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Saio nas ruas como todas as mulheres do mundo: super consciente de tudo, cuidando de cada passo, cuidando de cada respiração, pronta para correr, carregando nas costas o peso de progenitora da humanidade toda. Enquanto ando, sinto, vejo, escuto. Quando não as vozes, os olhares me dizem: ridícula, patética, enfadonha, penosa. Quando não os olhares, os gelos que recebo me dizem: chata, aporrinhante, importuna, irritante, desagradável. O que, na verdade, as vozes me dizem, é um coro claro: desnecessária. 

Mal sabem todos, que luxo seria esse que esses meus gritos fossem desnecessários. Não sei bem se mal sabem ou se mal querem saber. Afinal, vale alguma coisa minha vida, ou só vale mesmo o útero? 

É bem verdade, como me dizem os opositores, que  não fui oficialmente impedida de ir à escola, não fui oficialmente impedida de cursar universidade, não fui oficialmente inibida de trabalhar, não sou oficialmente obrigada a me comprometer com um matrimônio heterossexual. É bem verdade que muitas outras antes de mim passaram por todas essas situações, foram massacradas, pisoteadas, reduzidas a pó, sem voz e sem vez. A elas devo meu respeito e minha gratidão: me trouxeram onde estou. Todavia, minha luta agora é outra. A minha luta é contra frequente atitude de superestima em relação aos garotos nas escolas, é contra a supervalorização da masculinidade tóxica desde a mais tenra infância, é contra a hiper sexualização infantil (que é recai majoritariamente sobre meninas) é contra a redução de qualquer ser humano a funções biológicas, é contra a interrupção constante das falas públicas de universitárias, é contra a frequente atitude se subestimar pesquisadoras mulheres, é contra o tratamento diferenciando para o pai e para a mãe, é contra a falta de vagas de emprego para mulheres, é contra os salários mais baixos para mulheres que exercem as mesmas funções que homens, é contra a ideia única do matrimônio como finalidade da vida de uma mulher - e somente da mulher, nunca do homem... Sobretudo, é contra o discurso vazio e falacioso de que não existe mais sexismo, de que já há equidade entre os gêneros, de que não já discriminação ou, pior, violência sexual pesando sobre um gênero.  

Saio nas ruas e sinto, vejo e escuto. Sinto o medo que vem de mim e das outras, vejo o jeito silencioso dos olhares que recebemos - os quais nos devoram ou nos reduzem a nada. Escuto a ironia, a descrença e a subestimação cada vez que uma de nós se coloca. É por isso que a luta, apesar de ser a mesma, é outra: é a favor do incentivo à força feminina, é a favor da parceria entre mulheres, é a favor da liberdade feminina, é a favor do espaço para mulheres, é a favor da chance de ser, ao invés de cumprir um protocolo que, não necessariamente, me cabe, me acolhe, me expressa. 

Então, quando me questionam "mas ainda isso, em pleno 2020?" respondo: sim. É ridículo, patético, enfadonho, penoso, importuno, irritante, em pleno 2020 ter que ter esse tipo de conversa retrógrada, mas se há de fazê-lo, aqui estou, não apenas lutando, mas lutando como uma garota - procurando equidade, se não para mim, para as que vierem depois de mim. 

com amor, 
Ane  Karoline

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Entrei correndo esbaforida na sala: menos de um mês para entregar os resultados da pesquisa e eu ainda não havia conseguido as respostas da médica. Pelo meu estado abrupto, inevitavelmente, senti os olhares de todos na sala de espera se virarem para mim. Com o rosto ainda enrubescido pelo sol quente lá fora, me identifiquei na recepção, evitei os olhares de todos ali e me sentei na cadeira mais próxima da porta. Quando meu coração estava quase calmo, se recuperando dos cinco minutos de corrida até o consultório, ela falou comigo.

- Moça, licença. – Apontando para a alça da bolsa sobre a qual eu, distraidamente, me sentara.

Foi então que eu a vi. Era exatamente como eu me lembrava, não fosse por alguns detalhes: as maçãs do rosto haviam murchado, os cabelos longos ondulados e castanhos estavam puxados sobre o ombro esquerdo de um jeito bagunçado e a pele clara, com algumas sardas claras sobre o nariz, estava extremamente arroxeada ao redor dos olhos. Detalhes que a diferenciavam bastante da versão sensual e ameaçadora dela que eu havia conhecido mais de dois anos antes.

- Moça?  - Ela me chamou novamente em um tom que deixou muito claro o fato de que ela não fazia ideia de quem eu era ou, pelo menos, não se lembrava.

- Desculpe! Eu não vi sua bolsa aí. Você é a próxima? – Puxei assunto.
- Não. Acho que vou ter sorte se a doutora me atender hoje.

- Você também está atrasada? Eu fiz de tudo para chegar no horário, mas não consegui. – Sorri. Ela não sorriu de volta

- Não, eu não tenho horário marcado, vim parar aqui porque não sabia para onde mais ir.

