Eu me sinto um forasteiro, alguém que não pertence a lugar nenhum. Dias e dias e eu sou capaz de notar o quão perdido estou, todo o conhecimento sobre o tempo me escorre por entre os dedos, assim como a areia que cai lenta e constante dentro da ampulheta. Estou a espera do momento em que eu mesmo hei de voltar a ser cinzas. Estou estagnado pelo destino, fadado a vagar por terras estranhas, nunca podendo criar laços com a própria terra e nada que dela prover. Marquei diversos caminhos, assisti o pôr do sol inúmeras vezes de forma que já nos conhecemos e, todo início de noite, nos despedimos com um aceno cálido. No céu, se levanta minha velha amiga, prisioneira da noite e, assim como eu, sem chances de brilhar por mais que algumas horas ou dias em um mesmo lugar. Obrigada a vagar pelos céus.

Oh, Iluminada Lua, Filha de Ártemis, Símbolo da Mulher. Me permita descansar sob seu olhar, enquanto aguardo a última brisa desse gélido lugar. Enquanto cada estrela pinga com o pontilhismo de explosões inimagináveis.

Mais um Dia me acordou Senhor Sol, mesmo que já tenha lhe pedido que não o fizesse. Sei que possui boas intenções. Entretanto, eu só quero poder encontrar um lar, onde possa dormir e deixar que minha respiração volte para o mundo, que é onde ela deve estar. Livre.

Houve um dia em que caminhei sobre as águas. Não assim como Nosso Senhor Jesus, mas, sim, como uma libélula que descansa ao barulho da água logo após um satisfeito voo. Tinha os joelhos três centímetros abaixo do nível da água, com um frio agradável subindo a espinha. Os raios de sol furavam a capa feita de folhas, aquecendo as partículas do meu rosto. O barulho da água caindo da enorme cachoeira, causava um grande barulho, mas ainda assim, relaxante. Era triste olhar para a margem e saber que nunca poderei sentir a água sobre a pele novamente, mas ainda me alegra poder descansar após um longo banho.

Caia Linda Água, e forme espumas de memórias, que se explodem ao menor dos toques. Caia Linda Água, e limpe a alma dos já caídos. Caia Linda Água, e reflita como espelho da verdade. Caia Linda Água, e me purifique o ser. E, ainda que eu deixe de sentir o seu cair, jamais hei de esquecer seu doce som, seu leve toque e seu poderoso sabor. Caia, Oh Linda Água.

Crepitando dentro do fogo selvagem a madeira grita a cada fio de vida que perde. Não há beleza no fim absoluto de uma vida, mas até mesmo as árvores tão ancestrais, historiadoras importantes, conseguem sentir a beleza que é o sacrifício pelo fogo puro, aquele que ilumina uma jornada pelo escuro do submundo. Eu consigo ver todos os sentimentos que já tive durante essa minha vida, eles queimam uma última vez, até o momento mais calmo em que, enfim, irão se apagar e nunca mais pulsar novamente.

Amado fogo, precisa me ajudar. Eu pequei, mas bem sei eu que tu consegues me salvar. Não sei mais a quem implorar, mas, Oh Impiedoso e Destruidor Fogo Infernal, queime minhas impurezas e me esterilize a alma. Ilumine as linhas com que teço minha sina, com gestos rápidos e precisos. A arte mais linda e que possa alimentar sua existência, Oh Fogo Da Vida.

Me perdeu, tomei demasiado de seu tempo, mas já não tenho tempo para permanecer aqui, já preciso partir. Preciso correr, a cavalaria está chegando, preciso mudar e encontrar uma terra onde é lindo e nobre a morte da mais miserável vida. Uma Terra de Ninguém, livre de ligações, de amores, medos, desejos, ódio e o que mais a humanidade possa usar para envenenar todas as terras.

