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Minha barragem interna foi rompida mais uma vez. Dessa vez, não sei se pelo excesso ou pela falta - acho que barragem ressecada também rompe. Eu vinha ignorando as rachaduras há um tempo, para ser sincera. Fato é que chorei um rio inteiro da pior forma possível, que é exatamente quando tem alguém olhando, tentando infrutiferamente te acalmar. As lágrimas escorriam como que por um tempo infinito, sem que eu conseguisse, ou sequer tentasse, contê-las. Para ser mais exata, foram duas horas contadas em meu relógio biológico quebrado. Depois, junto com o oco dentro da minha cabeça confusa, estava a voz de mamãe, ao longe, ecoando em minha mente: 

Mas, afinal, o que é que tem te incomodado tanto, Carol?

A falta de uma resposta, era o que me incomodava mais. O não saber, a prisão do limbo de não querer coisa alguma em específico mas, ao mesmo tempo, querer tudo que eu não tenho, tudo o que não sei. Lembro de todos os livros que li, todos os zilhões de letras, formando todos os milhões de palavras, formando todas as infinitas ideias e me sinto ainda pior. Talvez eu devesse me desculpar comigo mesma por tudo isso, mas, como não sei nem por onde começar, quero me desculpar com todos os autores que falam direta ou indiretamente sobre autoconhecimento, eu juro! Eu gostaria de encher os pulmões de ar, abrir a boca e dizer: o que me incomoda é tal coisa. Mas eu não sei. Se me aparece alguém agora com uma arma em minha têmpora direita e me diz para revelar o que tanto me aporrinha, eu não vou saber dizer. Vou dizer que atire, vou dizer que se eu soubesse, eu mesma atiraria na tal coisa. Eu diria a esse alguém: e você, por acaso, sabe? Você sabe o que te incomoda?

Será que alguém, afinal, sabe de alguma coisa? 

Eu penso que eu teria que me conhecer bem demais para saber de algo assim. Pode ser que sejam todos aqueles zilhões de coisinhas, como: a rachadura na parede, a tomada frouxa, a lâmpada fraca, o convite de casamento que não recebi, a roupa que nunca consigo desamassar, as cartas que nunca recebo, a cicatriz sob a minha sobrancelha. Pode ser que sejam todos aqueles zilhões de coisas imensuráveis que eu jamais conseguiria resolver: a falta de conhecimento sobre língua de sinais, o presidente eleito, a desinformação, o racismo velado, o sexismo parlamentar, a imprudência parental, o trabalho escravo, a idolatria ao capital, ou a estrada sem asfalto três ruas abaixo da minha casa.

A rua sem asfalto que fica três ruas abaixo da minha casa é uma das coisas que me incomoda, mas não é o meu incômodo todo. Eu penso que se chove, as pessoas que moram lá ficam ilhadas na lama, se é dia de sol, as pessoas de lá sentem dor nos pés de caminhar no cascalho. Não dá para andar de bicicleta em uma rua assim, quem anda cai. Pensar na rua sem asfalto me acalma porque não tenho que pensar em  mim, não tenho que pensar nos meus incômodos, no curso que não faço, no livro que deixo de escrever, nas coisas que não tenho coragem de dizer, na consulta que evito ir, nos eventos que cancelo sem motivo. Pensar em todas as ruas brasileiras sem asfalto me dá espaço para evitar pensar em tudo que tenho feito comigo, me faz trocar a ordem das coisas e concluir, erroneamente, que estou pensando nos outros antes de pensar sobre mim.

Será possível inverter todas as coisas assim?
Será que ainda dá tempo para pensar em mim?

Olho as paredes silenciosas, o escuro do quarto, as linhas retas do assoalho e concluo que preciso parar. A barragem rompida dentro de mim pode ser reconstruída antes que acabe com todos ao meu redor. É hora de se despir de tudo, criar coragem, encher o peito de ar e colocar o pé na estrada sem asfalto do autoconhecer-se. Uma micro luz se ascende dentro de mim, a coragem é o primeiro passo.

Se conhecer de verdade é como andar de joelhos em uma estrada sem asfalto, 
com os joelhos desencapados é que a gente conhece a nossa própria cor.  

com amor, 
Ane Karoline

Segurando uma taça c drink quase transparente, numa posição q deixe minha boca aparecer por trás do liquido
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Me recuso a abrir os olhos quando sinto o cérebro despertar. Não está na hora, dorme, vai. Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos... Oitenta e sete carneirinhos depois, o despertador toca. Só me faltava essa: me acostumar a acordar antes das cinco horas da manhã... Lembro do vô deitadinho, os olhos arregalados, me dizendo que a gente acostuma a acordar sem despertador quando envelhece. 

Enquanto encaro os olhos no espelho, acho que envelheci: são olhos de qualquer outra pessoa, vermelho sangue, olhos que não têm resposta alguma, só carregam perguntas. Olho a escrivaninha parada, empoeirada, morta, me encarando já sem esperança de que eu a toque para escrever qualquer coisa. Nem discordo do tom fúnebre que se instala durante esse ritual matinal diário, não tem como defender alguém que acorda todos os dias e não tem resposta alguma. Acordo todos os dias sem ter resposta alguma, me levanto na esperança única de encontrar. 

Todas essas pessoas de pé em ônibus lotados por mais de quatro horas diárias precisam de respostas, por que estão fazendo tanto esforço enquanto outras não fazem nada? Eu precisava muito dessa resposta. Eu precisava muito saber porque uma multidão de gente honesta precisa acampar em frente a um supermercado para tentar um emprego ruim, enquanto uns poucos têm o poder de escolher quem bem quiserem para um emprego bom. Não ter esses porquês me envelhece um pouco todos os dias, não ter esses porquês é que me faz acordar antes do despertador. 