Olhei instintivamente para a mão dela à procura da aliança que um dia fora minha, não encontrei. As unhas, que antes me eram motivo de grande admiração, agora estavam roídas e sujas. Com os meus formulários de pesquisa dentro da pasta, fiquei extremamente tentada a perguntar a ela o que havia acontecido, aliás, como havia acontecido. Eu não havia sido a primeira e ela não era a última. Os fatos eu conseguia imaginar sozinha, passados e repassados em minha mente, só queria saber os detalhes: quantas vezes haviam ido ao cinema para pernoitarem juntos pela primeira vez, quantas vezes ele ligou para ela na hora do almoço até parar de ligar, quando foi que ele começou a ignorá-la por dias seguidos, quando foi que ele começou a reclamar de cada escolha que ela fazia, como foi que ele a diminuiu e humilhou, quando foi que ele, finalmente, usou a desculpa de que não havia nada de excepcional entre eles. Eu queria saber quem foi que, inconscientemente, entrou no lugar dela como ela entrou no meu; queria entender como foi que ele fez com ela exatamente o que fez comigo. 

Sentada ali, com as pernas cruzadas e a cabeça recostada na cadeira, ela não parecia ser tão voluptuosa quanto ele me dizia que ela era, parecia outra coisa, outra pessoa. Vestindo um casaco de lã azul anil todo desfiado, ela se parecia com a minha versão de dois anos antes: vulnerável, confusa, despedaçada, desiludida. 

Fiquei tentada, sim, a usar meus formulários como uma desculpa para descobrir tudo o que eu queria e me sentir, falsamente, vitoriosa. Mas quando a doutora me chamou para ajudar com os formulários, eu olhei para a minha direita e a vi, ainda, com os olhos abertos fixos no teto e a ficha me caiu. Percebi que o que eu queria ali era afirmar, mais uma vez, que eu não havia caído naquela armadilha sozinha, não havia me sujeitado aquele relacionamento com aquele sujeito por culpa minha, queria me certificar de que, como eu, outras pessoas inteligentes eram passíveis de serem enganadas e atraídas para a sarjeta. Não era culpa dela e nem minha e não haveria vitória nenhuma em saber os detalhes da desgraça dela, em saber quais novos apelidos carinhosos ele havia inventado para ela e como eles haviam substituídos por agressões. A batalha que eu havia travado e vencido, não era contra ela.

Ao sair do consultório, procurei por ela e a vi de pé, perto da janela, olhando a rua. Me aproximei e disse:

- Eu falei com a doutora, ela vai te atender mesmo sem horário marcado, Daniela.  – Ela me olhou confusa, cerrando os olhos e tombando a cabeça de lado, tentando me reconhecer e eu continuei – Quando foi comigo, meu cabelo caiu pela metade e eu emagreci bastante. Você vai superar, a gente não escolheu por isso, não é culpa nossa.

- Você... Ah, meu deus. – Ela gaguejou ao me reconhecer como a ex.
Ane Karoline





Obs: Caso você sofra qualquer tipo de relacionamento abusivo, procure ajuda. 
ou
Ligue: 188




Era uma vez eu, eu estive convicta de que estava evitando falar sobre como me sinto e sobre todas as atrocidades as quais vejo acontecer. Acontece que até mesmo nessa historinha inventada, eu estava errada: não estava evitando falando sobre isso, estava sendo, sutilmente, silenciada. Mesmo hoje, certa, segura de minhas crenças e minhas lutas, me vejo ainda pisando em ovos, me desculpando desnecessariamente e evitando falar sobre um assunto ou outro porque sei que a resposta vem; e a resposta é violenta, e a resposta tem uma voz mais grossa que a minha, apesar de não ter razão alguma. A resposta que eu recebo é sempre tão irracional que me fez, e ainda faz, cair na pior armadilha de todas: será que estou exagerando? Bom, vamos aos fatos, para citar uma mulher, me valho de uma frase de Ellen Oléria "todo mundo conhece essa história? Pois bem, ela é mais ou menos assim":

Me parece que eu nasci incomodada, porque não sei dizer quando começou, mas tinha sempre uma pulguinha ali que me fazia parecer brava. Quieta, mas brava - aliás, eu sempre me vi brava, os outros me viam estressada. Um menino de nome Moisés jogou minha prova de matemática embaixo do filtro de água da sala de aula e, quando eu revidei, me disseram que eu era uma criança muito estressada; afinal, ele gostava de mim, achava meu cabelo lindo, por isso, havia destruído minha prova de matemática - não passou pela cabeça de nenhum adulto sorridente que eu havia conseguido uma nota muito melhor que o Moisés. Houveram muitos Moisés em todas as etapas da minha vida, alguns mais agressivos, alguns mais manipuladores, alguns mais cínicos, alguns doutores, alguns linguistas, alguns publicitários e alguns engenheiros; todos eles me diminuindo, todos eles me colocando em dúvida, todos eles me envergonhando e me sacaneando de formas diferentes. Todos eles, por fim, me intitularam de muito, muito estressada, irritadíssima. E eu ficava ali, com oito, com dez, com doze, com quinze, com vinte anos, boquiaberta, gaguejando, tremendo por dentro, querendo explicar racionalmente todos os motivos pelos quais eu deveria mesmo estar brava; mas nunca consegui explicar, calava a boca. 

Daí, veio o adesivo de carro com a Dilma de pernas abertas que todo brasileiro deve conhecer: o rosto da presidente unido a um par de pernas bem abertas, deixando um espaço no meio, onde o bico da bomba de gasolina seria inserido. Com o adesivo, vieram os insultos de baixo calão, todos eles referentes à feminilidade ou à sexualidade da presidente; não se preocuparam em atacar seu governo com qualquer racionalidade, atacaram-na, sobretudo, como mulher. Eu ali, sentada no banco do passageiro de um carro dirigido por um homem, comecei a me sentir enjoada, enojada dentro daquele posto de gasolina; me senti violentada e, novamente, não disse nada porque, se dissesse, estaria exagerando. Afinal, qual o problema de desmoralizar (mais uma vez) uma mulher usando o corpo dela como público? O corpo feminino não é público?

