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dia tal, mês tal, algum ano do passado. 

Venho noites sem dormir com a mente atormentada pelo que tenho a te dizer. 

Isto aqui é um caso de vísceras. 
É um caso visceral. 
É um caso de morte das vísceras. 
Você pode estar sob risco eminente de morte. 
Você pode, também se perguntar quem sou, afinal, para estar com a autoridade em falar sobre vísceras. 
Você pode, então, ter a certeza de que sou alguém com vísceras, portanto, sei quando estão morrendo. 

Então, sente-se e ouça. É urgente. É urgente porque não sei por quanto tempo essa terrível mordaça vai me deixar escrever tudo isso, não sei quando ela vai me parar - o único fato é que vai. É necessária tanta rapidez quanto possível. Você me ouve bem? Não posso parar de dizer isso agora, não sei por quanto tempo a minha veia criativa vai ser capaz de ser mais visceral que a minha veia julgadora - essa tal tem sempre me estrangulado. Pois bem,  se ainda não se sentou, sente-se. O que estou prestes a dizer é catastrófico. 
O fato é cristalino.
Você foi contratado por alguém depois de você ter dito que uma de suas qualidades é o perfeccionismo, por isso, peça suas contas já. Escreva um e-mail, ligue, escreva uma carta, se for necessário. Retire suas coisas do armário, organize sua sala, pegue sua mala e vá embora. 
Não sei o que te falaram, mas não é assim. Não sei se você leu a respeito, se viu filmes ou se viu séries. Não sei qual foi a referência desumana e irreal a qual você, provavelmente inconscientemente, se apegou, mas não é assim. Não é construtivo. Perfeccionismo não é uma qualidade.
Eu sei. Você se orgulhava disso. Aliás, te ensinaram a se orgulhar de uma mentira. De uma neurose. Perfeccionismo é uma neurose. Não, não sou psicóloga, não sou coisa alguma... Mas tenho vísceras e entendo delas. Perfeccionismo é um parasita que se ocupa unicamente de comer nossas vísceras. E dói. E corrói. E enlouquece. E mata.  E depois? A gente é enterrado como insatisfeito, aquele para quem nada estava bom. 
Acredite,
a regra é clara.
Não existe o perfeito. A perfeição é a imperfeição. Agora, se a perfeição não existe, ser perfeccionista é ser de duas uma: tolo ou falso. O tolo é aquele que não sabe, mas acha que sabe, vive dentro da caverna de Platão ainda. O falso é que aquele que sabe, mas finge não saber e engana os outros. E aí, escolha o teu. 
Eu, de minha parte, bem sei agora que nada vai me adiantar ter sido tola ou falsa. O complicado é que parece que agora é fora de moda ter defeitos, ou melhor, assumi-los. Gente de verdade não vende mais, diria um publicitário. Agora pensando cá, vejo que já que não quero mesmo me vender,  já que não há quem vá me comprar, vou deixar as sobrancelhas crescerem e, tem mais, vou assumir minha caligrafia: é esta e pronto.  O perfeccionismo é um plano para impedir a gente de se mover e ponto final.
Antes do ponto final, pergunto:
E você, acha que tem obtido algum lucro nessa maquina de se vender? 

com amor, eu. 

Terminei de ler a carta em silêncio,olhei para a mamãe que, com olhos marejados, encaixotava as coisas de Vó Alminda. Vi que a carta estava endereçada a um tal Alfredo e  resolvi puxar assunto 
- Mãe, quem era Alfredo?
- Não sei. Pode ter sido algum amigo antigo de sua avó, por quê?
- Encontrei um bilhete para ele. 

Ela não respondeu. Dobrei o papel, já desgastado pelo tempo, e o devolvi para o envelope parto intitulado "Cartas a serem reescritas antes de enviar".

Olhei minhas próprias sobrancelhas finas no espelho, vi exatamente o ponto onde Vó foi amordaçada: no final. Concordei em silêncio:  O perfeccionismo é um plano para impedir a gente de se mover, impedir a gente de se ver. 

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Me lembro com clareza da criança que fui, aprendo com ela ainda hoje. Aprendo mais com minha criança que com qualquer outra versão minha. Minha criança sabe exatamente quem eu sou. Me lembro, também com clareza, da expressão gentil e divertida da primeira pessoa que me ensinou sobre crianças. Eu, no auge dos dezoito anos, com o sentimento de quem sabe de tudo, vi que ela me olhava com curiosidade durante toda a aula. Ao final, disse que a pessoa escolhida para o trabalho acadêmico sobre lecionar inglês na primeira infância seria eu. Eu questionei, esbravejei: logo a mim coube a incumbência mais distante do que eu julgava ser a minha personalidade docente. Fiz o trabalho, como me coube, e achei a teoria linda, mas sabia bem que a realidade seria outra - só não sabia que a realidade seria ainda melhor. 

Comecei, enfim, a trabalhar com crianças em 2016. Tudo em mim se quebrou, todas as certezas que eu tinha foram abaladas, todos os meus medos modificados, minha intensidade foi multiplicada por doze cabecinhas: por dois dias semanais, dezesseis horas mensais. Eu ainda não sabia, me seriam elas responsáveis por grande parte de quem  eu sou agora. Agora, passo cerca de cento e vinte horas mensais sendo ponte no processo de ensino-aprendizagem de crianças incríveis e, por mais que a carreira acadêmica me chame, sei que esse processo pelo qual passo - que é, muito provavelmente, temporário - me torna cada dia mais quem eu sou. As minhas crianças são as principais responsáveis pelo meu processo diário de quebra e reconstrução: elas me ensinaram que só a alma permanece, o resto a gente tem que quebrar e reconstruir todos os dias. Ser criança é abraçar a efemeridade da vida.

Pensando, então, nesses seres mestres, separei uma lista com 26 livros infantis (sobretudo, voltados para a primeira infância) e 12 gibis da turma da Mônica para que as letras os façam companhia durante esse momento - além de poderem usar as histórias literárias como inspiração para criar suas próprias, como sei que fazem. Os arquivos em pdf estão disponíveis em duas pastas no google drive para download gratuito. Os títulos dos livros estão descritos abaixo. Desejo boa leitura a todos e, às minhas crianças, até breve. 

Link para download dos livros, CLIQUE AQUI.

Link para download dos gibis, CLIQUE AQUI. 

1. Era uma vez um gato xadrez
2. O homem que amava caixas
3. Você troca?
4.  Lagartinha Comilona
5. O mostro das cores
6. A casa sonolenta
7.  Menina bonita do laço de fita
8.  Marcelo, marmelo, martelo
9. Cada um mora onde pode
10. Bom dia todas as cores
11. Coletânea de poemas
12. Tenho medo mas dou um jeito
13. O grande rabanete
14. O peixinho e o gato
15. Quando me sinto assustado
16. Tenho mais monstros na barriga
17. Os dez amigos
18. Quando me sinto zangado
19. O poço do Visconde
20. Reinações de Narizinho
21. Urupês
22. Peter Pan
23. A borboleta rosa
24. A honestidade sempre vence
25. A festa da muriçoca
26. História das invenções
+
18 gibis da turma da Mônica

com amor, 
Ane Karoline

imagem: https://www.instagram.com/anekar0line/


"Apesar de tudo ainda creio na bondade humana", foi o que li aos quatorze anos e não acreditei. Li isso na tela minúscula do meu Nokia X2 - 01. Li isso dentro do diário de uma menina que também tinha cerca de quatorze anos, uma menina que enfrentava uma guerra mundial, um menina que teve que se esconder em um sótão para não ser morta, uma menina que perdeu a família inteira por conta da maldade humana. Anne Frank, uma menina judia em meio ao holocausto, dizia ainda acreditar na bondade. Foi assim que a literatura me salvou e me mostrou que, em meio ao caos, ainda pode haver esperança. 