Em minha mão, o café esfriando me mostra meu rosto confuso refletido. Alguém, vem fiar conversa reclamando por não poder viajar para o litoral pelo empetroleamento das praias... Me ouve e me diz que não foi isso que meu avô quis dizer. Esse alguém me diz, ainda, que envelhecer é positivo, que envelhecer é crescer. Tenho certeza que não é assim, mas não tenho reposta e me calo. Eu nunca tenho as respostas, só as perguntas. Sei, com força e com fé, que o vô sabia muito bem disso: a gente envelhece, mas nem sempre cresce. Se a gente envelhece e, ao saber que tem óleo no mar, só consegue pensar na viagem de ano novo, a gente não cresceu nada, a gente não tem resposta alguma. 

O nó no estômago é quase palpável: eu quero saber os porquês.

Caminho um pouco, penso na história da garota com câncer, na história da dona Lúcia que foi queimada quando criança, na história do índio queimado, na história das crianças torturadas, na história da menina que, morta, deu nome ao parque, na história do meu pai vindo do nordeste... Olhando para o chão, penso na minha história e me pergunto para onde ela vai, aonde está sendo escrita, para quê está sendo traçada. Um zilhão de perguntas, nenhuma resposta. 

Então é isso, vô. Eu tô acordando antes do amanhecer, mas não sei pelo quê. Acho que o meu envelhecer é assim, é caminhar sem saber, jornadear procurando os porquês. 

Ane Karoline

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Hesitante mais uma vez, no exato instante de agora, hesito. Mesmo agora, mesmo sendo quem tem propriedade para falar, mesmo sendo quem sente na pele todos os dias, hesito. Oscilo, me equilibro nessa corda bamba, que é ser mulher, enquanto vejo a torcida para a minha queda; me querem de joelhos. Quanto mais de pé fico, mais forte vejo ambas a euforia e a animosidade crescerem em repúdio à minha audácia. Se pedras haverão de me atirar, de pé estarei. É de pé que venho dizer o que me inflama o peito porque, assim, não admito que beltrano algum venha colocar o bedelho: aconteceu comigo e o espaço de fala é meu. 

Minha memória, para azar da maioria, é excelente, então, me lembro bem quando começou. Eu tinha exatos DEZ anos de vida e ganhei de aniversário uma calça legging rosa claro, o tecido era algodão grosso com laycra, não era transparente, mas era uma calça legging. Lembro-me, ainda, que  recebia incentivos dos meus pais para me empenhar mais nas aulas de educação física - nas quais meu desempenho sempre fora lastimável, dada minha falta de habilidades desportivas -  e, para tal, deveria estar devidamente vestida: calça legging. Pois bem, a legging rosa claro era do que eu estava falando, certo? Decidi usá-la a primeira vez no domingo para ir ao verdurão na esquina da minha casa, a pedido do meu pai, comprar umas cebolas. Tão logo entrei, o vendedor me encarava e sorria (o que agora sei ser um sorriso malicioso); ele, que deveria estar na casa dos trinta anos, não perdeu a oportunidade de elogiar minha roupa e dizer que eu já estava uma mocinha. Para encurtar o relato, digo apenas que o tal vendedor não podia me ver que assobiava, me chamava, me seguia até em casa, coloquei a culpa na calça legging e tomei raiva de roupa justas antes de completar onze anos. Inúmeras vezes criei caso em casa para não usar malha e nem laycra, a culpa era da calça. Não preciso nem dizer que meu renome de menininha-que-não-sabe-jogar-bola só cresceu, uma vez que os professores de educação física não me permitiam jogar bola com calça jeans. 

O que se seguiu em minha vida foi de tal forma intenso que, nem mesmo com minha memória excelente, sou capaz de lembrar de tudo. Assédios diários, vestida de burca ou de saia, calça jeans ou legging, no supermercado ou na padaria. Incontáveis. Violentos. Ouvi palavras que eu nem sequer conhecia e que agora, uma mulher adulta, me horrorizo ao descobrir seus significados. Sexualizada onde quer que fosse, menina, mocinha, adolescente, mulher: a que nasceu exclusivamente para o prazer do patriarcado, a que nasceu para procriar, calada. 

Segui o conselho e segui tácita, quieta. Ainda assim, aos doze, o professor de geografia fazia questão de elogiar minhas roupas e meu corpo; logo minhas notas em geografia caíram. Aos treze, o catequista me perseguia e constrangia; comecei a chorar para não ir à catequese. Aos dezesseis, o professor de inglês me propôs conversas em particular, fui estudar a noite. Na adolescência inteira, colegas, sobretudo mais velhos, de igreja se acharam no direito de me perseguir, me constranger, me obrigar a dar atenção a eles - ainda que dentro da igreja, e com a justificativa dela. Na escola, os shorts eram recriminados, mesmo os meninos podendo usar bermudas de quaisquer espécies, mesmo quando a primavera em Brasília chegava a 37 graus e minha pele, atópica, ficava cheia de bolhas. Sempre desviando, segui caminhando, me desculpando, trilhando um caminho a ponto de acreditar que a culpa era minha. De alguma forma, pensava eu, de alguma forma a culpa deveria ser minha e, por isso, deveria me calar.

Calada fui, tímida, retraída, oprimida, sem comentar com ninguém, achava que era só comigo, a sujeira deveria estar comigo, para tanto assédio receber. Sofri até. Até ouvir uma amiga contar sobre o medo que ela sentia, algo se reconstituiu em mim naquele momento: ela também sentia. Comecei a ouvir, a perguntar, a perceber as mulheres ao meu redor: amedrontadas. Medo dos assobios, medo do assédio, medo dos gritos (que, primeiro, são convites e, depois, são xingamentos): medo do estupro. Medo de que, por um descuido; um cabelo solto; um brinco; uma calça justa; simplesmente pelos dois cromossomos x, fosse a próxima a aparecer no noticiário ou, pior, a próxima a nem sequer aparecer no noticiário, morta, esfrangalhada, despedaçada, esquecida. Medo de ser uma das cento e trinta mulheres estupradas por dia. Medo de ser a próxima nos próximos onze minutos; medo de dormir no ônibus; medo de sentar próximo a um homem porque ele, certamente, vai abrir as pernas mais do que deveria; medo do motorista que encara minhas coxas quando entro no ônibus; medo do cobrador que me encara a viagem inteira; medo do cara que me encara no carro ao lado, quando dirijo; medo de sair. Medo de andar; medo ir à uma festa; medo de ficar sozinha com um homem; medo do vizinho; medo do professor da faculdade que olha meus seios, enquanto escrevo; medo do padastro; medo do pai. Medo de existir. Medo que existe porque é a gente que vê acontecer, porque é a gente que sente, é a gente  que ouve, é a gente que se recolhe na vã tentativa de se proteger contra os que são protegidos, os que são aplaudidos, os que são incentivados a serem desinibidos. 

