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Hesitante mais uma vez, no exato instante de agora, hesito. Mesmo agora, mesmo sendo quem tem propriedade para falar, mesmo sendo quem sente na pele todos os dias, hesito. Oscilo, me equilibro nessa corda bamba, que é ser mulher, enquanto vejo a torcida para a minha queda; me querem de joelhos. Quanto mais de pé fico, mais forte vejo ambas a euforia e a animosidade crescerem em repúdio à minha audácia. Se pedras haverão de me atirar, de pé estarei. É de pé que venho dizer o que me inflama o peito porque, assim, não admito que beltrano algum venha colocar o bedelho: aconteceu comigo e o espaço de fala é meu. 

Minha memória, para azar da maioria, é excelente, então, me lembro bem quando começou. Eu tinha exatos DEZ anos de vida e ganhei de aniversário uma calça legging rosa claro, o tecido era algodão grosso com laycra, não era transparente, mas era uma calça legging. Lembro-me, ainda, que  recebia incentivos dos meus pais para me empenhar mais nas aulas de educação física - nas quais meu desempenho sempre fora lastimável, dada minha falta de habilidades desportivas -  e, para tal, deveria estar devidamente vestida: calça legging. Pois bem, a legging rosa claro era do que eu estava falando, certo? Decidi usá-la a primeira vez no domingo para ir ao verdurão na esquina da minha casa, a pedido do meu pai, comprar umas cebolas. Tão logo entrei, o vendedor me encarava e sorria (o que agora sei ser um sorriso malicioso); ele, que deveria estar na casa dos trinta anos, não perdeu a oportunidade de elogiar minha roupa e dizer que eu já estava uma mocinha. Para encurtar o relato, digo apenas que o tal vendedor não podia me ver que assobiava, me chamava, me seguia até em casa, coloquei a culpa na calça legging e tomei raiva de roupa justas antes de completar onze anos. Inúmeras vezes criei caso em casa para não usar malha e nem laycra, a culpa era da calça. Não preciso nem dizer que meu renome de menininha-que-não-sabe-jogar-bola só cresceu, uma vez que os professores de educação física não me permitiam jogar bola com calça jeans. 

O que se seguiu em minha vida foi de tal forma intenso que, nem mesmo com minha memória excelente, sou capaz de lembrar de tudo. Assédios diários, vestida de burca ou de saia, calça jeans ou legging, no supermercado ou na padaria. Incontáveis. Violentos. Ouvi palavras que eu nem sequer conhecia e que agora, uma mulher adulta, me horrorizo ao descobrir seus significados. Sexualizada onde quer que fosse, menina, mocinha, adolescente, mulher: a que nasceu exclusivamente para o prazer do patriarcado, a que nasceu para procriar, calada. 

Segui o conselho e segui tácita, quieta. Ainda assim, aos doze, o professor de geografia fazia questão de elogiar minhas roupas e meu corpo; logo minhas notas em geografia caíram. Aos treze, o catequista me perseguia e constrangia; comecei a chorar para não ir à catequese. Aos dezesseis, o professor de inglês me propôs conversas em particular, fui estudar a noite. Na adolescência inteira, colegas, sobretudo mais velhos, de igreja se acharam no direito de me perseguir, me constranger, me obrigar a dar atenção a eles - ainda que dentro da igreja, e com a justificativa dela. Na escola, os shorts eram recriminados, mesmo os meninos podendo usar bermudas de quaisquer espécies, mesmo quando a primavera em Brasília chegava a 37 graus e minha pele, atópica, ficava cheia de bolhas. Sempre desviando, segui caminhando, me desculpando, trilhando um caminho a ponto de acreditar que a culpa era minha. De alguma forma, pensava eu, de alguma forma a culpa deveria ser minha e, por isso, deveria me calar.