Não resolveu, mesmo que meu medo de ser considerada histérica tenha me calado, eu continuei sendo vista como histérica; uma histeria emburrada. Ao invés de ser bonitinha e ordinária, virei a bonitinha, mas histérica. Fala demais. Para quê esse tom mesmo? Se for para falar alto, que seja gemendo, oras. Ou para ser líder de torcida, né? Uma boquinha tão bonita, mas fala demais. 

Não teve jeito, aconteceu foi que de passo em passo, caminhei para a histeria completa quando comecei a acompanhar o trabalho da deputada Manuela D'ávila. Tive que garimpar muito antes de conseguir chegar nela, antes disso, me deparei com um cerco de insultos sexuais ao redor dela. Novamente, pouquíssimos se dispunham a questionar as propostas e os posicionamentos políticos dela racionalmente, insultos e mais insultos. O corpo público dela se estendeu ao processo de maternidade e à Laura (filha dela): todo mundo opinou. Sobre política, nada. 

Demorou, mas consegui. Caminhei de volta para a racionalidade, juntei dois mais dois, quando a situação ilustrativa foi o Michel Temer. O preço da gasolina nas alturas e o máximo que se ouve sobre ele é: corrupto. Nada de adesivos, nada de piada, quando tem insulto, é direcionado à mãe dele. Não vejo, de forma alguma, insultos e zombarias com bons olhos; mas foi só então que percebi como a imagem de um homem, ainda que corrupto, é imaculada. O corpo dele é sacro, do qual ninguém fala, no qual ninguém toca,  sobre o qual ninguém opina. Só política dele é criticada, ele é visto como um profissional - como as mulheres também deveriam ser. 

Aí, eu vi: meus argumentos sempre foram plausíveis, mas não adianta apresentar respostas racionais para pessoas que não me consideram um ser racional, no máximo, inteligente, mas muito emotiva - se for no vigésimo oitavo dia do mês então, né? A ficha foi caindo pedacinho por pedacinho: por mais que eu tenha dez anos no estudo de uma língua, insistem em ouvir a voz do vizinho que conhece inglês só a partir de video-games; por mais que eu passe noites (de bom grado, por sinal) lendo, relendo, procurando acervos, fazendo pesquisas e cursos sobre política, rebatem todas as minhas colocações e aplaudem ao primo que repete discurso de facebook. Mas, agora, isso não me deixa mais com medo; não me deixa mais histérica; me mostra, ao contrário, que devo me colocar mais, falar mais, gritar mais alto, rasgar todos os adesivos de mulheres com pernas abertas. Se tenho que me colocar com mais força, se tenho que estudar duas, três, quatro vezes mais que um homem qualquer para poder ser ouvida, o farei. E, a partir de agora, o próximo que me perguntar " mas você está estressada?" vai saber que o que não me faltam são motivos para estar estressada e que, com maestria, posso enumerá-los, fazer um gráfico deles, escrever um artigo em três línguas diferentes ou, para os mais limitados, desenhar. Quem sabe assim fica mais claro?


Ane Karoline

imagem: Ane Karoline

Ninguém me ensinou, ninguém sequer me avisou. Ninguém bateu em minha porta para me alertar, pegou em minha mão para me ensinar e, muito menos, me incentivar. Eu descobri por mim mesma, com livros nas mãos, o que ninguém quis me dizer: uma mulher também pode escrever.

Lembro com vividez o quão absorta eu ficava em minhas tardes aos dez anos de idade: buscava palavras que ligassem os hiatos, rimas, palavras que completassem as lacunas em meus poemas inventados. Escrevia pouco ou quase nada, mas inventava. Nasci inventiva com paixão pela rima, pela prosa e pela poesia - que, por sinal, me dizem mais da vida do que manuais prescritivos secamente escritos. Não fosse essa curiosidade latente, então, eu não teria descoberto; não teria me aberto para a escrivinhação.  Ainda que todos ao meu redor tivessem já, muito cedo, percebido meu anseio em criar  toda hora, nunca direcionaram a mim a palavra escritora. Escritora, inclusive, foi uma palavra que conheci muito, muito recentemente. Me apresentaram, e a isso eu sou grata, os grandes poetas um a um, mas, infelizmente, não me mostraram poetisa alguma. Aprendi, ao contrário, que poetisa é o feminino de poeta; poeta é quem escreve poesia; a poetisa é só uma derivação do verdadeiro criador. 

Mesmo eu tendo mantido diários bagunçados e escrito cartas confusas a todos aqueles com quem convivi em meus tenros anos, nunca me falaram sobre Clarice Lispector; meu professor de português do oitavo ano, quando o questionei sobre ela, me disse apenas que ela era uma escritora "confusa e muito emotiva". Seria melhor, segundo ele, ler algo mais concreto como Machado de Assis. Ele poderia ter me explicado que realismo e modernismo são duas escolas literárias diferentes ao invés de depreciar uma grande escritora - que, ali, estava sendo lida por uma mocinha de treze anos. Talvez eu o tenha assustado. Falo de Clarice mas poderia falar de Cecília Meireles, Adélia Prado e Cora Coralina. Falo de escritoras brasileiras para mostrar o quão fácil seria terem me apresentado tais mulheres de caneta afiada, mas poderia falar das precursoras, poderia falar de Jane Austen, de Emily Bronte, George Eliot e Virginia Woolf. 