Pelo que Anne Frank e muitos outros autores e autoras me ensinaram, resolvi espalhar um pouco de literatura aos que agora, como eu, precisam de palavras de esperança em meio ao caos. Ainda, tendo plena consciência da não rara dificuldade de acesso a livros e, claro, do fato de que nem todos têm hábitos de leitura, resolvi fazer uma lista com 10 livros curtos para serem lidos durante esse tempo de quarentena. Todos os livros, em formato PDF, estão disponíveis para download em uma pasta no google drive. 

Leia e compartilhe, isso também vai passar.

LINK PARA DOWNLOAD: 
encurtador.com.br/aFPV3

Lista de Livros:

1.  Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur

2. A hora da estrela - Clarice Lispector

3. O que o sol faz com as flores - Rupi Kaur

4. O que é lugar de fala? - Djamila Ribeiro

5. Quarto de despejo - Carolina Maria de Jesus

6. Um teto todo seu - Virginia Woolf

7. Pedagogia da autonomia - Paulo Freire

8. Meu quintal é maior que o mundo - Manuel de Barros

9.  A graça da coisa - Martha Medeiros

10. O avesso das coisas - Carlos Drummond de Andrade

com amor, 
Ane Karoline

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imagem: pinterest

Os primeiros raios de Sol não deram exatamente as caras, uma chuva veranil tão pouco. Quanto mais eu dirigia, mais entrava em uma onda acinzentada nublada, o rádio alertava sobre o record de temperaturas altas na Antártida. Menos de 5 km de distância de casa e o trânsito já estava parado, o aplicativo piscava repetindo: em 30 km você chegará ao seu destino. Que destino, afinal? O destino seria, então, fazer um monte de coisas todos os dias mas, ao final, não ter feito coisa alguma? Desisto da rádio,  procuro um podcast para ouvir, já sofro pelos títulos:

 parlamentarismo velado
o maior desmatamento da Amazônia em cem anos
 a menina Ághata
a extinção de 67% dos animais selvagens
os mais famosos memes
a cultura do cancelamento

Sinto que gostaria de conversar com alguém sobre isso, sobre essa impotência, sobre traçar estratégias, sobre desistir, sobre insistir, sobre, ao menos, resistir. Sobre força. Queria subir no teto do carro e perguntar: alguém ainda tem força? alguém aí, ei, ainda tem força para lutar? alguém ainda está lutando? ou já desistimos todos?

Os carros ao lado são todos iguais: cada um com uma pessoa solitária como eu. Os poucos ônibus que passam também são siameses: todos aporrinhados de gente até o teto, gente que poderia estar compartilhando espaço e oxigênio nos carros solitários. O acostamento está cheio de carros furiosos, todos estamos atrasados. 

Entre buzinas, vozes de jornalistas e radialistas, episódios inacabados, e as mesmas músicas repetidas, o aplicativo me diz que o meu destino está à minha direita. Ainda sem sol, sem chuva, sem ar, olho para as nuvens esperando o sinal esverdear. Viro à esquerda, vejo o seu José, todo atribulado carregando uns cones, abrir o portão do estacionamento. Desço do carro ainda enevoada, nublada por dentro. Ajudo seu José a cruzar o estacionamento com os cones. Ele sorri um sorriso ensolarado e me agradece. 

 - Que é isso, fiz nada! - agradeço descrente. 
- Levantar todos os dias, sem desistir, e continuar vendo as pessoas é fazer muita coisa! - me golpeia ele. 

Entrei em minha sala e abri a janela, ainda lutando para ver um céu que em nada me agrada. Seu José me lembrou o que eu teimo em esquecer: quando não há, ainda, como remediar, a força nossa está em não deixar de lutar. Não desistir é chegar lá.

com amor, 
Ane Karoline

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O montante de coragem necessário para pegar a caneta e colocá-la sobre o papel parecia muito mais pesado do que os meus 80 kg. Olhei para os lados: todos pareciam imersos em seus micro trabalhos. Tomei ar e me joguei. 

Mãe, 
sei que de tudo que você poderia ter feito por mim, você fez muito mais. Sei que de tudo que eu poderia fazer por você, não  faço metade. Posso imaginar o que uma mulher solteira, que não teve chance de construir uma carreira, tem que fazer para criar um filho que fale inglês e francês neste país. Me lembro de alguns de seus sacrifícios, de outros tantos eu jamais soube, para que eu me fizesse doutor - título concebido pela carteirinha da OAB, não por doutorado ainda.  Mas, mãe, não nasci para ser doutor, nem de uma forma, nem de outra. Tanto fez, que nada faço: arquivo, digito e converso. Nada faço. Não salvo vidas, como você salvou a minha. Não construo pontes, como você construía entre nossa casa e a sociedade. Não tenho feito coisa alguma porque o que sei fazer não é julgar gente, é descrevê-las, é criá-las, é reinventá-las em histórias. Sou um criador de histórias, lembra que você me dizia isso? E calhou que sei escrevê-las, minha mãe, muito mais que proferi-las. Só que o problema é que sabemos bem, eu e você, ainda que não tenhamos falado sobre isso, que o capital abomina a arte; o artista não é visto como produtor - ainda que todos o consumamos. O capital, minha mãe, é cruel, é como um deus grego que, quando mal humorado, ojeriza ambos adoradores e opositores. O capital não me aceita, mãe, e acho que você já sabe disso. Assim como você me conhece bem, eu também te conheço e conhecendo sua alma como conheço, sei que o desprezo que a sociedade tem pelos artistas jamais te incomodaria em ter filho artista, mas não sei se inventor de histórias coloca pão na mesa e é isso que venho te pedir: tens mais paciência ainda comigo, mãe. Haverei de escrever e, se não tivermos pão, teremos, ao menos, o trigo. Fato é que de tudo que eu poderia fazer por você, não faço metade, mas escrevendo, poderia transcender e fazer, não mais, mas com maior qualidade. Portanto, estou saindo do escritório e indo embora para escrever. Quando estiver com algo pronto, volto. Devo tudo a você. 

Voltei a mim quando senti uma presença se aproximando. Adailton apareceu antes que eu assinasse a carta, dobrei o papel  para que não parecesse distraído. Incisivamente, me cobrou os relatórios e eu os garanti para dali a duas horas. Mais uma vez, não puder fazer o que deveria fazer; o capital não me aceita, mas me amarra. Guardei a carta na pasta, junto com todas as outras para que eu me lembre: enquanto não posso viver de arte, que eu tenha alguma arte para viver. 

Caixa dos Correios feita com caixa de papelão. Excelente atividade para crianças. DIY fácil e simples de fazer
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8h13 da manhã de uma quinta-feira quente. Decidi jogar o envelope fora assim que ela cruzou a porta giratória, mas o abri antes. A caligrafia torta dizia:

Papai do céu, 
Decidi que não vou mais ajudar a vovó. Eu achei que ela não conseguisse entender as coisas que a gente diz e não conseguisse dizer as coisas que ela quer. Só que ontem eu vi que ela escreveu uma carta longa, longa, longa, com uma caligrafia miúda e cursiva - que eu ainda não sei ler. Quer dizer, ela sabe um montão de coisas que eu não sei! Quando o papai me chamou e disse "Julinha, você tem que ajudar a vovó" eu falei com ele isso, mas ele disse que as coisas que ela escreve não são certas. Como não são certas? Pois eu acho bem certas sim, sabe? Fechei os olhos e fiquei pensando como se eu fosse a vovó, pensando que se eu não quisesse muito falar certas coisas, se eu quisesse mais escrever outras coisas, se eu preferisse cantar umas músicas que ninguém conhece, eu ia querer que as pessoas deixassem. Aí, eu estou te escrevendo essa carta só para avisar, então, que não vou mais ajudar a vovó, ela não precisa de ajuda. Eu acho que o papai ainda não entende que o certo da vovó não é igual ao meu certo e ao certo dele. E, na verdade, eu também não entendo as coisas que a vovó diz, mas eu gosto muito dela, por isso, não vou mais ajudar a vovó, vou deixar ela fazer o certo dela. Se você é o papai de todo mundo, deve entender a vovó assim. 

