Fonte: Tumblr
Eu caminho só
E sempre caminhei
Nas estradas da vida
Me perdi e me encontrei

Virei adulto, conquistei o mundo
E ainda assim,
Eu ando só
Todos os dias

A mochila nas costas,
A dor no coração
A ansiedade na cabeça
O olhar no trânsito

Eu ando só, e eu gosto
Do barulho da minha solidão
Do silêncio dos meus passos no chão
De escolher meus caminhos

Às vezes pessoas fazem parte do trajeto comigo
Andam por algum tempo, seguram a minha mão
Mas, no fim
Eu ando só

Só me deito, só me levanto
Só me alimento, só eu danço
Na busca por algo que ainda não sei
Continuo andando

Um dia eu alcanço

-Adolfo Rodrigues

Fonte: Tumblr

Sou só, eu caminhando na estrada
Sou só, eu voltando para casa no ônibus
Sou só, eu dormindo naquela cama enorme
Sou só, eu almoçando naquela copa

Estou só, de quando acordo a quando vou dormir
Estou só, em um cômodo vazio ou no ônibus lotado
Estou só, nas páginas que escrevo e nas mensagens que recebo
Estou só, no grupo de trabalho, ou entre os amigos

Um pensamento só, quando estou triste ou feliz
Um pensamento só, de quando acordo a quando me deito
Um pensamento só, enquanto me banho e me visto
Um pensamento só, quando sorrio e quando choro

Individual, como meu ingresso no cinema
Individual, minha passagem para viajar
Individual, a porção de comida que peço
Individual, o assento na veículo de transporte

Os passos de apenas uma pessoa, ecoam no meu caminho de manhã
A respiração de apenas uma pessoa, reverbera no quarto escuro
O peso de uma pessoa, inunda meus travesseiros
A dor de um coração, se derramando em palavras

Sou só, e sempre fui assim
Sou só, esse é o mundo para mim
Sou só, a resposta é sim
Sou só, e o serei até o fim

-Adolfo Rodrigues


           
  
              Era só mais um dia comum. Mas, acho que é sempre assim que acontece. Um dia como todos os outros, algo acontece, a notícia chega, e te atinge como um tiro no peito. Infames de nós, que vivemos nossos dias alheios à chance intermitente de que algo grande aconteça. Foi assim que a notícia chegou. Me atingiu como uma flecha.
                Estraçalhou o teto de vidro sobre minha cabeça, fazendo diversos cortes diferentes em mim. A chuva de cacos cascateou sobre minha face, que encarava o céu. A dor escorreu como sangue. O choque gelado, o medo avassalador que devorou minhas entranhas. Um frio invernal, meus dedos tremiam, apesar de o termostato não registrar queda na temperatura. Era eu. O frio vinha de dentro.
                Me peguei pensando nas pessoas a que amo. Onde elas estavam agora, o que estariam fazendo, se estariam em segurança. Me perguntava se uma doença arrebatadora não dormia dentro de nenhum deles, apenas esperando para despertar e gerar o caos e o sofrimento que elas causam. Foi assim que os últimos raios de sol do meu dia se despediram de mim. Cravaram firme uma ferida, entalhada na rocha do meu coração.
                Acima de tudo, sou uma pessoa naturalmente pessimista. Meu maior medo é perder a quem amo. Queria eu ser aquele a partir, em minha egoísta forma de pensar, para que não fosse necessário sofrer pela partida deles. Mas isso é apenas meu egoísmo tentando encontrar uma solução que sirva para mim. Sei que agora sou mais necessário do que nunca. Alívio.
                A verdade? A verdade é que não estou pronto. Nenhum de nós está. Mas, me sinto ainda mais despreparado, desestabilizado, para lidar com isso. Afinal, ninguém quer uma pessoa amada em tal condição. É a sensação de impotência que assombra. É ela quem nos faz tremer na base, chorar escondidos, ter nós na garganta que doem como arame farpado.
                Meu coração está pesado. Seu ritmo desajustado, e minha mente atormentada com todo tipo de hipóteses. Mal de quem pensa demais, rápido demais, criativo demais. Enquanto aproveito o silêncio de uma solidão proposital, elas escorrem de mim. Cada uma carrega um pouco da dor embora. Pena que há dor demais e lágrimas de menos.
                Talvez minha reação seja exagerada. Contudo, sou exagerado. Há uma chance de que se procurar pela palavra exagero no dicionário, ache uma foto minha lá. Se não concorda, é por que eu me limito. Me controlo, me ajusto e me camuflo. Tento verdadeiramente encontrar o ar para respirar, dentro desse turbilhão que me afoga. Apenas minha mão alcança a superfície, e o fôlego em meus doloridos pulmões está em seus últimos momentos.
                Quando enfim consigo engolir uma golfada do tão precioso ar, a água me arrasta novamente, em um ciclo ininterrupto de dor e alívio. Espero, no fundo do meu ser, pelo melhor. Torço em silêncio, para que o meu pessimismo seja contrariado, e derrotado, dessa vez. Me diminuo um pouco, para que a tempestade não alcance outros. Fujo para o meu recanto mais seguro, as palavras. Pois são elas, minha melhor forma de vazão.
                Apenas mais um dia, de muitos que virão. O sofrimento endurece a carcaça, mas jamais a torna indolor. Sigo adiante, mesmo que pisando nos cacos de vidro, pois, a única direção em que posso seguir, é em frente.
-Adolfo Rodrigues