Ser quieta, calada, retraída nunca me protegeu parecia, ao contrário, atiçá-los. Resolvi falar, então. Dizer não ao namorado que queria casar aos dezessete; negar beijo ao cara que chamou para um sorvete; reclamar com quem me apalpa "sem querer" no ônibus; gritar. Enfrentando desgraças e desgostos, me coloquei no local reservado para quem porta o cromossomo y, me infiltrei no lugar que, ainda hoje, é aclamado para eles. Foi lá, quando comecei a pesquisar, questionar, escrever e publicar que comecei, finalmente, a entender, a me perdoar: não tenho culpa, sou mulher, mas não tenho culpa. Foi quando, e só quando, seguraram na minha mão e me ensinaram que quem decide sobre o meu útero sou eu; que devemos, sim, falar sobre a dor que sinto todos os meses antes que eu morra de endrometriose, que eu comecei a dissipar a raiva. Me ensinaram, me condicionaram a sentir raiva de mim, a me odiar. Me ensinaram que a culpa era dos meus traços femininos, do corpo que ganhei ao começar a perder sangue, do jeito como sento, das roupas que uso, do cabelo longo. Me ensinaram que a culpa era minha e que, acontecesse o que fosse, eu deveria arcar com isso. Ainda que me agredissem, ainda que me traumatizassem, ainda que me assediassem, ainda que me estuprassem: eu deveria arcar com os prejuízos. Quanto aos lucros, quanto ao sexo, quanto à vida que posso gerar, quanto ao que devo comprar, quanto a como deve me vestir e me comportar, sobre isso sempre quiseram decidir e opinar. Eu, mulher, que fique com os prejuízos. Não mais.

De pé, sangrando dez dias por mês, é que grito: não mais haverão de me diminuir. Grito por mim e por outras. Grito pelo medo, pela raiva e pela justiça. Sigo gritando porque sei que ainda muitas, como eu, precisam de alguém que diga a elas a verdade: ser mulher é ser forte. Sigo gritando até quando eu tiver voz, até quando eu tiver o que dizer e quem, por ofendido ou culpado que se sinta, não quiser me ouvir, é convidado a sair. Estarei berrando até quando for preciso advogar em defesa da igualdade e do respeito às que sempre foram injustiçadas. Grito porque sei que querem nos calar, nos querem ajoelhadas. Ajoelhadas só estaremos se bem quisermos, onde e quando quisermos. Por enquanto, fiquemos de pé. 

com amor, 
Ane Karoline


imagem: weheartit


Hoje eu não vou falar sobre nós - eu e você. Nem sobre o nó na minha garganta, e, muito menos, sobre o nó que se atou em nós dois - aquele que, de tão apertado, nos expeliu para longe um do outro. Pois, sim, sobre o que eu vou falar? Vou falar sobre mim e sobre o meu coração, mas vou te usar para isso. Eu devo ter licença poética para isso, certo?

Vou começar dizendo o óbvio: eu não te dei meu coração. Lá atrás, na nossa época, eu não fui a quase nenhum dos lugares para os quais você me convidou; não me lembrei de tirar fotografias; mal segurei sua mão. Eu, realmente, não te dei meu coração. Mas eu, desventurada, também não o tinha. Havia perdido o meu próprio coração em uma manobra errada, uma manobra feita antes de te conhecer. Perdi meu coração e me perdi, fiquei desorientada. A gente, quando não está amando (seja como for), perde a cor da vida. Lembra como eu estava cinza quando nos conhecemos?

Foi assim, perdida, que te encontrei. Vi primeiro o sorriso. O sorriso que você me deu era tão quente quanto aquela tarde de domingo. Quando te vi, senti meu coração - ainda que trôpego, vacilante e tímido - voltar a reagir: uns pulos aqui, uma taquicardia ali. Você também me viu. Na verdade, você me reconheceu, sua ansiedade em se aproximar me mostrou que era isso: a palpitação que eu senti, você também sentiu. Era a mim que você, despreocupadamente, estava esperando. Eu caberia certinho na sua vida, né? Sei disso. Mas, como prometi, não vim falar sobre isso.Vim falar que o espaço que tinha na sua vida, reservado para mim, não contava com o fato de que eu estava pela metade.

Eu era só um monte de fragmentos quando conheci você. Um amontoado de estilhaços, ainda sangrando, ainda ariscos, ainda despedaçados. Por isso não encaixava, você era inteiro. Tentei e, a cada tentativa, era como tentar encaixar uma peça errada em um quebra-cabeças, era como tentar colocar o lego de triângulo dentro do espaço reservado para o círculo: não encaixava e me machucava. Também te vi tentar e, consequentemente, falhar. É que se reconstruir é uma coisa que a gente faz só.