Calada fui, tímida, retraída, oprimida, sem comentar com ninguém, achava que era só comigo, a sujeira deveria estar comigo, para tanto assédio receber. Sofri até. Até ouvir uma amiga contar sobre o medo que ela sentia, algo se reconstituiu em mim naquele momento: ela também sentia. Comecei a ouvir, a perguntar, a perceber as mulheres ao meu redor: amedrontadas. Medo dos assobios, medo do assédio, medo dos gritos (que, primeiro, são convites e, depois, são xingamentos): medo do estupro. Medo de que, por um descuido; um cabelo solto; um brinco; uma calça justa; simplesmente pelos dois cromossomos x, fosse a próxima a aparecer no noticiário ou, pior, a próxima a nem sequer aparecer no noticiário, morta, esfrangalhada, despedaçada, esquecida. Medo de ser uma das cento e trinta mulheres estupradas por dia. Medo de ser a próxima nos próximos onze minutos; medo de dormir no ônibus; medo de sentar próximo a um homem porque ele, certamente, vai abrir as pernas mais do que deveria; medo do motorista que encara minhas coxas quando entro no ônibus; medo do cobrador que me encara a viagem inteira; medo do cara que me encara no carro ao lado, quando dirijo; medo de sair. Medo de andar; medo ir à uma festa; medo de ficar sozinha com um homem; medo do vizinho; medo do professor da faculdade que olha meus seios, enquanto escrevo; medo do padastro; medo do pai. Medo de existir. Medo que existe porque é a gente que vê acontecer, porque é a gente que sente, é a gente  que ouve, é a gente que se recolhe na vã tentativa de se proteger contra os que são protegidos, os que são aplaudidos, os que são incentivados a serem desinibidos. 

Ser quieta, calada, retraída nunca me protegeu parecia, ao contrário, atiçá-los. Resolvi falar, então. Dizer não ao namorado que queria casar aos dezessete; negar beijo ao cara que chamou para um sorvete; reclamar com quem me apalpa "sem querer" no ônibus; gritar. Enfrentando desgraças e desgostos, me coloquei no local reservado para quem porta o cromossomo y, me infiltrei no lugar que, ainda hoje, é aclamado para eles. Foi lá, quando comecei a pesquisar, questionar, escrever e publicar que comecei, finalmente, a entender, a me perdoar: não tenho culpa, sou mulher, mas não tenho culpa. Foi quando, e só quando, seguraram na minha mão e me ensinaram que quem decide sobre o meu útero sou eu; que devemos, sim, falar sobre a dor que sinto todos os meses antes que eu morra de endrometriose, que eu comecei a dissipar a raiva. Me ensinaram, me condicionaram a sentir raiva de mim, a me odiar. Me ensinaram que a culpa era dos meus traços femininos, do corpo que ganhei ao começar a perder sangue, do jeito como sento, das roupas que uso, do cabelo longo. Me ensinaram que a culpa era minha e que, acontecesse o que fosse, eu deveria arcar com isso. Ainda que me agredissem, ainda que me traumatizassem, ainda que me assediassem, ainda que me estuprassem: eu deveria arcar com os prejuízos. Quanto aos lucros, quanto ao sexo, quanto à vida que posso gerar, quanto ao que devo comprar, quanto a como deve me vestir e me comportar, sobre isso sempre quiseram decidir e opinar. Eu, mulher, que fique com os prejuízos. Não mais.

De pé, sangrando dez dias por mês, é que grito: não mais haverão de me diminuir. Grito por mim e por outras. Grito pelo medo, pela raiva e pela justiça. Sigo gritando porque sei que ainda muitas, como eu, precisam de alguém que diga a elas a verdade: ser mulher é ser forte. Sigo gritando até quando eu tiver voz, até quando eu tiver o que dizer e quem, por ofendido ou culpado que se sinta, não quiser me ouvir, é convidado a sair. Estarei berrando até quando for preciso advogar em defesa da igualdade e do respeito às que sempre foram injustiçadas. Grito porque sei que querem nos calar, nos querem ajoelhadas. Ajoelhadas só estaremos se bem quisermos, onde e quando quisermos. Por enquanto, fiquemos de pé. 

com amor, 
Ane Karoline




Alô, Alô, rearteculadores. Hoje é dia de lançar mais uma promoção no blog, já que estamos no Fim do Ano e queremos deixar um gostinho literário para vocês. Então, o blog Interrupted Dreamer se uniu com mais alguns blogs para fazer um sorteio recheadinho para vocês ou, ainda, para presentear aquela pessoa especial. Que tal?

