[New] The 10 Best Home Decor (with Pictures) -  H I G H T R A F F I C #street #traffic #photography #photographer #canon #canon80d #fujifilm #hujicam #vsco #visualart #powershotsx60hs
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Os primeiros raios de Sol não deram exatamente as caras, uma chuva veranil tão pouco. Quanto mais eu dirigia, mais entrava em uma onda acinzentada nublada, o rádio alertava sobre o record de temperaturas altas na Antártida. Menos de 5 km de distância de casa e o trânsito já estava parado, o aplicativo piscava repetindo: em 30 km você chegará ao seu destino. Que destino, afinal? O destino seria, então, fazer um monte de coisas todos os dias mas, ao final, não ter feito coisa alguma? Desisto da rádio,  procuro um podcast para ouvir, já sofro pelos títulos:

 parlamentarismo velado
o maior desmatamento da Amazônia em cem anos
 a menina Ághata
a extinção de 67% dos animais selvagens
os mais famosos memes
a cultura do cancelamento

Sinto que gostaria de conversar com alguém sobre isso, sobre essa impotência, sobre traçar estratégias, sobre desistir, sobre insistir, sobre, ao menos, resistir. Sobre força. Queria subir no teto do carro e perguntar: alguém ainda tem força? alguém aí, ei, ainda tem força para lutar? alguém ainda está lutando? ou já desistimos todos?

Os carros ao lado são todos iguais: cada um com uma pessoa solitária como eu. Os poucos ônibus que passam também são siameses: todos aporrinhados de gente até o teto, gente que poderia estar compartilhando espaço e oxigênio nos carros solitários. O acostamento está cheio de carros furiosos, todos estamos atrasados. 

Entre buzinas, vozes de jornalistas e radialistas, episódios inacabados, e as mesmas músicas repetidas, o aplicativo me diz que o meu destino está à minha direita. Ainda sem sol, sem chuva, sem ar, olho para as nuvens esperando o sinal esverdear. Viro à esquerda, vejo o seu José, todo atribulado carregando uns cones, abrir o portão do estacionamento. Desço do carro ainda enevoada, nublada por dentro. Ajudo seu José a cruzar o estacionamento com os cones. Ele sorri um sorriso ensolarado e me agradece. 

 - Que é isso, fiz nada! - agradeço descrente. 
- Levantar todos os dias, sem desistir, e continuar vendo as pessoas é fazer muita coisa! - me golpeia ele. 

Entrei em minha sala e abri a janela, ainda lutando para ver um céu que em nada me agrada. Seu José me lembrou o que eu teimo em esquecer: quando não há, ainda, como remediar, a força nossa está em não deixar de lutar. Não desistir é chegar lá.

com amor, 
Ane Karoline

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Minha barragem interna foi rompida mais uma vez. Dessa vez, não sei se pelo excesso ou pela falta - acho que barragem ressecada também rompe. Eu vinha ignorando as rachaduras há um tempo, para ser sincera. Fato é que chorei um rio inteiro da pior forma possível, que é exatamente quando tem alguém olhando, tentando infrutiferamente te acalmar. As lágrimas escorriam como que por um tempo infinito, sem que eu conseguisse, ou sequer tentasse, contê-las. Para ser mais exata, foram duas horas contadas em meu relógio biológico quebrado. Depois, junto com o oco dentro da minha cabeça confusa, estava a voz de mamãe, ao longe, ecoando em minha mente: 

Mas, afinal, o que é que tem te incomodado tanto, Carol?

A falta de uma resposta, era o que me incomodava mais. O não saber, a prisão do limbo de não querer coisa alguma em específico mas, ao mesmo tempo, querer tudo que eu não tenho, tudo o que não sei. Lembro de todos os livros que li, todos os zilhões de letras, formando todos os milhões de palavras, formando todas as infinitas ideias e me sinto ainda pior. Talvez eu devesse me desculpar comigo mesma por tudo isso, mas, como não sei nem por onde começar, quero me desculpar com todos os autores que falam direta ou indiretamente sobre autoconhecimento, eu juro! Eu gostaria de encher os pulmões de ar, abrir a boca e dizer: o que me incomoda é tal coisa. Mas eu não sei. Se me aparece alguém agora com uma arma em minha têmpora direita e me diz para revelar o que tanto me aporrinha, eu não vou saber dizer. Vou dizer que atire, vou dizer que se eu soubesse, eu mesma atiraria na tal coisa. Eu diria a esse alguém: e você, por acaso, sabe? Você sabe o que te incomoda?

Será que alguém, afinal, sabe de alguma coisa? 

Eu penso que eu teria que me conhecer bem demais para saber de algo assim. Pode ser que sejam todos aqueles zilhões de coisinhas, como: a rachadura na parede, a tomada frouxa, a lâmpada fraca, o convite de casamento que não recebi, a roupa que nunca consigo desamassar, as cartas que nunca recebo, a cicatriz sob a minha sobrancelha. Pode ser que sejam todos aqueles zilhões de coisas imensuráveis que eu jamais conseguiria resolver: a falta de conhecimento sobre língua de sinais, o presidente eleito, a desinformação, o racismo velado, o sexismo parlamentar, a imprudência parental, o trabalho escravo, a idolatria ao capital, ou a estrada sem asfalto três ruas abaixo da minha casa.

A rua sem asfalto que fica três ruas abaixo da minha casa é uma das coisas que me incomoda, mas não é o meu incômodo todo. Eu penso que se chove, as pessoas que moram lá ficam ilhadas na lama, se é dia de sol, as pessoas de lá sentem dor nos pés de caminhar no cascalho. Não dá para andar de bicicleta em uma rua assim, quem anda cai. Pensar na rua sem asfalto me acalma porque não tenho que pensar em  mim, não tenho que pensar nos meus incômodos, no curso que não faço, no livro que deixo de escrever, nas coisas que não tenho coragem de dizer, na consulta que evito ir, nos eventos que cancelo sem motivo. Pensar em todas as ruas brasileiras sem asfalto me dá espaço para evitar pensar em tudo que tenho feito comigo, me faz trocar a ordem das coisas e concluir, erroneamente, que estou pensando nos outros antes de pensar sobre mim.

Será possível inverter todas as coisas assim?
Será que ainda dá tempo para pensar em mim?

Olho as paredes silenciosas, o escuro do quarto, as linhas retas do assoalho e concluo que preciso parar. A barragem rompida dentro de mim pode ser reconstruída antes que acabe com todos ao meu redor. É hora de se despir de tudo, criar coragem, encher o peito de ar e colocar o pé na estrada sem asfalto do autoconhecer-se. Uma micro luz se ascende dentro de mim, a coragem é o primeiro passo.

