Fonte: Tumblr
Te peço que fique
Que fique embriagada com o gosto dos meus lábios
Que fique arrepiada com o toque dos meus dedos
Que fique deleitada pelo som da minha voz

Te peço que lembre
Que lembre dos momentos de carinho no escuro
Que lembre do sabor da minha língua contra a sua
Que lembre do momento em que nossos olhos se esbarraram

Te peço que esqueça
Que esqueça as brigas sem sentido
Que esqueça que eu esqueci nosso aniversário de namoro
Que esqueça as birras que dei por ciúmes

Te peço que guarde
Que guarde os segredos que construímos juntos
Que guarde os poemas escritos em guardanapos sujos
Que guarde o casaco que te "emprestei" para sempre

Te peço que considere
Que considere tudo o que vivemos, real
Que considere tudo o que sofremos, aprendizado
Que considere, voltar

Que considere, mais uma vez, ficar...

-Adolfo Rodrigues

Imagem: weheartit.com


Historinhas a gente tem aos montes - contos, estórias e história-  de vida nossa e das vidas alheias. Todas as vidas merecem ser contadas, e agora é hora de Isabel. Isabel tinha uma coisa, uma coisa diferente, e muita gente a julgava tola. Mas a verdade é que ela sempre fora uma acreditadora: sempre acreditou na força do destino, era uma caçadora de sentidos. Parece papo místico, mas é praticidade. Isabel acreditava que tudo acontece por uma razão, tudo tem um motivo que, mais cedo ou mais tarde, vai aparecer e vai gritar para nós: oi, eu sou a razão pela qual você passou tal coisa. 

Reclamava pouco, a Isabel. Se tropeçasse, era sinal para trocar os sapatos; se a comida fizesse mal, era para que ela se alimentasse melhor; se perdesse o ônibus, era para evitar acidente; se tivesse um tumor no cérebro, era para valorizar a vida. Até dos relacionamentos acabados, Isabel sempre levava algo bom, quando questionada, arrumava exemplo até não caber mais: "Quando Lucas me traiu, aprendi que devo me amar em primeiro lugar."; "Quando Amanda me abandonou, aprendi que podemos fazer novos amigos." e quando os exemplos acabavam, ou não convenciam, ela acrescentava: "Todo mundo passa pela nossa vida por uma razão."

Seguiu assim, acreditando, até conhecer Miguel. E, aí, acreditou mais. Miguel: todo inteligente, todo misterioso, todo meias palavras, todo, todo. Miguel: mesma turma de Introdução à Linguística de Isabel. Miguel e Isabel: seis letras cada um. Seis vezes três (pois se conheceram no dia três de fevereiro) é dezoito: a mesma idade tinham. Para Isabel, não tinha como negar, o destino estava ali, gritando, berrando e explicando que as relações anteriores fracassaram somente para que ela encontrasse Marcos. 

Outra coisa coisa que Isabel tinha era uma mania de ser persistente. E, com Miguel, foi. Persistiu por longos três anos, procurando sentido e dizendo a si mesma: temos uma conexão, temos uma conexão, temos uma conexão. Até que, enfim, Isabel se cansou. Quando foi embora, Miguel não hesitou: "Não temos conexão, tínhamos afeto e afeto acaba".Acabou-se Isabel.

De tanto procurar, cair e levantar, Isabel resolveu aceitar que de todas as relações anteriores havia levado alguma coisa, aprendido alguma coisa, sempre restava o amor -  da relação com Miguel, só restara a dor. Aí, quis que ele não existisse. Fechava e abria os olhos, esperando que ele fosse apagado da história da vida dela. Não que quisesse que ele morresse, não, queria é nunca tê-lo conhecido. 

A verdade é que a dor maior foi perceber que estava errada, que não havia razão nenhuma, que Miguel nunca lhe trouxera bem nenhum. Deixou-a aos pedaços, tentando recolher-se e encontrar-se nas palavras; tentando se organizar nas páginas e páginas que escrevia para ele. Páginas que ele mesmo fazia questão de jogar fora. A Isabel toda cheia dos clichês, se doía toda por perceber que havia desperdiçado sua poesia com um Miguel tão indiferente, tão insosso. O Miguel era um poço vazio, oco, um vão, um abismo, onde a Isabel tentou plantar poesia. E enquanto estava entretida com Miguel, não faltava gente em quem investir a poesia de Isabel. Tinha até gente que pedia: "Me escreve, Isabel". E ela nada, só tinha olhos para o Miguel.

