Essa carta não é o meu manual de instruções, e nem uma lista de recomendações pra você que ainda vai chegar. Essa carta é, na verdade, um tributo à minha utopia e, apesar de ser pra você que vai chegar, espero que não a leia e, mesmo assim, a tenha impressa em você.

Eu sonho viver uma grande história com você, uma daquelas histórias empolgantes que inspire e que seja carregada de verdade e completude. Uma história bem temperada, na medida, não pra agradar ninguém mas pra nutrir o mundo, o nosso mundo, com sabor de eternidade.

Como não é uma carta de recomendações, não quero dizer o que você deve ou não ser- apenas quero que seja e me deixe ser também. Ser tudo o que a nossa existência construiu para que fôssemos, e sendo, transformando o mundo - mesmo que em uma escala muito pequenininha . Digo isso porque acredito que não estamos aqui por acaso, sinto que nossa existência finita colore o infinito eternamente e, sendo assim, que nossas cores sejam intensas perpetuando nossa história que será linda.

Sobre essa nossa grande história, não tenho a medida e nem quero ter porque o nosso critério precisa ser o amor e o amor não se contém, não é verdade? Eu disse que não faria recomendações e acho que isso soou como uma exigência, e é! Para ser sincera, tenho ainda mais duas, e que nem são, de fato, necessárias se tivermos o amor como critério e se for amor de verdade; mas vamos lá: nosso amor não pode ser egoísta e precisa ser corajoso.  Eu decidi há um tempo que não aceito nada que seja egoísta e da mesma forma luto para também não ser, penso que o egoísmo é um veneno muito perigoso que acaba com a gente, mata nosso jardim e contamina nossas relações até que morram também. Então nada de egoísmo, combinado? Agora, sobre a coragem, olha como é gostosa essa palavra: CORAGEM! Não abro mão, essa é uma virtude que precisamos cultivar senão a gente não consegue viver, porque viver é muito desafiador e quanto mais coragem a gente tem, mais a gente vive direito. Eu quero viver direito e, apelando um pouco pro meu romantismo, eu quero viver direito com você, tudo o que tivermos direito!


Por fim, desculpe minhas pretensões, mas já estou sendo e quero que seja também.  

Érica Rodrigues




É assim que a paixão acontece: seja na escada da faculdade, no ônibus ou no mercadinho da esquina. Ela costuma ir embora tão rápido quanto chega, pelo menos, com Helena sempre fora assim. Ela percebera que, quando há paixão, há um padrão: nos atentamos a detalhes tão pequenos que, juntos, criam expectativas intensas -  mas nem sempre são recíprocas. Então, surgem as pequenas ansiedades, começa-se a tomar mais cuidado com as palavras, com as atitudes - ninguém quer passar uma impressão ruim logo de cara.  Mas além de tomar cuidado com tudo isso, existe algo bem mais importante a se preocupar: as emoções. Na verdade, ninguém nunca quer que coração algum saia magoado -  mesmo sabendo que isso, provavelmente, vai acontecer porque a paixão é uma faca de dois gumes. Faca de dois gumes, livro de duas faces, apesar do medo, com a paixão tudo se torna melhor: acordar cedo, estudar, trabalhar e até pegar aquele ônibus lotado em plena segunda-feira. Esse é o alerta, quando começamos a incluir, imperceptivelmente, os detalhes ao nosso dia a dia, criando, imaginando e acrescentando um outro alguém à nossa história. Imaginação e realidade se confundem, até você ser pego em meio a um pensamento intenso com alguém que acabara de conhecer e percebe que está se apaixonando, ao passo que sua mãe e todo o resto do mundo sacaram depois do seu último texto. Sempre parece que vai ser diferente, mas era sempre assim, e Helena sabia.   

Helena, 26 anos, prestes a dizer sim, com os votos em mãos. Envolvida em uma paixão desde adolescência na qual sentira-se muito confortável, até o dia em que ele tomou a mão dela em casamento e, precipitada, ela aceitou. Os dias se passaram e o tempo a engolia: precisava escrever seus votos. Começou, rascunhou, reescreveu e, quando percebeu, tinha rabiscado um começo:


Eu esqueci de ser livre, esqueci de viver em plenitude, esqueci que nunca foi amor, foi paixão. ” 

Naquela tarde de dezembro descobrira que  tudo estava fora do lugar, percebeu que havia esquecido algo, que por muito tempo ignorara as indiferenças, achando que estava bem, ou que tudo ficaria bem.  Assim, seus votos se transformaram em uma despedida:

“Se você decidiu guardar, então guarde, porém não me aguarde! Não se guarde, não guarde teu coração, por nada que vivemos. Não vivemos nada comparado com o que a vida ainda tem a te oferecer, com o amor que vai chegar. Apenas viva, sorria, jogue basquete com os amigos, vá ao treino, estude, cante, componha, viaje pelo mundo, faça novas amizades, novos sonhos - é isso que deve ser feito. Se permita curar e, quando estiver preparado, se entregue a um amor - um amor real, sem paixões loucas, sem atitudes precipitadas.
Eu sei, é bem provável que você esteja estranhando toda essa minha garra para viver, e tem todo o direito já que meses atrás eu vivia à sombra de toda nossa rotina, eu ainda remoía todas as "declarações de amor", fazia questão de deixar claro para você tudo o que sentia. Mas não foi só você, mais ninguém acreditou quando eu disse que estava tudo bem. Mais uma última coisa:  faça o que tiver que fazer e não se lembre de um amor que não existe e que não vai voltar.

PS.: Te devolvo tudo que é seu, inclusive o seu coração, porque assim você já pode ir embora.
 Minhas sinceras desculpas."


Vai chegar um dia em que, depois das paixões, o amor chegará. E nele tudo é de verdade, não tem essa de ser frio ou quente, você não tenta ser nada, você apenas é.  Helena ainda não havia sido, mas haveria de ser.

May Mariano (do blog: http://www.mayentrandonoassunto.com/?m=1)





Quase sempre existe um vazio intransponível entre nós. No começo achei que fosse uma parede. Mas paredes e muros a gente pode destruir, certo? Que batalha! Tentei destruir o tal muro entre nós com tanto afinco, investi minha energia, minha bravura e meu alento: persistiu o tormento. Não que o muro entre nós fosse difícil de ser destruído porque, afinal, força você sabe que eu tenho. Não existia muro nenhum, não existia parede alguma. E como eu queria que fosse uma parede! Assim, ao menos,  não veria você do outro lado. Mas vi e sigo vendo.