Se conhecer de verdade é como andar de joelhos em uma estrada sem asfalto, 
com os joelhos desencapados é que a gente conhece a nossa própria cor.  

com amor, 
Ane Karoline

Resultado de imagem para cant believe im still protesting this
imagem: google
Saio nas ruas como todas as mulheres do mundo: super consciente de tudo, cuidando de cada passo, cuidando de cada respiração, pronta para correr, carregando nas costas o peso de progenitora da humanidade toda. Enquanto ando, sinto, vejo, escuto. Quando não as vozes, os olhares me dizem: ridícula, patética, enfadonha, penosa. Quando não os olhares, os gelos que recebo me dizem: chata, aporrinhante, importuna, irritante, desagradável. O que, na verdade, as vozes me dizem, é um coro claro: desnecessária. 

Mal sabem todos, que luxo seria esse que esses meus gritos fossem desnecessários. Não sei bem se mal sabem ou se mal querem saber. Afinal, vale alguma coisa minha vida, ou só vale mesmo o útero? 

É bem verdade, como me dizem os opositores, que  não fui oficialmente impedida de ir à escola, não fui oficialmente impedida de cursar universidade, não fui oficialmente inibida de trabalhar, não sou oficialmente obrigada a me comprometer com um matrimônio heterossexual. É bem verdade que muitas outras antes de mim passaram por todas essas situações, foram massacradas, pisoteadas, reduzidas a pó, sem voz e sem vez. A elas devo meu respeito e minha gratidão: me trouxeram onde estou. Todavia, minha luta agora é outra. A minha luta é contra frequente atitude de superestima em relação aos garotos nas escolas, é contra a supervalorização da masculinidade tóxica desde a mais tenra infância, é contra a hiper sexualização infantil (que é recai majoritariamente sobre meninas) é contra a redução de qualquer ser humano a funções biológicas, é contra a interrupção constante das falas públicas de universitárias, é contra a frequente atitude se subestimar pesquisadoras mulheres, é contra o tratamento diferenciando para o pai e para a mãe, é contra a falta de vagas de emprego para mulheres, é contra os salários mais baixos para mulheres que exercem as mesmas funções que homens, é contra a ideia única do matrimônio como finalidade da vida de uma mulher - e somente da mulher, nunca do homem... Sobretudo, é contra o discurso vazio e falacioso de que não existe mais sexismo, de que já há equidade entre os gêneros, de que não já discriminação ou, pior, violência sexual pesando sobre um gênero.  

Saio nas ruas e sinto, vejo e escuto. Sinto o medo que vem de mim e das outras, vejo o jeito silencioso dos olhares que recebemos - os quais nos devoram ou nos reduzem a nada. Escuto a ironia, a descrença e a subestimação cada vez que uma de nós se coloca. É por isso que a luta, apesar de ser a mesma, é outra: é a favor do incentivo à força feminina, é a favor da parceria entre mulheres, é a favor da liberdade feminina, é a favor do espaço para mulheres, é a favor da chance de ser, ao invés de cumprir um protocolo que, não necessariamente, me cabe, me acolhe, me expressa. 

Então, quando me questionam "mas ainda isso, em pleno 2020?" respondo: sim. É ridículo, patético, enfadonho, penoso, importuno, irritante, em pleno 2020 ter que ter esse tipo de conversa retrógrada, mas se há de fazê-lo, aqui estou, não apenas lutando, mas lutando como uma garota - procurando equidade, se não para mim, para as que vierem depois de mim. 

com amor, 
Ane  Karoline

Caixa dos Correios feita com caixa de papelão. Excelente atividade para crianças. DIY fácil e simples de fazer
Imagem: Pinterest

8h13 da manhã de uma quinta-feira quente. Decidi jogar o envelope fora assim que ela cruzou a porta giratória, mas o abri antes. A caligrafia torta dizia:

Papai do céu, 
Decidi que não vou mais ajudar a vovó. Eu achei que ela não conseguisse entender as coisas que a gente diz e não conseguisse dizer as coisas que ela quer. Só que ontem eu vi que ela escreveu uma carta longa, longa, longa, com uma caligrafia miúda e cursiva - que eu ainda não sei ler. Quer dizer, ela sabe um montão de coisas que eu não sei! Quando o papai me chamou e disse "Julinha, você tem que ajudar a vovó" eu falei com ele isso, mas ele disse que as coisas que ela escreve não são certas. Como não são certas? Pois eu acho bem certas sim, sabe? Fechei os olhos e fiquei pensando como se eu fosse a vovó, pensando que se eu não quisesse muito falar certas coisas, se eu quisesse mais escrever outras coisas, se eu preferisse cantar umas músicas que ninguém conhece, eu ia querer que as pessoas deixassem. Aí, eu estou te escrevendo essa carta só para avisar, então, que não vou mais ajudar a vovó, ela não precisa de ajuda. Eu acho que o papai ainda não entende que o certo da vovó não é igual ao meu certo e ao certo dele. E, na verdade, eu também não entendo as coisas que a vovó diz, mas eu gosto muito dela, por isso, não vou mais ajudar a vovó, vou deixar ela fazer o certo dela. Se você é o papai de todo mundo, deve entender a vovó assim. 

A carta caiu no balcão. Voltei alguns minutos no tempo: Lembrei da Julinha irrompendo porta adentro da agência com pressa e com muitas moedas, lembrei da minha descrença quando ela veio com o papo de carta para Deus, lembrei do dia começando, do computador arcaico marcando 8h02, o café ainda não estava pronto, as buzinas já alucinavam, as duas primeiras pessoas entravam e a minha mente girava sem saber se esse configurava mais um dia de trabalho burocrático ou menos um dia em minha vida. A verdade é que ninguém mais ia  aos correios para enviar cartas - o que era meu trabalho inicial, antes de ser piedosamente realocado no setor burocrático. Agora, as pessoas vão aos correios para: buscar encomendas, devolver encomendas que não gostaram e pagar contas - essa última opção serve melhor às pessoas acima de 50 anos que querem evitar as filas das casas lotéricas e não usam internet banking. Talvez seja justamente esse desvio de função ao qual os correios estão condicionados que faz com eu não tenha sequer um pingo de paciência com as pessoas. Talvez seja a indiferença delas, talvez seja o fato de as pessoas parecerem nada saberem sobre os processos burocráticos e acharem que a culpa se deve a mim,  talvez sejam os pacotes malfeitos, talvez seja só a minha sensação de inutilidade, mas acabo o dia sempre tendo discutido com cerca de dez pessoas e ignorado todas as outras. É exaustivo. Exaustivo ao ponto de entre às 8h02 e 8h03 eu já ter pensado tudo isso e saber, ao menos superficialmente, como seria o esqueleto do dia. Todavia,  esse seria diferente, às 8h13 passou pela porta giratória alguém que sabia das coisas, alguém que despretensiosamente havia entendido tudo. 

