas manchas; um rosto. Rosto de quem, meu deus? Estou tão perto do caos, tão imersa numa liquidez funda, que não ouço nada, não sei de nada; o nada me esmaga, se infiltra nas minhas células, me desintegrando, não sou mais capaz de me reconhecer. É um esforço me distanciar desse estado de abstração completa, alguém me chama lá longe e eu consigo colocar um pé na realidade. 

Começo, então, a puxar e arrancar tudo o que me sorve para esse centro líquido e caótico, exponho tudo que tenho tentato esconder: uma amiga; um cachorro morto; um bebê desconhecido sorrindo; um atropelamento; a moto voando por cima do canteiro; uma traição; duas traições; pressão; uma viagem cancelada; um apertão no braço direito; o pulso envolvido por uma mão grande; um grito; dezoito gritos engolidos em uma única semana; o sangue escorrendo demais o mês inteiro; o sangramento que não cessa; duas crianças caídas no chão; o menino baleado com uniforme escolar; uma adolescente suicida; vários suicidas desconhecidos; uma criança descalça pisando em cacos de vidro correndo do pai; uma mulher gritando; um beijo sem vida dento do carro escuro; o volante do carro escorrendo das mãos; uma mãe gritando; uma mãe com as mãos queimadas de crack; dois meninos pedindo um lanche; um homem armado; três tiros toda madrugada; a escuridão da rua de baixo; o estuprador atrás da parada de ônibus; uma velhinha caindo no ônibus; dois livros molhados no chão, mofados; uma gota de suor frio na testa, a acusação ecoante: frígida. 

Todas as coisas que constituem o caos estão ligadas por um só fio e, ao puxá-lo, começo a reconhecer o rosto do caos. Vejo, então, os cílios ralos, como os de minha mãe, o nariz redondo, minha marca de catapora na bochecha direita: meu rosto. Caótico e lúcido. Como uma pintura há muito abandonada, escondida por trás de sujeira e mofo, existo. Por cima de mim, existem coisas, dentro de mim, outras tantas; coisa me destruindo, coisas me sufocando, coisas fazendo com o que eu não me reconheça. Ao tocar o fio invisível que as mantém unidas, sou esmagada pela imagem dos meus pés sangrando por dois quarteirões e sei, sem nenhuma dúvida, que vou me fazer em pedaços ao tentar emergir. 

Ainda assim, opto por retirar tudo, cada pedaço, cada memória, cada grito ouvido, cada palavra engolida: destruo tudo. Me transformo em destroços. Quando me olho no espelho e reconheço meus olhos inchados, fundos, amarronzados, mas lúcidos, descubro: é se despedaçando que a gente se refaz. 

Ane Karoline

Guerra! 
Vivemos dias sombrios por aqui; nos becos e vielas o sol não chega
Faz frio e escuto passos se aproximando, meu coração acelera
Dentro de mim, bate forte, tudo grita no silencio desse caos.

Será que a gente não vê? 
Será que você não percebe?
Enquanto não dermos as mãos e fizermos barulho, o horror será banal e tudo será sempre igual

A mão que aperta o gatilho é só o fim, consequência
A causa não está lá;
A caneta não é o perigo, a mão que assina é o problema.

Não sei o que pensar, está tudo tão escuro aqui.
Para onde iremos?
Intervenção! - Uns gritam
Enquanto outros choram: não!

A polícia não é o vilão, mas, sozinha, não é a solução
O buraco é muito mais embaixo, só vemos a ponta dessa confusão
Falta tudo e o povo sofre, apanha na cara todo dia
Quem bate? O Estado - que devia proteger e amparar
Eu não sei mais o que dizer, nem o que pensar.

Tudo isso cansa!

Quem tenta bater de frente é eliminado:
Execução - para calar quem teima em ter voz,
E o medo vai chegando de mansinho, se transformando em nós
Nos prendendo em casa, cortando nossas asas.

Desrespeito, desespero:
Eu não sei o que fazer, dizer
Eu não sei o que cantar para tentar mudar
Eliminar
Tanta crueldade e injustiça desse país.

Eles cometem os crimes,
Corrompem a justiça,
A forçam a “julgar” os crimes que eles cometeram,
Que ironia!
E se a justiça ousa peitar?
Eu repito: execução para calar.

