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    Chegava na borda da piscina ofegante, sem ar algum nos pulmões, as vias nasais ardendo como se em um passado distante eu houvesse sido um dragão fumegante capaz de soltar fogo pelas ventas, mas na versão humana só restara o incêndio; dentro de mim, por sinal. Todas as vezes em que apoiava as duas mãos molhadas na borda de cerâmica ouvia o barulhinho agudo do cronômetro e o grito: mais rápido, dá para ser mais rápido e mais fundo, o mergulho tem que ser mais fundo. Ao mergulhar de costas para reiniciar, me perguntava como é possível se sentir incendiada, seca, em chamas, mesmo estando imersa em tanta água. 
   Cheguei a pensar que o conjunto dos questionamentos mentais era exatamente o que me fazia atrasar, não conseguia entender o que me atrasava. Nadava, nadava, nadava e não conseguia acelerar o percurso nem por um segundo; nadando sem sair do lugar como quem corre sob o sol e pensa que as pernas não são fortes ou grandes o suficiente, ou como quem está preso em um labirinto e, ainda que trilhe diferentes caminhos, ainda que planeje diferentes estratégias, não consegue resultados diferentes. Ainda que em movimento, eu me sentia paralisada, condenada pela água parada da piscina. Não tinha correnteza e nem onda para me atrapalhar: só eu só a me boicotar. Nadando sempre numa água estática, a mesma água com cloro e sem vida; não era mar, tenho certeza absoluta de nunca ter nadado na liberdade do mar, meus braços e pernas curtos estapearam sempre uma água inerte e infértil, para chegar sempre ao mesmo lugar. 
   No mergulho também não conseguia evoluir: ao tentar mergulhar mais fundo, ficava logo com medo de ancorar e abria os olhos, pupila com cloro não dá. Em todas as tentativas de me entregar ao mergulho, de ir fundo, mergulhar de cabeça, acabava com os olhos vermelhos e inchados como quem chora três dias seguidos por perder o avô ou por perder uma prova de intercâmbio. A diferença é que meus olhos acabavam secos, ardendo muito, e o peito cheio de água - muito diferente do alívio que se sente depois de chorar por três dias seguidos. Mergulhava de costas, saltava ou entrava devagarinho e o resultado era sempre o mesmo: olhos inchados, falta de ar e peito muito cheio, pesado. 
   A última coisa da qual me lembro, além dos gritos, é do cronômetro apitando cada vez mais alto como que para me dizer: mais rápido, mais rápido, mais rápido, você está atrasada, ainda não chegou lá, ainda não conseguiu, não foi rápida o suficiente, você é lenta, você é tardia. Abri a boca e soltei a respiração, que há tanto prendia, dentro d'água. Me permitindo afundar, ancorar, fui movida apenas pelos espasmos do meu próprio afogamento, percebi os barulhos diminuindo gradativamente enquanto constatava que ninguém apareceria para me salvar. 
    Era como se minha vida fosse, então, líquida e não aquele peso duro, seco e estanque. Era como se tivesse que me derreter inteira para tomar outra forma. Era como se... tudo, porque nada, de fato, era. E,então, eu acordei. O despertador me chamava para  natação diária que é a vida.

