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Existe uma ternura genuína dentro de mim. De vez em quando, ela passa dias e dias quietinha, calada, parece até que sumiu, que morreu, que me abandonou. Quando ela retorna, eu sinto como se fosse impossível me desvencilhar dela, como se fosse intrínseca a mim, mas quando ela não está, sinto como se nunca fosse voltar a encontra-la: sinto me oca. Já corri atrás dela, já li, reli, ouvi conselhos e palestras afim de descobrir a fórmula certa para encontrá-la, para que eu nunca tivesse que me sentir só novamente, para que eu nunca tivesse que conviver com esse vazio terrível que é achar-se sem propósito. Foi justamente de tanto correr na tentativa de encontrar essa ternura, que me afastei dela, quanto mais eu a buscava, mais perdia a ela e a mim mesma. É um processo, me diziam, o deserto vem antes do jardim florescer. Veio mesmo. O dia exato em que joguei todas as fórmulas, todas as limitações, todos os preconceitos dentro da lixeira, abri portas para que a ternura voltasse a me encontrar em forma de um menininho gorducho de cinco anos andando em uma bicicleta desenfreada que passou por cima do meu pé na porta da igreja. Ô tia, desculpa, não chora. Chorei foi mais, choramos os dois e depois tive que explicar para ele e para a mãe dele que ele não havia me ferido, havia me curado.

A ternura genuína que existe dentro de mim havia se recolhido no momento em que julguei-me capaz de entendê-la, havia se comprimido em todos os momentos em que levantei-me contra alguém em nome dela, em cada vez que achei-me conhecedora da verdade só porque um monte de gente pretensiosa me reconhecia como tal. A ternura genuína que existe dentro de mim nunca me pediu para pregar minha verdade sobre ninguém, nunca me disse que lugar de mulher é na cozinha e que homem é um ser superior. Ela nunca me instruiu a julgar as decisões de alguém sobre sua própria vida, nunca acelerou meu coração para que eu apoiasse mortes ou apedrejamentos. Ela nunca, e mesmo assim o fiz, me disse como eu deveria me vestir e nem que eu deveria recriminar quem não se vestisse como eu. A ternura que existe dentro de mim nunca colocou condições para existir, nunca me pediu para buscá-la dentro de quatro paredes olhando para as camisetas azuis e para os anjos de gesso; ela é quem me encontraria, mas não ali.

Eu não precisava ir busca-la, ela esteve o tempo todo dentro de mim, prontinha para aquecer meu coração assim que eu permitisse: seja no sorriso do bebezinho dentro do ônibus, seja ouvindo pela vigésima vez a mesma história da minha vizinha com Alzheimer, seja segurando a mão enrugada da minha mãe na rua, seja no beijo apaixonado do meu casal de amigos ou na chuva que cai e molha o chão seco. A ternura esteve comigo desde o momento do meu milagre maior, que fora a minha primeira respiração e estará comigo até o momento do meu último suspiro. Ela não me julga, não me apedreja, não coloca condições e nem me diminui: me acolhe. Descobri isso quando, com lágrimas nos olhos, decidi me desacorrentar, lá de cima, cruscificado, ele me olhou como quem diz: vá e ame.

com todo amor do mundo, 
Ane Karoline 
- texto do desafio de 24 textos em 24 horas



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Já cheguei entrando com força e batendo a porta atrás de mim, como se nesse gesto infantil eu pudesse descarregar tudo que vinha pesando dentro do meu peito. Por sorte, não havia ninguém em casa, se o vô estivesse lá, teria gritado do seu quarto quebra não, jóia, e depois teria sorrido. Ele me chamava de jóia desde sempre, minha mãe gostava de contar que no dia em que ela voltou do hospital, comigo a tira colo, ele disse: ela é muito menor do que eu esperava, mas é uma jóia.  Minha cabeça ainda doía e parecia que tinha uma escola de samba enredo a todo vapor dentro dos meus tímpanos. Chutei os sapatos para o canto da sala e resolvi checar meu celular, parecia estar tocando enquanto eu subia as escadas até o apartamento – coisa que eu fazia quando queria evitar conversas com meus vizinhos. Realmente, havia três chamadas perdidas do escritório e uma do celular do número da Aninha – que foi justamente para quem resolvi retornar, seja lá o que tivesse acontecido, ela me diria com mais sinceridade e doçura que a secretária. Ela atendeu no segundo toque:

- Está tudo bem, Cecília? – ela parecia estar mastigando alguma coisa
- Aham, e você? O que houve?
- Comigo? Nada! Você está com dor de cabeça mesmo ou aconteceu algum...a cou... coisa? – definitivamente, eram churros, ela só ficava com a boca cheia assim quando comia churros.
- Eu estou com dor de cabeça mesmo, Aninha. Não está comendo churros em cima da minha mesa, né?
- Hum... Sei não, você saiu daqui com a maior cara de poucos amigos, fiquei preocupada.
- Não se preocupe, só dor de cabeça. Amanhã a gente se fala, tá? – ela já parecia mais tranquila, me recomendou três analgésicos diferentes e disse que mais tarde ligaria.

Me peguei pensando naquela frase por muitos minutos ininterruptos: cara de poucos amigos. Apesar de ter errado em sua previsão – o que eu sentia era pura e simplesmente dor de cabeça – Aninha me conhecia muito bem e deveria saber que se as caras das pessoas estampassem quem elas realmente são, a minha seria exatamente assim: cara de poucos amigos. Principalmente em meus dias mais alegres, nos momentos mais felizes de minha vida, minha feição estamparia com muita força e gratidão a minha condição de ter sempre poucos amigos. Sem contar com meus pais, aos vinte e seis anos de idade, eu tinha exatamente cinco amigos: minha irmã, a Carol, a tia Jô, o Luquinhas da escola, e a Aninha – que agora, desde que o vô falecera, faz o papel de amiga mais engraçada, maluca e cuidadosa. Cabiam todos em minha mão, assim, jamais deixaria de dar assistência a nenhum deles, jamais estaria ocupada demais para nenhum deles e, com relação a mim, eles sempre agiram da mesma forma: nunca deixei de ser importante.
Ao levantar do sofá para procurar os analgésicos indicados pela Aninha, vi meu reflexo desordenado na tela da TV desligada e pensei que, ainda que, por diversas razões, não fosse exatamente com esses pessoas, essa é exatamente a cara que eu ia querer sempre ter: de poucos amigos. Se o vô estivesse sentado ali no sofá, ele me diria que qualidade deve vir antes de qualidade, isso sim é uma jóia.

