imagem: pinterest.com
dia tal, mês tal, algum ano do passado. 

Venho noites sem dormir com a mente atormentada pelo que tenho a te dizer. 

Isto aqui é um caso de vísceras. 
É um caso visceral. 
É um caso de morte das vísceras. 
Você pode estar sob risco eminente de morte. 
Você pode, também se perguntar quem sou, afinal, para estar com a autoridade em falar sobre vísceras. 
Você pode, então, ter a certeza de que sou alguém com vísceras, portanto, sei quando estão morrendo. 

Então, sente-se e ouça. É urgente. É urgente porque não sei por quanto tempo essa terrível mordaça vai me deixar escrever tudo isso, não sei quando ela vai me parar - o único fato é que vai. É necessária tanta rapidez quanto possível. Você me ouve bem? Não posso parar de dizer isso agora, não sei por quanto tempo a minha veia criativa vai ser capaz de ser mais visceral que a minha veia julgadora - essa tal tem sempre me estrangulado. Pois bem,  se ainda não se sentou, sente-se. O que estou prestes a dizer é catastrófico. 
O fato é cristalino.
Você foi contratado por alguém depois de você ter dito que uma de suas qualidades é o perfeccionismo, por isso, peça suas contas já. Escreva um e-mail, ligue, escreva uma carta, se for necessário. Retire suas coisas do armário, organize sua sala, pegue sua mala e vá embora. 
Não sei o que te falaram, mas não é assim. Não sei se você leu a respeito, se viu filmes ou se viu séries. Não sei qual foi a referência desumana e irreal a qual você, provavelmente inconscientemente, se apegou, mas não é assim. Não é construtivo. Perfeccionismo não é uma qualidade.
Eu sei. Você se orgulhava disso. Aliás, te ensinaram a se orgulhar de uma mentira. De uma neurose. Perfeccionismo é uma neurose. Não, não sou psicóloga, não sou coisa alguma... Mas tenho vísceras e entendo delas. Perfeccionismo é um parasita que se ocupa unicamente de comer nossas vísceras. E dói. E corrói. E enlouquece. E mata.  E depois? A gente é enterrado como insatisfeito, aquele para quem nada estava bom. 
Acredite,
a regra é clara.
Não existe o perfeito. A perfeição é a imperfeição. Agora, se a perfeição não existe, ser perfeccionista é ser de duas uma: tolo ou falso. O tolo é aquele que não sabe, mas acha que sabe, vive dentro da caverna de Platão ainda. O falso é que aquele que sabe, mas finge não saber e engana os outros. E aí, escolha o teu. 
Eu, de minha parte, bem sei agora que nada vai me adiantar ter sido tola ou falsa. O complicado é que parece que agora é fora de moda ter defeitos, ou melhor, assumi-los. Gente de verdade não vende mais, diria um publicitário. Agora pensando cá, vejo que já que não quero mesmo me vender,  já que não há quem vá me comprar, vou deixar as sobrancelhas crescerem e, tem mais, vou assumir minha caligrafia: é esta e pronto.  O perfeccionismo é um plano para impedir a gente de se mover e ponto final.
Antes do ponto final, pergunto:
E você, acha que tem obtido algum lucro nessa maquina de se vender? 

com amor, eu. 

Terminei de ler a carta em silêncio,olhei para a mamãe que, com olhos marejados, encaixotava as coisas de Vó Alminda. Vi que a carta estava endereçada a um tal Alfredo e  resolvi puxar assunto 
- Mãe, quem era Alfredo?
- Não sei. Pode ter sido algum amigo antigo de sua avó, por quê?
- Encontrei um bilhete para ele. 

Ela não respondeu. Dobrei o papel, já desgastado pelo tempo, e o devolvi para o envelope parto intitulado "Cartas a serem reescritas antes de enviar".