A carta caiu no balcão. Voltei alguns minutos no tempo: Lembrei da Julinha irrompendo porta adentro da agência com pressa e com muitas moedas, lembrei da minha descrença quando ela veio com o papo de carta para Deus, lembrei do dia começando, do computador arcaico marcando 8h02, o café ainda não estava pronto, as buzinas já alucinavam, as duas primeiras pessoas entravam e a minha mente girava sem saber se esse configurava mais um dia de trabalho burocrático ou menos um dia em minha vida. A verdade é que ninguém mais ia  aos correios para enviar cartas - o que era meu trabalho inicial, antes de ser piedosamente realocado no setor burocrático. Agora, as pessoas vão aos correios para: buscar encomendas, devolver encomendas que não gostaram e pagar contas - essa última opção serve melhor às pessoas acima de 50 anos que querem evitar as filas das casas lotéricas e não usam internet banking. Talvez seja justamente esse desvio de função ao qual os correios estão condicionados que faz com eu não tenha sequer um pingo de paciência com as pessoas. Talvez seja a indiferença delas, talvez seja o fato de as pessoas parecerem nada saberem sobre os processos burocráticos e acharem que a culpa se deve a mim,  talvez sejam os pacotes malfeitos, talvez seja só a minha sensação de inutilidade, mas acabo o dia sempre tendo discutido com cerca de dez pessoas e ignorado todas as outras. É exaustivo. Exaustivo ao ponto de entre às 8h02 e 8h03 eu já ter pensado tudo isso e saber, ao menos superficialmente, como seria o esqueleto do dia. Todavia,  esse seria diferente, às 8h13 passou pela porta giratória alguém que sabia das coisas, alguém que despretensiosamente havia entendido tudo. 

Entender o outro é não medi-lo com a nossa régua. 

com amor,
Ane Karoline

O fotógrafo italiano Alessio Albi resolveu criar um ensaio totalmente inovador em que a beleza e a sensualidade das mulheres são misturadas a elementos da natureza.
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Aconteceu como acontecem todas as coisas na vida de quem, como  em Godot, espera sempre, mas sem saber o quê: como um vaso de plantas que cai de uma janela, sem aviso prévio ou chance de teste. A criatura dormiu na espera do que não sabia, acordou na descoberta do que não queria. O acontecido desenrolou-se de forma simples, ela abriu os olhos, viu as mesmas marcas no teto e esperou que algum pensamento matinal repetido viesse. Nada veio, ela pensou em algo para pensar. Pouquíssimos segundos se passaram até que o vaso de plantas caiu no meio da testa sem aviso, a realização veio transvestida de um pensamento calmo: todas as palavras já foram ditas, não há coisa alguma a se dizer.  Não há o que de diferente falar, já falaram tudo. 

O pior veio em seguida, outro pensamento sincero e dissimuladamente calmo completou: todas as palavras estão esvaziadas de sentido. Não é possível seja verdade, mas é. 

Ainda assim, a criatura respira e resolve checar. Vou falar sobre o tal sentido, então. Google, pesquisar:
O que significa sentido:
O que é estar sentido:
Não existe sexto sentido:
Vídeo-aula:
Vídeo-música:
Vídeo-vídeo
Signo:
Significante:

Significado...  Nenhum.

O que, afinal, procurava? Já não sabia. Na era da constante maré alta de foto-vídeo-foto-post-foto-vídeo-mancheterasa-fakenews-fakelife sabia apenas duas coisas: 1 - queria falar; 2 - todas as palavras já foram exaustivamente ditas. E que conjuntura odiosa é saber das coisas, saber do fato de as palavras todas terem sido ditas faz da vida um tormento: Falo? Posto? Escrevo? Não, não, não... Já disseram antes de mim. 

A cabeça, assim, cheia ainda passa alguém e solta um "bom final de semana" e sai. O cérebro, ainda tonto da compreensão, responde uma combinação jamais feita antes "bom amanhã". O alguém, já ao longe, olha para ela e sorri. O vaso de planta na cabeça parece um pouco menos doloroso: "bom" e "amanhã" são palavras repetidas, o significado é direto, mas o sentido é imenso. 

A realização, então, veio novamente sem avisar, mas veio com mais cautela, afinal, se as coisas estão desgastadas e esvaziadas de sentidos, daremos a elas sentidos outros, funções distintas, usos opostos. O que existia ontem, pode já não existir amanhã. 

 com amor, 
Ane Karoline 


5 Surprising Scientific Facts about Earth’s Climate - Foundation for Economic Education
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Existem lugares e lugares. Existem lugares-cartões-postais: para onde muita gente quer ir, para onde muita gente vai nas férias e para onde uma quantidade ainda maior de gente não pode ir - não pode pagar para ir. Essas pessoas que não podem ir aos lugares-cartões-postais moram nos lugares-capas-de-jornais: para onde ninguém quer ir, onde muita gente morre, onde não tem mar, onde não tem escola, onde não tem hospital, onde não tem emprego. Cresci em um lugar-capa-de-jornal. Crescendo em um lugar assim, a opção menos dolorosa de diversão encontrada pelos meus pais foi a Disney. Sim, a Disney. Não, não o parque monumental em Orlando, a Disney em casa - em formato de fitas VHS de todos os filmes. Esse hábito, que me era quase diário, me trouxe muitas coisas boas - inclusive, me livrando dos perigos reais aos quais brincar na rua me exporia - e muitas coisas ruins também - idealização de vida a partir do imperialismo, busca por padrões de beleza, dificuldade em me impor como mulher... Afora as problemáticas (que são assunto para outra conversa), a Disney me permitiu sonhar. É nesse ponto que entramos na data de três de janeiro de 2020, hoje. 

Não sei como era o cinema nos anos 90, quando eu era criança, porque meus pais nunca puderam nos levar ao cinema - fui ao cinema, pela primeira vez em 2001 com minha madrinha. Entretanto, eu sei como é o cinema hoje: hoje o filme Frozen 2 está em cartaz e eu e o João tivemos a chance de ir assisti-lo. Eu tenho 24 anos, o João tem 2, nos conhecemos hoje porque nos sentamos lado a lado para acompanhar as peripécias inventadas no reino gelado. A classificação indicativa do filme é livre, ou seja, o João e eu estamos dentro da mesma categoria: temos idade suficiente para ver o filme. Entretanto, ele tem coisas que eu não tenho - pelo menos, não mais - como coragem de falar com estranhos, espontaneidade à flor da pele, 100% de energia e tamanho suficiente para ficar de pé na poltrona do cinema. Eu, claro, também tenho coisas que ele não tem - pelo menos, ainda - como mais paciência, mais tempo de concentração, história maior para contar, muita vergonha e idade para ter visto Frozen 1. 

Infelizmente, minha história com o João foi muito breve. Acontece que ele é muito conversador, logo nos primeiros minutos, ele decidiu me contar que o cinema estava escuro igual às florestas e que os lobos vivem nas florestas. Assim, ele achou que seria apropriado começar a imitar um lobo, uivou por alguns segundos e todos riram. Pela celebração, e pela demora do Olaf em aparecer na tela, João continuou a uivar - agora de pé na cadeira. Os "shhhhhhh!" começaram. 
"O lobo faz assim ó: auuuuuu"
"shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!"
"o sapo não lava o pé, não lava porque é lelé"
"shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!"
cochichando: "sabe como o lobo faz, mamãe?"
"shhhhhhhhhhhhh"
Após cerca de quinze minutos, o João já havia construído seu próprio show de pé na minha frente, dançando, pulando, cantando e uivando, ora perguntando sobre o filme, ora contando histórias inventadas. A impaciência ao redor venceu e a mãe do João resolveu que era demais, pegou o João pelo braço e foram embora. Dei uma olhada em volta: maioria de adultos. Os adultos terminaram, então, de consumir o american dream sem o João. Eu vim para casa pensando: será mesmo que não cabia o João ali? Onde mais haveria de caber uma criança que em uma sessão de um filme com classificação infantil? Cabia sim.