Entender o outro é não medi-lo com a nossa régua. 

com amor,
Ane Karoline

O fotógrafo italiano Alessio Albi resolveu criar um ensaio totalmente inovador em que a beleza e a sensualidade das mulheres são misturadas a elementos da natureza.
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Aconteceu como acontecem todas as coisas na vida de quem, como  em Godot, espera sempre, mas sem saber o quê: como um vaso de plantas que cai de uma janela, sem aviso prévio ou chance de teste. A criatura dormiu na espera do que não sabia, acordou na descoberta do que não queria. O acontecido desenrolou-se de forma simples, ela abriu os olhos, viu as mesmas marcas no teto e esperou que algum pensamento matinal repetido viesse. Nada veio, ela pensou em algo para pensar. Pouquíssimos segundos se passaram até que o vaso de plantas caiu no meio da testa sem aviso, a realização veio transvestida de um pensamento calmo: todas as palavras já foram ditas, não há coisa alguma a se dizer.  Não há o que de diferente falar, já falaram tudo. 

O pior veio em seguida, outro pensamento sincero e dissimuladamente calmo completou: todas as palavras estão esvaziadas de sentido. Não é possível seja verdade, mas é. 

Ainda assim, a criatura respira e resolve checar. Vou falar sobre o tal sentido, então. Google, pesquisar:
O que significa sentido:
O que é estar sentido:
Não existe sexto sentido:
Vídeo-aula:
Vídeo-música:
Vídeo-vídeo
Signo:
Significante:

Significado...  Nenhum.

O que, afinal, procurava? Já não sabia. Na era da constante maré alta de foto-vídeo-foto-post-foto-vídeo-mancheterasa-fakenews-fakelife sabia apenas duas coisas: 1 - queria falar; 2 - todas as palavras já foram exaustivamente ditas. E que conjuntura odiosa é saber das coisas, saber do fato de as palavras todas terem sido ditas faz da vida um tormento: Falo? Posto? Escrevo? Não, não, não... Já disseram antes de mim. 

A cabeça, assim, cheia ainda passa alguém e solta um "bom final de semana" e sai. O cérebro, ainda tonto da compreensão, responde uma combinação jamais feita antes "bom amanhã". O alguém, já ao longe, olha para ela e sorri. O vaso de planta na cabeça parece um pouco menos doloroso: "bom" e "amanhã" são palavras repetidas, o significado é direto, mas o sentido é imenso. 

A realização, então, veio novamente sem avisar, mas veio com mais cautela, afinal, se as coisas estão desgastadas e esvaziadas de sentidos, daremos a elas sentidos outros, funções distintas, usos opostos. O que existia ontem, pode já não existir amanhã. 

 com amor, 
Ane Karoline 



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Em 2019, eu havia feito um desafio literário com 40 livros (tendo, também, o objetivo de ler mais 10 que estivessem fora do desafio. Entretanto, como já comentei nas postagens anteriores a essa, não consegui cumprir todo o desafio, mas, ainda que eu não o tenha cumprido, o desafio me motivou bastante, assim, farei novamente. Por isso, em 2020, conhecendo melhor minha nova vida de teacher, decidi fazer um desafio menos audacioso: o objetivo é ler 35 livros no total ( sendo, aproximadamente, 3 livros por mês)

O desafio não inclui títulos, inclui apenas tipos/gêneros de literários os quais o leitor deve encaixar em suas leituras. Não há necessidade de cumpri-lo em ordem e, ainda, quem quiser ler só alguns também está convidado. A medida em que eu for lendo, vou postar no instagram e, claro, vou atualizando essa lista aquiPara motivar ainda mais os leitores, tratarei sempre de divulgar o livro que estarei lendo no momento para que, quem quiser, possa me acompanhar e possamos discutir a respeito.
Vamos ver o desafio, então?

1. Um livro escrito por uma mulher
2. Um livro publicado em 2020
3. Um livro publicado em 2019
4. Um livro indicado por um amigo
5. Um livro em Espanhol
6. Um livro em Inglês
7. Um livro considerado um clássico
8. Um livro de poemas
9. Uma HQ
10. Um livro que comecei a ler e não terminei
11. Um livro escrito por um Brasileiro
12. Um livro estrangeiro
13. Um livro escrito por um autor negro
14. Um livro escrito por uma autora negra
15. Um livro escrito por um autor periférico
16. Um livro sobre sociedade
17. Um livro sobre política
18. Um livro escolhido pela capa
19. Um livro que já foi censurado/banido
20. Um livro escrito no século passado
21. Um livro escrito por um autor asiático
22. Um livro que eu sempre quis ler
23. Um livro escrito por um autor com menos de 30 anos
24. Um livro de fantasia
25. Um livro de contos
26. O primeiro livro de um autor
27. Um livro escrito na década de 60
28. Um livro sobre guerra
29. Um livro infantil
30. Um livro com menos de 150 páginas
31. Um livro sobre escrita
32. Um livro sobre racismo
33. Um livro sobre feminismo
34. Uma distopia
35. Um livro de um/a autor/a que eu goste muito

Vamos participar?

com amor, 
Ane Karoline

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Sempre considerei a História uma ferramenta indispensável para a vivência humana plena, mas agora, mais do que nunca vejo como ela se faz necessária. Quanto mais se sabe sobre o que já aconteceu, mais progressivamente é possível caminhar. Entretanto, nem todo mundo gosta de estudar História, né? Por isso, resolvi discuti-la de uma forma diferente: através da literatura. 

Desta forma, como as guerras, em especial a segunda guerra mundial, me são de grande interesse no que tange a tentar compreender como se estabeleceram, decidi trazer a indicação de três livros que tratam de histórias reais de pessoas reais que estiveram na Segunda Gerra Mundial. Vamos conferir?

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1. O diário de Anne Frank - Anne Frank
Lembro-me de estar cursando o quinto ano quando a professora de língua portuguesa nos entregou um texto confuso, repleto de onomatopeias, e disse que era um trecho do Diário de Anne Frank. De início, me interessei pelo livro porque todos os meus colegas brincavam dizendo que era o meu diário. Anos depois eu, finalmente, puder o livro. 

O livro é exatamente o que o título diz ser: o diário real de Annelies Marie Frank, ma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto (entenda melhor o Holocausto AQUI). O diário foi escrito de 12 de junho de 1942 até 1º de agosto de 1944, sem nenhuma intenção de ser publicado. Em 1944 o governo holandês esteve buscando testemunha oculares da guerra e, após não ter mais dúvidas de que a filha estava morta, o pai dela único sobrevivente da família, Otto Frank, deu o diário para o governo sem lê-lo. 