Olhei minhas próprias sobrancelhas finas no espelho, vi exatamente o ponto onde Vó foi amordaçada: no final. Concordei em silêncio:  O perfeccionismo é um plano para impedir a gente de se mover, impedir a gente de se ver. 

imagem: pinterest

Minha barragem interna foi rompida mais uma vez. Dessa vez, não sei se pelo excesso ou pela falta - acho que barragem ressecada também rompe. Eu vinha ignorando as rachaduras há um tempo, para ser sincera. Fato é que chorei um rio inteiro da pior forma possível, que é exatamente quando tem alguém olhando, tentando infrutiferamente te acalmar. As lágrimas escorriam como que por um tempo infinito, sem que eu conseguisse, ou sequer tentasse, contê-las. Para ser mais exata, foram duas horas contadas em meu relógio biológico quebrado. Depois, junto com o oco dentro da minha cabeça confusa, estava a voz de mamãe, ao longe, ecoando em minha mente: 

Mas, afinal, o que é que tem te incomodado tanto, Carol?

A falta de uma resposta, era o que me incomodava mais. O não saber, a prisão do limbo de não querer coisa alguma em específico mas, ao mesmo tempo, querer tudo que eu não tenho, tudo o que não sei. Lembro de todos os livros que li, todos os zilhões de letras, formando todos os milhões de palavras, formando todas as infinitas ideias e me sinto ainda pior. Talvez eu devesse me desculpar comigo mesma por tudo isso, mas, como não sei nem por onde começar, quero me desculpar com todos os autores que falam direta ou indiretamente sobre autoconhecimento, eu juro! Eu gostaria de encher os pulmões de ar, abrir a boca e dizer: o que me incomoda é tal coisa. Mas eu não sei. Se me aparece alguém agora com uma arma em minha têmpora direita e me diz para revelar o que tanto me aporrinha, eu não vou saber dizer. Vou dizer que atire, vou dizer que se eu soubesse, eu mesma atiraria na tal coisa. Eu diria a esse alguém: e você, por acaso, sabe? Você sabe o que te incomoda?

Será que alguém, afinal, sabe de alguma coisa? 

Eu penso que eu teria que me conhecer bem demais para saber de algo assim. Pode ser que sejam todos aqueles zilhões de coisinhas, como: a rachadura na parede, a tomada frouxa, a lâmpada fraca, o convite de casamento que não recebi, a roupa que nunca consigo desamassar, as cartas que nunca recebo, a cicatriz sob a minha sobrancelha. Pode ser que sejam todos aqueles zilhões de coisas imensuráveis que eu jamais conseguiria resolver: a falta de conhecimento sobre língua de sinais, o presidente eleito, a desinformação, o racismo velado, o sexismo parlamentar, a imprudência parental, o trabalho escravo, a idolatria ao capital, ou a estrada sem asfalto três ruas abaixo da minha casa.

A rua sem asfalto que fica três ruas abaixo da minha casa é uma das coisas que me incomoda, mas não é o meu incômodo todo. Eu penso que se chove, as pessoas que moram lá ficam ilhadas na lama, se é dia de sol, as pessoas de lá sentem dor nos pés de caminhar no cascalho. Não dá para andar de bicicleta em uma rua assim, quem anda cai. Pensar na rua sem asfalto me acalma porque não tenho que pensar em  mim, não tenho que pensar nos meus incômodos, no curso que não faço, no livro que deixo de escrever, nas coisas que não tenho coragem de dizer, na consulta que evito ir, nos eventos que cancelo sem motivo. Pensar em todas as ruas brasileiras sem asfalto me dá espaço para evitar pensar em tudo que tenho feito comigo, me faz trocar a ordem das coisas e concluir, erroneamente, que estou pensando nos outros antes de pensar sobre mim.

Será possível inverter todas as coisas assim?
Será que ainda dá tempo para pensar em mim?