E nesse emaranhado de valores invertidos
A vida não tem valido nada
Aliás, a vida dos oprimidos:
Preto,
Pobre,
Mulher,
Excluídos
- Ou, ainda,
 Qualquer um que tente ousar enfrentar
“Tira do nosso caminho! ” - Ouço um deles falar.

Mas, ainda penso: não é possível que a maldade seja maior que o bem,
A maldade só parece maior porque a propaganda convém: eles gritam e a gente se cala.

Agora, me levanto e digo: já ficamos em silêncio por tempo demais –
Sei disso porque ainda posso pensar, isso não me arrancaram e nem haverão de arrancar
Repito:
Quantos vão precisar morrer até essa guerra acabar?

imagem: pinterest.com


Já cheguei entrando com força e batendo a porta atrás de mim, como se nesse gesto infantil eu pudesse descarregar tudo que vinha pesando dentro do meu peito. Por sorte, não havia ninguém em casa, se o vô estivesse lá, teria gritado do seu quarto quebra não, jóia, e depois teria sorrido. Ele me chamava de jóia desde sempre, minha mãe gostava de contar que no dia em que ela voltou do hospital, comigo a tira colo, ele disse: ela é muito menor do que eu esperava, mas é uma jóia.  Minha cabeça ainda doía e parecia que tinha uma escola de samba enredo a todo vapor dentro dos meus tímpanos. Chutei os sapatos para o canto da sala e resolvi checar meu celular, parecia estar tocando enquanto eu subia as escadas até o apartamento – coisa que eu fazia quando queria evitar conversas com meus vizinhos. Realmente, havia três chamadas perdidas do escritório e uma do celular do número da Aninha – que foi justamente para quem resolvi retornar, seja lá o que tivesse acontecido, ela me diria com mais sinceridade e doçura que a secretária. Ela atendeu no segundo toque:

- Está tudo bem, Cecília? – ela parecia estar mastigando alguma coisa
- Aham, e você? O que houve?
- Comigo? Nada! Você está com dor de cabeça mesmo ou aconteceu algum...a cou... coisa? – definitivamente, eram churros, ela só ficava com a boca cheia assim quando comia churros.
- Eu estou com dor de cabeça mesmo, Aninha. Não está comendo churros em cima da minha mesa, né?
- Hum... Sei não, você saiu daqui com a maior cara de poucos amigos, fiquei preocupada.
- Não se preocupe, só dor de cabeça. Amanhã a gente se fala, tá? – ela já parecia mais tranquila, me recomendou três analgésicos diferentes e disse que mais tarde ligaria.

Me peguei pensando naquela frase por muitos minutos ininterruptos: cara de poucos amigos. Apesar de ter errado em sua previsão – o que eu sentia era pura e simplesmente dor de cabeça – Aninha me conhecia muito bem e deveria saber que se as caras das pessoas estampassem quem elas realmente são, a minha seria exatamente assim: cara de poucos amigos. Principalmente em meus dias mais alegres, nos momentos mais felizes de minha vida, minha feição estamparia com muita força e gratidão a minha condição de ter sempre poucos amigos. Sem contar com meus pais, aos vinte e seis anos de idade, eu tinha exatamente cinco amigos: minha irmã, a Carol, a tia Jô, o Luquinhas da escola, e a Aninha – que agora, desde que o vô falecera, faz o papel de amiga mais engraçada, maluca e cuidadosa. Cabiam todos em minha mão, assim, jamais deixaria de dar assistência a nenhum deles, jamais estaria ocupada demais para nenhum deles e, com relação a mim, eles sempre agiram da mesma forma: nunca deixei de ser importante.
Ao levantar do sofá para procurar os analgésicos indicados pela Aninha, vi meu reflexo desordenado na tela da TV desligada e pensei que, ainda que, por diversas razões, não fosse exatamente com esses pessoas, essa é exatamente a cara que eu ia querer sempre ter: de poucos amigos. Se o vô estivesse sentado ali no sofá, ele me diria que qualidade deve vir antes de qualidade, isso sim é uma jóia.

com amor, 
Ane Karoline 
- texto do desafio 24 textos em 24 horas


imagem: pinterest.com 


Mais uma vez, nada de especial: copo descartável de café na minha mão direita, o que não era lá a melhor ideia para uma pessoa canhota. Lá pelas sete e quarenta e cinco, ele se senta lentamente ao meu lado, de novo. Dessa vez, algumas gotas de água marcam os ombros de sua jaqueta jeans e ele parece meio esbaforido, meio ofegante, apesar de não estar suado. Deve ter corrido, penso. Aproximadamente, quatro minutos se passaram até que ele regularizasse a respiração e, como que para se justificar, soltasse sua frase:

- Que clima maluco, né?!  - a voz dele era tão monótona quanto o primeiro dia em que me disse isso, quatro meses antes. Olhei para ele e vi que havia muita coisa ali mais interessante que isso, havia muita coisa para ser dita, muita coisa que, apesar das minhas investidas, ele nunca havia me dito e, provavelmente, nunca me diria. 