O que ainda falta no João, por falta de idade, tem que sobrar no adulto: senso de coletividade. A gente não existe só, isolado, aleatório, descontínuo. Pelo contrário, somos a continuidade da criança que fomos. A infância não existe antes, descolada, não é uma pré-vida: a infância já é a vida, a criança é gente. Gente precisa ter experiências, gente precisa conviver com gente, gente precisa viver. Excluir uma criança de um local público é roubar dela a chance de conviver, viver e crescer. Excluir uma criança, com seu comportamento infantil, de um local público, é, também, excluir quem está em situação parental, é excluir, acima de tudo, a chance de quem está em situação parental de viver momentos públicos com a criança, não há nada que substitua isso. 

Se, no filme infantil, o João ainda não tinha maturidade para ficar sentadinho e calado por duas horas, talvez coubesse a todos nós ali - não só à mãe dele, que fez o que pôde - ajudá-lo a passar pela experiência de estar ali pela primeira vez. Poderíamos tê-lo ensinado sobre empatia, paciência e sobre respeitar o espaço alheio, mas não o fizemos. Uma criança é responsabilidade da sociedade inteira. Por fim, posso dizer que me arrependi um bocado de não ter batido um papo verdadeiro com ele e de não  tê-lo convidado para aproveitar a história do filme comigo, sem deixar de ser criança, sem deixar de sonhar.

com amor e educando para a paz, 
Ane Karoline


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Em 2019, eu havia feito um desafio literário com 40 livros (tendo, também, o objetivo de ler mais 10 que estivessem fora do desafio. Entretanto, como já comentei nas postagens anteriores a essa, não consegui cumprir todo o desafio, mas, ainda que eu não o tenha cumprido, o desafio me motivou bastante, assim, farei novamente. Por isso, em 2020, conhecendo melhor minha nova vida de teacher, decidi fazer um desafio menos audacioso: o objetivo é ler 35 livros no total ( sendo, aproximadamente, 3 livros por mês)

O desafio não inclui títulos, inclui apenas tipos/gêneros de literários os quais o leitor deve encaixar em suas leituras. Não há necessidade de cumpri-lo em ordem e, ainda, quem quiser ler só alguns também está convidado. A medida em que eu for lendo, vou postar no instagram e, claro, vou atualizando essa lista aqui. Para motivar ainda mais os leitores, tratarei sempre de divulgar o livro que estarei lendo no momento para que, quem quiser, possa me acompanhar e possamos discutir a respeito.
Vamos ver o desafio, então?

1. Um livro escrito por uma mulher
2. Um livro publicado em 2020
3. Um livro publicado em 2019
4. Um livro indicado por um amigo
5. Um livro em Espanhol
6. Um livro em Inglês
7. Um livro considerado um clássico
8. Um livro de poemas
9. Uma HQ
10. Um livro que comecei a ler e não terminei
11. Um livro escrito por um Brasileiro
12. Um livro estrangeiro
13. Um livro escrito por um autor negro
14. Um livro escrito por uma autora negra
15. Um livro escrito por um autor periférico
16. Um livro sobre sociedade
17. Um livro sobre política
18. Um livro escolhido pela capa
19. Um livro que já foi censurado/banido
20. Um livro escrito no século passado
21. Um livro escrito por um autor asiático
22. Um livro que eu sempre quis ler
23. Um livro escrito por um autor com menos de 30 anos
24. Um livro de fantasia
25. Um livro de contos
26. O primeiro livro de um autor
27. Um livro escrito na década de 60
28. Um livro sobre guerra
29. Um livro infantil
30. Um livro com menos de 150 páginas
31. Um livro sobre escrita
32. Um livro sobre racismo
33. Um livro sobre feminismo
34. Uma distopia
35. Um livro de um/a autor/a que eu goste muito

Vamos participar?

com amor, 
Ane Karoline

Imagem: Ane Karoline


Em 2018, a livraria Saraiva realizou uma promoção, 50% de desconto em livros literários, em detrimento do Dia Internacional da Mulher. Eu comprei alguns livros e, dentre eles, um livro pelo qual eu já tinha interesse há um tempo, mas achava muito caro; Mulheres que correm com os Lobos, da Clarissa Pinkola.  A primeira pessoa interessada pelo livro foi a minha irmã e, por isso, acabei adiando a leitura. Sempre que pegava o livro, desistia de lê-lo. Até que aconteceu, dia 05 de outubro deste ano eu decidi lê-lo. Por que, afinal, julguei importante dizer tudo isso antes de começar a falar do livro propriamente? Porque a minha relação com a literatura é cíclica e sazonal - depende de como estou me sentindo, a fase pela qual estou passando... Enfim, o livro da Clarissa é exatamente sobre isso: ciclos, vida, morte e autoconhecimento.

Depois da minha entrada na vida adulta e, sobretudo, depois do ingresso e conclusão da faculdade, minha opinião acerca de produções literárias está bem mais aguçada, assim como meus gostos mais definidos. Assim, digo com tranquilidade que eu jamais havia lido um livro tão denso. Eu jamais havia lido algo que me forçasse a pausa, que me fizesse ter que fechar o livro para pensar sobre ele antes de ter condições de continuar - algumas vezes, por minutos; algumas vezes, por dias. Eu jamais havia lido qualquer coisa parecida. 

Pois bem, afinal, que livro é esse, então? É mais difícil explicar que sentir, mas ouso tentar.  Mulheres que correm com os lobos, por ter sido escrito por uma psicanalista junguiana, tem um alto teor técnico. Pinkola traz análises profundas a repeito da psiqué feminina, perpassando conceitos chaves da psicanálise. Em suas quase 600 páginas, a autora discorre acerca da vida prática da mulher moderna e como os estilos de vida do século XXI têm, consequentemente, distanciado as mulheres de sua potência feminina natural - que, aqui, nada tem a ver com o que é atualmente visto como feminilidade de gênero culturalmente imposta.  A potência feminina natural, nomeada de Mulher Selvagem, descrita por Pinkola é, sobretudo, relacionada ao autoconhecimento, à conexão com o eu interno - anterior a qualquer conexão e/ou interferência externa. 
Trecho da obra. Imagem: Ane Karoline

A mérito de exemplificação e didática, a autora faz uso de histórias/contos/ditos/lendas populares ao longo de todo livro, partindo sempre da prerrogativa de busca da conexão com o eu interior. Ela lista sinais (sejam comportamentais ou psicológicos) do que seria uma desconexão com o eu interior, com a intuição, com a mulher selvagem. Dentre tantos, um dos que mais me chamou atenção foi relacionado aos sonhos. Eu, que sempre tive pesadelos severos (a ponto de não conseguir dormir por mais de uma noite seguida) e nunca consegui encontrar um padrão e/ou solução para o problema, me vejo estampada em um capítulo inteiro do livro (capítulo 2): a mulher que tem pesadelos perturbadores. Me assustou e me tranquilizou na mesma proporção ler sobre esse fenômeno de uma perspectiva feminina e da psicanálise - é doloroso finalmente aceitar que há algo me incomodando em minha vida e que preciso resolver e, ao mesmo tempo, é reconfortante saber que não sou a única. 

Trecho da obra . Imagem: Ane Karoline

Pelo que posso dizer, o exemplo sobre os sonhos é apenas uma das muitas situações terapêuticas e reais encontradas no livro. A narrativa é um chamado ao despertar, é um chamado feminino à união - consigo mesma e com as outras mulheres; as mulheres que vieram antes, as que vivem agora e as que ainda virão. É um livro de leitura essencial a qualquer mulher adulta, sobretudo em uma sociedade, ainda, patriarcal e que, por anos, tem explorado, de forma midiática estrutural e econômica, a falácia  de que as mulheres são inimigas/rivais.
Trecho da obra. Imagem: Ane Karoline
A todas as mulheres que agora me leem - sobretudo àquelas que, durante esses dois meses, me perguntaram sobre a leitura, fizeram comentários, me chamaram em um canto, me contaram suas próprias histórias: eu sempre soube, mas agora estou certa, que, ao ler esse livro, nós sabemos exatamente sobre o que cada palavra diz. Cada história de cada mulher já existente existe em nós. Juntas, somos uma matilha imbatível. Isso serve para a humanidade inteira. 

com amor, 
Ane Karoline

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Demais.
Fica ressoando.
A palavra demais fica ressoando demais em minha mente.