Olho as paredes silenciosas, o escuro do quarto, as linhas retas do assoalho e concluo que preciso parar. A barragem rompida dentro de mim pode ser reconstruída antes que acabe com todos ao meu redor. É hora de se despir de tudo, criar coragem, encher o peito de ar e colocar o pé na estrada sem asfalto do autoconhecer-se. Uma micro luz se ascende dentro de mim, a coragem é o primeiro passo.

Se conhecer de verdade é como andar de joelhos em uma estrada sem asfalto, 
com os joelhos desencapados é que a gente conhece a nossa própria cor.  

com amor, 
Ane Karoline

imagem: pinterest


Foi a criança quem me ensinou. Ambas: a minha interior e a com 1/4 da minha idade que conversou comigo dia desses. A tal questão que carecia de ensinamento começou há um tempo, por isso, vou tentar explicar em minhas fajutas palavras uma sabedoria sem medidas.

O meu incômodo foi tal que fez da decisão certeira: cortar o mal pela raiz. Logo aí o dilema se deu, visto que não encontrei a raiz do mal. Pus-me, então, a pensar sobre o mal. A primeira vez em que aconteceu, a primeira vez em que o encontrei face-a-face, eu, provavelmente, me aproximava dos seis anos de idade e estava ajudando o pai a cozinhar, quando a visita disse "Que lindeza esse interesse pela cozinha... Quero ver depois!". Graças à bondade do tempo, que tudo leva de nós, a bobagem foi engavetada lá no fundo do inconsciente, mas recentemente me voltou. Voltou com a mesma cara: cara de quem sabe pouco e tem pose de sabedor. No exercício do meu ofício, alguém me chega e diz "Que linda sua empolgação... Quero ver depois!". A frase se uniu com todas as suas siamesas, ouvida por mim ao longo da minha vida em momentos de felicidade, formando um bolo grosso, amargo e intragável no fundo da minha garganta. Não tive resposta, engoli a semente do incômodo. 

Quem é capaz de viver com um bolo grosso e amargo entalado no fundo da garganta, isso eu não sei, mas não haverá de ser eu. Caminhei um pouco, falei com um e outro, tentei disfarçar, até sorri! Veja bem, você, que coisa mais fora de normal é a pessoa sair por aí sorrindo quando se tem um bolo amargo no fundo da garganta. A sorte é que ninguém me notou por uns dias - não sei se por boa atriz que sou, ou por pouco solicitas que são as pessoas - mas, ainda assim, não sou eu a pessoa que guarda um bolo amargo, cheio de palavras ordinárias, no fundo da garganta. Logo, fui tratar de cuspi-lo, ou, quem sabe, de engoli-lo de uma vez. 

Os dias em que passei sem reposta, dando vida ao bolo amargo no fundo da garganta, foram dados por estar eu andando pelos lados errados. O fato é que, com a angústia crescendo dentro de mim, me vi respondendo a uma criança que me pedia algo "depois". A criança me trouxe a luz: "mas o depois não tem". 

O depois não tem. O depois não existe. O que existe é o agora. Todo e qualquer ser humano sabe disso: o passado, o tempo levou; o futuro, ainda não veio. Só temos o agora. Respirei aliviada e engoli o bolo na garganta - algumas verdades têm de ser engolidas, não podem ser jogadas fora - nesse caso, eu precisava mesmo engolir a seco essa verdade: eu posso e devo ser feliz agora. Ainda que não tenha tudo, ainda que não saiba o que é ter tudo, ainda que existam coisas maiores, ainda que exista vida em Marte, ainda que daqui eu não faça exatamente parte: ainda dá para ser feliz agora. 