Regras

  • As inscrições para o sorteio terão início no dia 03/11/2017 e terminarão às 23:59 do dia 15/12/2017.
  • Os participantes devem ter um endereço de entrega válido em território nacional.
  • Os participantes devem preencher todas as regras obrigatórias do formulário Rafflecopter. 
  • Quando todas as regras obrigatórias forem preenchidas, o formulário Rafflecopter irá abrir as regras opcionais, ou seja, você preenche SE quiser e QUANTAS opções quiser. Quanto mais opções preencher, maiores são as chances de ganhar.
  • O sorteio será realizado no dia 17/12/2017 e os vencedores serão anunciados  no máximo até o dia 23/12/2017 por isso fique atento ao Facebook e ao e-mail.
  • Os vencedores terão 48 horas para responder o email ou contato no Facebook. Se não houver resposta, outro sorteio será realizado.
  • Cada blogueiro, e autor, terá até 45 dias úteis para enviar o seu respectivo prêmio aos ganhadores.  Os participantes ficam cientes, no momento da inscrição, que os prêmios serão enviados por pessoas diferentes e em dias diferentes. Sendo assim, o recebimento de todos os prêmios não será no mesmo dia e, sim, ao longo dos 45 dias úteis estipulados acima. 
  • Os blogueiros e autores não se responsabilizam por extravios, danos e perdas por parte dos Correios. 

Kit 01
Participantes: Estante da Josy - Fabiane Zambelli (Autora) - Virando Amor - Dose de Poesia - ReArteculando - Saleta de Leitura



Kit 02
Participantes: Coisas da Juu - AriaBooks - Lendo e Apreciando - Primeiras Impressões - Juntando as Páginas - Bela Quimera



Kit 03
Participantes: Bela Quimera - Conta-se um livro - Leituras da Mary - Le Café Rouge - Pétalas de Liberdade


Então, vamos participar ?
 Boa sorte!


Em comemoração ao aniversário do blog Leituras da Mary, organizamos um sorteio mega especial para os amantes de romances de época e históricos. Confira e participe!
Fique ligado no blog e nas redes sociais, pois teremos muitas novidades, dicas, resenhas, tags e várias outras coisas relacionadas à esse universo de época que tanto amamos.

Confira o Regulamento

- Para participar, basta preencher as entradas obrigatórias do formulário. Para ter mais chances de ganhar, o participante pode cumprir as entradas opcionais, que serão liberadas pelo formulário.
- É necessário Curtir (e não apenas visitar) as páginas dos Blogs.
-Quem não seguir todas as entradas obrigatórias será desclassificado.
- Os participantes devem residir em território nacional.
- Serão sorteados 4 kits de livros e mimos para 4 ganhadores.
- O sorteio será finalizado dia 30/11 e o resultado sairá nesse mesmo post.
- Os ganhadores receberão um e-mail e precisam respondê-lo com seus dados em até 72 horas, ou serão desclassificados.
- Cada Blog, autor e editora são responsáveis pelo envio de seu respectivo prêmio.
- Os blogs não se responsabilizam por possíveis extravios ou danos por parte dos correios.
- O prazo para envio é de até 30 dias.

Sorteio

Kit 1:  Trilogia Príncipes + Marcadores.
a Rafflecopter giveaway
Kit 2: Romances para se apaixonar.
a Rafflecopter giveaway
Kit 3: Só livros nacionais + Marcadores.
a Rafflecopter giveaway
Kit 4: Especial: 3 livros + 50 marcadores + Gargantilha.
a Rafflecopter giveaway