A sorte é que o tempo passa e, na passagem, cura. Hoje, meu coração está aqui de novo: livre, leve, solto. Voltou à sua função normal - que vai muito além de só bombear sangue para o meu corpo. Hoje, agora, nesse exato momento, meu coração estaria pronto para te ser entregue. Mas o amor, que é caprichoso, não funciona bem assim e tem me mostrado o erro que cometi lá atrás - o tropeço que me estilhaçou - e que, também, estava tentando cometer com você: coração não é para ser entregue.  Nem o meu, nem o seu, nem o de ninguém. O amor, sim, esse a gente dá sem medo. Mas o coração tem que ficar, para gerar amor para mim também. Foi por isso que eu não te entreguei meu coração.

com amor, 
Ane Karoline

imagem: weheartit.com


Eu sempre tive um problema danado com sangue. Sempre uma agonia, um medo misturado com nojo e pavor. Horror até ao meu próprio sangue. Era quase um pânico o que esse tal cheiro de ferro sempre me causou. Acabei aceitando meu título: a menina que tem medo de sangue. Era um título charmoso, até, tipo a menina que roubava livros - só que sem nenhuma aventura. Era exatamente isso: não existe aventura nenhuma em ter medo, sobretudo medo de sangue. Por isso, nunca aprendi a subir em árvores: imagina se eu caio? 

Eu não corria. Quando sentia a vontade de correr, adrenalina correndo nas veias, me controlava pensando: se eu cair, sangra. Era sempre assim, uma tormenta de mesmice: não brinco de pique, não jogo vôlei, não ando de bicicleta e não me arrisco com objetos cortantes. As pessoas levavam com impaciência, no começo: que frescura sem cabimento. Depois, pararam de levar, pararam de me chamar, pararam de me acompanhar, pararam de me levar para qualquer lugar. Quando eu ia, era correria, pai; mãe; tia; todo mundo evitando berreiro desnecessário e desmaio; todo mundo estancando um sangue que, nem sequer, corria. Cheguei em um ponto que não sabia mais se, realmente, tinha medo. Não arriscava para saber, nem queria ver. Sei que não poderia ser mais difícil e sem noção: eu, mulher, portadora de útero fértil, ovulante, não saber lidar com sangue. Uma hora, pensava, uma hora eu lido com isso, agora não.

Eu me transformei em uma metáfora: criei medo de me ferir, mesmo que por dentro. Ecoava  em minha cabeça esse medo, de tal forma, que sozinha comecei a caminhar: não posso arriscar, não vou, não quero, não posso arriscar, não posso me machucar, não. Pisando baixo, cautelosa, fui vivendo, aliás, vim vivendo até aqui. O aqui virou um tempo presente no qual eu não queria compor com ninguém, queria andar sozinha, por medo de me machucar. De tanto medo de arriscar, de tantas experiências perdidas, comecei a repensar e, então, cheguei no hoje. Hoje, uma noite de sexta-feira 13, com uma Lua linda que dá para ser vista da janela da minha cozinha. Já mais calma, mais corajosa, distraída olhando a Lua, me cortei fazendo um suco de laranja. O enjoo veio: a boca do estômago revirada, mas segurei e achei ridículo. Ridículo: duas décadas com medo de sangue, para me cortar em uma sexta-feira tão banal, sozinha, sem ninguém para fazer um curativo ou me dizer para respirar pela boca. E foi assim que percebi que esse corte era fruto de uma nova versão de mim que veio chegando sem que eu percebesse: uma versão de mim que não quer mais caminhar sozinha por medo de se machucar, por medo de errar.

Enjoada, mas enebriada, me obriguei a perceber que aquelas gotas de O-, que escorriam de mim, não me causaram dano algum, estavam, na verdade, me mostrando que quando a gente vive, é isso que acontece mesmo: a gente se derrama para se renovar. Quando a gente arrisca, acaba sendo, de alguma forma, afetado. Arriscar é se transformar. 

Especialmente para os colaboradores da Semana do Grito por Escrito. 
com muito amor, 
Ane Karoline






É assim que a paixão acontece: seja na escada da faculdade, no ônibus ou no mercadinho da esquina. Ela costuma ir embora tão rápido quanto chega, pelo menos, com Helena sempre fora assim. Ela percebera que, quando há paixão, há um padrão: nos atentamos a detalhes tão pequenos que, juntos, criam expectativas intensas -  mas nem sempre são recíprocas. Então, surgem as pequenas ansiedades, começa-se a tomar mais cuidado com as palavras, com as atitudes - ninguém quer passar uma impressão ruim logo de cara.  Mas além de tomar cuidado com tudo isso, existe algo bem mais importante a se preocupar: as emoções. Na verdade, ninguém nunca quer que coração algum saia magoado -  mesmo sabendo que isso, provavelmente, vai acontecer porque a paixão é uma faca de dois gumes. Faca de dois gumes, livro de duas faces, apesar do medo, com a paixão tudo se torna melhor: acordar cedo, estudar, trabalhar e até pegar aquele ônibus lotado em plena segunda-feira. Esse é o alerta, quando começamos a incluir, imperceptivelmente, os detalhes ao nosso dia a dia, criando, imaginando e acrescentando um outro alguém à nossa história. Imaginação e realidade se confundem, até você ser pego em meio a um pensamento intenso com alguém que acabara de conhecer e percebe que está se apaixonando, ao passo que sua mãe e todo o resto do mundo sacaram depois do seu último texto. Sempre parece que vai ser diferente, mas era sempre assim, e Helena sabia.   