De repente, tudo que eu queria falar estava ali, um jorro de pensamentos, frases prontas, na ponta da minha língua:

Não quero te assustar, se não te respondi quando você falou comigo sobre o clima e nem depois, quando você puxou uma conversa mencionando uma terceira pessoa e minha resposta foi tão murcha quanto uma não reposta, foi por prudência. Não é sempre assim, algumas vezes é pior: eu abro um livro ou coloco os fones de ouvido e encerro a conversa com um meio sorriso amarelado. Não vou mentir, isso acontece porque eu quero desvendar sua alma, quero conhecer seus medos, seus anseios, suas aspirações e inspirações; não quero ouvir você me dizer coisas que já sei, não quero ouvir um tudo bem quando você, claramente, não está bem. Quero pular essa parte, quero mergulhar fundo, mergulhar de cabeça; ao invés de ficar nadando no raso, ensopada de banalidades. 

Sem querer te abalar nem nada, mas é que estranhamento nenhum me causa desnudar minha alma, falar sobre o que eu sinto e sobre como o meu livro favorito me faz sentir como um cavalo novo com fogo nas patas correndo em direção ao mar. Me sinto, sim, deslocada e acometida por uma profunda tristeza sombria quando tenho que enfrentar conversas superficiais que não nos levam a lugar algum, minutos me parecem, então, horas e horas, horas enfadonhas e de um padecimento atroz. Quero pular tudo isso, dar um salto empinado e bem alto, pular esse abismo que é o vale das small talks, quero alcançar seu outro lado, o lado que não está estampado no seu sorriso inventado, o lado de verdade, o lado de dentro; quero poder tocar suas vísceras. 

Terror nenhum quero te causar, mas se pudermos agora mesmo falar sobre o que foi, durante sua infância, que causou essa cicatriz acima da sua sobrancelha direita, é isso que quero. Desejo ardentemente me inteirar sobre você e todas as quedas que te construíram, todos os erros que te fizeram chegar aqui, todas as coisas das quais você sente vergonha e todas das quais você se orgulha, mas sem te invadir, sem me apoderar de você, só quero te conhecer.

O ônibus fez mais uma parada menos de dois minutos depois, respirei fundo, olhei para ele e me limitei a sorrir. Tirei meu livro da bolsa, abri e continuei a ler o mesmo capítulo em que havia parado. 

com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24h



O tempo é caprichoso. Me parece que tudo tem um tempo certo, um tempo próprio, um tempo outro que não o que é conhecido ou esperado. Me parece que, além de dar o melhor de si, não há muito pelo que correr, não há razão para perseguir o que quer que seja; o tempo é caprichado, desenhado, feito para acontecer da melhor forma possível. Afora as vezes em que somos ludibriados, ou que ludibriamos a nós mesmos, tudo tem tempo certo para acontecer. Paciência.

Tanto discorro sobre o tempo porque sou apressada, mas tenho percebido que a pressa só me prende. Este ano muito li sobre tempo e, de alguma forma, certo tanto aprendi. Não sem razão, com carinho, separei os dez livros que mais me disseram, que mais conversaram comigo esse ano. Nove deles foram publicados em anos anteriores, mas acabaram me ensinando exatamente por isso, por serem atemporais. Afinal, não temos sempre que ser uma novidade, certo? 

1- Um sopro de vida - Clarice Lispector
Eu poderia escrever livros sobre o quanto Lispector conversa comigo através de seus escritos e, ainda assim, jamais conseguiria descrever a força com a qual este livro me alcançou. É uma narrativa construída em torno da construção da escrita: escritor e personagem falam. A autora construiu um personagem escritor que, além de falar em terceira pessoa sobre sua personagem fictícia, dá espaço para que a personagem fale de si mesma. Existe uma grande metáfora sobre criação, criador e criatura - além de ser um livro para a vida, recomendo fortemente para quem gosta de escrever. 