Apoiadores do Sorteio Especial #NovembrodeÉpoca
Autora Mônica Cadorin: Livro "A noiva trocada".
Autora  K. C.Bergamini: Livro "Eu nunca esqueci".
Autora Cintia Nogueira: Livro "O preço de um olhar".
Autora  Michaelly Amorin: Livro "Como seduzir um conde".
Diana Medeiros: Blog Meu vício em livros - Livro "Uma noite Inesquecível".
Maria José: Blog Pétalas de liberdade - Livro "O Duque e eu".
Ane Karoline: Blog Rearteculando - Livro "Razão e sensibilidade".
Juliana Camila: Blog Coisas da Juuh - Livro "Véu do tempo".
Daiane Quinelato: Blog Virando a pagina - Livro "Brumas do tempo".
Maria Luiza: Blog Dicas de Malu - Livro"O príncipe Corvo".
Cailes SalesBlog Histórias literárias- Livro " O príncipe leopardo".
Ariana Silva: Blog Aria books- Livros "O príncipe dos canalhas" e "O último dos canalhas".
Eloise GF: Blog Crônicas de Eloise - Livro "O príncipe serpente".
Ana Carla: Blog Histórias sem fim - Livro " Codinome Lady V.".
Rafaelle: Blog  Fascinada por histórias- Livro " Como se casar com um Marquês" (Sorteio no Instagram).
Mary C.S. PiresLeituras da Mary-Livros " Não me esqueças", " Destinados" e "Como agarrar uma herdeira"(Sorteio no Instagram).
Editora Arqueiro: Livros "Lady Wistledown contra-ataca" e "Romance entre rendas".



BOA SORTE !!

imagem: weheartit.com


Venho toda acanhada, sem jeito, vacilante e turva porque não sei muito bem como dizer o que eu tenho, com tanto empenho, evitado dizer. Venho dizer, mas escolhi dizer baixinho - que é mais para por para fora que para ser ouvida. Escuta aí, você, minha voz sussurrando. Espero que escute. Você se lembra da minha voz? Se não se lembra, tenta lembrar daquele dia que te contei aquela história; a minha. Se não conseguir lembrar mesmo, imagina. Imagina minha voz sussurrando, como quem tem um bebê dormindo em casa e teme acordá-lo. Imagina minha voz, bem baixinha, dizendo isso que eu tenho evitado dizer: eu tenho medo. 

Foi por isso mesmo que eu não disse antes, por medo. Logo eu, logo eu, logo eu. Não disse antes, sabe por quê? Por medo de cair em um buraco sem fundo, medo de não ter quem quer que fosse para me içar de lá. Se sou eu que iço os outros, imagina só, como é que eu poderia me permitir ao luxo de ter medo? Imagina só se eu ia lá cair nesse buraco sem fundo que eu achava que era o medo. Não podia. Por isso mesmo foi que o escondi, dobrei bem dobradinho e coloquei no fundo de uma gaveta trancada. Não queria ver o medo e nem queria que alguém o visse; por isso, não disse. Mas acontece que não dizer, não impediu o medo de fazer a morada que fez; construiu mansão em mim. Medo de cair, medo de tropeçar, medo daquelas pedrinhas que seguram a barragem na beira da pista, medo de apendicite, medo do estalo da madeira a noite, medo de não ter dinheiro do almoço, medo de um avião precisar pousar no meu quintal, medo de não ter mais um quintal, medo do moço que entra no ônibus e me olha, medo da censura. Me censurei, por medo. Achei que, se dissesse, se revelasse minha insônia por medo, cairia em um buraco. Agora, falei tudo e: não caí.

Está certo que falei meio sem querer, falei porque a verdade escorreu de mim. Escorreu de mim como eu mesma me escorro todos os meses. Escorreu como escorreram as lágrimas no rosto do rapazinho, quando achou que a mocinha morreria aos dezessete anos. Escorreu de mim, como sangue e lágrimas, involuntariamente. A verdade revelada é essa: tenho medo. E, agora, depois de revelada a verdade, me pareço mais inteira, mais corajosa, até. Imagina que antes eu pensava: logo comigo, comigo não. Fechava os olhos que era para não ver o medo, fechava a boca para não dizer. Dizia "está tudo bem, tudo bem". Imagina que antes eu pensava que não podia ter medo, que meu medo latente era fraqueza. Logo eu, eu pensava. Eu que, não raramente, ouço aclamarem minha coragem. O medo que eu tinha era de perder a coragem.

Acontece que, até aí, eu não sabia. Veja bem, eu ignorava o fato de que medo e coragem coexistem dentro do coração da gente. Finalmente, por um escorregão, acabei descobrindo que foram os meus medos que acabaram me empurrando para fazer a coisa mais corajosa que já fiz: admitir minhas fraquezas. Agora, se me perguntam, digo mesmo que tenho medo. É isso que me faz corajosa: reconhecer meu medo, mesmo sabendo-o ser um abismo sempre pronto para me puxar.