You tend to feel too much. 

Sentir demais, falar demais, querer demais. Até, imagine só, exagerar demais. Exagerar demais é pleonasmo, mas também encaixa, também serviu como acusação: você exagera demais. Acabou que, somando as falhas e diminuindo as faltas, deixei de ver como acusação e aceitei -  exagerar demais suits me pretty well. 

A verdade é que não é exatamente exagero. Eu pego sentimentos para criar, pego-os miúdos e vou cuidando, cultivando, deixo-os graúdos e eles me engolem. Aqui, então, é que eu começo a conversa: estão todos por aí, espalhados, os meus sentimentos. Alguns caindo pelo chão, alguns sendo pisoteados, alguns sendo esquecidos e apagados, alguns sendo cuidados. É que eu tenho muitos, criei vários, catei alguns e me deram outros tantos.

 Eu vou caminhando e sentindo todos eles entranhados em mim. Alguns, os que ficam na cabeça, me lembram o que quero esquecer. Outros, por vezes entopem minhas vias aéreas; por vezes me dão asas. Entretanto, a maioria fica suspensa no ar. Em alguns dias, são massas leves de ar, em outros, são massas densas e quentes que se enroscam nos meus pés e me fazem tropeçar. Não sei se caio ou se me deixo derrubar.

You tend to fall too much.

Cair demais, levantar ainda mais.

Você tenta demais, 
e, então, 
fall apart.

Eu tento demais, 
para, então, 
encontrar 
minhas partes. 

Catando sempre os cacos, sem deixar o demais para trás. O demais é o meu excepcional.

com amor, 
Ane Karoline



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- Não é que o mundo fica girando o tempo todo?
- Não é.
- É ou não é?
- É, Mariana.
- Mas a gente não percebe, não é?
- É.


Eu menti para ela. Mariana, com seus intensos olhos castanhos e seus cachinhos, me lembrava cachinhos dourados - historinha que ela mesma, no auge de seus seis anos de idade, não conhecia. Eu menti para ela porque afirmei não perceber o mundo girando comigo dentro, mas percebo: Mariana não conhecer cachinhos dourados já me mostra que o mundo está aí dando todo tipo de giro doido e eu, tonta, dentro. 

Minha vertigem é por isso: minha cabeça quer parar um pouquinho para pensar, mas o mundo inteiro girando o tempo todo e eu não consigo ficar caminhando em círculos assim. Quero caminhar em linha reta, quero partir da vértice e ir: fazer isso, depois fazer aquilo, depois se formar, depois escrever o livro, depois ir à disney, depois beijar na França, depois ter um Golden Retriever, depois ser mestre em ioga, depois fazer isso, depois fazer aquilo outro, e... O mundo girando. O mundo dando voltas malucas feito um kamikaze e eu tentando ficar de pé: quando decido dar um passo, o chão não está mais lá. 

Todo mundo que estava aqui, todos os que sabiam meu endereço, meu telefone, meus gostos, meus sabores, meus amores, meus desejos e meus medos: todos giraram também. Provavelmente estão do outro lado, provavelmente estão na China, quem sabe? Sei que não estão aqui, nada está aqui, nada fica aqui, tudo gira, e eu, junto, capoto. Mas eu finjo que não. Eu ando por aí tentando manter o queixo erguido, tentando manter um pé na frente do outro, tentando equilibrar tudo que sou, tentando ignorar o mundo inteiro chacoalhando.

 A verdade é que, depois de um tempo, a gente percebe o mundo girando, Mariana, mas a gente finge que não vê. A gente finge que não vê o mundo girando e atropelando tudo para não endoidecer, para tentar, além de existir, viver. 

Ane Karoline



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Pode ser ficção. Ou não. Eu posso ter inventado a figura de uma pessoa sábia que, enquanto eu chorava aos soluços, tenha me segurado pelos ombros e me dito para seguir sempre em frente, afinal, eu invento várias coisas. Mas, ao mesmo tempo, pode ser a mais pura verdade, como o dia em que minha mãe disse que tudo ia passar, e passou. O fato é que eu não sei, não lembro quando comecei a basear minha vida no ato de seguir em frente, se tivesse que adivinhar diria que foi bem cedo, já que eu entendi o lema de forma errada e o tomei como literal demais, como fazem as criancinhas pequenas. 

Digo que pode ser ficção, mas também pode ser memória falsa, como o dia em que eu rodei, rodei, rodei no balancinho colorido e dei com a testa no chão. Meu cabelo era ralo, mas batia na cintura e eu entrei caladinha, pálida e com a coluna ereta igual à Wandinha Addams, fingindo não ver o fio de sangue escorrer pela testa até ouvir mamãe dizer que deveria estar doendo tanto que eu fiquei abobada. Não sei se foi verdade, mas sei que foi justamente para evitar o abobamento que, depois, quando partiram meu coração pela primeira vez, eu chorei dezesseis lágrimas contadinhas, ou dezessete, talvez, mas não mais que isso, logo segui em frente. Esse foi meu jeito de dar o próximo passo: a dor era tão feia, doía tão fundo, que condensei em dezesseis lágrimas e o resto eu amassei bem amassadinho e escondi no fundo da gaveta da alma. Quando me perguntaram, ainda no dia seguinte, eu sorri e desconversei. Mamãe errou ao achar que eu estava abobada de tanta dor, ao contrário, a letargia sempre foi meu jeito de evitá-la, de fingir que não existia, 

Daí, para o fingimento total, foi um piscar de olhos. Recebi de peito aberto os maiores furacões que a vida me lançou, levantei, ainda que esfrangalhada, depois de cada rasteira que tomei. Uma atrás da outra. Sem ar. Sem parar para respirar. Insisti em me manter de de pé, ainda que sangrando, depois de cada uma das facadas recebidas nas costas. Caminhei sangrando todas e cada uma das manhãs, mas não sabia eu que sangramento que não estanca, mata. Me mantive de pé, mas sem alma. 

Acredite: pode ser tudo ficção! Eu invento até amores, imagine se não vou inventar dores. E já que existe essa possibilidade, ninguém vai saber se minto, vou aproveitar para dizer: eclodiu. Imagine só! A coisa formada por todos os bloquinhos condensados de dor, os quais escondi por todos esses anos, ela tomou vida, tomou minha vida. Ela se alojou na minha garganta e não saía por nada, eu não conseguia falar e nem engolir. Usei os antibióticos para seguir em frente. A coisa se fortaleceu caladinha e me atacou no espelho: acordei com outra cara, com uma cara que denunciava a minha falta de vida, o meu sufocamento, a minha asfixia causada por tanto fingimento.

De tanto fingir que não doía, parei de sentir. Achei que o quer que fosse, eu poderia passar por cima, poderia acordar renovada no outro dia, poderia esconder de todos, poderia desmarcar todos os cafés,  poderia recusar todos os convites, poderia me esconder no trabalho e na ciência. Achei que tinha entendido Clarice que dizia que deve-se viver apesar de, mas não. O que fiz até agora foi seguir em frente apesar de, mas sem vida. Era para lutar pela vida apesar de todos os pesos e pesares, não para passar por cima dela com todos eles. Clarice tentou me ensinar a semear minha vida todos os dias e eu, interpretando como ficção, a vim esmagando ao caminhar. Sorte que a vida é forte e se sustenta: se a gente pensa em esmagá-la, ela é quem, antes, golpeia a gente. 

Sendo a minha história ou a sua, sendo ficção ou não, a tal voz sábia que me disse para seguir sempre em frente esqueceu de me dizer para me levar junto. Só se caminha de verdade quando se está inteiro, se um pedacinho de nós quebrou, é hora de parar para remendar. 