Bolo na garganta desfeito, o incômodo, então, se aquietou e deixei o tempo levar o resto. Sei de algumas coisas que quero, mas não faço ínfima ideia do que há de vir, me resta mesmo é aproveitar, justamente, enquanto o depois não vem. Eu sei, eu sei, sei, o ex-colega de colégio foi para o exterior, a prima bem sucedeu-se no capitalismo, o vizinho tem uma família linda, mas, deixe-me te contar:você tem o agora, esse é o mais valioso bem. O agora é só o que, verdadeiramente, toda a gente tem. 

com amor, 
Ane Karoline

Segurando uma taça c drink quase transparente, numa posição q deixe minha boca aparecer por trás do liquido
Imagem: pinterest

Me recuso a abrir os olhos quando sinto o cérebro despertar. Não está na hora, dorme, vai. Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos... Oitenta e sete carneirinhos depois, o despertador toca. Só me faltava essa: me acostumar a acordar antes das cinco horas da manhã... Lembro do vô deitadinho, os olhos arregalados, me dizendo que a gente acostuma a acordar sem despertador quando envelhece. 

Enquanto encaro os olhos no espelho, acho que envelheci: são olhos de qualquer outra pessoa, vermelho sangue, olhos que não têm resposta alguma, só carregam perguntas. Olho a escrivaninha parada, empoeirada, morta, me encarando já sem esperança de que eu a toque para escrever qualquer coisa. Nem discordo do tom fúnebre que se instala durante esse ritual matinal diário, não tem como defender alguém que acorda todos os dias e não tem resposta alguma. Acordo todos os dias sem ter resposta alguma, me levanto na esperança única de encontrar. 

Todas essas pessoas de pé em ônibus lotados por mais de quatro horas diárias precisam de respostas, por que estão fazendo tanto esforço enquanto outras não fazem nada? Eu precisava muito dessa resposta. Eu precisava muito saber porque uma multidão de gente honesta precisa acampar em frente a um supermercado para tentar um emprego ruim, enquanto uns poucos têm o poder de escolher quem bem quiserem para um emprego bom. Não ter esses porquês me envelhece um pouco todos os dias, não ter esses porquês é que me faz acordar antes do despertador. 

Em minha mão, o café esfriando me mostra meu rosto confuso refletido. Alguém, vem fiar conversa reclamando por não poder viajar para o litoral pelo empetroleamento das praias... Me ouve e me diz que não foi isso que meu avô quis dizer. Esse alguém me diz, ainda, que envelhecer é positivo, que envelhecer é crescer. Tenho certeza que não é assim, mas não tenho reposta e me calo. Eu nunca tenho as respostas, só as perguntas. Sei, com força e com fé, que o vô sabia muito bem disso: a gente envelhece, mas nem sempre cresce. Se a gente envelhece e, ao saber que tem óleo no mar, só consegue pensar na viagem de ano novo, a gente não cresceu nada, a gente não tem resposta alguma. 

O nó no estômago é quase palpável: eu quero saber os porquês.

Caminho um pouco, penso na história da garota com câncer, na história da dona Lúcia que foi queimada quando criança, na história do índio queimado, na história das crianças torturadas, na história da menina que, morta, deu nome ao parque, na história do meu pai vindo do nordeste... Olhando para o chão, penso na minha história e me pergunto para onde ela vai, aonde está sendo escrita, para quê está sendo traçada. Um zilhão de perguntas, nenhuma resposta. 

Então é isso, vô. Eu tô acordando antes do amanhecer, mas não sei pelo quê. Acho que o meu envelhecer é assim, é caminhar sem saber, jornadear procurando os porquês. 

Ane Karoline



É um ritmo frenético que acelera ao ponto de nos estagnar. Estagnados e com a cabeça latejando; lá dentro um medo que grita: medo de errar, medo de dar tudo errado, medo do teto que parece muito frágil sobre a cabeça. Uma coisinha, pequena, real, cresce tanto que se torna irreal; cresce tanto que parece não caber dentro da mente e extrapola para a vida: se torna um muro que nos impede de continuar. 