Digo tudo isso, construo toda essa teia, para dizer que muito mais fácil, menos insegura e menos dolorosa teria sido minha jornada se tivessem me mostrado os fatos: existiram e existem mulheres extraordinárias e, muitas delas, na literatura. Quando descobri que mulheres podem lutar como Dandara, militar como Hipólita Jacinta, pensar como Nísia Floresta e escrever como Lygia Fagundes Telles, percebi que não estava só. Quando descobri Um teto todo seu, de Virginia Woolf, percebi que ser mulher não é ser o que esperam que sejamos, é ser o que, verdadeiramente, se é e, sobretudo, o que se quer ser: e eu quero ser escritora. 

Durante todo o mês de março, então, em busca de me tornar o que sou e, sobretudo, o que quero ser, me coloquei a ler livros  escritos por mulheres. Reli um e li cinco; seis livros extraordinários escritos, organizados e traduzidos por mulheres extraordinárias. Segue a lista e minha impressão sobre os mesmos. 

1. The Sun and Her Flowers - Rupi Kaur 
Página 143 - the sun and her flowers

   Ano passado (2017) falei em outro texto sobre o livro "Outros jeitos de usar a boca" (originalmente honey and milk) que é o primeiro livro da poetisa Rupi Kaur. The Sun and Her Flowers (traduzido no Brasil para O que o sol faz com as flores) é o segundo livro de poemas da escritora e, ainda mais intensamente que o primeiro, explora a sensibilidade e as obscuridades do universo feminino. Dessa vez, Kaur extrapola para temas de maior profundidade e consegue, em sua síntese, criar uma harmonia singular entre as palavras de forma a convidar o leitor para uma autodescoberta. De todos os poemas, o que mais gostei (apesar de ser muito difícil escolher só um) foi o escrito para a mãe dela, cujo nome é to witness a miracle.

2. Todos os meus ex-heróis são machistas - Taís Bravo

  Também no ano passado, aproveitei a black friday para comprar alguns ebooks baratinhos na Amazon. Contudo, ainda não tive tempo de ler todos e entre os não lidos estava esse livro da Taís Bravo.  Todos os meus ex-heróis são machistas  é um livro pequeno, li em alguns minutos, mas de um impacto gigantesco; me atingiu fortemente. Taís Bravo, usando fluxo de pensamento, discorre sobre as impressões e repressões com as quais conviveu por ser uma mulher e, sobretudo, uma mulher forte e opinativa. 

3. Para educar crianças feministas - Chimamanda Adichie

  Conheci Chimamanda através de um vídeo de sua palestra de nome O perigo da história única  (onde ela fala sobre problemas de representatividade, sobretudo negra, na literatura). Depois de algum tempo, vi sua palestra Todos nós deveríamos ser feministas (onde ela explica de uma forma maravilhosa e bem didática o que é o feminismo e como é benéfico para a sociedade como um todo - homens e mulheres). Na mesma onda de black friday que comprei o livro da Taís Bravo, comprei esse de Chimamanda Adichie pois eu, como professora, me preocupo muito em como não perpetuar o machismo e ensinar nossas crianças formas livres e mais humanas de viver em sociedade. O livro não é exatamente direcionado a professores, mas é uma ótima leitura; ela escreve uma carta para uma amiga Nigeriana, que acaba de ter uma filha, respondendo à pergunta dessa amiga em como educar sua filha para ser feminista. Durante todo o livro, Chimamanda discorre sobre como devemos ensinar às crianças a igualdade e explica como o feminismo e a ideia de igualdade entre os gêneros é benéfica para a sociedade. 

4. Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil - Duda Porto de Souza e Aryane Cararo

  Em reconhecimento ao meu trabalho como escritora e à minha personalidade de leitora voraz, a Companhia das Letras e a Editora Seguinte me mandaram um dos melhores presentes que uma mulher pode receber no dia das mulheres: um livro. Não um livro qualquer, mas um livro que traça a história de mulheres essenciais na história do Brasil - e que, em sua maioria, não são conhecidas. Mulheres das quais eu jamais havia ouvido falar, mulheres que lutaram por direitos dos quais desfruto hoje, mulheres extraordinárias estão reunidas no livro de forma interessantíssima, sucinta e, por sinal, muito bem ilustrada. Além de uma exposição histórica e biográfica dessas mulheres, o livro conta com um panorama histórico da vida das mulheres no Brasil e com um glossário de termos, em geral, desconhecidos. É um livro que, por mim, seria leitura base de história no segundo ensino fundamental (eu sou uma grande incentivadora da educação através da literatura).

5. Profissões para mulheres e outros artigos feministas - Virginia Woolf

   Somente depois de ingressar na Universidade (que, por sinal, é uma das maiores Universidades em pesquisas literárias do mundo), pude ouvir o nome de Virginia Woolf. E, somente agora, em 2018 a li pela primeira vez. Por se tratar de algo muito recente, ainda não sou capaz de dizer o quão grata sou e o quão enormemente cresci através deste livro; é uma pequena coletânea de ensaios e cartas de Virginia Woolf nos quais ela, brilhantemente, discute as mulheres escritoras e como as mulheres são vistas dentro das outras profissões. 