Helena, 26 anos, prestes a dizer sim, com os votos em mãos. Envolvida em uma paixão desde adolescência na qual sentira-se muito confortável, até o dia em que ele tomou a mão dela em casamento e, precipitada, ela aceitou. Os dias se passaram e o tempo a engolia: precisava escrever seus votos. Começou, rascunhou, reescreveu e, quando percebeu, tinha rabiscado um começo:


Eu esqueci de ser livre, esqueci de viver em plenitude, esqueci que nunca foi amor, foi paixão. ” 

Naquela tarde de dezembro descobrira que  tudo estava fora do lugar, percebeu que havia esquecido algo, que por muito tempo ignorara as indiferenças, achando que estava bem, ou que tudo ficaria bem.  Assim, seus votos se transformaram em uma despedida:

“Se você decidiu guardar, então guarde, porém não me aguarde! Não se guarde, não guarde teu coração, por nada que vivemos. Não vivemos nada comparado com o que a vida ainda tem a te oferecer, com o amor que vai chegar. Apenas viva, sorria, jogue basquete com os amigos, vá ao treino, estude, cante, componha, viaje pelo mundo, faça novas amizades, novos sonhos - é isso que deve ser feito. Se permita curar e, quando estiver preparado, se entregue a um amor - um amor real, sem paixões loucas, sem atitudes precipitadas.
Eu sei, é bem provável que você esteja estranhando toda essa minha garra para viver, e tem todo o direito já que meses atrás eu vivia à sombra de toda nossa rotina, eu ainda remoía todas as "declarações de amor", fazia questão de deixar claro para você tudo o que sentia. Mas não foi só você, mais ninguém acreditou quando eu disse que estava tudo bem. Mais uma última coisa:  faça o que tiver que fazer e não se lembre de um amor que não existe e que não vai voltar.

PS.: Te devolvo tudo que é seu, inclusive o seu coração, porque assim você já pode ir embora.
 Minhas sinceras desculpas."


Vai chegar um dia em que, depois das paixões, o amor chegará. E nele tudo é de verdade, não tem essa de ser frio ou quente, você não tenta ser nada, você apenas é.  Helena ainda não havia sido, mas haveria de ser.

May Mariano (do blog: http://www.mayentrandonoassunto.com/?m=1)



Sempre tive afinidade com números. Aliás, com matemática: somo tudo. Somatizo tudo, também. Mas, numa dessas de somar, fiz as contas e percebi que não tenho tempo. Eu, definitivamente, não tenho tempo. Se tem uma coisa que eu não tenho, essa coisa é tempo. Não, não estou exagerando. Quer dizer, eu até tenho algum tempo mas é restrito, é contado - não dá para gastar, entende? Não tenho tempo para ficar desperdiçando. E, pelas minhas contas, você também não tem.

É bem simples, são grandezas inversamente proporcionais: quanto mais tempo você gasta, menos tempo você tem. E eu, que já gastei um tempão, não tenho mais nenhum para desperdiçar. Daqui por diante, só tenho tempo para investir. Quando se investe, espera-se que algo volte, certo? É isso mesmo. A partir de agora, só tenho tempo para o que me traz algo. Um algo que é bem específico, mas pode ser qualquer coisa. Digo, é específico porque precisa ser algo bom. Mas pode ser qualquer coisa. Qualquer coisa boa. Resumindo, tenho tempo apenas para investir no que me fizer bem.

Quanto a você, digo o mesmo: você não tem esse tempo todo que pensa ter. E se você, como eu, já gastou vários preciosos minutos com miudezas que fazem mal, tem menos tempo ainda. Essas pequenices são tão profissionais em roubo de tempo que a gente pode nem perceber: ficar com quem não quer ficar com a gente, se lamentar, observar demais a vida do outro, ficar onde não quer realmente estar, não amar, não sorrir, se irritar, não arriscar, guardar mágoa e, sobretudo, fazer mal à alguém. O que quer que seja, que não seja voltado para o bem, gasta o nosso tempo, o joga no lixo. E fazer mal à alguém é a maior perca de tempo que se pode cometer. Afinal, no fim das contas, o veneno sempre volta para você e o tempo maior é descontado do seu relógio da vida. 

Sendo assim, me desculpe, mas quando se tratar de qualquer perversidade, desrespeito, injustiça, ato de mediocridade e/ou desamor; não tenho tempo. Não tenho tempo para esse tipo de comportamento. E se, por acaso, você tiver esse tempo a perder, se tiver esse tempo para deixar de investir em si mesmo para cometer atos de injúria e/ou disseminar discursos de ódio, eu vou ter que te dizer: não tenho tempo para você. Não vou te ler, te responder, te escutar e nem querer te ver. Mas, se o seu tempo te for tão caro quanto o meu me é, te faço o convite de investirmos nosso tempo junt@s. Que tal?  Se o bem não pode ser feito pensando no outro, que seja feito, ao menos, em prol de nós mesmos: invista seu tempo em construir coisas, não o perca em tentar destruí-las. 

investindo meu tempo em você, 
Ane Karoline.


Sexta à noite. Caminhava apressada, sonhando com o banho quente e o fim de semana de descanso. Quem sabe um filme, uma pizza, um livro. Paz. Perdida em pensamentos, demorou a perceber que estava sendo seguida. Tentou se acalmar: que loucura é essa? Arriscou uma olhadinha para trás: definitivamente, estava sendo seguida. É só acelerar o passo, pensou. Acelerou. A sombra perseguidora, apertou o passo também. Tentou um desvio, o perseguidor se aproximou. Começou a calcular: não sabia lutar, quem sabe negociar? Tinha o celular - não estava nem pago ainda. Que chatice. Tá. Ia entregar o celular, os 12 reais que estava no bolso de trás da calça e a bolsa. Decidiu que não ia resistir. Ia entregar tudo e ir andando para casa. 

Acelerava o passo, desviava, tropeçava. A distância diminuía na mesma proporção em que o desespero aumentava. Era novembro, estava frio, mas o suor escorria coluna a baixo. A testa já estava pegajosa, a mão escorrendo. As pernas pareciam não conseguir acelerar. Pensou em correr. Desistiu, ia cair. Se caísse, não teria chance. Apertava o passo e a distância diminui. 

 - Ei!

Pronto. Morta. Estava morta. Começou a pensar, arquitetar: ia escrever a carta de despedida na nota fiscal do lanche dizendo que amava a mãe. Quem a encontrasse, ia entregar a carta para a mãe. Talvez desse tempo de escrever umas palavras para a família toda. Talvez desse para pedir uma missa bem bonita no enterro. Derrubou as chaves no chão. É isso. Talvez desse para lutar. Arriscou uma olhadinha para trás, catou as chaves e colocou entre os dedos. Não ia desistir sem lutar. Menos de um metro de distância. Era correr ou morrer: correu. 