Poderia eu, a partir das minhas experiências pessoais, escrever livros e livros sobre o que é ser uma pessoa ansiosa e como foi ver isso evoluir para o transtorno de ansiedade generalizada. Mas nada será suficiente para descrever as minhas experiências e, muito menos, para ousar descrever experiências de terceiros. Não tenho essa intenção e não confio em alguém que a tenha. Entretanto, sempre vale a pena falar sobre o que incomoda. Sendo assim, por todos os que de tanta agonia, já questionaram sua sanidade, tenho a alegria de expor uma conversa bem esclarecedora que tive com o psicólogo Fausto Pereira a respeito de ansiedade e de transtornos de ansiedade. 
          
     Como diferenciar uma pessoa ansiosa de uma pessoa com transtorno de ansiedade?
 Primeiramente, é importante diferenciar a ansiedade como sintoma, de ansiedade como transtorno. A ansiedade é uma reação normal e de proteção que o ser humano tem para lidar com situações que provocam medo, dúvida e expectativa. É um estado emocional de apreensão, uma sensação de que algo ruim aconteça. Por isso, sua função é preparar o indivíduo antecipadamente para determinada situação. Sem ela, ele ficaria vulnerável aos perigos e ao desconhecido. Mas, quando esse estado de ansiedade persiste por semanas, com alta frequência e intensidade e, ainda, passa a interferir nas atividades básicas do dia a dia, a ansiedade deixa de ser natural e torna-se motivo de alerta, de preocupação. E é aqui que podem surgir os transtornos de ansiedade.
No transtorno de ansiedade, a mente cria muitos pensamentos negativos e catastróficos e fantasia cenas onde tudo dará errado. Destarte, os sintomas psicológicos de ansiedade podem ser irritabilidade, dificuldades de concentração, preocupação excessiva, assim como medo constante, sensação de que algo ruim pode acontecer e descontrole sobre os próprios pensamentos. Juntamente com a ansiedade, vários sintomas físicos desconfortáveis, também, estão presentes: aperto no peito, palpitações no coração, falta de ar, respiração ofegante, tensão muscular, dores nas costas, tremores, sudorese, insônia, tontura, dentre outros.
Logo, enquanto nos transtornos de ansiedade as preocupações são excessivas, intensas e angustiantes e interferem significativamente na vida diária do indivíduo, na ansiedade normal essas preocupações não trazem prejuízos, nem deixam com a sensação de estar com os “nervos à flor da pele”. Os sintomas de ansiedade normal são proporcionais ao risco envolvido, enquanto os de transtorno de ansiedade são desproporcionais e incapacitantes.

Uma pessoa ansiosa necessariamente sofre do transtorno? Se não, é mais propensa?
 Como já respondido na questão anterior, a ansiedade normal é diferente de um transtorno de ansiedade. Se o termo “pessoa ansiosa” estiver se referindo a uma pessoa com um quadro constante de ansiedade, pode-se dizer que, essa pessoa, possivelmente, estará sofrendo de algum transtorno de ansiedade. Contudo, se uma pessoa não ansiosa começar a experimentar sintomas de ansiedade constante, de alta intensidade e duração, é preciso estar alerta para uma possível instalação de um transtorno. Também existem pessoas que são mais propensas do que outras pra desenvolver um transtorno de ansiedade devido a questões genéticas, sociais e psicológicas.
Aqui, é importante salientar que, o diagnóstico só pode ser realizado por um profissional especializado para tal.

3.       Do que se trata o transtorno de ansiedade generalizada?
 Entre os vários transtornos de ansiedade, está o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), caracterizado, segundo a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) pela “ansiedade e preocupação persistentes e excessivas”. Na TAG a ansiedade e a preocupação são desproporcionais às situações que se teme. Assim, o indivíduo tem dificuldade de controlar a preocupação e de evitar que pensamentos negativos interfiram nas tarefas do dia a dia.  Há uma constante preocupação e prejuízo relacionado ao funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida.