com amor, 
Ane Karoline 
- texto do desafio 24 textos em 24 horas


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O mundo é muito barulhento, meu bem, é por isso, que nem sempre eu venho te ver. Faz alguns meses que mal consigo ouvir as vozes dentro da minha cabeça, sempre que me sento para tentar ouvir, aparece logo alguém com algum assunto, alguma reclamação, algum pedido. Não há como ignorá-las, minha natureza pede que eu as escute com ternura e atenção, então, me calo e escuto tudo que têm para me dizer, sinto que devo fazer isso: ouvir as pessoas, lê-las, desvendar o que elas querem me dizer por trás do que elas estão me dizendo. As pessoas me dizem tantas coisas o tempo inteiro que eu acabo nem vindo ver você. Não me dizem nada ao seu respeito, nem sobre mim falam também, elas falam sobre elas mesmas e eu preciso ouvi-las, você entende?  Elas veem em mim o local para depósito das palavras que ninguém quer ouvir, mas eu ouço com atenção, ouço cada palavra com muita solicitude, coleciono as palavras delas, mas depois fico cheia; transbordando, por isso eu sumo: preciso me esvaziar das pessoas para me encher de mim.

Talvez te doa isso, te dói? Se dói, perdoe a minha forma abrupta de sair assim sem avisar, sem deixar bilhete, sem deixar telefone e nem endereço. É que não me dói estar sozinha, para mim, é uma dádiva, é minha fotossíntese, eu preciso disso, meu bem. O mundo é um barulho só, um barulho louco, uma balbúrdia desenfreada e, veja só, eu também o sou. Não é nada com você, sei que você queria ir ao cinema, sei que você queria me ligar, sei que você queria olhar para mim, mas eu preciso me organizar, preciso me esvaziar para me encontrar.

Hoje, finalmente, o domingo chegou e, ao acordar sozinha, senti a plenitude de quem sabe que não verá ninguém hoje. Tem tanta coisa acontecendo dentro de mim, como eu poderia ver alguém? Como poderia eu ousar estar com alguém no exato momento em que não posso estar inteiramente nem comigo mesma? Não posso, não posso não. Se estou com você, se vou te ver, se te ligo, se te ouço, sou toda tua, me esqueço de tudo, me afasto de todos, me faço cem por cento presente, cada célula do meu corpo está alerta, cada respiração minha glorifica o momento presente de estar com você; então, como poderia eu estar totalmente presente, ser totalmente sua, se nesse momento não sou totalmente minha? Pois bem, as primeiras coisas devem vir em primeiro lugar e a primeiríssima delas é ser totalmente minha. Nesse domingo eu sou mais uma pessoa, dentre tantas, que acorda sozinha; me espalho na cama espaçosa, penso em tudo que já fiz e tudo que ainda planejo fazer, ando de toalha pela casa inteira, sem ninguém para me questionar. Nada no mundo, e isso eu posso lhe afirmar, me poderia hoje ser mais reconfortante que o silêncio dos barulhos que não estão relacionados a mim: um monte de gente, em toda parte, conversando com um punhado de gente e ninguém falando comigo, ninguém para interromper meus pensamentos e devaneios, ninguém para irromper minha bolha contemplativa e meditativa nesse domingo.

Quando consigo, então, pensar em tudo; colocar todos os meus livros organizadinhos por cor; lembrar do que me é importante e dispensar o que for dispensável; penso em você. Chegando a esse ponto, sei que estou pronta para ver você, me lembro da afetuosidade com que você me falou não gosto de quando você se isola e se afunda em solidão, me lembro de como achei doce sua inocência. Eu sou uma criatura só, meu bem. Mas não agonie seu coração, eu vivo a glória de estar só e ela se chama solitute, não solidão.


com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24 horas

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Hoje eu sei que se você não me perguntou, não foi por não se importar, foi por já saber a resposta, apesar de alegar veemente não saber. Você não me perguntou, mas hoje, depois de ter aprendido a nadar e ter emergido do poço de lágrimas ao qual você me atirou, eu resolvi vir falar mesmo assim. Não foi particularmente nada que você fez, nem especialmente nada que você disse, foi justa e puramente o abandono. Logo você, quem mais reclamava de abandono, quem me contava mazelas de outros abandonos, me abandonar assim, seria cômico se não fosse tão triste. É triste sim, repito, e não por eu estar chorando em posição fetal; não estou. É triste porque é sempre uma lástima quando alguém que já foi querido sai da vida da gente assim: quebrando tudo, sem nenhuma chance de volta. É triste, sobretudo, porque achei que você fosse como eu.

Não há perfeição nenhuma em mim e, talvez por isso mesmo, nunca tive costume e nem gosto em cobrar nada de ninguém. Talvez tenha sido medo. O fato é que vi em seus olhos algo parecido comigo, aliás, achei ter visto; achei ter encontrado em você alguém que pudesse ser a minha exceção, alguém que poderia ter grande espaço na minha vida e no meu coração. Pensei que você seria sempre quem leria as coisas que escrevo, quem escutaria as músicas que escuto e quem dividira comigo suas aspirações e inspirações; não pensei que você se tornaria uma: a inspiração mais catastrófica de todas. Pelo visto, não era bem amor o que você queria e hoje, só hoje, sei que esqueci de te avisar que comigo não existe trivialidade, não existe isso de mais ou menos, não existe isso de amigos que não se dão verdadeiramente as mãos. Aqui, não.

Talvez, se eu te dissesse isso e tudo mais que ensaio na frente do espelho, você me acusaria de injustiça, você me diria que vivemos bons momentos juntos, você me diria que estou te cobrando amor. Vivemos, sim, momentos lindos; vivemos momentos em que eu pude ver o infinito do horizonte, que pude chorar de rir, que realmente acreditei que a amizade é um amor que não morre.  Mas morreu.  Essa é uma carta posterior à minha partida, fui embora para não ter que te cobrar nada.


com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24h

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Chega. Eu, você, sua mãe e a maior parte das pessoas que trabalham com você sabemos que já é suficiente, você já fez o possível e, claro, poderia continuar fazendo o impossível; mas não vale a pena. Para essa sua relação funcionar, não faça mais nada, é hora de tirar seu time de campo, já está há muito tempo tentando conseguir qualquer avanço e tudo que conseguiu foi avançar sobre si mesmo, né? Pois bem, não mova um músculo sequer para que isso aconteça, não ligue, não procure, não diga coisa alguma. Se possível, nem pense nisso. Vá apenas vivendo sua vida, tome café da manhã todos os dias - mesmo que você acorde às onze horas da manhã - beba oito copos de água ao longo do dia, lave o cabelo, ouça sua música preferida, dê um passeio. Não faça nada além disso, não se esforce de maneira alguma, apenas vá vivendo sem fazer nada até que seja exatamente esse o seu desejo: fazer nada. 

