Você disse que eu não devia chorar

Me falou para a cabeça levantar,
Afinal tinha que me esforçar
Chorar ajuda, mas não é a solução
Eu precisava mesmo era de uma lição

Suas palavras foram duras quando falou
Hoje vejo que isso não importou
Afinal você falava com carinho
De quem se importa em não me ver sozinho

Falou mesmo temendo me magoar
Porque sabia que eu tinha que escutar
Aquelas palavras de repreensão e firmeza
Me atingiram o coração com dureza

No momento eu achei que ia quebrar
Mas entendi onde você queria chegar
O ferro é moldado pela força do martelo do ferreiro
Dor, impacto e sofrimento o tempo inteiro

Mas no fim é obra prima de se ver
Lâmina que tilinta ao bater
Sólida e bela, brilhante e imponente
O ferro foi moldado com a lâmina rente

Outrora um pedaço desconfigurado
Agora é espada de mineral trabalhado
Pronta para cortar o que vier pela frente
Pois a dor é o professor da gente

Nunca vou esquecer das palavras que dividiu comigo
Afinal o único que seria capaz de me marcar, seria você, meu amigo...

Adolfo Rodrigues



Seis meses era também muito tempo para ele. Ele não se recordava de tudo que fizera nesse tempo. Porém ela, lembrava de tudo. Cada detalhe- até do dia em que ele percorreu Paris com a camisa do lado avesso. Ele não se lembrava nem, ao menos, que estivera em Paris. O tempo, mesmo que compartilhado, passava diferente para ambos.

Ela: intensa, sensível e visionária. Não era a pessoa que se encontra em qualquer esquina, ou em uma mesa de bar. Era a pessoa que você iria encontrar perdida em pensamentos, ou caindo em uma freada brusca, em meio a um trânsito caótico- pelo simples fato que ela estaria tão distante, observando o vai e vem da cidade. Já ele, ele seria: O cara! Aquele cara despercebido, desatento, porém, pé no chão. Com o tipo de fisionomia que combina com o cinza do concreto. Eram distintos, mas eram complementares. Ela era o que faltava nele e virse-versa.

Mas a vida não é um conto de fadas, nem um enredo de filme romântico. Na vida real seria difícil doarem-se um ao outro, em meio a um mundo de possibilidades. Entretanto, o destino ou simplesmente as nossas escolhas, realizam pequenas mágicas, e foi em um desses passes de mágica, que a vida uniu os caminhos.

A neblina tomava conta da cidade. Carros, pessoas e ônibus iam e vinham. As luzes de natal piscavam num ritmo que para muitos era imperceptível. Todos tinham pressa, exceto ela, que fotografava cada detalhe que lhe chamava a atenção. A cada registro ela sorria, encantada, observava a foto como se ali estivesse a ver pela primeira vez Monalisa. Cada passo, uma fotografia e o êxtase tomava conta de si; a caricatura de uma criança que ganha um brinquedo novo. Ali parecia ter todo o tempo do mundo e,por mais que não tivesse, ela acreditava nisso.

Do outro lado da rua, alguém nutria o sentimento de que o tempo mesmo que infinito nunca seria o suficiente. Eram mil coisas na mente, mãos e pés não pareciam ser suficientes. Ele desejava agarrar o mundo ali e agora, por crer que não teria tempo para isso futuramente. Enquanto pensava em tudo que teria que fazer, o tempo passava, impiedosamente. E nada ele realmente fazia para aproveitá-lo. O tic-tac do relógio soava em sua mente, quando de repente: um clarão. Desordem. Susto. Uma mão gélida. Por segundos, ele acreditou estar morto. Uma voz angelical sussurrava palavras em seu ouvido, ou distante dele, ele não sabia distinguir; poderia ser um anjo, ou qualquer outra coisa. A melodia da voz o acalmava e acalentava. “Estou morto”, disse. Abriu os olhos. Mirou em um olhar negro, que lhe olhou de volta, e o penetrara a alma e o e livrara de todos os pensamentos que lhe encurralavam. Encheu-se de um sentimento que não reconhecia, jamais havia sentido. Assim passaram-se alguns minutos e pela primeira vez na vida ele não pensava em agarrar o mundo, mesmo que tudo que ele acreditava ser o mundo, estivesse bem na frente dele.  A partir daquele momento, não eram mais dois indivíduos distintos, passaram a ser um.

Nem tudo são flores, pessoas guardam segredos, histórias e medos.  Dali em diante, o mundo foi pequeno. Por vezes, ele conseguiu segurar em seus braços o que agora era o seu mundo. Ela captava cada detalhe dos universos que percorria e aos poucos, escrevia sua história por onde passava. Ele não compreendia ao certo o porquê de tantos lugares, histórias, fotos e lembranças. Se os dois eram complementares, assim o seriam em qualquer lugar, pensava consigo.

Em uma tarde ao pôr-do-sol ela recordava com ele cada lugar que visitaram: a primeira foto da viagem, os sotaques, comidas e sonhos. Não poderiam deixar de lembrar de como se conheceram e de cada cerimônia de casamento que tiveram. O amor era infinito, mas o tempo não. Em meio às recordações, ela pegou uma rosa, das flores que os cercavam, arrancou pétala por pétala ao relembrar as histórias que os fizeram chegar ali. Pegou a mão do amado, a encheu de pétalas e fechou. Beijou os lábios dele e encostou a mão dele em seu peito, ele sentia cada batimento dela: ritmo lento, como uma canção de ninar.   Eles se abraçaram e as pétalas voaram pelo ar.
A partir de então, ele descobriu que o tempo começou a tic-taquear diferente para eles. Seis meses era bastante tempo para ele. Seis meses era, também, bastante tempo para ela. Mas os caminhos, ao final, seriam diferentes. O motivo: Ela florescera e ele terá sua rosa colhida.