Adeus!
Marionete de Suas Vontades

Pedro Henrique

Guerra! 
Vivemos dias sombrios por aqui; nos becos e vielas o sol não chega
Faz frio e escuto passos se aproximando, meu coração acelera
Dentro de mim, bate forte, tudo grita no silencio desse caos.

Será que a gente não vê? 
Será que você não percebe?
Enquanto não dermos as mãos e fizermos barulho, o horror será banal e tudo será sempre igual

A mão que aperta o gatilho é só o fim, consequência
A causa não está lá;
A caneta não é o perigo, a mão que assina é o problema.

Não sei o que pensar, está tudo tão escuro aqui.
Para onde iremos?
Intervenção! - Uns gritam
Enquanto outros choram: não!

A polícia não é o vilão, mas, sozinha, não é a solução
O buraco é muito mais embaixo, só vemos a ponta dessa confusão
Falta tudo e o povo sofre, apanha na cara todo dia
Quem bate? O Estado - que devia proteger e amparar
Eu não sei mais o que dizer, nem o que pensar.

Tudo isso cansa!

Quem tenta bater de frente é eliminado:
Execução - para calar quem teima em ter voz,
E o medo vai chegando de mansinho, se transformando em nós
Nos prendendo em casa, cortando nossas asas.

Desrespeito, desespero:
Eu não sei o que fazer, dizer
Eu não sei o que cantar para tentar mudar
Eliminar
Tanta crueldade e injustiça desse país.

Eles cometem os crimes,
Corrompem a justiça,
A forçam a “julgar” os crimes que eles cometeram,
Que ironia!
E se a justiça ousa peitar?
Eu repito: execução para calar.

E nesse emaranhado de valores invertidos
A vida não tem valido nada
Aliás, a vida dos oprimidos:
Preto,
Pobre,
Mulher,
Excluídos
- Ou, ainda,
 Qualquer um que tente ousar enfrentar
“Tira do nosso caminho! ” - Ouço um deles falar.

Mas, ainda penso: não é possível que a maldade seja maior que o bem,
A maldade só parece maior porque a propaganda convém: eles gritam e a gente se cala.

Agora, me levanto e digo: já ficamos em silêncio por tempo demais –
Sei disso porque ainda posso pensar, isso não me arrancaram e nem haverão de arrancar
Repito:
Quantos vão precisar morrer até essa guerra acabar?

Fonte: tumblr(tag:sleeping couple)
Enquanto ela dorme eu escrevo,
Agora que bate o desespero,
Aperto no peito, nó na garganta coração acelerado,
Um misto de adrenalina e ódio, felicidade com gotas de decepção,
 Minha raiva cresce mais só de olhar ela aqui do lado eu me perco ,
 Me acalmo, me estresso ,
 Já penetrou na mente só sabe disso quem sente essa imensidão de amor,
 Acompanhado de uma horrível traição, que dilacera o peito, me faz querer fugir , 
Sua voz me pedindo e oferecendo seu perdão ecoa e novamente me abstenho do ódio . o que fazer? Seguir só  ou persistir no amor? 
Amar com dor ou sofrer saudade?
É um turbilhão pra uma mente só. 
Enquanto isso ela dorme , um sono puro , doce , que quem vê se encanta
-Mathews Ferreira


A contribuição de hoje são as palavras fortes do nosso leitor Mathews Ferreira. O Mathews já contribuiu com o blog outras vezes, e hoje retorna com suas palavras cheias de sentimento, expressando de forma singular as tormentas da mente apaixonada. Obrigado, Mathews, esperamos novas contribuições em breve!
-Equipe Rearteculando

Eu me apaixono.

Pelo menino que canta, 
Por aquele que dança, 
Pela cor azul, 
E o teu corpo nu. 

Pelo buquê de rosas, 
Pela nossa prosa, 
Os dedos entrelaçados, 
E o bilhete amassado.

Pelo que me falou 
E aquele som que me mostrou, 
O cigarro no dedo
E o abraço de medo.