    Por que, para você, as pessoas na sociedade atual sofrem tanto com esse transtorno? Por que se tornou tão comum?
 Atualmente, o mundo moderno com seu ritmo acelerado e insano tem provocado ou oferecido contextos que geram altos níveis de ansiedade. A forma desenfreada e estressante de se viver tem contribuído para a intensificação dos sintomas, tornando a ansiedade em excesso um dos grandes problemas da vida moderna, afetando cada vez mais pessoas e se tornado banal, corriqueira, como se fosse algo normal.
A valorização do ter e do fazer, a valorização do sucesso, do poder, da competição e do consumismo favorece a cultura da pressa, do imediatismo, do trabalho em excesso e da culpa e medo do fracasso. As pessoas se sentem impotentes diante de tantas imposições e exigências. Além disso, a cobrança por decisões rápidas as tem deixado cada vez mais apreensivas e preocupadas. Pressão no trabalho, conflitos familiares, instabilidade econômica, violência, cobranças sociais, também, têm sido fatores de grande influência no surgimento da excessiva ansiedade na sociedade moderna.

      Quando a pessoa deve procurar um profissional? O que fazer em casos de difícil acesso a um profissional?
 A pessoa deve procurar um profissional, psicólogo ou médico, quando os sintomas ansiosos estiverem num nível que atrapalhe a realização de tarefas do dia a dia, como trabalhar, amar, se relacionar e lidar com os problemas simples do dia a dia. Esse profissional pode ser encontrado em clínicas particulares, unidades de saúde do SUS e nas clínicas-escola das faculdades que oferecem o curso de Psicologia. Estes dois últimos são oferecidos gratuitamente para toda a população. Muitas clínicas particulares oferecem preços populares para as pessoas de baixa renda.


    Em sua opinião, as mídias sociais têm alguma influência no aumento desse problema como um problema de saúde pública?

Com o advento da informática, onde as informações ganharam uma velocidade significativa, nossa vida também passou a ser mais apressada e com exigência de que os problemas precisam ser resolvidos rapidamente. Tudo precisa acontecer agora, tudo precisa ser vivido com muita intensidade e isso tem gerado desgaste, estresse e, com certeza, intensa ansiedade. A sensação de quem ninguém tem mais tempo pra nada com essa pressa insana por atingir os objetivos de produção e competição, parece um fator certeiro para a instalação da ansiedade moderna.
Outro aspecto que tem causado tal problema é a influência da mídia no modo de ser e pensar das pessoas. Ela dita regras, formas de viver e de ter felicidade, oferecendo produtos que prometem uma vida feliz e sem problemas. Assim, as pessoas focam e fazem disso um propósito de vida: “preciso disso, caso contrário, não terei felicidade”. E Isso tem sido um fator desencadeador de ansiedade, uma vez que nem todos conseguem adquirir tais produtos e os que adquirem vêm que isso não funciona e busca, cada vez mais, estímulos eliciadores do bem-estar e da felicidade, mas nunca os encontra, de fato. É uma busca constante e ansiosa para atingir os objetivos impostos e prometidos pela mídia.

      Quem sofre com o transtorno pode recorrer a outros tipos de tratamentos que não medicamentos?

Não só pode, mas deve. Além do tratamento medicamentoso, que visa o alívio psíquico e físico em momentos de crise e que pode ser imprescindível pra casos de transtornos de ansiedade, é importante que a psicoterapia esteja presente no tratamento. Com a ajuda do psicólogo, o indivíduo que sofre é acolhido e ajudado a tomar consciência do que acontece em sua vida e a compreender seu modo de agir e ser em suas relações consigo, com os outros e com o mundo, buscando formas mais satisfatórias de lidar com sua ansiedade. O tratamento envolve, também, mudanças no estilo de vida. Assim, o psicólogo se torna um profissional de grande relevância social numa sociedade, onde os casos de ansiedade patológica tornam-se cada vez mais presente.