Ane Karoline


 
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    Chegava na borda da piscina ofegante, sem ar algum nos pulmões, as vias nasais ardendo como se em um passado distante eu houvesse sido um dragão fumegante capaz de soltar fogo pelas ventas, mas na versão humana só restara o incêndio; dentro de mim, por sinal. Todas as vezes em que apoiava as duas mãos molhadas na borda de cerâmica ouvia o barulhinho agudo do cronômetro e o grito: mais rápido, dá para ser mais rápido e mais fundo, o mergulho tem que ser mais fundo. Ao mergulhar de costas para reiniciar, me perguntava como é possível se sentir incendiada, seca, em chamas, mesmo estando imersa em tanta água. 
   Cheguei a pensar que o conjunto dos questionamentos mentais era exatamente o que me fazia atrasar, não conseguia entender o que me atrasava. Nadava, nadava, nadava e não conseguia acelerar o percurso nem por um segundo; nadando sem sair do lugar como quem corre sob o sol e pensa que as pernas não são fortes ou grandes o suficiente, ou como quem está preso em um labirinto e, ainda que trilhe diferentes caminhos, ainda que planeje diferentes estratégias, não consegue resultados diferentes. Ainda que em movimento, eu me sentia paralisada, condenada pela água parada da piscina. Não tinha correnteza e nem onda para me atrapalhar: só eu só a me boicotar. Nadando sempre numa água estática, a mesma água com cloro e sem vida; não era mar, tenho certeza absoluta de nunca ter nadado na liberdade do mar, meus braços e pernas curtos estapearam sempre uma água inerte e infértil, para chegar sempre ao mesmo lugar. 
   No mergulho também não conseguia evoluir: ao tentar mergulhar mais fundo, ficava logo com medo de ancorar e abria os olhos, pupila com cloro não dá. Em todas as tentativas de me entregar ao mergulho, de ir fundo, mergulhar de cabeça, acabava com os olhos vermelhos e inchados como quem chora três dias seguidos por perder o avô ou por perder uma prova de intercâmbio. A diferença é que meus olhos acabavam secos, ardendo muito, e o peito cheio de água - muito diferente do alívio que se sente depois de chorar por três dias seguidos. Mergulhava de costas, saltava ou entrava devagarinho e o resultado era sempre o mesmo: olhos inchados, falta de ar e peito muito cheio, pesado. 
   A última coisa da qual me lembro, além dos gritos, é do cronômetro apitando cada vez mais alto como que para me dizer: mais rápido, mais rápido, mais rápido, você está atrasada, ainda não chegou lá, ainda não conseguiu, não foi rápida o suficiente, você é lenta, você é tardia. Abri a boca e soltei a respiração, que há tanto prendia, dentro d'água. Me permitindo afundar, ancorar, fui movida apenas pelos espasmos do meu próprio afogamento, percebi os barulhos diminuindo gradativamente enquanto constatava que ninguém apareceria para me salvar. 
    Era como se minha vida fosse, então, líquida e não aquele peso duro, seco e estanque. Era como se tivesse que me derreter inteira para tomar outra forma. Era como se... tudo, porque nada, de fato, era. E,então, eu acordei. O despertador me chamava para  natação diária que é a vida.

Ane Karoline

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Você se prometeu que leria mais em 2018 mas ainda não conseguiu ler nada? Está de férias e não sabe como passar o tempo? Ou está, simplesmente, à procura de um bom livro? Pois bem, nós fizemos uma lista especial com dez livros maravilhosos para você! Vamos conferir? 

1. O sol na cabeça - Giovani Martins
Livro curto, composto de contos baseados a realidade periférica brasileira;

2. O Circo Mecânico Tresaulti - Genevive Valentine
Tamanho médio, ficção/fantasia, um livro a respeito das relações que tornam pessoas próximas ao ponto de se tornarem família;

3. Jogador nº 1 - Ernest Cline
Livro grande,  infanto juvenil, ficção científica. Fala sobre a humanidade em uma realidade futurística, conectado a vários aspectos da Cultura pop;

4. Sete minutos depois da meia noite - Patrick Ness
Livro curto, fantasia infanto juvenil com uma mensagem muito bonita;

5.A garota das laranjas - Jostein Gaarder 
Livro curto, um romance filosófico;

6.Surpreendente - Maurício Gomyde
Livro de tamanho médio, de um autor brasiliense sobre o valor da amizade;

7.O maravilhoso agora - Tim Tharp
Livro de tamanho médio, um romance sobre quem somos e como o contexto nos influencia;

8. Contos Peculiares - Rasom Rigs
Livro curto, composto de contos baseados nos personagens do livro "O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares";

9. O que o sol faz com as flores - Rupi Kaur
Livro curto, poesia;

10. Novena para pecar em paz - Lisa Alves, Lívia Milanez, Patrícia Colmenero, Paulliny Gualberto e mais cinco autoras brasilienses
Livro curto, composto por contos de não-ficção.

E então, vamos ler?





Era uma vez eu, eu estive convicta de que estava evitando falar sobre como me sinto e sobre todas as atrocidades as quais vejo acontecer. Acontece que até mesmo nessa historinha inventada, eu estava errada: não estava evitando falando sobre isso, estava sendo, sutilmente, silenciada. Mesmo hoje, certa, segura de minhas crenças e minhas lutas, me vejo ainda pisando em ovos, me desculpando desnecessariamente e evitando falar sobre um assunto ou outro porque sei que a resposta vem; e a resposta é violenta, e a resposta tem uma voz mais grossa que a minha, apesar de não ter razão alguma. A resposta que eu recebo é sempre tão irracional que me fez, e ainda faz, cair na pior armadilha de todas: será que estou exagerando? Bom, vamos aos fatos, para citar uma mulher, me valho de uma frase de Ellen Oléria "todo mundo conhece essa história? Pois bem, ela é mais ou menos assim":

Me parece que eu nasci incomodada, porque não sei dizer quando começou, mas tinha sempre uma pulguinha ali que me fazia parecer brava. Quieta, mas brava - aliás, eu sempre me vi brava, os outros me viam estressada. Um menino de nome Moisés jogou minha prova de matemática embaixo do filtro de água da sala de aula e, quando eu revidei, me disseram que eu era uma criança muito estressada; afinal, ele gostava de mim, achava meu cabelo lindo, por isso, havia destruído minha prova de matemática - não passou pela cabeça de nenhum adulto sorridente que eu havia conseguido uma nota muito melhor que o Moisés. Houveram muitos Moisés em todas as etapas da minha vida, alguns mais agressivos, alguns mais manipuladores, alguns mais cínicos, alguns doutores, alguns linguistas, alguns publicitários e alguns engenheiros; todos eles me diminuindo, todos eles me colocando em dúvida, todos eles me envergonhando e me sacaneando de formas diferentes. Todos eles, por fim, me intitularam de muito, muito estressada, irritadíssima. E eu ficava ali, com oito, com dez, com doze, com quinze, com vinte anos, boquiaberta, gaguejando, tremendo por dentro, querendo explicar racionalmente todos os motivos pelos quais eu deveria mesmo estar brava; mas nunca consegui explicar, calava a boca. 

Daí, veio o adesivo de carro com a Dilma de pernas abertas que todo brasileiro deve conhecer: o rosto da presidente unido a um par de pernas bem abertas, deixando um espaço no meio, onde o bico da bomba de gasolina seria inserido. Com o adesivo, vieram os insultos de baixo calão, todos eles referentes à feminilidade ou à sexualidade da presidente; não se preocuparam em atacar seu governo com qualquer racionalidade, atacaram-na, sobretudo, como mulher. Eu ali, sentada no banco do passageiro de um carro dirigido por um homem, comecei a me sentir enjoada, enojada dentro daquele posto de gasolina; me senti violentada e, novamente, não disse nada porque, se dissesse, estaria exagerando. Afinal, qual o problema de desmoralizar (mais uma vez) uma mulher usando o corpo dela como público? O corpo feminino não é público?

Não resolveu, mesmo que meu medo de ser considerada histérica tenha me calado, eu continuei sendo vista como histérica; uma histeria emburrada. Ao invés de ser bonitinha e ordinária, virei a bonitinha, mas histérica. Fala demais. Para quê esse tom mesmo? Se for para falar alto, que seja gemendo, oras. Ou para ser líder de torcida, né? Uma boquinha tão bonita, mas fala demais. 