Depois que Miguel se foi, a magia foi parcialmente destruída. Ele deixou para a Isabel a pior compreensão: nem tudo na vida tem uma razão. Hoje Isabel sente a vida como uma eventualidade, e se dói, porque é dolorido demais se sentir solta ao acaso.

Calha que o acaso tem leis imprevisíveis e Isabel, talvez, ainda não tenha conseguido é compreender esse erro. Foi, sim, um erro. Miguel foi o erro da vida de Isabel, o erro trágico de Isabel. Todo herói precisa de erro trágico, Miguel foi o erro cometido para que Isabel se tornasse heroína - e o mérito é todo dela.

O texto acima foi escrito em resposta a um e-mail de um/a leitor/a. Quer contar algo? Pedir um conselho? Conversar? Mande seu e-mail para: papocomjulieta@gmail.com

Forte abraço! <3

imagem: weheartit


Hoje eu não vou falar sobre nós - eu e você. Nem sobre o nó na minha garganta, e, muito menos, sobre o nó que se atou em nós dois - aquele que, de tão apertado, nos expeliu para longe um do outro. Pois, sim, sobre o que eu vou falar? Vou falar sobre mim e sobre o meu coração, mas vou te usar para isso. Eu devo ter licença poética para isso, certo?

Vou começar dizendo o óbvio: eu não te dei meu coração. Lá atrás, na nossa época, eu não fui a quase nenhum dos lugares para os quais você me convidou; não me lembrei de tirar fotografias; mal segurei sua mão. Eu, realmente, não te dei meu coração. Mas eu, desventurada, também não o tinha. Havia perdido o meu próprio coração em uma manobra errada, uma manobra feita antes de te conhecer. Perdi meu coração e me perdi, fiquei desorientada. A gente, quando não está amando (seja como for), perde a cor da vida. Lembra como eu estava cinza quando nos conhecemos?

Foi assim, perdida, que te encontrei. Vi primeiro o sorriso. O sorriso que você me deu era tão quente quanto aquela tarde de domingo. Quando te vi, senti meu coração - ainda que trôpego, vacilante e tímido - voltar a reagir: uns pulos aqui, uma taquicardia ali. Você também me viu. Na verdade, você me reconheceu, sua ansiedade em se aproximar me mostrou que era isso: a palpitação que eu senti, você também sentiu. Era a mim que você, despreocupadamente, estava esperando. Eu caberia certinho na sua vida, né? Sei disso. Mas, como prometi, não vim falar sobre isso.Vim falar que o espaço que tinha na sua vida, reservado para mim, não contava com o fato de que eu estava pela metade.

Eu era só um monte de fragmentos quando conheci você. Um amontoado de estilhaços, ainda sangrando, ainda ariscos, ainda despedaçados. Por isso não encaixava, você era inteiro. Tentei e, a cada tentativa, era como tentar encaixar uma peça errada em um quebra-cabeças, era como tentar colocar o lego de triângulo dentro do espaço reservado para o círculo: não encaixava e me machucava. Também te vi tentar e, consequentemente, falhar. É que se reconstruir é uma coisa que a gente faz só.

A sorte é que o tempo passa e, na passagem, cura. Hoje, meu coração está aqui de novo: livre, leve, solto. Voltou à sua função normal - que vai muito além de só bombear sangue para o meu corpo. Hoje, agora, nesse exato momento, meu coração estaria pronto para te ser entregue. Mas o amor, que é caprichoso, não funciona bem assim e tem me mostrado o erro que cometi lá atrás - o tropeço que me estilhaçou - e que, também, estava tentando cometer com você: coração não é para ser entregue.  Nem o meu, nem o seu, nem o de ninguém. O amor, sim, esse a gente dá sem medo. Mas o coração tem que ficar, para gerar amor para mim também. Foi por isso que eu não te entreguei meu coração.

com amor, 
Ane Karoline