Dói. A tia Lú te alertou que doeria, te disse que quando a gente se espreme muito para caber em um espaço muito pequeno, a gente perde um monte de partes importantes nossas. Você sabia que tentar se moldar era um caminho sem volta, não sabia? Tudo bem, foi lá e fez, foi lá e se pintou de tudo quanto foi coisa na tentativa de que, finalmente, se tornasse o que faria de você o objeto amado; mas não deu. Se há esforço demais, significa que uma das duas partes não está realmente presente, você estava se esforçando de forma vã, não tinha ninguém lá para te ver. E é por isso que venho te dizer para não fazer mais nada, nem mesmo se despedir, nem mesmo explicar que tudo que fez foi por amor; simplesmente aceite que tudo que você poderia fazer, foi feito. Cartas e cartas, despedidas, explicações: tudo isso seria só mais um passo na tentativa frágil de estar fazendo alguma coisa, a tentativa tola de que esse fosse, finalmente, o grande milagre. Por isso, pare agora mesmo e encare o seu milagre nos olhos: você fazendo absolutamente nada.


Passa. Isso eu te prometo. Se você parar agora mesmo, for tomar um ar, apagar esse número com cinco noves do seu celular, eu te garanto que vai passar. Não vai ser hoje, não vai ser mês que vem e nem no dia do seu aniversário, quando a ligação não chegar, mas vai passar. Até lá, continue fazendo tudo, mas por essa relação, não faça mais nada. 

com amor, 
Ane Karoline -
texto do desafio 24 textos em 24h

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Os motivos podem variar de A a Z, podem ser listados e explicados. Seja por falta de humor, saúde ou grana; seja por falta de tesão, gosto ou excesso de introversão, apesar da alegria e da força de celebração que o Carnaval tem no Brasil, alguns brasileiros acabam optando por não participar da festa colorida de rua. Se você é uma dessas pessoas que, por alguma razão, não vai participar dos bloquinhos de Carnaval Brasil à fora, esse post é para você! Separamos algumas ótimas opções para você aproveitar o feriado de um jeito bem gostoso, vamos conferir?

1. Faça uma reunião com os seus amigos/família

Ainda que não queira/possa pular carnaval na rua, nada te impede de criar sua própria festa de carnaval com seus amigos/família, certo? Pois bem, junte a galera e faça o carnaval ter a cara de vocês! 

2. Visite um parente/amigo que mora em outra cidade
 Seguindo a mesma onda de reestabelecer laços, um feriado prolongado como esse é a chance perfeita para visitar um amigo ou um parente que more longe de você, fazer uma viagem, sair da rotina.

3. Faça uma trilha/ Vá à cachoeira

    Para quem gosta (ou precisa) de relaxar, o contato com a natureza é sempre uma boa excelente opção. Longe do festejo, existem muitas formas de encontrar um lugar mais tranquilo para fazer um piquenique, acampar, fazer uma trilha ou, ainda, renovar as energias em uma cachoeira - que, por sorte, são fartas no Brasil. 

4. Faça passeios de bicicleta

    Muitas partes das cidades ficam mais vazias - devido ao fluxo de viagens - nesse período, sendo assim, ainda que você não tenha tempo para fazer isso em sua rotina, pode ser uma boa ideia tirar sua bicicleta da garagem e dar uma volta. 

5. Assista os filmes indicados ao Oscar

    Se você vai realmente ficar em casa e gosta de filmes, uma boa ideia é procurar pelos filmes indicados ao Oscar desse ano e assisti-los, afinal, em tese, eles devem ser bons, né?

6. Aprenda uma receita nova

   Um feriado prolongado é mais que tempo suficiente para que você teste aquela receita que você sempre quis provar - além de que comida de casa é sempre melhor, certo?

7. Termine um livro

    Essa é old but gold: leia um livro! Sabe aquele livro que vive pegando poeira lá no canto do seu quarto? Pois bem, hora de terminá-lo!

8. Organize suas metas do ano



   Aproveite esse tempo para, caso ainda não tenha feito isso, organizar suas metas pessoais para este ano. Afinal, quem não sabe o que quer, acaba não alcançando nada. 

9. Tire um tempo para cuidar de você




Cuide de seu espírito, do seu corpo, de você! Tutoriais na internet não faltam. 


10. Aproveite para descansar
  Afinal, nada melhor que não fazer nada e depois descansar, né?

   

Muita gente me pergunta, se pergunta, pergunta ao universo e aos professores: como é, afinal, que se adquire o hábito de leitura? Sinceramente, eu não sei. O que sei é que não existe idade certa nem jeito certo. Além disso, sei como e quando eu adquiri o meu hábito de ler: na infância, com um livro que uma professora me indicou - um livro que não estava relacionado com a escola. Hoje, vejo a importância que isso teve em minha vida e vejo, também, a importância que tem na vida das várias crianças que conheço: tanto as que têm o hábito de ler, quanto as que não têm. Vejo que Muito se fala sobre a importância de ler, mas pouco se fala sobre como deve acontecer o incentivo à leitura.    


Por tudo isso, fiquei muito feliz quando recebi o livro Diário de Estela, lançado pela editora Jangada: é um romance infantil! Um livro repleto de aventuras narradas de uma maneira engraçada e harmoniosa pela personagem principal, Estela.

Estela é uma aprendiz do ofício de Anjo do Amor. Com seu jeito inocente e atrapalhado, ela precisa cumprir uma missão entre dois humanos, na Terra, para conseguir, finalmente, tornar-se um Anjo do Amor e receber suas asas. Com toda sua impulsividade e ingenuidade, nossa protagonista passa por muitos problemas mas, mesmo assim, está sempre disposta a continuar. Pela ansiedade em conquistar as asas e ser um Anjo de verdade, por várias vezes, Estela se precipita e só quando, finalmente, entende que deve seguir seu coração e colocar sua responsabilidade com o amor acima de seus interesses pessoais, ela consegue a nomeação de Anjo. 