Ane Karoline 

Ultimamente, os vídeos têm tomado conta de todas as nossas timelines, algumas vezes, é raro encontrar umas palavrinhas escritas para nos distrair. Pois bem, para quem sente falta de conteúdo escrito de qualidade, esse post chegou em hora! Nós, do Rearteculando, separamos cinco blogs muito interessantes para serem visitados. Vamos conferir?



1- Começamos nossa lista com o blog parceiro do nosso blog: Amigos de Cena. É um blog de conteúdo amplo e bem descontraído. A chamá-los para conhecer, deixo as palavras do criador do blog, Kiones: "Todo mundo tem um amigos, todo muito tem cenas engraçadas, divertidas, constrangedoras e perrengues. #AmigosDeCena é um blog feito de relatos pessoais, criticas e tudo o que gira em torno de nós! Então, venha para cá e mergulhe nesse mundo editado e personalizado de historias incríveis."
 LINK












2- Atualizado diariamente, o Pétalas de Liberdade traz postagens sobre livros dos mais diversos gêneros e épocas.

3- Alimentado por Gabriella Aleixo - escritora, blogueira, leitora e artesã -o blog é uma forma de compartilhar uma paixão e  trabalho (livros e entrevistas). Quando se ama o que faz, a gente se diverte trabalhando, trabalha divertindo, e faz tudo com muito gosto! No blog, Gabriella posta resenhas de livros e entrevistas. 


4-  O Universo Gemini é um espaço para tudo, músicas, filmes, séries, curiosidades ou até mesmo poesia. Um lugar em que a imaginação é o maior limite do leitor. 

5-  Universo de Contos é um blog dedicado a vários contos de fantasia e ficção científica. Venha conferir as histórias ilustradas mais malucas e inusitadas da internet. 


E, então, vamos conferir? 



imagem: wehearit.com


Tem gente que leva rasteira da vida quando anda para frente, eu não, eu levo rasteira quando insisto em dar uns passos para trás. A última rasteira que levei foi antes mesmo de voltar, apenas me virei em direção à volta, me virei como quem está pronto para voltar e esquecer quaisquer contratempos e injúrias anteriores. Virada para trás, antes mesmo de dar um passo, percebi que, apesar de me chamar, você não queria que eu voltasse; queria apenas despertar em mim a vontade da volta. Você me quer como número, não como presença, quer que eu componha a pluralidade da sua vida, não a singularidade.  

Você quer números, provavelmente, porque quer aplausos. Não te condeno por isso não, pode se acalmar. Acho até normal, sabia? Acho comum. Gente querendo aplauso é o que mais tem, em tudo que é beira de esquina. O danado é que eu achei que você não fosse comum, achei que você queria mais que isso, achei que você almejasse admiração, não aplausos vazios. Não posso mentir, tenho que admitir, não posso negar que acabo te condenando de uma forma ou de outra. Mesmo sem direito algum para fazê-lo, mesmo agora, quando percebo que te conheço menos do que achei que conhecia, mesmo com todos os meus erros (e talvez por causa deles), acabo te condenando. Não te condeno para ninguém e nem diante de ninguém, não tenho tamanho poder e nem vontade, apenas reconheço a sentença quando olho para você: alguém que quer quantidade de companhia, não qualidade.

Eu poderia ficar aqui, de pé, por horas te aplaudindo - como já fiz, com muito gosto e amor. Mas isso não é o que você quer, né? Isso não te preencheria. Você quer multidões, quer uma massa de gente de que não te dá a mínima para te aplaudir. Você quer quantidade, quer casa cheia, quer gente com pedigree, gente com nome anunciado em rádios, gente com passaporte carimbado e delineador bem passado. Variedade, gente saindo e entrando, gente te dizendo maravilhas para, logo em seguida, te abandonar. Tudo bem. Eu espero que, sim, esses e essas daí te aplaudam mas que, também, estejam com você nas noites difíceis, nas noites apáticas e nas viradas de ano. 

Daqui, do meu lugar de quem existe irrisoriamente, torço para que não te faltem holofotes e palmas; já que as minhas eu resolvi recolher. Espero que esses aplausos vazios, te encham, te preencham. Teria gosto em aplaudir, com amor, tudo que viesse de você e, ainda hoje, não posso negar todas as maravilhas que você tem. Acontece que quando a alma deixa de fazer parte da produção de alguém, eu não sou mais capaz de apreciar; quando sinceridade passa a valer menos que imagem, eu não posso mais ficar. Podem descer as cortinas, rufar os tambores, pelo espetaculo das aparências você já pode receber as palmas, sem mim; eu sei a hora de sair de cena. 