6. Um teto todo seu - Virginia Woolf

   Por último, mas não menos importante (na verdade, esse foi o livro que me inspirou a fazer esse post), venho falar sobre Um teto todo seu. Esbarrei por acaso com esse livro na livraria e, só depois de começar a lê-lo, percebi que se tratava de um lindíssimo ensaio, justamente, sobre escritoras; sobre mulheres da ficção e quais os obstáculos para que uma mulher escreva. Woolf discute bastante sobre os séculos XV e XVI, quando as mulheres eram condicionadas a depender financeiramente de seus maridos (por não serem permitidas a trabalhar e nem a terem posses) e como isso dizimou as chances de que as escritoras pudessem ter voz. Sem mais delongas, recomendo esse livro a todas as escritoras, sobretudo, as iniciantes. 

E então, vamos ler?

Agradecimento especial à Companhia das Letras que tem me enviado livros regularmente e feito de mim uma escritora em construção. 

com amor, 
Ane Karoline

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Hesitante mais uma vez, no exato instante de agora, hesito. Mesmo agora, mesmo sendo quem tem propriedade para falar, mesmo sendo quem sente na pele todos os dias, hesito. Oscilo, me equilibro nessa corda bamba, que é ser mulher, enquanto vejo a torcida para a minha queda; me querem de joelhos. Quanto mais de pé fico, mais forte vejo ambas a euforia e a animosidade crescerem em repúdio à minha audácia. Se pedras haverão de me atirar, de pé estarei. É de pé que venho dizer o que me inflama o peito porque, assim, não admito que beltrano algum venha colocar o bedelho: aconteceu comigo e o espaço de fala é meu. 

Minha memória, para azar da maioria, é excelente, então, me lembro bem quando começou. Eu tinha exatos DEZ anos de vida e ganhei de aniversário uma calça legging rosa claro, o tecido era algodão grosso com laycra, não era transparente, mas era uma calça legging. Lembro-me, ainda, que  recebia incentivos dos meus pais para me empenhar mais nas aulas de educação física - nas quais meu desempenho sempre fora lastimável, dada minha falta de habilidades desportivas -  e, para tal, deveria estar devidamente vestida: calça legging. Pois bem, a legging rosa claro era do que eu estava falando, certo? Decidi usá-la a primeira vez no domingo para ir ao verdurão na esquina da minha casa, a pedido do meu pai, comprar umas cebolas. Tão logo entrei, o vendedor me encarava e sorria (o que agora sei ser um sorriso malicioso); ele, que deveria estar na casa dos trinta anos, não perdeu a oportunidade de elogiar minha roupa e dizer que eu já estava uma mocinha. Para encurtar o relato, digo apenas que o tal vendedor não podia me ver que assobiava, me chamava, me seguia até em casa, coloquei a culpa na calça legging e tomei raiva de roupa justas antes de completar onze anos. Inúmeras vezes criei caso em casa para não usar malha e nem laycra, a culpa era da calça. Não preciso nem dizer que meu renome de menininha-que-não-sabe-jogar-bola só cresceu, uma vez que os professores de educação física não me permitiam jogar bola com calça jeans. 

O que se seguiu em minha vida foi de tal forma intenso que, nem mesmo com minha memória excelente, sou capaz de lembrar de tudo. Assédios diários, vestida de burca ou de saia, calça jeans ou legging, no supermercado ou na padaria. Incontáveis. Violentos. Ouvi palavras que eu nem sequer conhecia e que agora, uma mulher adulta, me horrorizo ao descobrir seus significados. Sexualizada onde quer que fosse, menina, mocinha, adolescente, mulher: a que nasceu exclusivamente para o prazer do patriarcado, a que nasceu para procriar, calada. 

Segui o conselho e segui tácita, quieta. Ainda assim, aos doze, o professor de geografia fazia questão de elogiar minhas roupas e meu corpo; logo minhas notas em geografia caíram. Aos treze, o catequista me perseguia e constrangia; comecei a chorar para não ir à catequese. Aos dezesseis, o professor de inglês me propôs conversas em particular, fui estudar a noite. Na adolescência inteira, colegas, sobretudo mais velhos, de igreja se acharam no direito de me perseguir, me constranger, me obrigar a dar atenção a eles - ainda que dentro da igreja, e com a justificativa dela. Na escola, os shorts eram recriminados, mesmo os meninos podendo usar bermudas de quaisquer espécies, mesmo quando a primavera em Brasília chegava a 37 graus e minha pele, atópica, ficava cheia de bolhas. Sempre desviando, segui caminhando, me desculpando, trilhando um caminho a ponto de acreditar que a culpa era minha. De alguma forma, pensava eu, de alguma forma a culpa deveria ser minha e, por isso, deveria me calar.

Calada fui, tímida, retraída, oprimida, sem comentar com ninguém, achava que era só comigo, a sujeira deveria estar comigo, para tanto assédio receber. Sofri até. Até ouvir uma amiga contar sobre o medo que ela sentia, algo se reconstituiu em mim naquele momento: ela também sentia. Comecei a ouvir, a perguntar, a perceber as mulheres ao meu redor: amedrontadas. Medo dos assobios, medo do assédio, medo dos gritos (que, primeiro, são convites e, depois, são xingamentos): medo do estupro. Medo de que, por um descuido; um cabelo solto; um brinco; uma calça justa; simplesmente pelos dois cromossomos x, fosse a próxima a aparecer no noticiário ou, pior, a próxima a nem sequer aparecer no noticiário, morta, esfrangalhada, despedaçada, esquecida. Medo de ser uma das cento e trinta mulheres estupradas por dia. Medo de ser a próxima nos próximos onze minutos; medo de dormir no ônibus; medo de sentar próximo a um homem porque ele, certamente, vai abrir as pernas mais do que deveria; medo do motorista que encara minhas coxas quando entro no ônibus; medo do cobrador que me encara a viagem inteira; medo do cara que me encara no carro ao lado, quando dirijo; medo de sair. Medo de andar; medo ir à uma festa; medo de ficar sozinha com um homem; medo do vizinho; medo do professor da faculdade que olha meus seios, enquanto escrevo; medo do padastro; medo do pai. Medo de existir. Medo que existe porque é a gente que vê acontecer, porque é a gente que sente, é a gente  que ouve, é a gente que se recolhe na vã tentativa de se proteger contra os que são protegidos, os que são aplaudidos, os que são incentivados a serem desinibidos. 

