(fonte tumblr)

 A luz na campina era iridescente, fazendo com que as pétalas brilhassem em um tom perolado. O sol iniciava sua descida em direção Oeste, tingindo o céu de cores de veraneio e púrpura. O vento cheirava ao doce das essências de mil flores diferentes, enquanto gentilmente emaranhava os meus cabelos.
Deitada na relva macia e úmida, meu vestido se espalhava pelo chão, dançando sutilmente com o movimento do vento. O seu cabelo refletia a luz do sol, mudando do escuro que era em ambientes fechados, para um ruivo sutil e brilhante.
As íris escuras dos seus olhos haviam se tornado safiras contra aquela iluminação. Enchi-me de um regozijo paradisíaco enquanto observava o reflexo da luz no seu sorriso ousado.
Suas mãos descreviam um arco em minha perna, enquanto seus dedos caminhavam. Cada toque trazia consigo uma descarga elétrica e me deixava mais e mais sedenta pelos seus lábios.
Seu sorriso era ousado e seu riso fazia cócegas em meus ouvidos. Se eu pudesse descrever aquela sensação, seria um misto de chocolate com pimenta. O carinho doce, os olhares cheios de desejo.
Dentro de mim o desejo se contorcia entre diversas ideias, uma mais traiçoeira que a outra. 
Enfim você deitou-se ao meu lado, me olhando nos olhos, entrelaçando nossos dedos. A grama era uma enorme cama, e o céu colorido era o nosso dossel.
Por um instante um pensamento sério refletiu em suas feições. O olhar era profundo cheio de preocupações. Senti o medo na boca do estômago, senti o frio me atingir ali.
Me perguntava o que poderia ter interrompido nosso momento de perfeição.
Como se ecoasse meus pensamentos e a mudança em sua face, o céu escureceu um pouco. O alaranjado tímido do fim da tarde deu lugar a um púrpura escuro e espectral. Quando o vento soprou, era frio e desconfortável.
Você se sentou, olhou para os céus, me deixando ainda mais nervosa.
"Sabe, eu estive pensando..." você começou a dizer.
O medo tomou forma naquele instante. Todos os meus pesadelos passaram por minha cabeça. Em reflexo, tremi. Era como se a noite viesse para reforçar a seriedade do que você estava para dizer.
Então seus olhos encontraram os meus mais uma vez.
"Acho que devíamos nos casar"
E o que era medo, virou alegria, e o que era o fim, virou o começo
A última peça se encaixou, enquanto meu sorriso descrente se abria
A lua seria nossa testemunha
Eu seguiria aquela vida ao seu lado
Tão certo quanto o sol nasceria novamente no dia seguinte...

- Adolfo Rodrigues


Era um questionamento constante, uma inquietação sempre presente em meu coração, uma pulga atrás da orelha. Não precisava de muito para aparecer, bastava estar distraída que as perguntas começavam a pulsar em minha cabeça: o que traz felicidade para sua vida? O que traz felicidade para seu coração? 

O que ocorre é que as repostas para os nossos questionamentos acabam chegando, a minha resposta me encontrou em uma certa tarde de sábado, após ficar o dia todo lendo um de meus muitos livros, para me distrair e para me levar para outros mundos, começou a cair uma churra torrencial. Uma chuva intensa, com relâmpagos e trovões que acabou tirando minha atenção da leitura. Fiquei observando as gotas baterem contra a janela, refletindo, e pensando no sentido e significado da palavra felicidade. Passada meia hora dessa chuva constante, ela foi diminuindo até se transfigurar em uma garoa esparsa. Estava ainda distraída, olhando pela janela, quando escutei meu pai: Filha, venha ver que lindo! 

Corri porta a fora, subi as escadas, e vi meu pai - olhando pro céu e sorrindo. Antes que eu abrisse a boca para questionar o motivo de ter me chamado, fui enfeitiçada pelo céu, vendo uma das cenas mais lindas que já presenciei: um arco íris DUPLO. 

Fiquei tão maravilhada e encantada observando aquela cena, vendo as cores tão vibrantes e lindas daqueles dois arco íris, que pensei: Caramba, presenciar um momento desses, é um motivo para se guardar e ficar feliz. Acabei sorrindo e enchendo meu coração com aquelas cores. A minha felicidade era colorida. 