"O silêncio foi a única verdade que você me contou..."

       Faz quase dez anos desde o dia em que você entrou em minha vida. Eu ainda era uma criança, inocente e sem ideia do que era amar. É claro, eu já havia tido relacionamentos antes de você, mas, nenhum foi tão intenso ou profundo. Havia algo em seus olhos, em seu cheiro, em seu toque, que era completamente diferente de qualquer outra pessoa que já conhecesse. Você me fez sentir amado, importante e venerado. Eu amava a forma como você me tratava e olhava para mim. 
        Senti uma felicidade que vazava pelo meu peito, e o sorriso no rosto era uma constante em minha vida. Passávamos horas conversando, e você nunca parecia se cansar de mim. Quando eu percebi já era tarde demais. Eu estava apaixonado, e dependente de você. Você se movia, e eu reagia. Você respirava perto de mim e eu entrava em êxtase. Me levou para viver tantas aventuras.
        Nunca vou me esquecer das noites em que nos víamos escondidos, trocando beijos em cantos afastados, para que ninguém soubesse sobre nós. Correndo de madrugada, de mãos dadas e rindo em uníssono, enquanto o mundo ao nosso redor dormia. Mas isso não durou muito, durou? Por quase um mês eu vivi num paraíso que sequer posso descrever. No entanto, tudo isso ruiu, e a sua face verdadeira logo apareceu.
         Tudo começou com uma mentira simples. Por mais inocente que eu fosse, não me tome por tolo, eu soube na hora que era uma mentira. Mas, me enganei e me convenci de que você logo me contaria o real motivo por trás daquela mentira. Nunca aconteceu. E de repente eu estava o tempo todo atrás de você. Sentia que estava te incomodando a cada mensagem que mandava. Eu sentia você escorrendo entre os meus dedos, e tive medo de te perder. Havia uma necessidade de estar com você que queimava dentro de mim. Uma vontade de passar cada minuto contigo e me assegurar que você não me deixaria, ou me trocaria. Que não se cansaria de mim. Então você voltou de uma breve viagem, e não me contou nada. Me viu dias depois, com uma mentira pronta, me dispensando.
          Você nunca vai saber a tempestade que se instaurou em minha mente naquele tempo. Caminhei para casa mortificado, vazio e frio. Desde a primeira mentira, ao nosso término, tudo o que eu sentia estava amplificado. E quando você se foi, deixou uma marca feia no meu coração. Eu fui atrás de você, é claro, você era meu ar e meu sol. Mas você me tratou com frieza e indiferença, sequer fez questão de esconder o desprezo. Eu via esperanças cada vez que você respondia a uma mensagem, cego demais para ver a verdade em minha frente. Não é à toa que dizem que o amor é cego. 
            Mas enfim você me deu o último adeus, rejeitando minha proposta para tentarmos mais uma vez com um "não" seco e direto, que fez minha garganta arder de tanta dor. Te superar foi algo dolorido, demorado e cheio de erros e atitudes impulsivas. Demorou até que você parasse de habitar meus sonhos e meus pensamentos. Demorou quase um ano para que eu fosse capaz de me relacionar com alguém novamente, tamanho o dano deixado. Mas não acabaria ali, não é?
          Novos caminhos se abririam para mim, novas pessoas a adentrar minha vida, relações longas e felizes, outras curtas, porém bem vividas, mas todas com algo faltando. Eu não notei a progressão daquilo, mas, pouco a pouco, o apego, a confiança, a vontade e disposição me largavam. Cada novo relacionamento via uma versão minha menos disposta a se entregar, menos confiante, menos apegada e mais facilmente levada a términos. Nenhuma deu certo, e ninguém nunca mais terminou comigo depois de você, pois eu jamais deixava chegar a esse ponto.
          Um dia desses, quase dez anos depois da nossa história, me pego encarando a figura no espelho e notando que o que faço com as outras pessoas é reflexo do que você fez comigo, e percebo que aquela marca feia que você deixou, me contaminou. Aquela marca nunca me deixou, nunca se curou e nunca deixou de agir dentro de mim. Tornei-me exatamente aquilo o que me feriu. Me peguei brincando e fugindo de sentimentos, incapaz de verdadeiramente sentir algo por alguém. Me notei encerrando relações sem sentir um pingo de saudade ou arrependimento, ou sequer voltar a pensar naquelas pessoas que estiveram comigo.
          Foi quando eu percebi que aos poucos aquela marca me contaminou e me tornou doente como você. Uma doença de falta de amor ou consideração, de descrença e futilidade. Um verdadeiro desamor. Hoje eu olho para as suas atitudes e noto que eu faria o mesmo no seu lugar, porque hoje eu sou exatamente igual à pessoa que você era quando partiu o meu coração. Um coração que jamais havia sido partido antes. Hoje eu sou quem você era, e não tenho mais cura.
          Hoje sou eu quem contamina outras pessoas, lhes parte os corações e vai embora sem olhar para trás, como você fez comigo. Aquele que enche alguém de esperanças, apenas para se cansar delas e partir sem me importar com o estrago deixado. Hoje eu sou a pessoa que faz os outros odiarem meu perfume, ou serem incapazes de ouvir determinada música, porque hoje eu sou igual a você. Mas você não é mais aquela pessoa. Você encontrou alguém para amar. Se assentou e construiu algo para si. Deixou para trás a vida de destruidora de corações, e seguiu em frente, deixando para trás um rastro de pessoas devastadas, com as quais você não se importa, algumas das quais sequer se lembra. 
          Egoísmo seu, sim. Vivemos em mundos diferentes agora, universos. E eu sequer lembro da sua existência, a não ser quando olho para dentro e enxergo o que me tornei. Sou seu sucessor, seu herdeiro, o próximo na linhagem dos destruidores de corações. Acho até que deveria te parabenizar. Afinal em um espaço de tempo de um mês você plantou uma semente que, alguns anos depois daria origem ao que sou.