A estrutura do livro é a de diário, tudo foi mantido como Anne escreveu: datado. Anne relata a rotina de sua família e seus jovens anseios, ela destaca em especial as mudanças e opressões sofridas após a ascensão nazista ao poder. Para quem quer saber mais sobre a guerra a partir do olhar mais sensível de uma pessoa em especial, esse é o livro ideal. 

2. As últimas testemunhas: crianças na segunda guerra mundial - Svetlana Aleksiévitch
Assim que abri o pacote com esse livro e vi a capa, soube que ia gostar. Comecei a lê-lo em uma semana muito difícil em que eu estava extremamente doente e acabei tendo que colocá-lo de lado. Assim, terminei semana passada.

Por mais que eu tenha estudado sobre a guerra, sobre o Holocausto, sobre o nazismo, sobre regimes totalitários, a leitura desse livro foi um soco no estômago. Doeu, doeu, doeu cada página, cada linha, cada narrativa, cada pedacinho de mim. Entretanto, se eu soubesse previamente todas as lágrimas que me causaria, ainda assim leria, precisamos fazer algo acerca da crueldade humana, mesmo que a única coisa possível seja conhecê-la e torná-la pública.

O livro é composto de relatos de pessoas russas que eram crianças na época da guerra, cada relato contém o nome, a idade da pessoa na época da guerra e a profissão atual. Algumas pessoas eram de famílias judias, outras não, mas todas relatam em uníssono: viram e viveram coisas que não deveriam acontecer a nenhum ser humano. Elas relatam como suas famílias foram dizimadas, como elas sobreviveram comendo até mesmo barro e, sobretudo, como é doloroso ainda lembrar de tudo. É livro muito denso, mas necessário. O trabalho de Aleksiévitch, além de ter uma impecável estética literária, é um patrimônio histórico e jornalístico incontestável.

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3. Maus: A história de um sobrevivente - Art Spiegelman
Como alguma coisa pode ser, ao mesmo tempo, leve e pesada? Eu digo: um livro em quadrinhos sobre guerra. Esse livro, que foi indicação da minha amiga do blog Oi da Lari,  eu li exatamente no mesmo dia em que terminei o livro anteriormente mencionado.

O fato é que eu, após a infância (quando eu lia os gibis da turma da mônica), nunca fui muito de ler história em quadrinhos. Entretanto, todas as que li foram indicações de amigos e me agradaram bastante; não foi diferente com Maus. 

Art conta a história de seus pais, judeus, durante o holocausto de uma forma extremamente convidativa: ele mostra como seu pai o contou a história e, ainda, como seu pai tem uma personalidade difícil.  É muito interessante como Art conta toda a história sem idealizações: seu pai foi, sim, vítima do holocausto, mas não é retratado como herói por isso. Os quadrinho me ensinaram muito sobre a guerra e, sobretudo, sobre o holocausto.

com amor, 
Ane Karoline



Em geral, eu sempre tenho uma ideia do que eu pretendo ler no ano seguinte, entretanto, não tenho costume de fazer uma lista muito fechadinha para que eu não me frustre depois. Para o ano de 2018, como estive muito atarefada com o fim da graduação, acabei lendo o que convinha com meu tempo livre, mas para o ano de 2019, resolvi fazer diferente: criei meu próprio desafio literário. No total, pretendo ler 50 livros, mas decidi estabelecer apenas 40, para deixar uma margem livre para os livros que vierem. Por fim, uni tipos de leitura que acho extremamente necessárias (como leituras políticas) a leituras que me dão imenso prazer e das quais eu estava afastada (poemas) para, com muito carinho, criar um desafio. 

O desafio não inclui títulos, inclui apenas tipos/gêneros de literários os quais o leitor deve encaixar em suas leituras. Não há necessidade de cumpri-lo em ordem e, ainda, quem quiser ler só alguns também está convidado. Além disso, para alguns tipos eu já tenho possíveis livros os quais quero ler, os quais ficam como sugestões para vocês. Vamos ver o desafio, então?

1. Um livro histórico (“As últimas testemunhas”)
2. Um livro que eu gostaria de ter lido em 2018 (“The hate you give” )
3. Um lançamento de 2018 (“Becoming Michelle”)
4. Um lançamento de 2019
5. Um clássico brasileiro (“Grande Sertões: Veredas”)
6. Um clássico estrangeiro (“Persuasion”)
7. Um livro teen (“Depois dos 15”)
8. Um livro sobre sociedade (“Racismos”)
9. Um livro de suspense ("os mistérios ABC")
10. Um livro recomendado por alguém que você admira (“Quarto de despejo”)
11. Um livro de um autor negro  ("Terra Estranha - James Baldwin)
12. Um livro de autor asiático
13.Um livro escrito por uma mulher ("As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra?)
14. Um livro sobre feminismo (“Women, race and class”)
15. Um livro sobre educação (“No princípio era a educação”)
16. Um livro técnico (“Educação do homem integral”)
17. Um livro em outro idioma ("The happy prince" - Oscar Wilde)
18. Um livro ganhado de presente (“Dias de despedida”)
19. Um livro com a palavra “amor” no título (“Os números do amor”)
20. Um livro em espanhol (“La multitud errante”)
21. Um livro em quadrinhos (MAUS)
22. Um livro que sempre quis ler (“Ensaio sobre a cegueira”)
23. Um livro de um autor que nunca li ("Se a rua Baele falasse")
24. Um livro sobre política (“Eduardo Cunha: pseudônimo”)
25.  Um livro de poemas 
26. Um livro escrito por alguém com menos de 30 anos
27. Um livro escrito há mais de 10 anos ("Quarto de Despejo" - Carolina Maria de Jesus)
28. Um livro sobre ditadura
29. Um livro com um título de uma palavra
30. Um livro com uma cor no nome (“The color purple”)
31. Uma peça teatral
32. Um livro que já foi banido
33. Um livro de memórias
34. Um livro que eu consiga terminar em um dia (“A princesa salva a si mesma nesse livro”)
35.  Um livro de fantasia (“O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”)
36. O primeiro livro de um autor (“Uma coisa absolutamente fantástica”)
37. Um livro best-seller ("The happy prince and other stories")
38. Um livro de contos (“Contos – Lygia Fagundes Teles)
39. Um livro lançado antes de você nascer (“Mrs. Dollaway”)
40. Um livro escolhido pela capa



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Tudo doía: as costas, as pernas, os joelhos, a cabeça. Por cima dos óculos, que insistiam em ficar escorregando pelo nariz, dei uma olhadela para o Leandro e ele parecia mais afadigado do que eu. Não quis comentar nada porque a ideia da caminhada de cinco quilômetros havia sido minha e eu não queria entrar naquela discussão de novo antes de conseguirmos alcançar o carro, mas ele irrompeu o silêncio antes.

- Minhas costas estão me matando, achei que essa história de caminhada fosse ajudar, não me matar.  – ele ficava meio roxo quando tentava, sem sucesso, se alongar.