A chuva de cores me trouxe uma luz: às vezes, pensamos que para sermos felizes precisamos de bens materiais; muitas pessoas à nossa volta; e de viagens para lugares que sonhamos em conhecer. E, na realidade, apenas um momento como esses, de presenciar uma coisa tão linda feita pela natureza e por Deus, já causa felicidade.  Descobri, então, um segredo: felicidade nada mais é que algo que nos traga um sorriso aos lábios; um suspiro feliz; uma emoção; paz, alegria; cores; e conforto ao nosso coração. Compartilho esse segredo com você e te convido: observe mais à sua volta, observe as pequenas coisas, não deixe de observar o céu; e observe os pequenos gestos daqueles que te amam e te rodeiam - que seja um abraço, um sorriso, uma gargalha. Os sorrisos involuntários que virão, a partir dessas coisas, irão te lembrar que são nas pequenas coisas que mora a Felicidade.

Bianca Martins


Fui sobressaltada por me perceber livre. Veio tão de repente que posso jurar que levei um susto e tanto. Foi quase como se uma lâmpada tivesse se acendido em minha cabeça e, finalmente, me mostrasse onde eu estava. O lugar, em si, não era grande coisa: uma mesa redonda em um barzinho qualquer, decidido de última hora. O cenário era animadoramente comum: gente conversando, contando causos e piadas, rindo e compartilhando a alegria gratuita de estar acompanhando de quem quer estar nos acompanhando, alegria essa que aquecia meu coração quando fui atacada por esse susto e no meio de uma gargalhada percebi: não tinha nada a ver com você. Minha felicidade não tem nada a ver com você. Nem com ninguém. Nossa felicidade não deve depender de ninguém.

Para quem for mais sábio que eu, isso deve ser algo óbvio. Mas para mim, até então, não era. Por vezes, me adoeci pela constante titubeação em que deixei que você me colocasse: ora sim, ora não, ora quem sabe. Envelopei minha felicidade e te entreguei: toma. Foi a maior tolice que fiz. Não pela entrega, claro. Quando se trata de entrega, de energia, de se jogar, eu sempre apoio - nada de metades. Mas foi uma tolice. Foi tolice porque a felicidade é coisa singular, ímpar: minha felicidade é minha. É coisa que resolvo comigo, sinto comigo. É claro que, sim, podemos compartilhar momentos felizes com outras pessoas e, sim, as pessoas podem nos alegrar e nos ajudar a encontrar o caminho para a felicidade. Mas, ainda assim, a felicidade é ímpar: um só. Cada um com a sua. O tempo que demorei a perceber isso foi um deserto. E quão infeliz fui.

Quanta infelicidade carreguei dentro do meu peito que, de tão cheio, mal me cabia. Carreguei o peso que tentei colocar em você. Imagina só! Ser responsável pela felicidade de alguém! Um peso e tanto. Agora vejo que você bem que estava em plena lucidez quando recusou, jogou fora o envelope que te dei e foi embora. Realmente, não havia nenhuma possibilidade de você me fazer verdadeiramente feliz. Não existe a possibilidade de alguém me fazer mais feliz do que eu mesma.

Não me entenda mal. Mas o  que me arrebatou foi justamente isso: não foi você quem me fez feliz. Tive momentos felizes com você, claro. Mas tive momentos felizes com quase todo mundo que conheci. Isso não torna ninguém menos especial ou menos necessário em minha vida, mas me fez perceber que o denominador comum entre os raros momentos felizes que tive com você e todos os outros momentos felizes que tive na vida é algo bem simples: eu mesma. O fundamento da minha própria felicidade, bem aqui, no reflexo que vejo no espelho e nas vozes que ouço em minha cabeça. Eu. Ou seja, o susto que levei foi o de entender que - finalmente, livre- minha felicidade não tem nada a ver com você.

com o amor de sempre,
Ane Karoline

imagem por: Ane Kelly

Comecei a chorar, de novo, noite passada. E, de novo, meu primeiro impulso foi conter. Meu primeiro impulso é sempre conter. Mas dessa vez, enquanto tentava engolir as lágrimas, vi no espelho o reflexo de alguém se afogando. Foi assim que chorei a noite inteira. Chorei pelo que foi, pelo que não foi, pelo que poderia ser e pelo que poderia ter sido. Chorei porque me importo com a composição de cada detalhe e foi, aí, que percebi que não há mal nenhum nisso. Chorei porque queria conter. E chorei, principalmente, porque percebi que não chorar melhora sua imagem social- e piora todo o resto  Na verdade, olhando assim, se importar é uma maravilha. É raridade.