Juntamente com uma narrativa muito cativante e narrada com linguagem acessível para as crianças, o livro é repleto de lindas ilustrações que criam o imaginário a respeito das aventuras de Estela. Além disso, o fato de o livro ter sido escrito em forma de diário é uma construção interessante que pode incentivar as crianças a escrever, criando um próprio diário. 


Para não me estender e acabar contando o que acontece com Estela, estragando a surpresa, me contento em dizer que o livro é ótimo e apropriado para crianças e pré-adolescentes - mesmo para adultos, a história não deixa de ser cativante e surpreendente. As autoras Stern (desenhista e leitora profissional de literatura infantil e Juvenil) e Jem ( escritora e jornalista) foram muito cuidadosas com toda a produção do livro  e pretendem lançar mais aventuras da Anjinha Estela. A tradução é da Ivana Mihanovich, foi publicada no Brasil em 2014, e não em deixa em nada a desejar. Deixo aqui meu convite a todos: vamos nos aventurar com Estela?

Ane Karoline

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De todas as escolas que frequentei, de todos os professores que tive, de todas as experiências pelas quais passei, ler é o ato que mais me ensinou - e continua me ensinando. Ler me mostrou que eu posso ter minhas próprias conclusões e não preciso acreditar em tudo que me dizem. Ler amplia minha visão de mundo e minha sensibilidade, me ajuda a falar e escrever melhor, me leva a lugares que nunca imaginei e me apresenta diferentes culturas. Sendo assim, eu sempre defendo o hábito da leitura e. sabendo que nem todo mundo tem afinidade e disponibilidade para ir à uma biblioteca, nem todo mundo pode comprar livros e nem todo mundo dispõe de uma biblioteca particular, eu resolvi facilitar e  fazer uma lista dos melhores sites para download gratuito de livros. Chega de desculpas, né? Vamos ler!

  1. Universia - Mais de 1.000 livros disponíveis para download;
  2. Open Library - Mais de um Milhão de livros disponíveis, há variedade de idiomas;
  3. Brasiliana - Site da USP, dispõe de 3.000 arquivos para download - incluindo obras raras, livros e imagens;
  4. Casa José de Alencar  - Site disponibiliza cerca de 15 obras do autos para download gratuito;
  5. Read Print  - Uma vasta biblioteca para quem lê em inglês;
  6. Projeto Gutemberg - Vários livros disponíveis para download - em diversos idiomas e formatos.
  7. Domínio Público - Mais de 2.000 livros em português, além de diversas obras em outros idiomas - incluindo obras clássicas.
  8. Ebooks Brasil - Grande acervo em diversos formatos;
  9. Biblioteca digital de Obras Raras - Site voltado aos pesquisadores, dispõe de obras em vários idiomas;
  10. Wikisource - Site da Wikipedia conta com um grande acervo, em diversos idiomas. 
  11. Machado de Assis - Site disponibiliza a obra completa do autor;
  12. Biblioteca Mundial Digital - Milhares de obras, em diversos idiomas.
  13. Cultura Acadêmica - Site da Unesp, muitos livros disponíveis para download gratuito em pdf - de diversas áreas do conhecimento;
  14. Canal de Ensino - Livros de diversas áreas do conhecimento;
  15. Virtual Books - Site brasileiro, vários livros em português.

com amor, 
Ane Karoline

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É inesgotável o assunto do amor- ao contrário do amor sentido: que acaba. Antes de acabar, a gente sente aquele quentinho  no coração, sente aperto, agonia e gratidão, e mesmo quando acaba, o assunto fica. É livro, filme, peça e canção, é inesgotável. A sensação que dá é que sempre existe mais alguma coisa para falar, para expor, para compartilhar, para descobrir sobre esse sentimento tão simples e tão misterioso. Todo mundo tem uma opinião: o amor é assim, o amor é assado. Eu mesma, vez ou outra, me arrisco a falar do amor - quem não? - e seja ele fraternal, maternal ou apaixonado, ainda tem muito a ser dito. Sendo assim, resolvi separar 5 dos meus livros favoritos que, de diferentes e inusitadas formas, trazem o amor à tona. 

1- Razão e Sensibilidade - Jane Austen
   Ah, mas já vou começar com um clássico? Vou! Preconceitos de lado, vamos arregaçar as manguinhas para ler esse livro maravilhoso. Quero deixar bem claro que, apesar de haver a presença de relacionamentos amorosos/afetivos/apaixonados no livro, o amor que mais me impressionou foi o fraternal e familiar, sobretudo entre as duas irmãs mais velhas. É um livro surpreendente e cheio de reviravoltas. Carrega humor, drama e muitas aventuras.

2- Queria ver você feliz - Adriana Falcão
  E eu lá deixo de contemplar a literatura nacional e contemporânea? Jamais! Esse livro é sensacional e, o melhor: é a narrativa de uma história real! O livro é de leitura fácil, leve e muito bom, também, para quem não tem o hábito da leitura. O próprio amor é colocado como personagem e o livro é fascinante, escrito com muito capricho e carinho. 

3- Passarinho - Crystal Chan
    Um livro do qual que nunca tinha ouvido falar, nunca vi  nenhuma recomendação e nem resenha, comprei de promoção porque achei o nome interessante. Me surpreendi: livro maravilhoso. A capacidade de narrativa da autora é sensacional e põe em cheque muitas convenções sociais e tabus. A narrativa, contada pela personagem principal, traz um ponto de vista simples e quase ingênuo sobre o amor. Livro lindo.

4- Orgulho e preconceito - Jane Austen
    Ok, não é história focada em amor - como o título sugere. No entanto, o comportamento da personagem Elisabeth é sempre carregado de amor: com a irmã, com a família e consigo mesma. É, literalmente, um clássico e, com toda certeza, uma das maiores referências ao Romance da Literatura Internacional.

5- Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector 
   Sempre consigo encaixar Clarice porque ela consegue encaixar tudo em uma única linha. Esse livro é uma de suas obras mais conhecidas e coloca em cheque o amor, dentro da crise existencial humana, através da personagem Lóri em seu relacionamento Ulisses, com Deus e consigo mesma. 