Ser quieta, calada, retraída nunca me protegeu parecia, ao contrário, atiçá-los. Resolvi falar, então. Dizer não ao namorado que queria casar aos dezessete; negar beijo ao cara que chamou para um sorvete; reclamar com quem me apalpa "sem querer" no ônibus; gritar. Enfrentando desgraças e desgostos, me coloquei no local reservado para quem porta o cromossomo y, me infiltrei no lugar que, ainda hoje, é aclamado para eles. Foi lá, quando comecei a pesquisar, questionar, escrever e publicar que comecei, finalmente, a entender, a me perdoar: não tenho culpa, sou mulher, mas não tenho culpa. Foi quando, e só quando, seguraram na minha mão e me ensinaram que quem decide sobre o meu útero sou eu; que devemos, sim, falar sobre a dor que sinto todos os meses antes que eu morra de endrometriose, que eu comecei a dissipar a raiva. Me ensinaram, me condicionaram a sentir raiva de mim, a me odiar. Me ensinaram que a culpa era dos meus traços femininos, do corpo que ganhei ao começar a perder sangue, do jeito como sento, das roupas que uso, do cabelo longo. Me ensinaram que a culpa era minha e que, acontecesse o que fosse, eu deveria arcar com isso. Ainda que me agredissem, ainda que me traumatizassem, ainda que me assediassem, ainda que me estuprassem: eu deveria arcar com os prejuízos. Quanto aos lucros, quanto ao sexo, quanto à vida que posso gerar, quanto ao que devo comprar, quanto a como deve me vestir e me comportar, sobre isso sempre quiseram decidir e opinar. Eu, mulher, que fique com os prejuízos. Não mais.

De pé, sangrando dez dias por mês, é que grito: não mais haverão de me diminuir. Grito por mim e por outras. Grito pelo medo, pela raiva e pela justiça. Sigo gritando porque sei que ainda muitas, como eu, precisam de alguém que diga a elas a verdade: ser mulher é ser forte. Sigo gritando até quando eu tiver voz, até quando eu tiver o que dizer e quem, por ofendido ou culpado que se sinta, não quiser me ouvir, é convidado a sair. Estarei berrando até quando for preciso advogar em defesa da igualdade e do respeito às que sempre foram injustiçadas. Grito porque sei que querem nos calar, nos querem ajoelhadas. Ajoelhadas só estaremos se bem quisermos, onde e quando quisermos. Por enquanto, fiquemos de pé. 

com amor, 
Ane Karoline


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Eu não sei se vocês sabem, mas nós aqui de baixo também sentimos. Digo, sei que a ordem aí é fazer rir da cara de quem sua a camisa para manter o país de pé. Sei também que, via de regra, a comédia é para ser feita de nós, sei que somos o elenco engraçado da novela das oito: nosso jeito de falar, nossas roupas de flanela que nunca passaram nem pelas portas da forever 21, nossa coleção de sacolinhas para colocar na lixeira dos nossos banheiros de meio metro quadrado. Somos uma alegoria, vem ver, basta ligar a tevê: morreu, matou, roubou, sucumbiu no corredor do hospital. Os nossos costumes e desgraças fazem a graça da família real. Sei de todas essas coisas, e dumas outras que vocês nem suporiam que alguém que vem de onde eu vim saberia. É por saber, que venho dizer: nosso sentimento também existe, de desespero a gente tem rido, nosso riso é latente: para vocês é um latido. 

Por desesperador que seja, fator de distração, nosso riso - do quão ridícula é essa situação - soa como latidos repetidos: incomoda. Não querem nos ver; querem que sejamos só o backstage, nunca os protagonistas - quem limpa, cuida, aplaude; quem nunca é aplaudido. Isso porque somos o oposto da ideia de perfeição de vocês, assumimos nossa incompletude, não há farsa em nossas mazelas: estão tatuadas em nossa pele - seja nas marcas de Sol, que a falta do protetor solar causa; seja nos calos nas mãos por limparmos as suas casas e as nossas próprias. Somos marcados demais, para que sejamos incluídos no conceito de "perfeição clean" de quem finge que de mãos brancas não escorre sangue negro, indígena, mulato. Somos a marca indelével de que, aqui nesse chão, há o costume de se contruir castelos sobre as cabeças das vidas que parecem valer menos; aqui, tem se feito lucro assim: roubando a parte de quem não é visto. Assim, nossa existência, que é uma resistência, deve ser muito incômoda. Que inoportuno, que grande estorvo deve ser, para quem está aí, admitir que, sim, coexistimos, somos feitos do mesmo barro e pó, nós e vocês teremos todos a mesma fetidez após três dias de morte. É por isso que nos pintam como asquerosos quando, na verdade, somos compositores, têm medo da força que temos quando juntos. 