- O pior é a dor nos joelhos, cara, eu estou quase pedindo carona até o nosso carro.

- Belo lugar você foi escolher, ein, matagal dos infernos, cheio de mosquito. Olha o jeito que estão meus braços – ele me mostrou e eu só acenei com a cabeça, não vi nada, estava precisando trocar os óculos.

- Agora falta menos de um quilômetro, não tarda e a gente chega lá. - não aguentava mais tanta reclamação, o Leandro fazia o tipo reclamão.

Concluímos o trajeto fazendo tantas paradas que se tivesse alguém mais ativo nos acompanhando, não teria tido paciência nenhuma. Resolvi quebrar o clima desconfortável, que nossa frustração havia criado, puxando assunto

- Quer jogar xadrez na praça amanhã de manhã? – ele me olhou incrédulo e irritado

- Você acha que vou precisar de quantos dias para me recuperar disso aqui? Vou passar alguns dias sem sair de casa, pode apostar.

- Mas jogar xadrez não exige tanto esforço assim. – tentei argumentar

- Cara, eu estou morto! Você tem quantos anos mesmo?

- Vinte e cinco.

- Ah! Explicado! Espere só chegar aos vinte e sete! – ele me olhou com o olhar da experiência e eu percebi que havia perdido a conversa.


com amor, 
Ane Karoline 
- texto do desafio de 24 textos em 24h

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Existe uma ternura genuína dentro de mim. De vez em quando, ela passa dias e dias quietinha, calada, parece até que sumiu, que morreu, que me abandonou. Quando ela retorna, eu sinto como se fosse impossível me desvencilhar dela, como se fosse intrínseca a mim, mas quando ela não está, sinto como se nunca fosse voltar a encontra-la: sinto me oca. Já corri atrás dela, já li, reli, ouvi conselhos e palestras afim de descobrir a fórmula certa para encontrá-la, para que eu nunca tivesse que me sentir só novamente, para que eu nunca tivesse que conviver com esse vazio terrível que é achar-se sem propósito. Foi justamente de tanto correr na tentativa de encontrar essa ternura, que me afastei dela, quanto mais eu a buscava, mais perdia a ela e a mim mesma. É um processo, me diziam, o deserto vem antes do jardim florescer. Veio mesmo. O dia exato em que joguei todas as fórmulas, todas as limitações, todos os preconceitos dentro da lixeira, abri portas para que a ternura voltasse a me encontrar em forma de um menininho gorducho de cinco anos andando em uma bicicleta desenfreada que passou por cima do meu pé na porta da igreja. Ô tia, desculpa, não chora. Chorei foi mais, choramos os dois e depois tive que explicar para ele e para a mãe dele que ele não havia me ferido, havia me curado.

A ternura genuína que existe dentro de mim havia se recolhido no momento em que julguei-me capaz de entendê-la, havia se comprimido em todos os momentos em que levantei-me contra alguém em nome dela, em cada vez que achei-me conhecedora da verdade só porque um monte de gente pretensiosa me reconhecia como tal. A ternura genuína que existe dentro de mim nunca me pediu para pregar minha verdade sobre ninguém, nunca me disse que lugar de mulher é na cozinha e que homem é um ser superior. Ela nunca me instruiu a julgar as decisões de alguém sobre sua própria vida, nunca acelerou meu coração para que eu apoiasse mortes ou apedrejamentos. Ela nunca, e mesmo assim o fiz, me disse como eu deveria me vestir e nem que eu deveria recriminar quem não se vestisse como eu. A ternura que existe dentro de mim nunca colocou condições para existir, nunca me pediu para buscá-la dentro de quatro paredes olhando para as camisetas azuis e para os anjos de gesso; ela é quem me encontraria, mas não ali.

Eu não precisava ir busca-la, ela esteve o tempo todo dentro de mim, prontinha para aquecer meu coração assim que eu permitisse: seja no sorriso do bebezinho dentro do ônibus, seja ouvindo pela vigésima vez a mesma história da minha vizinha com Alzheimer, seja segurando a mão enrugada da minha mãe na rua, seja no beijo apaixonado do meu casal de amigos ou na chuva que cai e molha o chão seco. A ternura esteve comigo desde o momento do meu milagre maior, que fora a minha primeira respiração e estará comigo até o momento do meu último suspiro. Ela não me julga, não me apedreja, não coloca condições e nem me diminui: me acolhe. Descobri isso quando, com lágrimas nos olhos, decidi me desacorrentar, lá de cima, cruscificado, ele me olhou como quem diz: vá e ame.

com todo amor do mundo, 
Ane Karoline 
- texto do desafio de 24 textos em 24 horas



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Já cheguei entrando com força e batendo a porta atrás de mim, como se nesse gesto infantil eu pudesse descarregar tudo que vinha pesando dentro do meu peito. Por sorte, não havia ninguém em casa, se o vô estivesse lá, teria gritado do seu quarto quebra não, jóia, e depois teria sorrido. Ele me chamava de jóia desde sempre, minha mãe gostava de contar que no dia em que ela voltou do hospital, comigo a tira colo, ele disse: ela é muito menor do que eu esperava, mas é uma jóia.  Minha cabeça ainda doía e parecia que tinha uma escola de samba enredo a todo vapor dentro dos meus tímpanos. Chutei os sapatos para o canto da sala e resolvi checar meu celular, parecia estar tocando enquanto eu subia as escadas até o apartamento – coisa que eu fazia quando queria evitar conversas com meus vizinhos. Realmente, havia três chamadas perdidas do escritório e uma do celular do número da Aninha – que foi justamente para quem resolvi retornar, seja lá o que tivesse acontecido, ela me diria com mais sinceridade e doçura que a secretária. Ela atendeu no segundo toque:

- Está tudo bem, Cecília? – ela parecia estar mastigando alguma coisa
- Aham, e você? O que houve?
- Comigo? Nada! Você está com dor de cabeça mesmo ou aconteceu algum...a cou... coisa? – definitivamente, eram churros, ela só ficava com a boca cheia assim quando comia churros.
- Eu estou com dor de cabeça mesmo, Aninha. Não está comendo churros em cima da minha mesa, né?
- Hum... Sei não, você saiu daqui com a maior cara de poucos amigos, fiquei preocupada.
- Não se preocupe, só dor de cabeça. Amanhã a gente se fala, tá? – ela já parecia mais tranquila, me recomendou três analgésicos diferentes e disse que mais tarde ligaria.