Não deixem de ler! Aguardo os comentários. 

com amor, 
Ane Karoline 

imagem; Ane Karoline


De válvula de escape à monografia: escrever, para uns é necessidade, para outros, utopia. De qualquer forma, é uma coisa sem forma: pode ser poema, livro, serenata, conto, crônica, ou resenha. Escrever é uma arte pessoal e universal: a gente escreve para si e chega no outro. Escrever é construir, em palavras, o que ainda nem existe dentro de nós, e é por isso que existem inúmeras formas para organizar as palavras e as ideias. Agora, que não usamos mais a caneta tinteiro, dispomos de várias plataformas onde podemos armazenar textos e ideias. Por isso, separei alguns aplicativos que gosto e que são úteis para todo tipo de escrita: desde um livro à produção de textos acadêmicos formais. Que tal carregar sua obra prima no bolso?

EVERNOTE
Muito fácil de ser utilizado, dispõe de versão em português. Excelente aplicativo para quem quer escrever e manter-se organizado. O aplicativo pode ser organizado em cadernos e assuntos facilitando, inclusive, para quem quer escrever um livro. 
Disponível para desktop, Android e IOS.
Contra: Não dispõe de muitas funções de edição

JOTTERPAD
Interface parecida com a do Evernote, porém dispõe de mais funções em relação ao smatphone - como acesso aos documentos já existentes, fotos e vídeos, para serem anexados ao texto. Também é útil em organização e pode enviar arquivos diretamente para o dropbox em backup automático. 
Disponível para Android e IOS
Contra: Não dispões de ferramentas de edição

WRITER ou IAWRITER
Dois aplicativos bem parecidos e com uma vantagem muito interessante em comum: fonte de máquina de escrever. A interface é bem convidativa, inspiradora e fácil de usar, porém não dispõe de versão em português.
Disponíveis para Android e IOS
Contra: Praticamente não tem opções de edição é apenas para armazenamento de ideias. 


OMMWRITER
A facilidade de utilizaParecido com Medium  
 Disponível para IOS
Contra: algumas funções só estão disponíveis online 

ESCRITOR PRO-MARKDOWN
Interface muito amigável e, apesar de só estar disponível inglês, a utilização do aplicativo é muito simples: criação de notas que são passíveis de edição com algumas possibilidades e funções exclusivas do aplicativo.
Disponível para IOS
Contra: Não há a possibilidade de criação de pastas.

LIBREOFFICE
Aplicativo amigável e com amplas funções parecidas com as funções do, tão querido, Microsoft Word. Muito útil, também, para a criação de documentos que não sejam literários como trabalhos, resenhas, monografias e etc. 
Disponível pra Android e IOS
contra: Não tem versão em português.

Ane Karoline



imagem: we heart it

A loucura era que todos os dias me eram iguais: começavam antes que eu estivesse pronta, me atropelavam um amontoado de acontecimentos e, no fim, uma exaustão e uma sensação de que não havia feito nada do que deveria. Nesse marasmo, todos os dias fazia questão de escolher a bandeja verde no refeitório da faculdade e escolher, com cautela, o lugar em que me sentaria. Sem perceber, cultivava uma fagulha de esperança em meio aos meus dias cinzas. Foi em um desses dias, escolhendo um lugar para sentar,  que eu vi outra bandeja verde.

Ela era uma moça de estatura mediana. Os cabelos, desengrenhados, estavam presos em um rabo de cavalo deixando o rosto dela nu. Não parecia pensar em nada, não era tranquila e nem agoniada - apenas era. Estava ali, ocupada sendo ela mesma, como tantos outros o estavam naquela manhã cinzenta de uma quinta-feira qualquer. A manhã era como ela: não se destacava entre as demais mas, com certeza, tinha uma existência única e fundamental. Muitos não a viam, como não veem as várias manhãs que passam indistintas como páginas no calendário. Mas, naquele dia - não sei se por acaso, destino, distração ou identificação- eu a vi. Me vi nela: uma alma, dentro de um corpo, querendo existir. Não é o que somos todos, afinal? Tanto nela me vi que me senti convidada e fui sentar-me com ela. 

Como costumeiro da vida cotidiana, não conversamos. Imersas nos mundos de nossas próprias bandejas, nos assustamos com o barulho seco de algo caindo no chão. Peguei o livro  e fui entregá-la, era um dicionário português-francês. Olhando para ela, entreguei o dicionário e, só quando  ouvi o "Merci" acompanhado de um aceno de cabeça, eu percebi: uma francesa. Eu não falo francês. Poderia responder-lhe em outras quatro línguas, mas não na dela. O sorriso que ela me deu me mostrou que não era necessária, uma resposta, nem mesmo suficiente. Foi um sorriso tão breve, mas carregado de cumplicidade e simpatia o suficiente para acender em mim uma fagulha de fraternidade - há muito perdida. Então eu reparei que essa fagulha de fraternidade só apareceu porque eu senti, nela, o amor. 

Terminamos nossas bandejas, e eu saí de lá assim: a bandeja verde, de esperança, o coração aquecido, de amor. Saí desse tal dia, vendo tudo colorido e sabendo que o amor que carregamos dentro de nós não é lá tão diferente: somos todos gente. Todos confusos, buscando um caminho. A loucura é ter esperança na fraternidade em meio à tanta desavença, mas o meu lado da força é esse e eu vou ousar afirmar que se nos respeitarmos e nos permitirmos ser, podemos crescer e florescer. 

com amor, 
Ane Karoline



Sempre tive afinidade com números. Aliás, com matemática: somo tudo. Somatizo tudo, também. Mas, numa dessas de somar, fiz as contas e percebi que não tenho tempo. Eu, definitivamente, não tenho tempo. Se tem uma coisa que eu não tenho, essa coisa é tempo. Não, não estou exagerando. Quer dizer, eu até tenho algum tempo mas é restrito, é contado - não dá para gastar, entende? Não tenho tempo para ficar desperdiçando. E, pelas minhas contas, você também não tem.

É bem simples, são grandezas inversamente proporcionais: quanto mais tempo você gasta, menos tempo você tem. E eu, que já gastei um tempão, não tenho mais nenhum para desperdiçar. Daqui por diante, só tenho tempo para investir. Quando se investe, espera-se que algo volte, certo? É isso mesmo. A partir de agora, só tenho tempo para o que me traz algo. Um algo que é bem específico, mas pode ser qualquer coisa. Digo, é específico porque precisa ser algo bom. Mas pode ser qualquer coisa. Qualquer coisa boa. Resumindo, tenho tempo apenas para investir no que me fizer bem.