Não teve jeito, aconteceu foi que de passo em passo, caminhei para a histeria completa quando comecei a acompanhar o trabalho da deputada Manuela D'ávila. Tive que garimpar muito antes de conseguir chegar nela, antes disso, me deparei com um cerco de insultos sexuais ao redor dela. Novamente, pouquíssimos se dispunham a questionar as propostas e os posicionamentos políticos dela racionalmente, insultos e mais insultos. O corpo público dela se estendeu ao processo de maternidade e à Laura (filha dela): todo mundo opinou. Sobre política, nada. 

Demorou, mas consegui. Caminhei de volta para a racionalidade, juntei dois mais dois, quando a situação ilustrativa foi o Michel Temer. O preço da gasolina nas alturas e o máximo que se ouve sobre ele é: corrupto. Nada de adesivos, nada de piada, quando tem insulto, é direcionado à mãe dele. Não vejo, de forma alguma, insultos e zombarias com bons olhos; mas foi só então que percebi como a imagem de um homem, ainda que corrupto, é imaculada. O corpo dele é sacro, do qual ninguém fala, no qual ninguém toca,  sobre o qual ninguém opina. Só política dele é criticada, ele é visto como um profissional - como as mulheres também deveriam ser. 

Aí, eu vi: meus argumentos sempre foram plausíveis, mas não adianta apresentar respostas racionais para pessoas que não me consideram um ser racional, no máximo, inteligente, mas muito emotiva - se for no vigésimo oitavo dia do mês então, né? A ficha foi caindo pedacinho por pedacinho: por mais que eu tenha dez anos no estudo de uma língua, insistem em ouvir a voz do vizinho que conhece inglês só a partir de video-games; por mais que eu passe noites (de bom grado, por sinal) lendo, relendo, procurando acervos, fazendo pesquisas e cursos sobre política, rebatem todas as minhas colocações e aplaudem ao primo que repete discurso de facebook. Mas, agora, isso não me deixa mais com medo; não me deixa mais histérica; me mostra, ao contrário, que devo me colocar mais, falar mais, gritar mais alto, rasgar todos os adesivos de mulheres com pernas abertas. Se tenho que me colocar com mais força, se tenho que estudar duas, três, quatro vezes mais que um homem qualquer para poder ser ouvida, o farei. E, a partir de agora, o próximo que me perguntar " mas você está estressada?" vai saber que o que não me faltam são motivos para estar estressada e que, com maestria, posso enumerá-los, fazer um gráfico deles, escrever um artigo em três línguas diferentes ou, para os mais limitados, desenhar. Quem sabe assim fica mais claro?


Ane Karoline

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Meu bem, não se assuste com minha mania de nudez, eu não gosto de disfarces; para mim, as coisas devem estar sempre tão nuas quanto for possível. Tudo em panos limpos e bem expostos: alma, sentimentos e verdades. É por isso que me desnudo para ti e te revelo coisas que requerem tanta intimidade: não quero que a gente se desgaste tanto para realizar nossas recíprocas vontades. Por isso, repito, sente-se, acalma-se; não chego nesse rompante por querer atordoar-lhe, longe de mim querer roubar a tua paz - eu luto muito para manter a minha própria, imagine se haveria vontade para perturbar a tua.

Apesar de todo o meu exposto deleite em te ter, não quero amarrar você, não posso garantir que ficarei aqui, e nem isso espero de ti. Não estou, e suspeito que nunca estarei, totalmente entregue nem a ti e nem a ninguém; só sou capaz de me entregar por completo a mim. Portanto, não se escandalize ao saber que te amo; não é por exagero, maldade, loucura ou carecimento de coisa alguma que revelo, sem pudor, amar você. Talvez você não tenha me ouvido dizer ainda, mas deve ter notado que te amo pela forma como respiro em sossego perto de ti; deve ter notado que te amo por ter minhas mãos sempre ao alcance das tuas e, sobretudo, deve ter percebido como é fácil para mim estar com você. Não é fácil para mim deixar que as pessoas me acompanhem, me desnudar e conversar sobre meus anseios e receios, mas contigo é. É por isso que sei que te amo e, também, sei que isso assusta você. Pois bem, não se deixe alvoroçar por isso, meu amor é calmaria.

Contudo, e exatamente, por amar você com calmaria é que não me mascaro. A gente vai chegando em uma idade, ou melhor, em uma fase da vida (já que idade não vem com um rótulo de estado de espírito) que se cansa de gente difícil. A graça que pode ter, um dia, existido no mistério de gente que some, gente que tem gosto por complicação, acaba. Pode anotar aí: o fetiche, o desejo latente e o interesse por gente desinteressada, se esvaem. Depois de um tempo, a gente começa a desviar de quem gosta de sonegar sentimento e quando, por acidente, esbarra em alguém assim, procura logo outro rumo.

É assim que te digo que não tenho intenção alguma de tomar o teu espaço, entrar na tua vida com força e roubar a tua paz - nem nada disso quero de ti. O que acontece aqui, na verdade, é que não me atrai em nada criar complicações, mon miel. Se tivermos de jogar, que seja no mesmo time, um jogo que seja aprazível para ambos. Fato é, tesoro mio, que estamos, diariamente, nos acabando, a vida que nos foi dada é finita e, à essa altura, não mais tão longa quando nos era há cinco anos atrás; portanto, por que haveríamos nós de gastar o tempo que temos com complicações desnecessárias? Deixe de se escandalizar com meu desnudamento e traga tuas vontades também à tona; sei bem que há muito aí dentro de ti para evidenciar.

 Ane Karoline



Quem é fruto da periferia tem sempre a cabeça muito cheia. Não é uma escolha: a pessoa nasce e vai crescendo, vai crescendo, vai se fazendo gente e percebendo que a vida de quem nasceu ali é mais difícil que a vida de uns outros tantos. É correndo de bala perdida, ou carregando um fuzil no ombro que, ali por volta dos doze, treze anos, o filho da favela percebe que a vida é selvagem: matar ou morrer. É vendendo o almoço para comprar a janta e entregando panfleto de loja de calçado que a molecada aceita logo cedo o seu destino desgraçado. 

Os filhos da favela são muitos e estão por aí, aglomerados em qualquer ônibus velho; mesmo assim, não são representados: uma maioria esmagadora que vive sendo esmagada. Nem nos livros, nem nos filmes, nem nas telenovelas; ninguém parece querer retratar aqueles que mantém o país andando, ninguém parece achá-los dignos de representação - nem eles mesmos. QWN

Contrariando a maré, Geovani Martins escreve O Sol na Cabeça. O livro é um grito determinado a contar histórias de pessoas silenciadas através da re-humanização daqueles que são sempre marginalizados. Em seus contos, o autor traz à tona as condições de vida das pessoas que vivem nas periferias do Rio de Janeiro no Brasil, coloca sua escrita sobre a linha tênue que existe entre a realidade e a ficção abordando temas reais e atuais através de seus personagens fictícios - os quais, inclusive, representam muitas pessoas reais. 

Dentre os temas abordados no livro estão: o problema do tráfico de drogas nas comunidades, a criminalização de crianças, corrupção policial e intolerância religiosa. Martins coloca tudo de uma forma tão rasgada e natural que é um soco na boca do estômago do leitor ao se deparar com a realidade cruel tão nua - realidade essa que, sempre que possível, é posta de lado, é tida como normal. Citando o autor: "A gente se acostuma com cada bagulho sinistro, que pena é coisa que dá e passa".

De minha parte, só posso dizer que vejo o livro como um manifesto extremamente importante na literatura brasileira. Além disso, acrescento que é muito bem escrito e, sobretudo, que os contos são muito interessantes. Recomendo a leitura a todos e, em especial, a todos os brasileiros.

NOTA: 9,5/10

Ane Karoline


imagem: Ane Karoline

Ninguém me ensinou, ninguém sequer me avisou. Ninguém bateu em minha porta para me alertar, pegou em minha mão para me ensinar e, muito menos, me incentivar. Eu descobri por mim mesma, com livros nas mãos, o que ninguém quis me dizer: uma mulher também pode escrever.