Me peguei pensando naquela frase por muitos minutos ininterruptos: cara de poucos amigos. Apesar de ter errado em sua previsão – o que eu sentia era pura e simplesmente dor de cabeça – Aninha me conhecia muito bem e deveria saber que se as caras das pessoas estampassem quem elas realmente são, a minha seria exatamente assim: cara de poucos amigos. Principalmente em meus dias mais alegres, nos momentos mais felizes de minha vida, minha feição estamparia com muita força e gratidão a minha condição de ter sempre poucos amigos. Sem contar com meus pais, aos vinte e seis anos de idade, eu tinha exatamente cinco amigos: minha irmã, a Carol, a tia Jô, o Luquinhas da escola, e a Aninha – que agora, desde que o vô falecera, faz o papel de amiga mais engraçada, maluca e cuidadosa. Cabiam todos em minha mão, assim, jamais deixaria de dar assistência a nenhum deles, jamais estaria ocupada demais para nenhum deles e, com relação a mim, eles sempre agiram da mesma forma: nunca deixei de ser importante.
Ao levantar do sofá para procurar os analgésicos indicados pela Aninha, vi meu reflexo desordenado na tela da TV desligada e pensei que, ainda que, por diversas razões, não fosse exatamente com esses pessoas, essa é exatamente a cara que eu ia querer sempre ter: de poucos amigos. Se o vô estivesse sentado ali no sofá, ele me diria que qualidade deve vir antes de qualidade, isso sim é uma jóia.

com amor, 
Ane Karoline 
- texto do desafio 24 textos em 24 horas


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Dia tal, em algum mês depois do seu sumiço, ano seguinte,

          Demorei bastante para te escrever uma carta propriamente dita por muitas razões, mas a principal delas certamente foi o seu criticismo exacerbado - além disso, eu nunca sei dar nome às coisas e eu achei que uma carta minha para você merecia um título, fiquei tanto tempo pensando nisso que desisti. Pois bem, antes que você coloque muita expectativa sobre isso aqui, vou logo avisando que eu não sabia por onde começar, assim, decidi começar pelo começo. O fato é que fiquei sabendo de sua impopularidade muito tempo antes de trocarmos a primeira palavra e, por mais idiota que me parecesse alguém tão pequena e tão frágil ser tão incômoda, preferi manter a cautela: me cerquei dos meu amigos mais antigos, ouvindo tudo quanto foi opinião sobre você, ouvindo os comentários atrozes e me limitando a sorrir junto com eles, o que mais eu poderia fazer eu sinceramente não sei. Pretenciosa, era a palavra que alguém tinha usado para te descrever, e eu acreditei porque o primeiro livro sobre o qual você veio me falar foi um romance clássico do século dezoito; se estava fazendo isso por pretensão, para tentar impressionar meu lado historiadora ou por realmente gostar de romances clássicos ingleses do século dezoito, isso eu não sabia, não ainda. 

         Depois, você foi se mostrando mais aberta, apesar das mudanças abruptas de humor e de vocabulário, fui vendo você se abrir aos poucos e, sem que eu pedisse, me deu informações suficientes para que eu conseguisse perceber que você era uma desavisada maluca, não gostava de ninguém, mas também não conhecia ninguém, não fazia ideia das coisas que as pessoas falavam de você - o que já refutava a maior parte das acusações de meus amigos, mas eles sempre foram meus amigos, não era como se eu pudesse simplesmente tomar partido a seu favor e ir contra todos eles. De pouco em pouco, você foi gotejando todo esse seu sentimentalismo viscoso para cima de mim, gotejando até virar uma temporal, um vendaval muito grande para um corpo tão pequeno, uma tempestade em copo d'água. 

            Tentei te dizer isso, ou acho que tentei: você exagera, sabia? Exagera em tudo. Faz de tudo um acontecimento, uma tormenta, um sofrimento, uma perseguição, nem todo mundo está te perseguindo, nem todo mundo está sendo propositalmente cruel quando diz alguma coisa sobre você - mas você, sim, sabe ser bem cruel quando quer. Você se ofende demais, se você não é uma pessoa engraçada, qual é problema de as pessoas te dizerem isso bem na sua cara? Tá, tudo bem, existem formas e formas de dizer, mas você tem que entender que nem todo mundo teve a mesma criação que você, você se sentiria bem melhor se parasse de fazer tanto drama e relevasse essas pequenas ofensas que considera como humilhação. Tudo para você é um furacão, já reparou? Isso é pesado! Eu, com meus quarenta e poucos quilos, carreguei esse peso por muito tempo e quase sem reclamar porque eu amei você, mas nem todo mundo aguenta, seu sentimentalismo é pesado demais. As pessoas chegavam a me olhar e tenho certeza que ficavam se perguntando como eu poderia aguentar esse dilúvio que você é; um aguaceiro que vivia me afogando e choramingando com essa voz fina demais. Como? Eu também não sei, nunca tentei saber. 

         Eu só queria amar você de forma leve e descontínua, como sempre fiz com todo mundo. Queria te dar o meu amor sem que você duvidasse dele só porque eu, frequentemente, ajo de forma contraditória, você também não o faz? Mas você colocou condições fantasmas, quis me culpar pelo seu próprio desconforto, quis que eu tomasse partido de coisas que não me envolviam simplesmente porque magoavam você, quis que eu escolhesse entre questionar as atitudes dos meus amigos que sempre estiveram comigo - ainda que eles tenham me traído incontáveis vezes - por problemas pessoais seus com eles. Você quis que eu mergulhasse em águas profundas demais e eu ainda não sabia nadar. Com razão, me recusei a afundar e você se foi; agora que aprendi a nadar você não está mais aqui para me acompanhar. 


Ane Karoline -
texto do desafio de 24 textos em 24h


     

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Mais uma vez, nada de especial: copo descartável de café na minha mão direita, o que não era lá a melhor ideia para uma pessoa canhota. Lá pelas sete e quarenta e cinco, ele se senta lentamente ao meu lado, de novo. Dessa vez, algumas gotas de água marcam os ombros de sua jaqueta jeans e ele parece meio esbaforido, meio ofegante, apesar de não estar suado. Deve ter corrido, penso. Aproximadamente, quatro minutos se passaram até que ele regularizasse a respiração e, como que para se justificar, soltasse sua frase:

- Que clima maluco, né?!  - a voz dele era tão monótona quanto o primeiro dia em que me disse isso, quatro meses antes. Olhei para ele e vi que havia muita coisa ali mais interessante que isso, havia muita coisa para ser dita, muita coisa que, apesar das minhas investidas, ele nunca havia me dito e, provavelmente, nunca me diria. 

De repente, tudo que eu queria falar estava ali, um jorro de pensamentos, frases prontas, na ponta da minha língua:

Não quero te assustar, se não te respondi quando você falou comigo sobre o clima e nem depois, quando você puxou uma conversa mencionando uma terceira pessoa e minha resposta foi tão murcha quanto uma não reposta, foi por prudência. Não é sempre assim, algumas vezes é pior: eu abro um livro ou coloco os fones de ouvido e encerro a conversa com um meio sorriso amarelado. Não vou mentir, isso acontece porque eu quero desvendar sua alma, quero conhecer seus medos, seus anseios, suas aspirações e inspirações; não quero ouvir você me dizer coisas que já sei, não quero ouvir um tudo bem quando você, claramente, não está bem. Quero pular essa parte, quero mergulhar fundo, mergulhar de cabeça; ao invés de ficar nadando no raso, ensopada de banalidades. 