-Ei! Calma aí.

Calma aí o quê? O perseguidor corria também. Correu mais. Derrubou a bolsa. Levantou, correu. Caiu. Joelhos. Começou a catar as coisas quando sentiu a mão no ombro. Fechou os olhos, golpeou a perna do alguém com as chaves. E viu a pessoa cair de joelhos.

- Meu Deus do céu! Calma!
-  QUER ME MATAR?
-Tá perdida moça? Vi sua cara de quem não sabe onde está. 

Não sabia mesmo onde estava. Perdida num mundo onde a gente tem medo de caminhar. 


Sempre com medo, Ane Karoline (texto sugerido por Marta Guedes)


Pelas minhas contas, tinha certeza que ia dar tempo: aos 18 anos estaria com a vida ganha. Universitária, realizada, com um amorzinho leve para abraçar nos dias frios, cuidando dos meus pais como eles cuidaram de mim e curtindo a vida adoidado. Quando cheguei aos 18, pensei: se chegamos à meta, vamos dobrar a meta, é assim que se faz, certo? Me dei mais dois anos. Sempre pensando que quando tal coisa acontecesse eu, finalmente, me daria paz. Sempre supervalorizando o que poderia vir e não o que tenho. Aos 20, percebi que meu plano infalível parecia, então, estar falhando. E, aí, me assustei. E se tudo der errado? E se esse momento processual nunca passar? E se eu, que nem sei nadar, acabar morrendo na praia? E se eu...? E se?

De tanto me preocupar, acabei criando um monstrinho: medo horrível de não chegar a nenhum lugar. Afinal, o fulano já casou, já se estabilizou e eu ainda no cursinho de inglês. O temor em fracassar, começou a se tornar maior que a vontade de ganhar, maior que a fidelidade comigo e com meus sonhos. Dia após dia a rotina era me afligir: sem me permitir ser feliz. Quando o carro chegar, quem sabe, aí eu vou ter motivo para sorrir. Mas nessa ânsia de acertar, comecei a tropeçar em meu rastro, andando em círculos. Ah! Deixa para lá! Quis parar, mas foi aí que percebi: é de tanto não parar que a gente chega lá.

Na pré-escola eu tive medo, chorei, caí e levantei. Aprendi a ler. Depois tive medo de andar de bicicleta, de nadar, de viajar, do colegial e da faculdade. Tive medo de tudo isso e, durante várias noites, tive a certeza de que não iria conseguir. Mas, no fim, nunca parei. Segui. E hoje, a criancinha que aprendeu a ler aos 10 anos, está aqui. Não ali, não lá, não onde o fulano está: estou aqui. Estou exatamente onde me era cabível estar e sei que, apesar de ainda ter muitos travesseiros para molhar, vou, sempre, me levantar, e chegar lá: onde quer que eu tenha que chegar. 

Ansiando pelo paraíso, Ane Karoline (Texto sugerido pela Érica Rodrigues)


Não foi por hoje. Quer dizer, foi sim. É claro que foi. Mas não foi "só" pelos 20 minutos de atraso. Mesmo sabendo que você sabe que eu odeio atraso, a gente tinha feito um trato, até onde me lembro. E você, mais uma vez, o ignorou. Ignorou um acordo no qual chegamos juntos. Mais uma vez. Na verdade, acho que foi isso: mais uma vez. E, dessa vez,  eu não quero mais explicações. Pelo que te ouvi dizer, um imprevisto aconteceu e ocasionou o seu atraso. Perdoável. Isoladamente perdoável. Mas, meu bem, não foi um caso isolado. Foi a gotinha que faltava para encher o copo. Encher o saco. Me encher. E eu, que estava equilibrando esse copo sozinha, tentando não deixá-lo cair, finalmente, transbordei.

O que acontece é que cada um dos pequenos gestos cometidos sem consideração,  fizeram com que eu, não só quisesse, mas tivesse que abrir mão. Cada mentirinha, cada troca, cada afronta, cada deslealdade, cada irreverência, cada desaforo e cada desprezo me fizeram perceber que confiança precisa ser regada para crescer. E eu, sempre cheia de energia, regava esse jardim com as explicações e os pretextos que você me oferecia, me esforçava tanto que florescia. Descobri essa forma de sustento sozinha. E foi durante os 20 minutos te esperando que me lembrei do teatro - no qual você nunca confiou. No teatro a gente não pode atrasar. Quem atrasa, não é digno de estar lá. E é assim que a gente vai aprendendo em quem confiar: construindo, através de merecimento. A confiança que eu te dei, sendo assim, não tinha razões para continuar. 

Então é isso, os 20 minutos, que você julgou como nada, como desimportantes, foram suficientes para me fazer acordar: quem quer confiança, tem que edificar. Se assim não for, não há razões para ficar. Agora, que já não empenho energia em o jardim da confiança mútua regar, tenho mais tempo, e espaço, para deixar que a confiança em mim mesma floresça. 