De compositores que somos, até com nossa desgraça vim compor, escrevo agora como quem grita em silêncio: eis me aqui. Empresto minha voz aos meus, aos que olham o mundo, construído por suas próprias mãos sangrentas, e não se veem refletidos nele, não se veem partes do mundo, não veem espaço no mundo. Escrevo, agora, para dizer que sabemos que não somos invisíveis, nossa invisibilidade foi inventada, é proposital - com o propósito de tomar de nós a nossa parte no mundo, de apagar a nossa subjetividade, como se ela valesse menos. Que pareça um latido, então, isso que digo agora. Que pareça tão cru, tão real, tão cortante, tão pungente e tão banal quanto um latido: nós, os desgraçados, também existimos. E valemos tanto, e valemos quanto, e valemos muito, como vocês - vocês que falam de cima de palanques e de dentro dos estúdios da tevê. A nudez da verdade é essa: fingem que não somos relevantes, repetem isso para que acreditemos, nos tratam como cachorros abandonados, porque sabem; sabem que sem nós, não viveriam um dia. 

Injustiçados, seguimos. Levantamos todos os dias para manter o mundo girando. Desrespeitados, seguimos observando venderem, esbanjarem, destruírem tudo que é nosso, sem nos consultar. A esperança é que ainda temos vida, onde há vida, há verbo: a palavra não podem nos saquear. E, se for verdade isso de que todo escritor tem uma pergunta, venho questionar aqui, senhores-doutores-merítissimos-de-coisa-nenhuma: porque é que pelo que é nosso temos que implorar? 

Ane Karoline

reprodução/internet


Era uma manhã ensolarada de domingo, mesa do café da manhã posta e linda - café feito com muito carinho pela minha mãe - e pássaros cantarolando no jardim. Minha mãe veio até meu quarto, abriu as cortinas e me chamou para o café da manhã, e assim, também, o fez com Maria, minha irmã mais nova. Enquanto meu pai, como de costume, sentado à mesa, lia seu jornal. Estávamos nos preparando para o almoço em comemoração às Bodas de Ouro dos meu avós.

Após o café da manhã, entre brincadeiras e risadas, minha mãe pediu para que eu e Maria fôssemos nos aprontar. E meu pai, levantando-se da mesa, sentou-se em sua poltrona e manuseava folha por folha do jornal. De repente, as páginas do jornal se movimentaram com um vento que acionava todas as páginas do jornal: minha mãe e Maria que se moviam de um lado para o outro. Minha mãe arrumando a cozinha, passando roupa, etc. Minha irmã questionando o que usar. Observando toda aquela movimentação, perguntei ao meu pai:
- Pai, não vai se aprontar?
- Estou esperando sua mãe terminar de passar minha camisa - disse meu pai
- Mas, pai, por que o senhor mesmo não faz isso? - perguntei
- Isso é coisa de mulher, João. Assim que sua mãe terminar, eu irei me vestir. Vá terminar de se arrumar - disse meu pai com a voz brava
-  Tudo bem então, mas hein pai, o senhor sabe onde coloquei meu tênis branco que ganhei do vovô? - repliquei
- Não. Vá até o quarto e pergunte sua mãe, ela deve saber – disse estressado com tanta pergunta
E, assim, fiz o que ele havia me ordenado.
- Mãe, a senhora sabe está aquele tênis branco que o vovô me deu?
- Filho, eu lavei ele ontem e está dentro do seu guarda-roupa, na terceira prateleira de cima pra baixo e atrás do tênis que você comprou na semana passada - expressou minha mãe
Voltei para o meu quarto, calcei meu tênis, sentei no sofá próximo ao meu pai e continuei a observar, enquanto minha irmã gritava incessantemente pela minha mãe.
- Manhê, socorro! Eu não estou achando o vestido que usei no aniversário da Rafa. A senhora sabe onde está? - perguntava Maria
- Filha já estou indo, só um momento - disse mamãe
Minha mãe, saindo do quarto, parou na frente do meu pai e pediu para ele ir se vestir, pois sua camisa já estava passada. Meu pai levantou-se e foi até o quarto. Quando, de repente, o ouço chamar pela minha mãe.
- Amor, traz pra mim um copo com água, aqui dentro está muito quente. E traz aquela bermuda azul que está estendida lá fora, na área de serviço - gritava meu pai
Minha mãe, já suada de tanto andar de um lado para o outro, de fazer isso e aquilo, enfim, consegue entrar no banheiro, tomar banho e se arrumar. Ela saiu do quarto linda, radiante e super animada com o almoço que logo mais tarde iria realizar-se.

Já dentro do carro, com toda a família a caminho da casa do vovô e da vovó, minha mente barulhenta pensava em tudo aquilo que eu havia presenciado naquela manhã. É mesmo o papel da matriarca de cuidar da casa, dos filhos, lavar, passar enquanto o patriarca folheia seu jornal sentado em uma poltrona confortável? É só dela o papel de cuidar dos filhos? E eu como filho, estou disseminando essa cultura?
Então comecei a refletir, sobre mim e minhas atitudes. Eu, cego sob minhas ideologias miseráveis; com aquele papo de que lugar de mulher é na cozinha (risos), hoje tenho vergonha disso, e percebo que foi necessário para o meu crescimento como ser humano e intelectual. Há males que vêm para o bem, não é mesmo?  É errando que se aprende!

Agora, torço para que num futuro próximo, não exista mais esse negócio de “ismo” e que todos possam viver em paz, sem distinção de sexo, cor e raça. Um respeitando o outro, colocando em primeiro lugar aquele sentimento que falta muito nos dias de hoje: O AMOR!