2- As meninas - Lygia Fagundes Telles
Posso dizer sem medo e sem vergonha que antes de ler os livros da autora, eu ainda não havia compreendido a infinidade de possibilidades literárias; ainda não havia compreendido como uma obra literária pode ser, ao mesmo tempo, uma obra sociológica e política. Em, "As Meninas", Telles monta, através de narrativas cruzadas de três moças jovens comuns, um retrato político da resistência contra o regime militar no Brasil. É um livro, ao mesmo tempo, sensível, forte e crítico. 

3- Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur
Quando comecei a tomar gosto pela leitura, lá com meus 10 anos de idade, lembro que gostava muito de ler poemas; ainda que não os compreendesse muito bem, passava horas lendo os mesmos poemas. Entretanto, quando me perguntavam sobre poetas, eu sempre mencionava Cecília Meireles e Mário de Andrade; até agora. Há um tempo tenho visto frases soltas e isoladas do livro "Outros Jeitos de usar a boca" (em inglês, "Milk and honey") da poeta Rupi Kaur, mas somente em julho deste ano (por ter recebido de presente de aniversário) pude ler o livro completo. Há muito o que discutir e refletir na obra de Kaur, mas já adianto que recomendo fortemente o livro. A leitura muito me encaminhou em um auto descobrimento de minha feminilidade e na descoberta do amor próprio - apesar de não ser um livro de auto-ajuda. 


4- The bluest eye - Toni Morrison
Aqui, novamente, retomo a reflexão sobre o tempo: um livro publicado em 1970 e que, só agora, o descobri. Na verdade, só descobri essa escritora esplendorosa que é Toni Morrison este ano. Um livro extremamente sensível e, ouso dizer, necessário; traz assuntos essenciais, dos quais aqui destaco o racismo. 

"eu foquei, então, em como uma coisa tão grotesca quanto a demonização de uma raça inteira poderia fazer raízes no interior do membro mais delicado da sociedade: uma criança."


5- Northanger Abbey - Jane Austen
Alguns diriam que sou tendenciosa ao falar de Jane Austen, pois tenho um apreço genuíno pelas obras da autora. Entretanto, apenas este ano pude completar todas as minhas leituras dos romances de Austen, sendo, então, o último deles "A abadia de Northanger". Neste livro, de forma mais intensa que nos lidos anteriormente, a ironia e o senso crítico social da autora se fazem presentes. A trajetória da heroína é muito bem traçada e, tratando-se de uma moça pobre que, enfim, tem a oportunidade de conhecer a sociedade, é uma narrativa muito divertida. 

"Mas quando uma moça jovem tem que ser uma heroína, a perversidade de quarenta famílias ao seu redor, não pode impedí-la. Algo há de acontecer para colocar um herói no caminho dela."


6- Crime e Castigo - Dostoiévski
Apesar de se tratar de um clássico, publicado em 1866, também só tive acesso a esse livro este ano. E que sorte a minha! A graça e sagacidade com que escreve Dostoiévski se abrilhantam nesta narrativa de forma que, apesar de ser um livro extenso, em momento algum chega a ser cansativo. Sem querer estragar a surpresa dos possíveis leitores, me contento em dizer que, além de ser um livro excelente para distração, é uma reflexão e crítica social atemporal.
 

7- Gente Pobre  - Dostoiévski
O primeiro livro escrito pelo autor, nada perde em qualidade para Crime e Castigo. Para quem não gosta de ler livros muito extensos, essa é minha recomendação. É um livro interessantíssimo, curto e todo escrito em cartas - a narrativa é expressa através da troca de cartas entre os personagens principais. 

8- Sombras de reis barbudos - José J. Veiga
Esse vai especialmente para quem gosta de distopias. Além de ser um livro curto, gostoso de ler e divertido, ainda é uma super crítica social expressa através da narrativa contada por um menino. Apesar de, assim como Lygia Fagundes Telles, Veiga ter escrito em meados do período ditatorial brasileiro, o livro é atemporal. 


9 - Veracidade - Isabella de Andrade
Curto, um sopro, um suspiro. Um dos livros mais sensíveis e sensoriais que já tive o prazer de ler. Caso queira mais detalhes, eu já fiz resenha dele aqui no blog, neste LINK

10- Trem bala - Martha Medeiros
Do ano passado para cá, tenho lido bastante Martha Medeiros e, até então, achei que ela fosse uma excelente cronista, isso porque eu não a tinha lido como romancista. É um romance sobre perda, sobre finais e recomeços. Me doeu ler, mas aprendi um bocado. 