Parabéns, você criou um monstro...

- Adolfo Rodrigues

Fonte: http://mishencetu.tumblr.com
Acho que a felicidade não gosta de mim
Pois nunca me pertence
Não me apetece
Chega rápido e logo desaparece

Não me habita
Vem às vezes para breve visita
Logo se vai
Pela ponta dos dedos se esvai

Cria um ciclo vicioso
Algo que me torna desgostoso
Pois sempre que se apresenta a mim
Acaba me quebrando no fim

Chega e bate na porta
Se instala e se acomoda, toda torta
Mas sempre que começa a criar raízes no chão
Se arranca, ferindo meu coração

Me tornou uma pessoa infeliz
Não consigo acreditar no que diz
Me falam que devo ser minha própria felicidade
Mas não posso ser o que não é minha realidade

Se mudo pra tentar ser algo que não sou
É como ser um pedaço falso que restou
O espelho sempre me acusa a verdade
O sorriso é apenas falso alarde

Enquanto me acostumo aos jogos doentios do tempo
Cavo mais fundo a cova do sentimento
Logo haverei de me tornar estéril como um deserto
Onde sentimentos não brotam, por certo

-A. Rodrigues

"Todas as vezes que amei, amei sozinho..."

          Amei de forma desenfreada, entregue e profunda. Amei em demasia, pois apenas assim sei amar. Se eu pudesse me alimentar apenas do amor que existe dentro de mim, estaria consideravelmente acima do peso. Pois o amor nasce em mim. Brota como semente, e lá pela tardinha já se tornou planta. Em algumas semanas é árvore frondosa, de folhas verdes e saudáveis. As raízes se espalhando profundamente, agarrando tudo aquilo o que tocam, fincando-se cada vez mais fundo no solo fértil dentro de mim. Meu amor dá belas flores, de diferentes cores, cheiros e sabores.
          No entanto, sem ninguém para colher os frutos, eles caem. Se espatifam no mesmo solo que os gera, apodrecem no mesmo lugar que os nutre, e se tornam combustível para repetir o ciclo. Pois nem todos querem amor. Nem todos sabem receber o amor. Alguns, piores, o recebem sem nada dar em troca, aproveitando-se dos frutos suculentos, até não mais precisar dele. Palavras duras e de acusação, sim, mas verdadeiras, e necessárias de ser ditas em voz alta. Pois nem toda amizade ou relação é saudável, e quase nenhum amor é correspondido. 
          Não que seja fácil viver na solidão profunda que é se abster de germinar amor. Não. O que resta desses amores não correspondidos é um grande cemitério de árvores sem folhas, vivendo à míngua do que um dia já foram. O tempo passa e as experiências ruins te impedem de voltar a plantar amor. A terra seca e murcha sem as plantações, e logo a vida se torna cinza. Todos os dias, enquanto se levanta, a pessoa que não cultiva o amor deseja que não tivesse se levantado. Pois, viver sem amor, não é viver. 
          Viver sem amor é sobreviver de migalhas, sorrir às metades, aproveitar sem gostar. É seguir o fluxo, caminhar sem direção, mergulhar sem planos de voltar à superfície. É nunca trocar aquela lâmpada queimada, porque já se está acostumado à escuridão. O coração que não germina amor, germina tristeza. E a tristeza é a erva daninha de qualquer plantação. Pois ela se alastra mais rápido e com mais facilidade, devido à facilidade em conseguir combustível. Medo, ansiedade, decepções, e quando se vê a tristeza virou floresta e eclipsa a luz que deveria alcançar o solo. 