Quanto a você, digo o mesmo: você não tem esse tempo todo que pensa ter. E se você, como eu, já gastou vários preciosos minutos com miudezas que fazem mal, tem menos tempo ainda. Essas pequenices são tão profissionais em roubo de tempo que a gente pode nem perceber: ficar com quem não quer ficar com a gente, se lamentar, observar demais a vida do outro, ficar onde não quer realmente estar, não amar, não sorrir, se irritar, não arriscar, guardar mágoa e, sobretudo, fazer mal à alguém. O que quer que seja, que não seja voltado para o bem, gasta o nosso tempo, o joga no lixo. E fazer mal à alguém é a maior perca de tempo que se pode cometer. Afinal, no fim das contas, o veneno sempre volta para você e o tempo maior é descontado do seu relógio da vida. 

Sendo assim, me desculpe, mas quando se tratar de qualquer perversidade, desrespeito, injustiça, ato de mediocridade e/ou desamor; não tenho tempo. Não tenho tempo para esse tipo de comportamento. E se, por acaso, você tiver esse tempo a perder, se tiver esse tempo para deixar de investir em si mesmo para cometer atos de injúria e/ou disseminar discursos de ódio, eu vou ter que te dizer: não tenho tempo para você. Não vou te ler, te responder, te escutar e nem querer te ver. Mas, se o seu tempo te for tão caro quanto o meu me é, te faço o convite de investirmos nosso tempo junt@s. Que tal?  Se o bem não pode ser feito pensando no outro, que seja feito, ao menos, em prol de nós mesmos: invista seu tempo em construir coisas, não o perca em tentar destruí-las. 

investindo meu tempo em você, 
Ane Karoline.

Nós somos os protagonistas de longas-metragens que estão constantemente em cartaz e, simultaneamente, em edição. Cada coisa que nos acontece, cada pessoa que cruza o nosso caminho, são pequenas (ou grandes) edições no roteiro do filme da vida de cada um de nós. Estamos todos, no fim das contas, entrelaçados. Talvez descubramos isso quando o filme acabar, né? Ou não. Seja como for, além de cenário, iluminação e coadjuvantes, os nossos filmes são repletos de trilhas sonoras, não é mesmo? Trilhas sonoras que mudam, se afetam, são complementadas e atravessadas pelas composições sonoras dos outros. 
Sendo assim, resolvi atravessar a trilha sonora da sua vida. Separei sete filmes com as minhas trilhas sonoras favoritas  para, quem sabe, levar melodia para essa cena atual do seu filme. Que tal?



1- Begin Again
Além da trilha sonora que, sim, é maravilhosa, esse é um dos meus filmes queridinhos. Um dos filmes que mudou o roteiro do filme da minha vida. Eu, que sou sempre tão cheia de sonhos e de amores, tão apaixonada pela poesia e pelas artes e estou sempre perdida, me vi retratada no minimalismo de um filme tão simples e, para mim, tão significativo. Em minha listinha, essa é a melhor trilha sonora que eu conheço até o dado momento.  A trilha sonora está organizadinha em uma playlist AQUI  no youtube. 


2- A culpa é das estrelas


Alguns esclarecimentos são necessários aqui: eu sou clichè, mas nem tanto. Não estou aqui para resenhar o filme mas devo dizer que esperava mais. Eu sei, eu sei. Eu li o livro e sei que é um romance adolescente. Ainda assim, esperei mais. Tenho uma capacidade muito peculiar de construir expectativas e construí várias para esse filme. No fim das contas, fui decepcionada mas nem tanto: a trilha sonora me atravessou. O tipo de música folk que eu gosto muito - além de várias músicas da Birdy que é uma das minhas cantoras/compositoras internacionais favoritinhas. A playlist está AQUI no youtube. 

3- Lisbela e o Prisioneiro


Essa aqui é uma indicação seríssima: o filme é um dos meu favoritos também. Se você ainda não o assistiu, pare agora mesmo o que quer que esteja fazendo e vá assisti-lo. Uma sensibilidade tão sutilmente colocada em um lugar que tinha tudo para ser banal, mas não o foi. Enfim, a trilha sonora também me tira do eixo - sempre. Escute-a AQUI.

4- LoLa


Outro filme adolescente - literalmente. Não me agrada o enredo e nem tanto a forma como foi colocada. Um filme da época em que Miley Cyrus tinha acabado de deixar de ser o rostinho sorridente da Disney. O filme é sobre... Bem, assistam e entenderão. O que me cativou foi a trilha sonora - na qual conheci a fofíssima Ingrid Michaelson. A trilha sonora está AQUI.

5- O Fabuloso destino de Amélie Poulain


Para quem possa me acusar de assistir muitos romances norte-americanos e super-heróis hollywoodianos, venho dizer: tenho uma quedinha (um tombo) por filmes franceses. (Se quiserem, posso falar sobre isso em uma outra conversa/post - sugiram-me). Por isso, escolhi o meu preferido, entre os franceses, para indicar a minha trilha sonora, também preferida. Mesmo com meu francês ordinário, as músicas francesas sempre me atravessam (posso fazer post sobre isso também). Nesse caso, as músicas são, majoritariamente, instrumentais, e são sensacionais. A playlist está AQUI

6- Ligados pelo Amor

Um filme que escolhi assistir por ter sido indicado pela trilha sonora - confesso. E, além de gostar do filme, me encantei com a trilha sonora. Não saberia dizer se toda a trilha sonora do filme é boa, todos os dias tenho uma opinião diferente sobre isso. Mas sei dizer que a música Between the bars é a minha preferida e você, que agora me lê, cometeria uma tolice se não a escutasse.  A playlist completa está AQUI. 

7- Eu não faço a menor ideia do que tô fazendo com a minha vida


Mais um nacional que tenho que dizer: me delicio. Gosto bastante do trabalho da Clarice Falcão como atriz e como cantora/compositora e nesse filme ela retrata descaradamente, e de uma forma muito leve, como estamos todos perdidos. (Começo a achar que se perder é se encontrar). A trilha sonora é inteirinha composta de músicas que gosto muito e que me fazem ser mais quem sou. Está completa AQUI.