Sem querer te abalar nem nada, mas é que estranhamento nenhum me causa desnudar minha alma, falar sobre o que eu sinto e sobre como o meu livro favorito me faz sentir como um cavalo novo com fogo nas patas correndo em direção ao mar. Me sinto, sim, deslocada e acometida por uma profunda tristeza sombria quando tenho que enfrentar conversas superficiais que não nos levam a lugar algum, minutos me parecem, então, horas e horas, horas enfadonhas e de um padecimento atroz. Quero pular tudo isso, dar um salto empinado e bem alto, pular esse abismo que é o vale das small talks, quero alcançar seu outro lado, o lado que não está estampado no seu sorriso inventado, o lado de verdade, o lado de dentro; quero poder tocar suas vísceras. 

Terror nenhum quero te causar, mas se pudermos agora mesmo falar sobre o que foi, durante sua infância, que causou essa cicatriz acima da sua sobrancelha direita, é isso que quero. Desejo ardentemente me inteirar sobre você e todas as quedas que te construíram, todos os erros que te fizeram chegar aqui, todas as coisas das quais você sente vergonha e todas das quais você se orgulha, mas sem te invadir, sem me apoderar de você, só quero te conhecer.

O ônibus fez mais uma parada menos de dois minutos depois, respirei fundo, olhei para ele e me limitei a sorrir. Tirei meu livro da bolsa, abri e continuei a ler o mesmo capítulo em que havia parado. 

com amor, 
Ane Karoline
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O mundo é muito barulhento, meu bem, é por isso, que nem sempre eu venho te ver. Faz alguns meses que mal consigo ouvir as vozes dentro da minha cabeça, sempre que me sento para tentar ouvir, aparece logo alguém com algum assunto, alguma reclamação, algum pedido. Não há como ignorá-las, minha natureza pede que eu as escute com ternura e atenção, então, me calo e escuto tudo que têm para me dizer, sinto que devo fazer isso: ouvir as pessoas, lê-las, desvendar o que elas querem me dizer por trás do que elas estão me dizendo. As pessoas me dizem tantas coisas o tempo inteiro que eu acabo nem vindo ver você. Não me dizem nada ao seu respeito, nem sobre mim falam também, elas falam sobre elas mesmas e eu preciso ouvi-las, você entende?  Elas veem em mim o local para depósito das palavras que ninguém quer ouvir, mas eu ouço com atenção, ouço cada palavra com muita solicitude, coleciono as palavras delas, mas depois fico cheia; transbordando, por isso eu sumo: preciso me esvaziar das pessoas para me encher de mim.

Talvez te doa isso, te dói? Se dói, perdoe a minha forma abrupta de sair assim sem avisar, sem deixar bilhete, sem deixar telefone e nem endereço. É que não me dói estar sozinha, para mim, é uma dádiva, é minha fotossíntese, eu preciso disso, meu bem. O mundo é um barulho só, um barulho louco, uma balbúrdia desenfreada e, veja só, eu também o sou. Não é nada com você, sei que você queria ir ao cinema, sei que você queria me ligar, sei que você queria olhar para mim, mas eu preciso me organizar, preciso me esvaziar para me encontrar.

Hoje, finalmente, o domingo chegou e, ao acordar sozinha, senti a plenitude de quem sabe que não verá ninguém hoje. Tem tanta coisa acontecendo dentro de mim, como eu poderia ver alguém? Como poderia eu ousar estar com alguém no exato momento em que não posso estar inteiramente nem comigo mesma? Não posso, não posso não. Se estou com você, se vou te ver, se te ligo, se te ouço, sou toda tua, me esqueço de tudo, me afasto de todos, me faço cem por cento presente, cada célula do meu corpo está alerta, cada respiração minha glorifica o momento presente de estar com você; então, como poderia eu estar totalmente presente, ser totalmente sua, se nesse momento não sou totalmente minha? Pois bem, as primeiras coisas devem vir em primeiro lugar e a primeiríssima delas é ser totalmente minha. Nesse domingo eu sou mais uma pessoa, dentre tantas, que acorda sozinha; me espalho na cama espaçosa, penso em tudo que já fiz e tudo que ainda planejo fazer, ando de toalha pela casa inteira, sem ninguém para me questionar. Nada no mundo, e isso eu posso lhe afirmar, me poderia hoje ser mais reconfortante que o silêncio dos barulhos que não estão relacionados a mim: um monte de gente, em toda parte, conversando com um punhado de gente e ninguém falando comigo, ninguém para interromper meus pensamentos e devaneios, ninguém para irromper minha bolha contemplativa e meditativa nesse domingo.

Quando consigo, então, pensar em tudo; colocar todos os meus livros organizadinhos por cor; lembrar do que me é importante e dispensar o que for dispensável; penso em você. Chegando a esse ponto, sei que estou pronta para ver você, me lembro da afetuosidade com que você me falou não gosto de quando você se isola e se afunda em solidão, me lembro de como achei doce sua inocência. Eu sou uma criatura só, meu bem. Mas não agonie seu coração, eu vivo a glória de estar só e ela se chama solitute, não solidão.


com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24 horas

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Hoje eu sei que se você não me perguntou, não foi por não se importar, foi por já saber a resposta, apesar de alegar veemente não saber. Você não me perguntou, mas hoje, depois de ter aprendido a nadar e ter emergido do poço de lágrimas ao qual você me atirou, eu resolvi vir falar mesmo assim. Não foi particularmente nada que você fez, nem especialmente nada que você disse, foi justa e puramente o abandono. Logo você, quem mais reclamava de abandono, quem me contava mazelas de outros abandonos, me abandonar assim, seria cômico se não fosse tão triste. É triste sim, repito, e não por eu estar chorando em posição fetal; não estou. É triste porque é sempre uma lástima quando alguém que já foi querido sai da vida da gente assim: quebrando tudo, sem nenhuma chance de volta. É triste, sobretudo, porque achei que você fosse como eu.

Não há perfeição nenhuma em mim e, talvez por isso mesmo, nunca tive costume e nem gosto em cobrar nada de ninguém. Talvez tenha sido medo. O fato é que vi em seus olhos algo parecido comigo, aliás, achei ter visto; achei ter encontrado em você alguém que pudesse ser a minha exceção, alguém que poderia ter grande espaço na minha vida e no meu coração. Pensei que você seria sempre quem leria as coisas que escrevo, quem escutaria as músicas que escuto e quem dividira comigo suas aspirações e inspirações; não pensei que você se tornaria uma: a inspiração mais catastrófica de todas. Pelo visto, não era bem amor o que você queria e hoje, só hoje, sei que esqueci de te avisar que comigo não existe trivialidade, não existe isso de mais ou menos, não existe isso de amigos que não se dão verdadeiramente as mãos. Aqui, não.