Obs: A historinha contada acima é fictícia, mas é um relato que ocorre diariamente em vários lares brasileiros

Romário Rocha

imagem: we heart it

A loucura era que todos os dias me eram iguais: começavam antes que eu estivesse pronta, me atropelavam um amontoado de acontecimentos e, no fim, uma exaustão e uma sensação de que não havia feito nada do que deveria. Nesse marasmo, todos os dias fazia questão de escolher a bandeja verde no refeitório da faculdade e escolher, com cautela, o lugar em que me sentaria. Sem perceber, cultivava uma fagulha de esperança em meio aos meus dias cinzas. Foi em um desses dias, escolhendo um lugar para sentar,  que eu vi outra bandeja verde.

Ela era uma moça de estatura mediana. Os cabelos, desengrenhados, estavam presos em um rabo de cavalo deixando o rosto dela nu. Não parecia pensar em nada, não era tranquila e nem agoniada - apenas era. Estava ali, ocupada sendo ela mesma, como tantos outros o estavam naquela manhã cinzenta de uma quinta-feira qualquer. A manhã era como ela: não se destacava entre as demais mas, com certeza, tinha uma existência única e fundamental. Muitos não a viam, como não veem as várias manhãs que passam indistintas como páginas no calendário. Mas, naquele dia - não sei se por acaso, destino, distração ou identificação- eu a vi. Me vi nela: uma alma, dentro de um corpo, querendo existir. Não é o que somos todos, afinal? Tanto nela me vi que me senti convidada e fui sentar-me com ela. 

Como costumeiro da vida cotidiana, não conversamos. Imersas nos mundos de nossas próprias bandejas, nos assustamos com o barulho seco de algo caindo no chão. Peguei o livro  e fui entregá-la, era um dicionário português-francês. Olhando para ela, entreguei o dicionário e, só quando  ouvi o "Merci" acompanhado de um aceno de cabeça, eu percebi: uma francesa. Eu não falo francês. Poderia responder-lhe em outras quatro línguas, mas não na dela. O sorriso que ela me deu me mostrou que não era necessária, uma resposta, nem mesmo suficiente. Foi um sorriso tão breve, mas carregado de cumplicidade e simpatia o suficiente para acender em mim uma fagulha de fraternidade - há muito perdida. Então eu reparei que essa fagulha de fraternidade só apareceu porque eu senti, nela, o amor. 

Terminamos nossas bandejas, e eu saí de lá assim: a bandeja verde, de esperança, o coração aquecido, de amor. Saí desse tal dia, vendo tudo colorido e sabendo que o amor que carregamos dentro de nós não é lá tão diferente: somos todos gente. Todos confusos, buscando um caminho. A loucura é ter esperança na fraternidade em meio à tanta desavença, mas o meu lado da força é esse e eu vou ousar afirmar que se nos respeitarmos e nos permitirmos ser, podemos crescer e florescer. 

com amor, 
Ane Karoline


Sexta à noite. Caminhava apressada, sonhando com o banho quente e o fim de semana de descanso. Quem sabe um filme, uma pizza, um livro. Paz. Perdida em pensamentos, demorou a perceber que estava sendo seguida. Tentou se acalmar: que loucura é essa? Arriscou uma olhadinha para trás: definitivamente, estava sendo seguida. É só acelerar o passo, pensou. Acelerou. A sombra perseguidora, apertou o passo também. Tentou um desvio, o perseguidor se aproximou. Começou a calcular: não sabia lutar, quem sabe negociar? Tinha o celular - não estava nem pago ainda. Que chatice. Tá. Ia entregar o celular, os 12 reais que estava no bolso de trás da calça e a bolsa. Decidiu que não ia resistir. Ia entregar tudo e ir andando para casa. 

Acelerava o passo, desviava, tropeçava. A distância diminuía na mesma proporção em que o desespero aumentava. Era novembro, estava frio, mas o suor escorria coluna a baixo. A testa já estava pegajosa, a mão escorrendo. As pernas pareciam não conseguir acelerar. Pensou em correr. Desistiu, ia cair. Se caísse, não teria chance. Apertava o passo e a distância diminui. 

 - Ei!

Pronto. Morta. Estava morta. Começou a pensar, arquitetar: ia escrever a carta de despedida na nota fiscal do lanche dizendo que amava a mãe. Quem a encontrasse, ia entregar a carta para a mãe. Talvez desse tempo de escrever umas palavras para a família toda. Talvez desse para pedir uma missa bem bonita no enterro. Derrubou as chaves no chão. É isso. Talvez desse para lutar. Arriscou uma olhadinha para trás, catou as chaves e colocou entre os dedos. Não ia desistir sem lutar. Menos de um metro de distância. Era correr ou morrer: correu. 

-Ei! Calma aí.

Calma aí o quê? O perseguidor corria também. Correu mais. Derrubou a bolsa. Levantou, correu. Caiu. Joelhos. Começou a catar as coisas quando sentiu a mão no ombro. Fechou os olhos, golpeou a perna do alguém com as chaves. E viu a pessoa cair de joelhos.

- Meu Deus do céu! Calma!
-  QUER ME MATAR?
-Tá perdida moça? Vi sua cara de quem não sabe onde está. 

Não sabia mesmo onde estava. Perdida num mundo onde a gente tem medo de caminhar. 


Sempre com medo, Ane Karoline (texto sugerido por Marta Guedes)