E aí, bora ler?

Com amor, 
Ane Karoline




imagem: pinterest

A gente tem tanto medo de estar devendo, tanto medo de ser cobrado pelo que fez e deixou de fazer, que quando, finalmente, decide fazer alguma coisa entra em colapso e começa a se enfiar em problema. Isso é teoria minha, não tem base científica, ela iria adorar. Formulei isso enquanto conferia pela vigésima vez no GPS o caminho que deveria tomar e vi um cara com uma lanterna sinalizando para o acostamento. Não um cara qualquer com uma lanterna qualquer, era um policial na verdade. Porra. Habilitação vencida. Antes de abrir o porta luvas, lembrei que pedi o Júnior para limpar o carro e ele tirou os documentos de lá. Porra. Fui parando, desesperado, nem desliguei o GPS e só me lembrei dele quando ouvi “recalculando rota”. Abaixando o vidro, olhei para as minhas bermudas sujas de molho do sanduíche e me lembrei da última mensagem de ano novo dela “Que você tenha o melhor ano da sua vida, mesmo que você seja um mentiroso”. Certo.

- Boa noite. - fui logo tentando agilizar o processo com o meio metro de policial que me abordava.
- Vamos descobrir agora, ligue a luz interna, por favor. Documentação em mãos.
- Esqueci em casa.
- Onde é que o senhor mora e aonde está indo a essa hora?
- Eu moro duas quadras para trás, vim comprar um sanduíche. – apontei para as bermudas sujas de molho – vim de pijama mesmo, acabei até me sujando.
- E porque o senhor pegou essa via? - Ele me olhou desconfiado. Mentiroso filho da puta, ele deveria estar pensando. Era o mesmo jeito que ela me olhava quando me questionava sobre nós, parece que me lia: mentiroso. Minto. Se for para me salvar, minto. Minto até se for para evitar a fadiga, como era com ela.
- Eu ia pegar o próximo retorno, é mais iluminado e ali embaixo está um fumaceiro desgraçado.
- Desce do carro, por favor. – ele se afastou da porta para que eu a abrisse e se alongou olhando ao redor preguiçosamente. Quando desci, tirei o celular do suporte que ficava acoplado ao duto do ar para que, por via das dúvidas, ele não visse o GPS. Ele deu uma boa olhada no carro, perguntou sobre porte de armas e me deixou ir. Se foi sorte ou azar é que eu não sei. Não sei o que eu fui procurar quando saí de casa, não sei o que eu estava procurando quando fui falar com ela pela primeira vez, mas amaldiçoo as duas vezes: continuei sem encontrar.

Depois de demorar vinte e três minutos dirigindo na velocidade da via, estacionei porcamente na garagem de casa, dei uma checada no celular e vi que o Maurício estava online, mandei uma mensagem convidando para jogar em casa na sexta, para testar. Ele respondeu rápido e eu acabei contando por alto o que tinha acontecido, longos minutos de espera se passaram antes que ele respondesse “liga para ela” e eu liguei. Liguei no impulso, coisa que não era muito minha, ela que era toda impulsiva, toda cheia das maluquices de quem não pode esperar, não pode ponderar e age de forma passional. Três toques. A voz dela era sonolenta, grogue “alô?”. Eu não disse nada, desliguei e disse para o Maurício que não liguei, que a ideia era ridícula. Madrugada de um domingo para segunda, imagina só se eu iria ligar para ela, e se o tal vendedor de seguros atendesse? Certo, ela não costumava ser do tipo que levava um cara para dormir na casa dela, mas e se agora ela fosse? Como é que eu tinha chegado a esse ponto, não sei; tão pouco saberia dizer se era adrenalina, sono ou as cervejas que havia tomado na tarde do domingo. Tudo que sabia era que o tal vendedor de seguros não atendeu o telefone dela e não ligou de volta perguntando quem era; havia uma chance de eles não estarem dormindo juntos e, de repente, isso me pareceu vital: descobrir se ela estaria dormindo com ele, descobrir se ela pintava quadros dele nu com aquele rosto roliço dele, descobrir se eles dividiam a cama e sabe-se lá o quê mais dividiam.