Dito tudo isso, espero que essas músicas sejam parte da trilha sonora da vida de vocês - como é da minha. De qualquer forma, quis compartilhar. Afinal, se não for para compartilhar as belezas da vida, eu de nada serviria. Aguardo as opiniões de vocês. 
com o amor de sempre, 
Ane Karoline



Não tenho tido notícias suas. Há tanto tempo não te vejo, nem sei dizer quanto. Hoje fui acometida por uma grande surpresa quando não consegui contar, não consegui me lembrar ao certo a última vez em que te vi. É tanto tempo que se tornou algo abstrato, não palpável, incontável. Digo, o tempo, não nós. Estou cada dia mais certa de que nós sempre seremos palpáveis, mesmo em minhas lembranças mais abstratas, você me é sempre bem real. Está sempre aqui comigo no que vejo, no que sinto, no jeito como me expresso, em minhas referências. Afinal, mesmo com esse jeitinho de quem não queria nada, de quem não impõe nada, mas de quem tudo cuida, você me mudou e deixou carimbo em mim: estou indo, mas estarei sempre por aqui. Até a saudade é real, sei exatamente do que sinto falta: sua risada incontrolável ainda me chicoteia com a mesma intensidade, como se eu tivesse acabado de ouvi-la. Bem aqui. Mas agora é saudade. E, tenho que dizer: que saudadezinha gostosa essa que agora sinto! Digo agora porque sei que não é eterna: sem tardar, vou te encontrar novamente e a camaradagem vai ser a mesma, como se nunca tivéssemos nos afastado. 

A verdade é que nunca nos afastamos realmente. É claro que a vida seguiu, fez e aconteceu. A vida tem acontecido em um ritmo diferente do que costumava acontecer, em um ritmo que difere para nós. Mas isso não nos impede de ser o que somos. Seguimos sendo. Continuamos sempre sendo aquela pessoa "para contar", aquela pessoa que, no mar do desespero, é para quem vamos ligar. Continuamos sempre nos acompanhando.  Os desencontros não impedem que, mesmo no silêncio, continuemos torcendo para a nossa felicidade mútua, muito pelo contrário: faz com que a torcida seja ainda mais sincera já que não é gritada ou exposta em outdoors. O tempo não impede que continuemos nos lembrando mutuamente: 30 seconds to mars, para mim, ainda é a sua banda. E, sobretudo, o amor não impede com que o carinho continue a ser essa plantinha que sempre cresce em nossos corações. É que, pelo visto, amizade é esse tipo de amor : um que nunca morre. 

Essa separação é, na verdade, uma breve interrupção. A rotina desse início de vida adulta tem nos mostrado que amizade vai além do que acreditávamos. É claro que também é estar presente, também é cinema, também é estar junto o tempo inteiro. Isso tudo é uma delícia, mas não é só isso. É saber com quem se pode contar. É, também, saber que o abraço de um amigo é um segundo lar. 

A todos os meus amigos e amigas - em especial para os que não vejo sempre (texto sugerido por Tallysson Aguiar)



Sexta à noite. Caminhava apressada, sonhando com o banho quente e o fim de semana de descanso. Quem sabe um filme, uma pizza, um livro. Paz. Perdida em pensamentos, demorou a perceber que estava sendo seguida. Tentou se acalmar: que loucura é essa? Arriscou uma olhadinha para trás: definitivamente, estava sendo seguida. É só acelerar o passo, pensou. Acelerou. A sombra perseguidora, apertou o passo também. Tentou um desvio, o perseguidor se aproximou. Começou a calcular: não sabia lutar, quem sabe negociar? Tinha o celular - não estava nem pago ainda. Que chatice. Tá. Ia entregar o celular, os 12 reais que estava no bolso de trás da calça e a bolsa. Decidiu que não ia resistir. Ia entregar tudo e ir andando para casa. 

Acelerava o passo, desviava, tropeçava. A distância diminuía na mesma proporção em que o desespero aumentava. Era novembro, estava frio, mas o suor escorria coluna a baixo. A testa já estava pegajosa, a mão escorrendo. As pernas pareciam não conseguir acelerar. Pensou em correr. Desistiu, ia cair. Se caísse, não teria chance. Apertava o passo e a distância diminui. 

 - Ei!

Pronto. Morta. Estava morta. Começou a pensar, arquitetar: ia escrever a carta de despedida na nota fiscal do lanche dizendo que amava a mãe. Quem a encontrasse, ia entregar a carta para a mãe. Talvez desse tempo de escrever umas palavras para a família toda. Talvez desse para pedir uma missa bem bonita no enterro. Derrubou as chaves no chão. É isso. Talvez desse para lutar. Arriscou uma olhadinha para trás, catou as chaves e colocou entre os dedos. Não ia desistir sem lutar. Menos de um metro de distância. Era correr ou morrer: correu. 

-Ei! Calma aí.

Calma aí o quê? O perseguidor corria também. Correu mais. Derrubou a bolsa. Levantou, correu. Caiu. Joelhos. Começou a catar as coisas quando sentiu a mão no ombro. Fechou os olhos, golpeou a perna do alguém com as chaves. E viu a pessoa cair de joelhos.

- Meu Deus do céu! Calma!
-  QUER ME MATAR?
-Tá perdida moça? Vi sua cara de quem não sabe onde está. 

Não sabia mesmo onde estava. Perdida num mundo onde a gente tem medo de caminhar. 


Sempre com medo, Ane Karoline (texto sugerido por Marta Guedes)



Se eu pudesse te dar um conselho, seria: fique só. Afaste-se de todos. De todo mundo mesmo. Acostume-se com a sua própria companhia até que consiga construir intimidade consigo mesmo. Eu sei que se conselho fosse bom, não seria gratuito, mas confie na gratuidade desse: tenha um tempo com você. Aliás, confie na gratuidade da sua companhia: tão preciosa e tão barata. Antes de qualquer coisa, esteja com você, é a melhor companhia que você vai ter. Ainda não te convenci? Vamos usar a lógica, então. Quão bem você se conhece? Provavelmente, não o suficiente para se julgar insuficiente. Vamos lá, se dê uma chance.

Estou te incentivando porque a solidão é o encontro com o vazio e, acredite se quiser, o vazio pode ser cheio de gente. Vazia. Ou de gente cheia - de si. Ninguém vai conseguir preencher um vazio que tem o seu formato. É como querer encaixar um quadrado dentro do espaço exato de um triângulo: não vai caber. Eis aqui o que você vai praticar: vai investir em você. Quando você se encontrar, a solidão vai parar de te assediar.  Dito isso, quero esclarecer: não estou te impelindo a se isolar, só estou dizendo para se acalmar. Vai se conhecer, se descobrir, se encontrar e, posso te garantir, a solidão vai te esquecer - ou você vai esquecê-la. A solidão é um parasita que se alimenta do nosso medo de ficar só e nos faz pensar que é melhor estar mal acompanhando que só. Mas não é. Como é que alguém vai te acompanhar, se nem você sabe quem é?