Confiante,  Ane Karoline (texto sugerido pelo Gabriel Souza)


Duas carimbadas interromperam o silêncio. Ela não me olhava enquanto escrevia freneticamente no papel. Profissional, pensei. Cocei os olhos e tentei olhar ao redor para parecer mais relaxada. Agir como um ser humano adulto: indiferente ao que acontece ao redor. Cocei os olhos. Se coçar piora, ela me disse. Parei.
- Histórico com álcool? 
- Não.
- Drogas?
- Nada.
Ela prosseguiu anotando, quase inconsciente da minha presença. Me ajeitei na cadeira e resolvi puxar assunto.
- Tenho 23 anos e nunca tive um porre. 
- Que bom. 5 dias de atestado, a medicação está prescrita aqui. Repouso. Volte se persistirem os sintomas.
Continuei sentada, ela me despachou com um sorriso e um boa tarde. Os sintomas persistiram quando, ao sair do consultório, vi o que poderia ser uma festa: umas 15 pessoas desconhecidas que não passavam dos 30 anos de idade. Não era uma festa porque estavam todos abatidos: olheiras maiores que os olhos, sorrisos escondidos, testas franzidas. Todos doentes. Como eu. Eles nem me viram, eu , literalmente, também não pude ver muita coisa. Meus olhos coçavam. Síndrome do olho seco. Eu estava seca. Não me lembrava a última vez em que havia chorado. Um turbilhão por dentro, uma verdadeira tempestade. Por fora, seca. O olho coçava me pedindo: chora. Não chorava. Não tinha tempo para chorar: trabalho, família, trabalho, estudo, trabalho, trabalho, trabalho. Resumo da ópera: enquanto me afogava em mim mesma, fiquei doente por não chorar. Tanto temi parecer fraca, que vulnerável me tornei. 
No fim das contas, a médica estava certa: os 5 dias me ajudaram. Percebi que não sei para onde estou indo, mas que ninguém sabe. Não faz mal não saber. Isso é coisa que colocam na cabeça da gente: aos 25 tem que ter doutorado; 26, casamento; 28, filhos. A gente quer tanto encontrar resultados, que se esquece de ser antes de estar. E na verdade, o resultado principal fica de lado: a construção de nós mesmos, o cuidado com nós mesmos. Acabamos travando batalhas por conquistas que nem são exatamente por nós e a intensidade da juventude faz com que nos enchamos de tralhas no caminho: ansiedade, medo, tendinite, síndrome do olho seco, síndrome do pânico, síndrome disso, síndrome daquilo. Síndrome de estar fazendo o que não queremos fazer, por razões que nem conseguimos esclarecer.  Então, antes de chegar lá, resolvi o caminho aproveitar. Eu não "já" vivi até aqui, eu "só" vivi até aqui. Os sintomas persistiram mas, ao invés de voltar ao hospital, vou sair para me encontrar. Quem sabe esse olho seco não está precisando de um porre para, nem que seja de vergonha, se molhar?

Ansiosa por resultados, Ane Karoline (texto sugerido por Débora Kelly) 



Você baixou minha guarda. Com esses olhos intensos e essa risada idiota. É engraçado, não é? É engraçado como nós conseguimos encontrar a felicidade em lugares estranhos. Eu estava tentando ser, apenas existir, me encontrar novamente, me recuperar de um rompimento. Eu estava tentando ser egoísta, focada, determinada. Eu estava cumprindo minha rotina religiosamente, encontrando paz na simplicidade, encontrando graça nas pessoas ao meu redor.
Eu consegui encontrar a felicidade cantando músicas sertanejas no semáforo, compartilhando cheeseburgers e batatas fritas com meus melhores amigos e observando as estrelas em silêncio. Eu, finalmente, aprendi que amor não é unicamente centrado em uma pessoa e não é feito de uma única sensação. O amor é transitivo: pessoas, lugares, memórias. Finalmente, entendi tudo isso.


imagem: fanpage "hm, sei lá"

Eram duas. As duas, juntas, não somavam 100 kg e nem 40 anos de vida. Inquietas, tentavam falar baixo na medida em que o zum zum zum do ônibus permitia. Uma loura, a outra morena - a segunda mais cabisbaixa. Eu as observava como quem esquece os fones de ouvido e, para distrair-se, põe-se a observar a vida alheia. 
- E vocês, como estão?  - ouvi a loura perguntar cautelosa.
Logo deduzi de que tipo de "vocês" se tratava.
- Ah...
- Mas de novo?
- Não. - suspirou e colocou uma mexa do cabelo castanho atrás da orelha - agora acabou mesmo.
Os tempo que passaram calada, depois disso, só me fez perceber o meu grau de envolvimento e de interesse para com a prosa.
-Poxa - a lourinha, finalmente, disse - mas vocês nem conversaram?
Traição, pensei.
- E desde quando ele me ouve? Ou me responde?
Fui juntando as peças: o cara não estava interessado, não queria conversar.
-Talvez seja melhor assim. -sorriu, tentando animar a outra.
Comemorei: isso! Mostra para ela que alguns começos vêm disfarçados de finais.
- É...
- Mas você ainda poderia chamá-lo para conversar - tentava animar a outra a todo custo.
- Ele não quer.
- Tem certeza?
Comecei a me inquietar. A conversa estava indo para um rumo que levaria a mocinha a pedir, provavelmente pela milésima vez, para alguém voltar.
- Acho que tenho. Ele foi me direto. 
Roí uma unha, e olhei de relance para elas. Percebi que ela estava começando a pensar no assunto.
- Será que não vale a pena tentar mais uma vez?
- Não sei... Será?
Pronto. Lá ia atrás dele. Cutuquei outra unha, impaciente. 
- Ah, vale sim! Quem sabe ele não está só esperando você ligar?
- Ele ligaria se quisesse - foi da senhora sentada à frente das meninas que veio a resposta que eu queria ter dado.
As meninas se entreolharam confusas mas a senhora não pareceu constrangida e continuou.
- Não conheço os detalhes da sua novel mas esteja certa de que se ele quisesse, ligaria. Se você deu de si o que tinha e ele não se envolveu, se não achou suficiente, você tem que partir. Eu, que não te conheço, não pude deixar de me envolver com a conversa por que a gente se envolve com tudo! Se com ele não aconteceu, se ele não se envolveu, esse lugar não é seu.
Eu, que à essa altura já acompanhava o desenrolar da cena descaradamente, não pude deixar de notar os olhos das mocinhas brilhando com as lágrimas da emoção da gratidão e da dor da compreensão. Não falei com elas e não sei, então, qual foi o fim. Mas, dali, peguei algo para mim:  entre tanta gente disposta a nos escutar, por que temos escolhido quem por nós não se permite afetar?