Ane Karoline

Fonte:http://theadventurouslife4us.tumblr.com
      Eu não me lembro bem quando aconteceu. Não sei se foi em meio a alguma das promessas quebradas, ou em um daqueles "para sempre" que logo acabam. Só sei que quebrou. Quebrou de forma tão brutal, que ouvi o barulho grave ribombar no interior de meus ouvidos. Era um som distinto, parecido com o estalar de duas pedras que se chocam uma contra a outra, mas em uma escala maior. A sensação foi apenas de vazio, mas também pude sentir a desorganização dentro de mim, como se meus órgãos estivessem fora do lugar, devido à mudança no formato interno do meu corpo. Lembro-me de um frio no estômago e uma sensação de queda que durou longas horas. 
         Na hora pensei "-Já era!". Só depois que o choque havia passado eu pensei em como faria para consertar. Mas já era tarde e eu demorei a entender que daquela vez não tinha conserto. Que havia quebrado em duas metades grandes demais para ser coladas. Acho que devia ter me desesperado, ou algo do tipo, mas, até por consequência da quebra, não conseguia sentir nada. Observei as mudanças na minha personalidade após esse grande momento da minha vida.
        Começou com aquela coisa de não sentir nada, sabe? Nem felicidade nem tristeza, nem prazer nem desgosto. Você apenas vive, seguindo sua rotina, se atendo a planos e às coisas que tem de fazer. Claro que os amigos mais próximos quiseram saber se tinha algo de errado, mas, àquela época eu já sabia como sorrir e dizer que era apenas cansaço. Engraçado como eu achava que viver com um coração partido seria algo mais dramático. Só quando notei que ninguém sequer havia percebido, é que entendi como as pessoas passavam anos vivendo quebradas sem ser notadas. 
       Claro, naquele momento me pareceu a melhor ideia deixar as coisas do jeito que elas estavam. Não estava pronto para lidar com os acontecimentos que haviam me levado ali, ou, na verdade, como mencionei, sequer sabia o real motivo d'aquilo ter acontecido. Mas, aconteceu, e agora eu tinha de lidar com isto. Esperei pacientemente pelos sentimentos que eu sei que viriam. Ah, uma hora viriam! E eu sabia que não seria como um filete de água, mas sim aquela correnteza esmagadora que te faz se trancar no banheiro, ligar o chuveiro, cobrir a boca e chorar um choro silencioso e dolorido. 
       Acho que chorar escondido e se forçar a chorar em silencio é uma das piores torturas ao ser humano.Isso leva a muitas constatações. Como por exemplo, a de que, apesar de ter pessoas às quais você sabe que pode recorrer, você não é corajoso o bastante para fazê-lo. Outra constatação: você quer ficar mal. Não que você esteja se vitimizando, ou querendo chamar atenção, mas existe aquele momento em que você só quer sofrer por aquilo, sem que ninguém tente te fazer sentir melhor ou distrair, ou ainda te dar conselho ou soluções para os seus problemas. Não. Você quer apenas se permitir sentir toda aquela dor, deixar os olhos baixos e ficar o mais calado possível, permitindo que seu corpo e mente sintam toda aquela escuridão, para, só depois, tentar resolvê-la. Não é errado, nem é tentar ser o centro das atenções. É lidar com toda a sua bagunça de frente, sem tentar desviar a dor. 
       Por fim, o tempo realmente faz seu trabalho em direcionar nossa mente para outros assuntos, evitando que continuemos naquele ciclo vicioso de dor e escuridão. As decepções não tem mais o mesmo efeito sobre você, e o positivismo é um passado distante. Um dia você está tomando um leite sozinho, em um tempo frio, ao som de uma música que gosta e nota "sobrevivi". Não estou curado, mas sobrevivo, mesmo com o coração partido. E vem aquela outra constatação: Existe vida após o amor!

- Adolfo Rodrigues


 É saber que você está lá comigo. A certeza de que se eu cair, terei forças para levantar. É a voz calma que sussurra e grita ao mesmo tempo, impedindo que a dor dentro de mim se alastre e me queime por completo. É a boia que flutua acima do meu corpo, que pesa e afunda cada vez mais na água. É a lufada de ar que atinge minha face quando meus pulmões parecem não mais funcionar. É o ponto de equilíbrio quando meu corpo treme tanto, que me confundo com um terremoto.

É a voz que aciona o botão de emergência que há dentro de mim, e normaliza os batimentos do meu coração. É a piada boba, contada para que a minha mente encontre um minuto de tranquilidade. É a palavra amiga, que abre o sorriso que eu precisava. É o elogio profundo, que não atinge apenas o externo, mas encontra a verdade por trás da obra. Incentivo é presença, que vê, torce e acalenta. É a mão que acaricia, procurando aliviar a tensão, o medo.

É o pai que te faz ler contra a sua vontade. A mãe que te impede de brincar até terminar o dever. O irmão que diz que precisam de alguém naquela loja. É o professor que não aceita um trabalho mal feito, pois sabe do seu potencial. É o tio que te indica na empresa dele, pois sabe o quão inteligente você é. É o amigo, que vê sua arte e a elogia, e implora para que você continue, publique, procure um curso, se dedique. É a irmã, que conta para todo mundo o quão bem você faz tal coisa, promovendo você, mesmo que isso te envergonhe. É a avó que te dá dinheiro para seguir em frente.

É a pessoa que fica ao seu lado, sabendo dos riscos que fazer aquilo pode representar. São os amigos que te mandam mensagens de apoio. São as críticas, positivas ou negativas, que te machucam, te moldam e te mudam, amadurecendo você e a sua arte. São as dificuldades, os dois empregos, a faculdade à noite, as dores de coluna, as noites em claro. São as noites encarando o teto, as lágrimas descendo do rosto, as manhãs com cara inchada. É aquela sensação dentro de você, que te diz que você não está sozinho, não importa o quanto pareça estar.

O resultado é se levantar depois de tudo isso, e ser capaz de abstrair toda a dor. Jogar ela contra o branco, e criar. Se derramar, se transmitir, ser parte da arte. É lembrar-se de cada uma dessas pessoas, do bem e do mal que lhe foi feito. Das alegrias e sofrimentos do percurso. E usar isso tudo como incentivo, para quebrar todas as barreiras. Para alcançar mais além. Para provar-se e ao mundo, e assim encontrar a paz. É iniciar o ciclo, se impulsionar usando as pedras no caminho. É certeza incerta. É trabalho árduo.

Incentivo, é viver querendo mais, e para ser mais.

Adolfo Rodrigues