Depois, quando sua companhia for suficiente para te fazer feliz, aí sim, volte e deixe que as pessoas te acompanhem, enquanto você também as acompanha. Aí sim, vão ser companhias saudáveis. Aí sim, serão companhias que não te jogarão no abismo da solidão quando precisarem ir embora. Não serão necessárias, serão acréscimos, vão te transbordar. E como é delicioso se deixar acompanhar sem precisar. Essa é a companhia verdadeira: não é necessária, é uma escolha. Mesmo sem ela, a gente consegue seguir . Não da mesma forma, mas consegue. 

Do meu quarto, sozinha, Ane Karoline (texto sugerido pelo Adolfo Rodrigues)


Parda. Habitante de uma pele muda. Um corpo sem identidade que gritava abafado. Talvez por isso eu tenha demorado a me ouvir. Os cabelos que, desde a infância, escorriam pelos ombros, chegando à cintura, expressavam o sangue indígena que corre em minhas veias. A pele sempre foi o que me traiu, o que me fez me perder em minha própria identidade: acobreada, se perdia em meio à branquitude da família que veio do sul. Sulistas. Mas eu, antes de centro-ocidental, sou brasileira. Demorei a perceber que sou filha da terra, dessa terras que já existiam antes de serem descobertas. Vivi muito tempo sem raiz: a gente, vez ou outra, tenta imitar o que o outro diz. Perambulava vendo gente se vender: dentro do Brasil, não via espaço para brasileira ser. Quer dizer, que loucura um país no qual os estrangeiros são sempre mais valiosos que você. 

Enfeitiçada pela cultura européia fui: uma gente de pele clara, sem manchas de Sol e suor. Enamorada fiquei pela forma como o inglês sounded so much better que o português. O português que -  se comparado ao nível do inglês falado na Inglaterra-  sempre foi tido como muito mal falado no Brasil. Que país! Tão sem identidade que ninguém fala a própria língua. De tanto assistir cinema intercional e comercial de TV, me apaixonei pelo que não me pertencia. Mas paixão passa. Passou. Me olhando no espelho eu percebi: foi daqui que eu nasci. A pele parda, bronzeada do Sol, e a minha voz, ecoando, enquanto canto marisa monte me mostraram que meu português é tão valioso quando o inglês e, sobretudo, o português que escuto aqui, o português que você usa, ao invés do que tu usas. O português brasileiro. E que, se por alguma razão, não foi bem dito o suficiente para gerar comunicação efetiva, é porque precisa de mim: precisa do que digo, do que escrevo e do que falo. Aliás, precisa de mim e de você. Precisa de nós para desatarmos os nós que nos impedem de avançar. 

Hoje me vejo brasileira: filha da miscigenação e, sobretudo, filha tupi-guarani dos filhos dessa terra. E reconheço, com admiração, a magnitude das culturas europeias e dos nossos vizinhos norte-americanos. Mas reconheço, ainda mais, que eles estão lá, construindo seus países. A minha cultura também depende de mim, meu país também depende de mim e, além de maldizer o que está sendo feito, preciso me levantar e fazer para que, quem sabe, possamos construir um Brasil que de todos nós possa ser.

Deitada eternamente em berço esplêndido, Ane Karoline (texto sugerido por Ane Kelly)






Calado. Era apático, quase invisível. Quando pintaram as paredes do escritório de branco, comprou várias camisas brancas. Camuflava-se. Era de uma insegurança que, se não fosse triste, seria cômica. Falava pouco, existia menos ainda. Opiniões, há muito deixara de ter, afinal, para quê? Nunca tinha coragem de dizer. Era aquele camarada que quando começa a falar, fala com tanta insegurança que ninguém dá atenção. Ninguém nunca dava atenção. Ele, por sua vez, vivia nessa confusão: queria ser notado mas fugia de qualquer aproximação. Dava a volta no quarteirão para evitar um grupo de duas pessoas ou mais. Enquanto andava, era apressado. No trabalho, calado. Nada engraçado. Quieto. Manso. Vivia quase que em obediência ao mundo. O aceno com a cabeça era sua frase mais comum. Uns o julgavam covarde, ele preferia se ver cauteloso. Comedido. Prudentíssimo. Não problematizava nadinha. O Senhor da concordância: evitava mais um conflito que um giló. No ônibus era aquele cara que sabe se comportar: não encosta em quem não deve, não faz barulhos excessivos, não torra a paciência de ninguém. Quase oculto. 
Tão oculto que, em uma tarde quente de sexta feira, parecia não ter sido visto pelo tio grisalho de 1,80m dentro do ônibus lotado. A cada pisada do motorista no freio, questionava a física: será mesmo que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço? O tal cara impertinente provavelmente não sabia disso. Se inquietou: dava umas olhadas para o espalhafatoso tentando alertá-lo do excesso de proximidade. Nada. Se afastava, pigarreava. Nada. Respirou fundo: ônibus cheio, a gente entende. O cara é grande, precisa de espaço, não está fazendo por mal, ele vai perceber, ele vai se afastar. Bendita seja a inocência. O ônibus começava a esvaziar e o incômodo lá: pareceria onipresente. Ia para a direita, o cara ia. Ia para a esquerda, lá estava ele. A situação já estava notória. E teria aguentada-a se não fosse um cachorro. Um cachorro atravessando a BR como quem tem a vida ganha. Ganhou a vida aquele dia: o motorista freou bruscamente.
- TÁ MALUCO, CARA? CHEGA PARA LÁ!
O dito cujo, onipresente, se fez de inocente. E o circo foi armado: o sr concordância, finalmente, discordou e a platéia do ônibus adorou a problematização: não tem que aceitar nada calado não. Pelo visto, o outro também não era muito de problematização e evitou a confusão. Deu umas desculpinhas envergonhadas e se afastou. Deu espaço para a voz de quem sempre se calou. Uma aproximação na hora era errada, trouxe paz depois da agonia: aquela sarrada foi, para a timidez, terapia. 

De quem foge das sarradas desde sempre: Ane Karoline. (Texto escrito pela sugestão de Jéssica Oliveira)