          É aí que os monstros começam a procriar e aumentar de número e tamanho. É quando chegam os pensamentos insanamente altos e acusadores, que te gritam dia e noite coisas que ninguém deveria ouvir. É quando o vento frio da culpa se arrasta lascivamente pelo solo, congelando tudo aquilo que poderia ser bom. O único remédio para essa praga é uma dose concentrada de amor verdadeiro. Doses diárias de afeto, recheadas de abraços e beijos. Sempre que possível, ouvir palavras bonitas, ou fazer algo que se gosta. 
          Se a infecção da tristeza não for tratada logo, torna-se praticamente incurável. Ama, mesmo que ame sozinho. Pois quem hoje desperdiça amor, amanhã o há de implorar. E o amor é a única cura para uma alma doente. Escolha a cura, não o veneno...
- Frio


"Porque são exatamente as rachaduras que me fazem quem eu sou..."

Deixei pra trás tudo o que eu tinha e fui
Fui para te acompanhar
Fui para não te deixar só
Fui porque o único lugar em que sou feliz é ao seu lado

Mas você nem viu, nem sentiu
Nem percebeu os sacrifícios que fiz para ir com você
No segundo em que algo brilhou, seu interesse por mim acabou
E então você partiu

Foi com a promessa de que não tinha ido
De que apesar da distância, não havia partido
Que as coisas sempre seriam como antes
Mas o tempo passou em questão de instantes

O que me sobrou senão as noites insones para me acalentar
Me afogando em lágrimas salinas de peso exorbitante
Carregando os cacos de mim por desertos estonteantes
Sem saber se um dia conseguiria me recuperar

Meus amigos eram as palavras
De poetas e anônimos
Marias e Antônios
Com uma dor profunda e as almas escalavradas

E a fria e cinzenta manhã de Janeiro
Outrora alegre, de sol e de luz
De ouro que brilha e seduz
Me parece devorar por inteiro

Sentimento torpe e cruel
Que esmaga e deturpa
Machuca e afunda na culpa
Que é veneno disfarçado de mel

E apenas quando os pedaços
Que estavam mais para cacos
Começavam a se juntar
Você resolve regressar

É o mesmo sorriso
O cheiro é igual
O toque irreal
Mas eu só posso oferecer prejuízo

A única coisa que não é a mesma, sou eu
Um dia humano, hoje miragem
Que resta se perdi até mesmo a linguagem
É dizer que apesar da dor, ainda sou teu

Teu veneno tem gosto de mel, e eu me afogo sorrindo todas as vezes que você volta...

-Melancolia

imagem por: Ane Kelly

Comecei a chorar, de novo, noite passada. E, de novo, meu primeiro impulso foi conter. Meu primeiro impulso é sempre conter. Mas dessa vez, enquanto tentava engolir as lágrimas, vi no espelho o reflexo de alguém se afogando. Foi assim que chorei a noite inteira. Chorei pelo que foi, pelo que não foi, pelo que poderia ser e pelo que poderia ter sido. Chorei porque me importo com a composição de cada detalhe e foi, aí, que percebi que não há mal nenhum nisso. Chorei porque queria conter. E chorei, principalmente, porque percebi que não chorar melhora sua imagem social- e piora todo o resto  Na verdade, olhando assim, se importar é uma maravilha. É raridade.