Talvez, se eu te dissesse isso e tudo mais que ensaio na frente do espelho, você me acusaria de injustiça, você me diria que vivemos bons momentos juntos, você me diria que estou te cobrando amor. Vivemos, sim, momentos lindos; vivemos momentos em que eu pude ver o infinito do horizonte, que pude chorar de rir, que realmente acreditei que a amizade é um amor que não morre.  Mas morreu.  Essa é uma carta posterior à minha partida, fui embora para não ter que te cobrar nada.


com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24h

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Chega. Eu, você, sua mãe e a maior parte das pessoas que trabalham com você sabemos que já é suficiente, você já fez o possível e, claro, poderia continuar fazendo o impossível; mas não vale a pena. Para essa sua relação funcionar, não faça mais nada, é hora de tirar seu time de campo, já está há muito tempo tentando conseguir qualquer avanço e tudo que conseguiu foi avançar sobre si mesmo, né? Pois bem, não mova um músculo sequer para que isso aconteça, não ligue, não procure, não diga coisa alguma. Se possível, nem pense nisso. Vá apenas vivendo sua vida, tome café da manhã todos os dias - mesmo que você acorde às onze horas da manhã - beba oito copos de água ao longo do dia, lave o cabelo, ouça sua música preferida, dê um passeio. Não faça nada além disso, não se esforce de maneira alguma, apenas vá vivendo sem fazer nada até que seja exatamente esse o seu desejo: fazer nada. 

Dói. A tia Lú te alertou que doeria, te disse que quando a gente se espreme muito para caber em um espaço muito pequeno, a gente perde um monte de partes importantes nossas. Você sabia que tentar se moldar era um caminho sem volta, não sabia? Tudo bem, foi lá e fez, foi lá e se pintou de tudo quanto foi coisa na tentativa de que, finalmente, se tornasse o que faria de você o objeto amado; mas não deu. Se há esforço demais, significa que uma das duas partes não está realmente presente, você estava se esforçando de forma vã, não tinha ninguém lá para te ver. E é por isso que venho te dizer para não fazer mais nada, nem mesmo se despedir, nem mesmo explicar que tudo que fez foi por amor; simplesmente aceite que tudo que você poderia fazer, foi feito. Cartas e cartas, despedidas, explicações: tudo isso seria só mais um passo na tentativa frágil de estar fazendo alguma coisa, a tentativa tola de que esse fosse, finalmente, o grande milagre. Por isso, pare agora mesmo e encare o seu milagre nos olhos: você fazendo absolutamente nada.


Passa. Isso eu te prometo. Se você parar agora mesmo, for tomar um ar, apagar esse número com cinco noves do seu celular, eu te garanto que vai passar. Não vai ser hoje, não vai ser mês que vem e nem no dia do seu aniversário, quando a ligação não chegar, mas vai passar. Até lá, continue fazendo tudo, mas por essa relação, não faça mais nada. 

com amor, 
Ane Karoline -
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Não é como se fosse uma surpresa total, era uma daquelas situações em que a gente já sabe o que está acontecendo, vê todos os sinais, mas não quer acreditar. Meu histórico infalível de sagacidade estava colidindo catastroficamente com meu outro histórico infalível de não querer acreditar em mim mesma. Eu não queria bancar a mística, bancar a bruxa, a louca ou a má, a que vê malícia em tudo, mas o fato é que eu já sabia. Olhava para aqueles olhos fundos dele, aqueles olhos que me diziam até o que ele não queria dizer, e me faziam ter certeza absoluta que eu estava me fazendo de cega. 

Ele me dizia que a coruja aparecia sempre naquele horário porque era quase noite e o ninho dela deveria ser próximo de nossa casa, dizia que era loucura minha, dizia que coruja é bicho burro que não sabe nem onde está direito, quisera seguir alguém; ele me dizia muitas coisas, o suficiente para que eu não soubesse mais o que eu pretendia falar. Eu até acreditaria na teoria dele sobre a coruja, como fazia questão de acreditar em tudo que ele me dizia, não fosse pelo fato de ela me olhar tão intensamente como quem sabia que eu havia me perdido e precisava de uma bússola para me encontrar. Eu até deixaria para lá, não fosse o cheiro doce nele e o fato de a coruja acompanhá-lo ao chegar. 

Todos os mil novecentos e dois dias, todas as malditas quarenta e cinco mil horas em que aquela aliança dourada esteve apertando meu dedo, eu soube e eu planejei o que dizer, ensaiava no trabalho, ensaiava enquanto tomava banho. Nos meus devaneios, eu estava sentada na poltrona em frente à TV segurando minha caneca cor de rosa, cheia de café, com as duas mãos; ele chegaria e eu diria: eu sei. Depois do primeiro ano, tive que mudar minhas visualizações porque ele quebrou minha caneca cor de rosa. Eu poderia ter dito logo no começo, sim, poderia, mas ele era tão doce, tão quente segurando minha mão, tão vivo, tão. Quando a coruja começou a aparecer com mais frequência, ficou mais difícil, se eu tocasse no assunto, ele ficava carrancudo, frio. Assertiva, algumas vezes a coruja chegava a pousar na minha janela como que para me chamar de tonta, como que me convidando para ser assertiva também,  aqueles olhos imensos me dizendo o que eu não queria saber. 

Noites e noites mal dormidas, crises irremediáveis, discussões que me faziam ouvir coisas as quais eu jamais achei que alguém seria capaz de dizer. Na noite número mil novecentos e dois, ele estava atrasado novamente, eu desisti de dormir e fui olhar a coruja sobre o muro, ela piava incessantemente e eu resolvi olhar mais de perto. Não quero ser mística, eu pensava, não quero ser louca, coruja é um bicho burro. Em guerra com minha própria mente, segui a coruja que voava por alguns metros e parava para me esperar. Não fomos longe, cinco casas para a direita, avistei o carro dele. A coruja pousou no muro da casa, o portão era bem aberto, a porta estava aberta e eu pude ver o menininho, que deveria ter mais de mil novecentos e dois dias de vida,  chamando a coruja como se a conhecesse. Ele tinha aqueles olhos fundos, aqueles olhos que me diziam até o que ele não queria dizer, e me faziam ter certeza absoluta que eu estava me fazendo de cega. Deixei a aliança dourada em cima do carro e parti, mais uma vez certa de que minha intuição era muito mais infalível que qualquer esforço para me fazer desacreditar de mim.

Com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24h