Ane Karoline

imagem: google

Eu tenho medo. Além de tê-lo, o tempo todo, estou com ele agora mesmo. É que ele me acompanha. É ele que me puxa de volta, quando estou indo. É ele que acende uma luz vermelha em minha cabeça. É ele que grita "melhor não arriscar". Ele grita, não sussurra. Eu poderia estar com você agora, mas estou com o medo.
Soa patético, alucinado e ridículo e é tudo que eu sempre critico: ter medo de arriscar. Já que já deu para perceber, então, vou confessar: sou o meu pior pesadelo, gente que não sai do lugar. Não que estagnada eu queira ficar, inclusive, corro. Corro de mim e acabo em mim. Gaguejo, tropeço, me perco e me afogo. Eu sei nadar, mas me afogo. É que nesse oceano que existe dentro de mim, pouco adianta nadar: tenho que respirar, esperar e aceitar. Sem, nunca, parar de lutar.
Posto assim, parece complicado: estar com alguém que está sempre amordaçado. Mas, se me cabe explicar, é mais um laço que mordaça. Me puxa para longe quando preciso ficar, me joga de volta quando ninguém quer me achar. Me prende, vez ou outra. Me esquece, outras tantas. Nunca me solta, sempre me acha, mas não me veta. Quero dizer, estamos sempre de mãos dadas, o medo e eu. Ele, coitado, deve ter medo de andar só - como eu. Mas a gente se respeita. Quando percebo que ele precisa de um cuidado maior, cancelo tudo e dou-lhe a devida atenção. Fico de molho em casa, ouvindo o barulho que há dentro da minha cabeça, até que ele seja suficientemente ouvido e se cale. Quando eu preciso de espaço, preciso lutar um pouquinho com o medo - ele é meio pegajoso. E eu sou corajosa, vou me soltando até estar suficientemente livre para te acompanhar, desde que não me peças para esperar.
Essa é uma mania que herdei do medo: quando estou liberta, tenho a ânsia de realizar. Agora. Pra já. Quero agir, ir, progredir, construir, reconstruir, compor, amar e escribir. Um furacão. Mas não há o que temer: intensidade não é algo que vá ferir você, provavelmente, vai te proteger. É só uma pequena pressa que vai, sempre, te tirar do lugar, te instabilizar e, quem sabe, te emocionar.
Eu tenho medo. E, vez ou outra, é ele que me tem. Esse grude todo, com frequência me aborrece e sei que pode também te aborrecer. Mas, cá entre nós, também existem vários detalhezinhos em você. Ou seja, pelas minhas contas, pode dar certinho e a gente pode se acertar - mesmo quando eu estiver mais para lá que para cá. Quando for assim, vou te pedir para apaziguar e, se conseguir me achar, me abraça. Caso eu, momentaneamente, suma, me ame e me abrace quando eu voltar. Eu tenho medo mas quando ele vai passear, eu me empenho em amar. 

Ane Karoline

Por: Beau Taplin



O fato é que relacionamentos são complicados e a decisão de permanecer ou desistir é uma das respostas mais difíceis que a vida nos pede. Algo muito importante de ser entendido é que existem muitos tipos diferentes de amor e nem todos eles contribuem para uma relação e/ou vida saudável e balanceada. Apesar, então, de tudo o que já nos foi dito, existem alguns amores que não merecem que lutemos por eles.



Eu sei que se conselho fosse bom, a gente deveria vender. Eu sei que não posso e nem quero me meter. Mas se eu pudesse te dar um conselho, te aconselharia a não esperar a vida acontecer: ir lá e fazer. Caminhar, correr, cair e levantar sem medo de perder. A gente perde mesmo é pelo medo de tentar. Esse, na verdade, é o conselho número 2: arrisque. Vivi 18 anos sem comer mostarda porque achei que fosse ruim. Veja só que medida mais sem comprimento: achei. Achei errado, como várias outras vezes. Provei, gostei e a única coisa que perdi foram 18 anos daquele gostinho marcante de mostarda em minha vida. 
Ah, esse é o conselho número 3: esse espaço de tempo consciente que apelidamos carinhosamente de vida é exatamente isso, um espaço de tempo que passa - e passa que é uma beleza. Aliás, pode ser uma beleza. E pode não ser. Mas a gente pode tentar fazer ser uma beleza, ao nosso jeitinho, especialmente nesse dia que fica entre o ontem e o amanhã! Porque, de repente, ele já não existe mais. Tem isso também: tudo passa, ainda bem! E esse é o conselho número 4: não se aborreça tanto assim, tudo vai chegar ao fim. Tudo pode mudar. As coisas são criadas e recriadas a cada instante. Essa sua tragédia de agora, possivelmente, não será nada no próximo ano. Quem te chateia hoje, amanhã vai estar seguindo outros rumos.
Eis o conselho número 5: as pessoas são coautores de nossa história. Não desperdice isso e nem, tão pouco, faça delas os únicos autores. Somo todos colaboradores e ninguém está nenhum degrauzinho acima. Falando em estar acima, não queira. Conselho número 6: faça o melhor que puder, seja o melhor que puder sem precisar (ou desejar) estar acima de ninguém. Mantenha a ideia de que somos colaboradores.
Plante, cultive e espalhe amor é a melhor forma de convivência e sobrevivência existente. Diga bom dia e seja o último a sair de um abraço. Somos colecionadores de miudezas, na verdade, somos construídos por elas. Falo das coisas que não têm tamanho, aquelas que podem parecer pequenas mas são tão apreciáveis que tornam-se imensuráveis. Coisinhas. Coisinhas que nos edificam sem que percebamos. Conselhos 7, 8 e 9. E esperando que o décimo seja realmente um acréscimo digo: acredite. Qual é o pior que pode acontecer? Não acreditar é um ato de desesperança e covardia tão grande que apaga milhares de chances todos os dias. Acreditar é ter um caminho para trilhar.