Lembro com vividez o quão absorta eu ficava em minhas tardes aos dez anos de idade: buscava palavras que ligassem os hiatos, rimas, palavras que completassem as lacunas em meus poemas inventados. Escrevia pouco ou quase nada, mas inventava. Nasci inventiva com paixão pela rima, pela prosa e pela poesia - que, por sinal, me dizem mais da vida do que manuais prescritivos secamente escritos. Não fosse essa curiosidade latente, então, eu não teria descoberto; não teria me aberto para a escrivinhação.  Ainda que todos ao meu redor tivessem já, muito cedo, percebido meu anseio em criar  toda hora, nunca direcionaram a mim a palavra escritora. Escritora, inclusive, foi uma palavra que conheci muito, muito recentemente. Me apresentaram, e a isso eu sou grata, os grandes poetas um a um, mas, infelizmente, não me mostraram poetisa alguma. Aprendi, ao contrário, que poetisa é o feminino de poeta; poeta é quem escreve poesia; a poetisa é só uma derivação do verdadeiro criador. 

Mesmo eu tendo mantido diários bagunçados e escrito cartas confusas a todos aqueles com quem convivi em meus tenros anos, nunca me falaram sobre Clarice Lispector; meu professor de português do oitavo ano, quando o questionei sobre ela, me disse apenas que ela era uma escritora "confusa e muito emotiva". Seria melhor, segundo ele, ler algo mais concreto como Machado de Assis. Ele poderia ter me explicado que realismo e modernismo são duas escolas literárias diferentes ao invés de depreciar uma grande escritora - que, ali, estava sendo lida por uma mocinha de treze anos. Talvez eu o tenha assustado. Falo de Clarice mas poderia falar de Cecília Meireles, Adélia Prado e Cora Coralina. Falo de escritoras brasileiras para mostrar o quão fácil seria terem me apresentado tais mulheres de caneta afiada, mas poderia falar das precursoras, poderia falar de Jane Austen, de Emily Bronte, George Eliot e Virginia Woolf. 

Digo tudo isso, construo toda essa teia, para dizer que muito mais fácil, menos insegura e menos dolorosa teria sido minha jornada se tivessem me mostrado os fatos: existiram e existem mulheres extraordinárias e, muitas delas, na literatura. Quando descobri que mulheres podem lutar como Dandara, militar como Hipólita Jacinta, pensar como Nísia Floresta e escrever como Lygia Fagundes Telles, percebi que não estava só. Quando descobri Um teto todo seu, de Virginia Woolf, percebi que ser mulher não é ser o que esperam que sejamos, é ser o que, verdadeiramente, se é e, sobretudo, o que se quer ser: e eu quero ser escritora. 

Durante todo o mês de março, então, em busca de me tornar o que sou e, sobretudo, o que quero ser, me coloquei a ler livros  escritos por mulheres. Reli um e li cinco; seis livros extraordinários escritos, organizados e traduzidos por mulheres extraordinárias. Segue a lista e minha impressão sobre os mesmos. 

1. The Sun and Her Flowers - Rupi Kaur 
Página 143 - the sun and her flowers

   Ano passado (2017) falei em outro texto sobre o livro "Outros jeitos de usar a boca" (originalmente honey and milk) que é o primeiro livro da poetisa Rupi Kaur. The Sun and Her Flowers (traduzido no Brasil para O que o sol faz com as flores) é o segundo livro de poemas da escritora e, ainda mais intensamente que o primeiro, explora a sensibilidade e as obscuridades do universo feminino. Dessa vez, Kaur extrapola para temas de maior profundidade e consegue, em sua síntese, criar uma harmonia singular entre as palavras de forma a convidar o leitor para uma autodescoberta. De todos os poemas, o que mais gostei (apesar de ser muito difícil escolher só um) foi o escrito para a mãe dela, cujo nome é to witness a miracle.

2. Todos os meus ex-heróis são machistas - Taís Bravo

  Também no ano passado, aproveitei a black friday para comprar alguns ebooks baratinhos na Amazon. Contudo, ainda não tive tempo de ler todos e entre os não lidos estava esse livro da Taís Bravo.  Todos os meus ex-heróis são machistas  é um livro pequeno, li em alguns minutos, mas de um impacto gigantesco; me atingiu fortemente. Taís Bravo, usando fluxo de pensamento, discorre sobre as impressões e repressões com as quais conviveu por ser uma mulher e, sobretudo, uma mulher forte e opinativa. 

3. Para educar crianças feministas - Chimamanda Adichie

  Conheci Chimamanda através de um vídeo de sua palestra de nome O perigo da história única  (onde ela fala sobre problemas de representatividade, sobretudo negra, na literatura). Depois de algum tempo, vi sua palestra Todos nós deveríamos ser feministas (onde ela explica de uma forma maravilhosa e bem didática o que é o feminismo e como é benéfico para a sociedade como um todo - homens e mulheres). Na mesma onda de black friday que comprei o livro da Taís Bravo, comprei esse de Chimamanda Adichie pois eu, como professora, me preocupo muito em como não perpetuar o machismo e ensinar nossas crianças formas livres e mais humanas de viver em sociedade. O livro não é exatamente direcionado a professores, mas é uma ótima leitura; ela escreve uma carta para uma amiga Nigeriana, que acaba de ter uma filha, respondendo à pergunta dessa amiga em como educar sua filha para ser feminista. Durante todo o livro, Chimamanda discorre sobre como devemos ensinar às crianças a igualdade e explica como o feminismo e a ideia de igualdade entre os gêneros é benéfica para a sociedade. 

4. Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil - Duda Porto de Souza e Aryane Cararo

  Em reconhecimento ao meu trabalho como escritora e à minha personalidade de leitora voraz, a Companhia das Letras e a Editora Seguinte me mandaram um dos melhores presentes que uma mulher pode receber no dia das mulheres: um livro. Não um livro qualquer, mas um livro que traça a história de mulheres essenciais na história do Brasil - e que, em sua maioria, não são conhecidas. Mulheres das quais eu jamais havia ouvido falar, mulheres que lutaram por direitos dos quais desfruto hoje, mulheres extraordinárias estão reunidas no livro de forma interessantíssima, sucinta e, por sinal, muito bem ilustrada. Além de uma exposição histórica e biográfica dessas mulheres, o livro conta com um panorama histórico da vida das mulheres no Brasil e com um glossário de termos, em geral, desconhecidos. É um livro que, por mim, seria leitura base de história no segundo ensino fundamental (eu sou uma grande incentivadora da educação através da literatura).

5. Profissões para mulheres e outros artigos feministas - Virginia Woolf

   Somente depois de ingressar na Universidade (que, por sinal, é uma das maiores Universidades em pesquisas literárias do mundo), pude ouvir o nome de Virginia Woolf. E, somente agora, em 2018 a li pela primeira vez. Por se tratar de algo muito recente, ainda não sou capaz de dizer o quão grata sou e o quão enormemente cresci através deste livro; é uma pequena coletânea de ensaios e cartas de Virginia Woolf nos quais ela, brilhantemente, discute as mulheres escritoras e como as mulheres são vistas dentro das outras profissões. 

6. Um teto todo seu - Virginia Woolf

   Por último, mas não menos importante (na verdade, esse foi o livro que me inspirou a fazer esse post), venho falar sobre Um teto todo seu. Esbarrei por acaso com esse livro na livraria e, só depois de começar a lê-lo, percebi que se tratava de um lindíssimo ensaio, justamente, sobre escritoras; sobre mulheres da ficção e quais os obstáculos para que uma mulher escreva. Woolf discute bastante sobre os séculos XV e XVI, quando as mulheres eram condicionadas a depender financeiramente de seus maridos (por não serem permitidas a trabalhar e nem a terem posses) e como isso dizimou as chances de que as escritoras pudessem ter voz. Sem mais delongas, recomendo esse livro a todas as escritoras, sobretudo, as iniciantes. 

E então, vamos ler?

Agradecimento especial à Companhia das Letras que tem me enviado livros regularmente e feito de mim uma escritora em construção. 

com amor, 
Ane Karoline