A coisa de pedir conselho para o Maurício era essa: ele não tem paciência e te joga logo no meio do caos. Me mandou procurá-la e, mesmo sem admitir isso para ele, eu fui sem hesitar; como se só precisasse de um cachorro de rua para me olhar como confirmação. Na hora não deu nada, ela dormiu, mas e depois? E se ela ligasse de volta? Eu ia ter que mentir de novo, que diferença isso faria à essa altura? Demorei vinte minutos, ainda dentro do carro, sujo e com frio feito um vagabundo, para conseguir decidir que, caso ela ligasse, eu diria que liguei sem querer, que esbarrei no celular, aliás, que o celular estava no bolso, eu, no bar, esbarrei no celular e nem percebi. No minuto seguinte, decidi como descobriria se estavam juntos ou não; era só isso, prometi para mim mesmo, só descobriria e depois a mandaria para o quinto dos infernos de onde ela nunca deveria ter saído.
Caminhando para dentro de casa, procurei novamente o perfil do vendedor de seguros, encontrei o telefone, abri o aplicativo de mensagens e digitei o que eu achei que seria o atestado de óbito dela dentro de mim “Tenho interesse em fazer um seguro. Podemos nos encontrar amanhã?”

Ane Karoline


imagem: google


Eu não sei se vocês sabem, mas nós aqui de baixo também sentimos. Digo, sei que a ordem aí é fazer rir da cara de quem sua a camisa para manter o país de pé. Sei também que, via de regra, a comédia é para ser feita de nós, sei que somos o elenco engraçado da novela das oito: nosso jeito de falar, nossas roupas de flanela que nunca passaram nem pelas portas da forever 21, nossa coleção de sacolinhas para colocar na lixeira dos nossos banheiros de meio metro quadrado. Somos uma alegoria, vem ver, basta ligar a tevê: morreu, matou, roubou, sucumbiu no corredor do hospital. Os nossos costumes e desgraças fazem a graça da família real. Sei de todas essas coisas, e dumas outras que vocês nem suporiam que alguém que vem de onde eu vim saberia. É por saber, que venho dizer: nosso sentimento também existe, de desespero a gente tem rido, nosso riso é latente: para vocês é um latido. 

Por desesperador que seja, fator de distração, nosso riso - do quão ridícula é essa situação - soa como latidos repetidos: incomoda. Não querem nos ver; querem que sejamos só o backstage, nunca os protagonistas - quem limpa, cuida, aplaude; quem nunca é aplaudido. Isso porque somos o oposto da ideia de perfeição de vocês, assumimos nossa incompletude, não há farsa em nossas mazelas: estão tatuadas em nossa pele - seja nas marcas de Sol, que a falta do protetor solar causa; seja nos calos nas mãos por limparmos as suas casas e as nossas próprias. Somos marcados demais, para que sejamos incluídos no conceito de "perfeição clean" de quem finge que de mãos brancas não escorre sangue negro, indígena, mulato. Somos a marca indelével de que, aqui nesse chão, há o costume de se contruir castelos sobre as cabeças das vidas que parecem valer menos; aqui, tem se feito lucro assim: roubando a parte de quem não é visto. Assim, nossa existência, que é uma resistência, deve ser muito incômoda. Que inoportuno, que grande estorvo deve ser, para quem está aí, admitir que, sim, coexistimos, somos feitos do mesmo barro e pó, nós e vocês teremos todos a mesma fetidez após três dias de morte. É por isso que nos pintam como asquerosos quando, na verdade, somos compositores, têm medo da força que temos quando juntos. 

De compositores que somos, até com nossa desgraça vim compor, escrevo agora como quem grita em silêncio: eis me aqui. Empresto minha voz aos meus, aos que olham o mundo, construído por suas próprias mãos sangrentas, e não se veem refletidos nele, não se veem partes do mundo, não veem espaço no mundo. Escrevo, agora, para dizer que sabemos que não somos invisíveis, nossa invisibilidade foi inventada, é proposital - com o propósito de tomar de nós a nossa parte no mundo, de apagar a nossa subjetividade, como se ela valesse menos. Que pareça um latido, então, isso que digo agora. Que pareça tão cru, tão real, tão cortante, tão pungente e tão banal quanto um latido: nós, os desgraçados, também existimos. E valemos tanto, e valemos quanto, e valemos muito, como vocês - vocês que falam de cima de palanques e de dentro dos estúdios da tevê. A nudez da verdade é essa: fingem que não somos relevantes, repetem isso para que acreditemos, nos tratam como cachorros abandonados, porque sabem; sabem que sem nós, não viveriam um dia. 