Ane Karoline

imagem: google


Eu não sei se vocês sabem, mas nós aqui de baixo também sentimos. Digo, sei que a ordem aí é fazer rir da cara de quem sua a camisa para manter o país de pé. Sei também que, via de regra, a comédia é para ser feita de nós, sei que somos o elenco engraçado da novela das oito: nosso jeito de falar, nossas roupas de flanela que nunca passaram nem pelas portas da forever 21, nossa coleção de sacolinhas para colocar na lixeira dos nossos banheiros de meio metro quadrado. Somos uma alegoria, vem ver, basta ligar a tevê: morreu, matou, roubou, sucumbiu no corredor do hospital. Os nossos costumes e desgraças fazem a graça da família real. Sei de todas essas coisas, e dumas outras que vocês nem suporiam que alguém que vem de onde eu vim saberia. É por saber, que venho dizer: nosso sentimento também existe, de desespero a gente tem rido, nosso riso é latente: para vocês é um latido. 

Por desesperador que seja, fator de distração, nosso riso - do quão ridícula é essa situação - soa como latidos repetidos: incomoda. Não querem nos ver; querem que sejamos só o backstage, nunca os protagonistas - quem limpa, cuida, aplaude; quem nunca é aplaudido. Isso porque somos o oposto da ideia de perfeição de vocês, assumimos nossa incompletude, não há farsa em nossas mazelas: estão tatuadas em nossa pele - seja nas marcas de Sol, que a falta do protetor solar causa; seja nos calos nas mãos por limparmos as suas casas e as nossas próprias. Somos marcados demais, para que sejamos incluídos no conceito de "perfeição clean" de quem finge que de mãos brancas não escorre sangue negro, indígena, mulato. Somos a marca indelével de que, aqui nesse chão, há o costume de se contruir castelos sobre as cabeças das vidas que parecem valer menos; aqui, tem se feito lucro assim: roubando a parte de quem não é visto. Assim, nossa existência, que é uma resistência, deve ser muito incômoda. Que inoportuno, que grande estorvo deve ser, para quem está aí, admitir que, sim, coexistimos, somos feitos do mesmo barro e pó, nós e vocês teremos todos a mesma fetidez após três dias de morte. É por isso que nos pintam como asquerosos quando, na verdade, somos compositores, têm medo da força que temos quando juntos. 

De compositores que somos, até com nossa desgraça vim compor, escrevo agora como quem grita em silêncio: eis me aqui. Empresto minha voz aos meus, aos que olham o mundo, construído por suas próprias mãos sangrentas, e não se veem refletidos nele, não se veem partes do mundo, não veem espaço no mundo. Escrevo, agora, para dizer que sabemos que não somos invisíveis, nossa invisibilidade foi inventada, é proposital - com o propósito de tomar de nós a nossa parte no mundo, de apagar a nossa subjetividade, como se ela valesse menos. Que pareça um latido, então, isso que digo agora. Que pareça tão cru, tão real, tão cortante, tão pungente e tão banal quanto um latido: nós, os desgraçados, também existimos. E valemos tanto, e valemos quanto, e valemos muito, como vocês - vocês que falam de cima de palanques e de dentro dos estúdios da tevê. A nudez da verdade é essa: fingem que não somos relevantes, repetem isso para que acreditemos, nos tratam como cachorros abandonados, porque sabem; sabem que sem nós, não viveriam um dia. 

Injustiçados, seguimos. Levantamos todos os dias para manter o mundo girando. Desrespeitados, seguimos observando venderem, esbanjarem, destruírem tudo que é nosso, sem nos consultar. A esperança é que ainda temos vida, onde há vida, há verbo: a palavra não podem nos saquear. E, se for verdade isso de que todo escritor tem uma pergunta, venho questionar aqui, senhores-doutores-merítissimos-de-coisa-nenhuma: porque é que pelo que é nosso temos que implorar? 

Ane Karoline