 

  Não sei se você vai ter tempo para ler, não sei onde você está e, também, não sei como você vai reagir a isso mas achei que deveria lhe dizer. Achei que deveria lhe dizer que ainda dá tempo. Estava daqui observando e acho que ninguém te contou, não é? Não se preocupe, a gente não nasce sabendo: a gente vai se fazendo. Ninguém me contou também, mas quero muito investir minha energia em dizer-te isto: ainda dá tempo.
  Não precisa me dizer que a vida te ensinou a ser assim, eu já sei. Já sei que o comando sempre foi esse: seja melhor que os outros. Sei que lá no jardim de infância, a tia só pendurou na parede o desenho mais bonito. Sei que só quem grita mais alto é ouvido, sei que só são mencionados os que são tidos como melhores. Eu sei. Sei que os "melhores" são escolhidos por um padrão injusto que, no fim das contas, não sabemos quem foi que inventou. Eu nunca assinei nenhum contrato, nunca disse que queria e nunca concordei com a ideia de estarmos todos sempre competindo. Aposto que você também não. Então, porque estamos nós seguindo uma ideia que, no fim das contas, não nos favorece? Porque estamos agindo de acordo com uma filosofia que não foi pensada por nenhum de nós? A troco de quê, estamos matando-nos uns aos outros? Não ter essas respostas me relembra: ainda dá tempo.
  Não quero impor, insinuar ou sugerir a ideia de que somos todos iguais em grau, número e gênero. Não me apetece o discurso de que, no fim das contas, pensamos as mesmas coisas e temos as mesmas ideias, isso não é verdade. É discurso de quem tem preguiça de ver as singularidades. E, quando digo que ainda dá tempo, quero ressaltar exatamente isso: as singularidades. Nenhum quebra cabeça é montado com peças iguais: é a diferença que nos constrói e faz de nós necessários. Somos todos necessários. Pense por esse lado: olhe a infinitude de coisas que podemos construir. Juntos.  E ainda dá tempo.
  Não vejo um motivo, ou argumento, forte o suficiente para me convencer do contrário: juntos podemos reconstruir todos os laços, podemos reorganizar nossos passos e arrumar toda essa bagunça. Um pensa na forma, o outro vai dando um jeitinho, aquele ali fotografa, o outro aqui traz as cores enquanto uma galera canta para nos aquecer a alma. Uns vão falando e outros escrevendo. A uma ideia boa aqui, outra nem tanto. Uma discordância ali, às vezes, vira um canto. E em meio a tudo isso, você pode, ainda, estar em dúvida: será que ainda dá tempo? Sim.
  Sim. O não nós já temos até agora e, sinceramente, não me parece que tem dado certo assim. Então, sim, te convido a abrir mão, dizer não ao seu troféu de "o melhor", por agora,  para que possamos construir o planeta "dos melhores". Sim, quero investir toda a minha energia em dizer-te isso: ainda dá tempo. 

       
        Chega a ser engraçado perceber o quão contraditórios nós somos.Todo mundo quer mudança, melhora, prosperidade e felicidade mas a gente é de uma moleza descabida para dar a cara a tapa a ponto de uma atitude nova adotar, não é? 
           Outro dia mesmo, a pessoa que vos fala resolveu repaginar e entendeu logo de cara a dificuldade: por onde raios começar? É até surreal mas, algumas vezes, a gente não sabe nem onde a gente está: se é no começo, no meio ou no fim de uma página desse livro surrado que é a nossa vida. Como é que pode? Quer dizer,como alguém pode estar perdido, sendo sufocado e esquecido por entre as páginas do livro da própria vida? Aí é que está: ninguém sabe e, talvez, nem nos caiba saber. E é desse 'não saber' que a sementinha da mudança é plantada: pra quê se apegar tanto aos detalhes? Detalhes que, às vezes, enchem a gente de uma carga tão desnecessária. É isso: a gente tem um apego com uns detalhes que, cá entre nós, são um fardo.