8    Que tipo de recomendações você faria a alguém que se considera ansioso e sofre com o problema? Como evitar a evolução dessa ansiedade constante para um transtorno psíquico?
O fundamental para quem enfrenta a ansiedade em seu dia a dia é aprender a relaxar e respirar. Muitos vão dizer que não é fácil e não conseguem, mas como toda habilidade que se quer adquirir, é necessário treinamento diário, assim como é ao aprender a andar de bicicleta. Um dos grandes problemas que envolvem a ansiedade também é a falta da compreensão, por parte da pessoa que sofre, do que causa a sua ansiedade, das situações envolvidas, das consequências geradas nos vários âmbitos da sua vida, assim como dos recursos que dispõe para enfrentar o que lhe aflige. Aqui, é muito importante o autoconhecimento, um conhecimento acerca de si mesmo, das limitações e potencialidades, podendo, assim, o indivíduo buscar estratégias para lidar com sua problemática.
Técnicas de relaxamento e de respiração, exercícios físicos, alimentação balanceada, sono tranquilo, organização, terapia para fortalecimento cognitivo, emocional e comportamental são recomendações para evitar a evolução da ansiedade que, se muito intensa, duradoura e frequente, poderá vir a ser um transtorno de ansiedade, que será um pouco mais difícil de lidar.


Considerações finais.
A ansiedade vem se tornando um mal-estar da nossa época. Com tantas exigências, competições, pressas, violências e insegurança quanto ao futuro, a instalação da ansiedade numa sociedade que não está preparada para lidar com ela é inevitável.
As pessoas têm adoecido e não têm encontrado formas de como se livrar ou lidar com esse mal. Muitos recorrem e se entopem de medicamentos para o alívio temporário daquilo que incomoda, mas se esquecem de tratar da causa, de compreender o que o leva a ser ansioso e como lidar com isso. Vivem apressados e sem tempo, vivem no futuro, esquecem-se do presente, esquecem-se delas mesmas. É preciso informação e conscientização de que a ansiedade vem tomando espaço muito grande na vida das pessoas e que elas precisam estar em alerta para isso. A ansiedade em grande intensidade é patológica, faz mal, limita e impede a vida. E ao invés de nos proteger e nos preparar para viver coisas novas, ela nos enfraquece e não nos permite que desenvolvamos e cresçamos. Se você se considera ansioso, procure ajuda! Um psicólogo está preparado para isso. Grande abraço!

Fausto Pereira da Silva
Psicólogo - CRP 09/11282
Clínica Gênese 
Rua Jorge Zaiden, 342, Vila Santa Maria, Jataí-GO
Telefones: (64) 3631-2403 / (64) 99965-6646



Sexta à noite. Caminhava apressada, sonhando com o banho quente e o fim de semana de descanso. Quem sabe um filme, uma pizza, um livro. Paz. Perdida em pensamentos, demorou a perceber que estava sendo seguida. Tentou se acalmar: que loucura é essa? Arriscou uma olhadinha para trás: definitivamente, estava sendo seguida. É só acelerar o passo, pensou. Acelerou. A sombra perseguidora, apertou o passo também. Tentou um desvio, o perseguidor se aproximou. Começou a calcular: não sabia lutar, quem sabe negociar? Tinha o celular - não estava nem pago ainda. Que chatice. Tá. Ia entregar o celular, os 12 reais que estava no bolso de trás da calça e a bolsa. Decidiu que não ia resistir. Ia entregar tudo e ir andando para casa. 

Acelerava o passo, desviava, tropeçava. A distância diminuía na mesma proporção em que o desespero aumentava. Era novembro, estava frio, mas o suor escorria coluna a baixo. A testa já estava pegajosa, a mão escorrendo. As pernas pareciam não conseguir acelerar. Pensou em correr. Desistiu, ia cair. Se caísse, não teria chance. Apertava o passo e a distância diminui. 

 - Ei!

Pronto. Morta. Estava morta. Começou a pensar, arquitetar: ia escrever a carta de despedida na nota fiscal do lanche dizendo que amava a mãe. Quem a encontrasse, ia entregar a carta para a mãe. Talvez desse tempo de escrever umas palavras para a família toda. Talvez desse para pedir uma missa bem bonita no enterro. Derrubou as chaves no chão. É isso. Talvez desse para lutar. Arriscou uma olhadinha para trás, catou as chaves e colocou entre os dedos. Não ia desistir sem lutar. Menos de um metro de distância. Era correr ou morrer: correu. 