Injustiçados, seguimos. Levantamos todos os dias para manter o mundo girando. Desrespeitados, seguimos observando venderem, esbanjarem, destruírem tudo que é nosso, sem nos consultar. A esperança é que ainda temos vida, onde há vida, há verbo: a palavra não podem nos saquear. E, se for verdade isso de que todo escritor tem uma pergunta, venho questionar aqui, senhores-doutores-merítissimos-de-coisa-nenhuma: porque é que pelo que é nosso temos que implorar? 

Ane Karoline

imagem: weheartit.com



A liberdade é uma coisa engraçada: nos liberta de correntes, nos permite seguir, voar, caminhar. A gente vai caminhando, caminhando e, de repente, não sabe mais se está, realmente, andando para a frente ou em círculos. Essa sensação maravilhosa de "tudo eu posso" que estamos (conto com isso) conquistando a cada dia, às vezes faz com que gritemos antes de parar para ouvir, nos faz partir para o ataque antes de entender a proposta do outro. A liberdade é linda, eu posso afirmar. O único probleminha com a liberdade é que ela cruza com respeito: meu espaço acaba onde começa o espaço do outro. Eis a questão: existe lugar mais livre que a internet? Pois então, nesse mundaréu de sites sem donos e caixinhas infinitas para comentários, ninguém parece obedecer a lei mínima de convivência: não invadir o espaço de ninguém.  

Tive a audácia de vir aqui falar sobre o que as pessoas estão falando por razão muito simples: ficou impossível ler qualquer notícia/publicação sem sair devastada pelos comentários. De uns tempos para cá, ficou impossível passar ileso pela internet, sem agressões. E, veja bem, não falo aqui de críticas, não falo aqui de gente que vem expor a opinião numa boa; me refiro a ataques, pancadas, agressão. Me embrulha o estômago abrir uma matéria, em um portal jornalístico qualquer, e perceber o quanto as pessoas, e nós mesmos, perderam a noção do que pode ou não ser dito, perderam o conceito de opinião e acharam o de agressão, no lugar. 

Dia desses vi uma matéria, em algum desses portais online de notícias, sobre uma cantora de funk. Caí na besteira de ler alguns comentários e me afundei em baixaria - gente de tudo que é canto, com tudo quanto é tipo de xingamento. Tinha quem tentasse defender o direito da cantora de se vestir assim ou assado, mas quem quer que tentasse advogar, era acusado de simpatizante da esquerda, vadiagem, luxúria e terrorista contra a família tradicional brasileira. A coisa virou uma briga tremenda, de um monte de gente que não se conhece, para ver quem conseguia ser mais agressivo contras os outros, contra o jornal e contra a cantora. Um monte de gente dessas com perfis e bocas de onde só saem: mais amor, por favor - tipo eu e você. Um monte de gente que acha um horror ver a vizinha comentando a vida alheia. Um monte de gente cheia de ódio, achando que internet é terra de ninguém e que caixa de comentário é ringue de MMA: quem parar de atacar primeiro, perde. Um show de horrores que, infelizmente, não preciso explicar aqui porque sei que todo mundo já viu, afinal, virou cena cotidiana.

Longe de mim delimitar regras, lugares, direitos e deveres. Tá aí uma coisa que tanto não quero, quanto não posso: ditar limites. Mas esse é um limite que a gente tem que ter: é obrigação ter cuidado com o que se vai dizer. É maravilhoso ter voz, eu mesma, que sou escritora em mídias sociais, defendo veemente esse espaço quase democrático que é a internet: gente que nunca teve vez, agora tem mais espaço para se exercer, para gritar, para falar: ei, tô aqui. É avanço? É! Mas ainda precisa ser lapidado. Na sede de emitir, a gente esquece de ouvir e perceber que ninguém tem direito de agressão sobre o outro - nem na internet e nem fora dela.

Acho bonito a garra de ir lá e fazer, de ter audácia e,  principalmente, de ter alguma coisa para dizer. Desde que isso não seja feito através de baixaria, desrespeito, perfis falsos e palavras agressivas. Sem tortura, agressão, palavrão ou pressão psicológica. De não gostar, discordar, desacreditar a gente tem todo o direito, desde que não justifiquemos agressão com "essa é minha opinião", é bem possível opinar sem insultar. 

com amor, 
Ane Karoline.