Evelin Mendes
Codinome Beija-Flor - página 67




— Não tenho opinião formada.

Ela era dessas. Desses. Pra quem tudo vai bem, nada os incomoda. Ela era desses que não se importam de não escolherem entre flocos ou napolitano; entre campo ou praia; entre chocolate amargo ou ao leite. “Tanto faz”, era seu lema. E eu via beleza nisso.  Até não ver mais.

Começou com canais de TV, depois filmes, depois restaurantes, depois política, antes de chegar em nomes de filhos eu já não suportava. Ela não expressava desejos loucos que transformassem o mundo. Ela não queria pular de bungee jump ou nadar com golfinhos (ou se queria, nunca me disse). Ela não queria pensar no trabalho escravo de crianças na Ásia e nem nas metáforas de músicas ruins. Ela apenas existia. E a beleza que eu enxergava em apenas existir deu lugar a um sentimento de inconformismo.

Como pode alguém não querer alcançar o universo com você? Como pode alguém não ter medo de filmes de terror ou chorar com filmes sobre câncer? Como pode alguém não querer brigar para provar um ponto? Como pode alguém não ter um ponto? E nosso amor, que começou como um lugar inocente, seguro e sem pretensões, se tornou apenas um lugar. Amar alguém que não te modifica é se conformar com algo tão pequeno que te torna pequeno também. Nós éramos retas que um dia brincaram de se encontrar, e foi bom, mas a verdade é que nossos ângulos e medidas não eram compatíveis, e a minha reta teve que seguir, além de onde a sua teve que morrer - para além desse plano cartesiano que você construiu para si mesma. 

E eu espero que um dia você possa traçar retas e caminhos que eu não pude traçar por você, nem por nós, espero que um dia você possa discutir em lojas, gritar em bibliotecas, ler livros sobre assuntos complexos e fugir de casa mesmo que pra voltar duas horas depois, espero que você viva. Espero, enfim, que seus vértices se tornem fortes e você possa se tornar alguém que você teria prazer de conhecer  e  amar.


                                                                                  Eduardo Rodrigues                                                            
 - Por isso a gente acabou, página 67.

imagem: we heart it

A loucura era que todos os dias me eram iguais: começavam antes que eu estivesse pronta, me atropelavam um amontoado de acontecimentos e, no fim, uma exaustão e uma sensação de que não havia feito nada do que deveria. Nesse marasmo, todos os dias fazia questão de escolher a bandeja verde no refeitório da faculdade e escolher, com cautela, o lugar em que me sentaria. Sem perceber, cultivava uma fagulha de esperança em meio aos meus dias cinzas. Foi em um desses dias, escolhendo um lugar para sentar,  que eu vi outra bandeja verde.

Ela era uma moça de estatura mediana. Os cabelos, desengrenhados, estavam presos em um rabo de cavalo deixando o rosto dela nu. Não parecia pensar em nada, não era tranquila e nem agoniada - apenas era. Estava ali, ocupada sendo ela mesma, como tantos outros o estavam naquela manhã cinzenta de uma quinta-feira qualquer. A manhã era como ela: não se destacava entre as demais mas, com certeza, tinha uma existência única e fundamental. Muitos não a viam, como não veem as várias manhãs que passam indistintas como páginas no calendário. Mas, naquele dia - não sei se por acaso, destino, distração ou identificação- eu a vi. Me vi nela: uma alma, dentro de um corpo, querendo existir. Não é o que somos todos, afinal? Tanto nela me vi que me senti convidada e fui sentar-me com ela. 

Como costumeiro da vida cotidiana, não conversamos. Imersas nos mundos de nossas próprias bandejas, nos assustamos com o barulho seco de algo caindo no chão. Peguei o livro  e fui entregá-la, era um dicionário português-francês. Olhando para ela, entreguei o dicionário e, só quando  ouvi o "Merci" acompanhado de um aceno de cabeça, eu percebi: uma francesa. Eu não falo francês. Poderia responder-lhe em outras quatro línguas, mas não na dela. O sorriso que ela me deu me mostrou que não era necessária, uma resposta, nem mesmo suficiente. Foi um sorriso tão breve, mas carregado de cumplicidade e simpatia o suficiente para acender em mim uma fagulha de fraternidade - há muito perdida. Então eu reparei que essa fagulha de fraternidade só apareceu porque eu senti, nela, o amor. 

Terminamos nossas bandejas, e eu saí de lá assim: a bandeja verde, de esperança, o coração aquecido, de amor. Saí desse tal dia, vendo tudo colorido e sabendo que o amor que carregamos dentro de nós não é lá tão diferente: somos todos gente. Todos confusos, buscando um caminho. A loucura é ter esperança na fraternidade em meio à tanta desavença, mas o meu lado da força é esse e eu vou ousar afirmar que se nos respeitarmos e nos permitirmos ser, podemos crescer e florescer. 

com amor, 
Ane Karoline