-Ei! Calma aí.

Calma aí o quê? O perseguidor corria também. Correu mais. Derrubou a bolsa. Levantou, correu. Caiu. Joelhos. Começou a catar as coisas quando sentiu a mão no ombro. Fechou os olhos, golpeou a perna do alguém com as chaves. E viu a pessoa cair de joelhos.

- Meu Deus do céu! Calma!
-  QUER ME MATAR?
-Tá perdida moça? Vi sua cara de quem não sabe onde está. 

Não sabia mesmo onde estava. Perdida num mundo onde a gente tem medo de caminhar. 


Sempre com medo, Ane Karoline (texto sugerido por Marta Guedes)


Duas carimbadas interromperam o silêncio. Ela não me olhava enquanto escrevia freneticamente no papel. Profissional, pensei. Cocei os olhos e tentei olhar ao redor para parecer mais relaxada. Agir como um ser humano adulto: indiferente ao que acontece ao redor. Cocei os olhos. Se coçar piora, ela me disse. Parei.
- Histórico com álcool? 
- Não.
- Drogas?
- Nada.
Ela prosseguiu anotando, quase inconsciente da minha presença. Me ajeitei na cadeira e resolvi puxar assunto.
- Tenho 23 anos e nunca tive um porre. 
- Que bom. 5 dias de atestado, a medicação está prescrita aqui. Repouso. Volte se persistirem os sintomas.
Continuei sentada, ela me despachou com um sorriso e um boa tarde. Os sintomas persistiram quando, ao sair do consultório, vi o que poderia ser uma festa: umas 15 pessoas desconhecidas que não passavam dos 30 anos de idade. Não era uma festa porque estavam todos abatidos: olheiras maiores que os olhos, sorrisos escondidos, testas franzidas. Todos doentes. Como eu. Eles nem me viram, eu , literalmente, também não pude ver muita coisa. Meus olhos coçavam. Síndrome do olho seco. Eu estava seca. Não me lembrava a última vez em que havia chorado. Um turbilhão por dentro, uma verdadeira tempestade. Por fora, seca. O olho coçava me pedindo: chora. Não chorava. Não tinha tempo para chorar: trabalho, família, trabalho, estudo, trabalho, trabalho, trabalho. Resumo da ópera: enquanto me afogava em mim mesma, fiquei doente por não chorar. Tanto temi parecer fraca, que vulnerável me tornei. 
No fim das contas, a médica estava certa: os 5 dias me ajudaram. Percebi que não sei para onde estou indo, mas que ninguém sabe. Não faz mal não saber. Isso é coisa que colocam na cabeça da gente: aos 25 tem que ter doutorado; 26, casamento; 28, filhos. A gente quer tanto encontrar resultados, que se esquece de ser antes de estar. E na verdade, o resultado principal fica de lado: a construção de nós mesmos, o cuidado com nós mesmos. Acabamos travando batalhas por conquistas que nem são exatamente por nós e a intensidade da juventude faz com que nos enchamos de tralhas no caminho: ansiedade, medo, tendinite, síndrome do olho seco, síndrome do pânico, síndrome disso, síndrome daquilo. Síndrome de estar fazendo o que não queremos fazer, por razões que nem conseguimos esclarecer.  Então, antes de chegar lá, resolvi o caminho aproveitar. Eu não "já" vivi até aqui, eu "só" vivi até aqui. Os sintomas persistiram mas, ao invés de voltar ao hospital, vou sair para me encontrar. Quem sabe esse olho seco não está precisando de um porre para, nem que seja de vergonha, se molhar?

Ansiosa por resultados, Ane Karoline (texto sugerido por Débora Kelly)