Por conhecer sua mãe no busão, 
Pelo beijos que me deu na mão, 
Pelo piercing no nariz
E por sua cicatriz. 

Pela barba que cresce 
Faço até uma prece:
Arranha meu rosto com o seu, 
Reza por nós mesmo sendo ateu.

Me apaixono quando meu pai te elogia, 
Quando seu braço arrepia.
Lamentável que tenha sido passageiro -
Paixão é a idealização projetada no parceiro.

Senti borboletas voarem, 
No meu estômago planarem.
Quase foi amor no peito, 
A paixão pelo sujeito

Brenda Martins

A sociedade vive em um completo estado de questionamento, fazendo perguntas para garantir o sentido da existência – sejam perguntas tolas, ou mesmo as mais complexas que a mente humana seja capaz de imaginar. Há muitos porquês em cada ser humano, a busca constante pela verdade, algo que está sempre ansiando o que, no fim, podemos chamar de sentido da vida. A espécie humana se encontra presa em um grande paradoxo, enrolado em linhas paralelas que rasgam e se interligam mais e mais vezes. É um ciclo, ou uma pirâmide, sempre voltando para lembrar de que, não importa o quanto questionemos, tudo que temos é o agora.

Mesmo o agora, é repleto de buscas, as buscas por valores que formam um caráter são muito complexas, variadas e surpreendentes. É um limbo onde não é possível encontrar a resposta e nem a origem de tantos desejos e necessidades, apenas inúmeras possibilidades – um labirinto de possibilidades. Agora: o mais intrigante e despercebido dos momentos, o mais buscado e perdido dos instantes. 

Peguemos as massas populacionais como exemplo, vejamos o que um geral apresenta de seu grupo. Sendo um jovem, provavelmente há a necessidade de representar essa massa em particular, tenta-se tanto alcançar a essência do que se sente a necessidade de ser, que perde-se o agora.  Há sempre uma inquietação em busca de ter a aparência do todo: sacrificar o agora, em prol de algo que um dia virá – ou não. Entregues ao que não importa, apodrecemos. 

Apodrecimos, somos, de tanto perder o agora. O podre já está tão profundo no ser humano, que falar dos defeitos soa mais intrigante que debater sobre os supostos valores cobertos de mentiras, ilusões. Agora, se acreditassemos que é necessário reavaliar toda a formação base que os supostos erros causam, é provável que o homem, ou a mulher, não possua controle algum de suas ações.

Pedro Henrique

Para fugir do óbvio, resolvi falar de nós.

De todos os barulhos que existem dentro de mim, o seu é o único capaz de ensurdecer-me, de me fazer ouvir, de organizar toda a confusão, de me bagunçar, de me trazer paz, acalentar minha alma, me confundir, tumultuar minha mente, colocar feição em meu rosto, e me fazer saber como e quando continuar ou parar. Trazendo o pior (e melhor) misto de sentimentos que posso e que já pude sentir.

Involuntária, própria e única. Ótimas definições para nossa relação. Sem medir as conseqüências, e nem os esforços, te uso e te usei todos os dias, desde que descobri e que experimentei a sua existência. Por todos os lugares que passo você está, vocês estão. Na rua, na esquina, na padaria, na televisão, no último livro que comprei e no primeiro também, mas, principalmente, nos meus pensamentos. Parecem não lutar pelo lugar aonde chegam. Simplesmente estão e, quando percebo, já as usei de todas as maneiras possíveis e involuntariamente abusivas.     

Teu alimento diário? Minha mente. Quase a destrói. Procuro a paz e que de uma forma louca e contraditória, só encontro em vocês, palavras. Não vejo problema em dividi-las com ninguém, até porque amo suas formas e quero que possam descobrir assim, como usá-las também. Dominar-te, impossível. Mas tu, ao contrário, usas-me, controlas-me, dominas-me e eu não posso me livrar disso. Não pediram permissão, mas, em meus pensamentos, habitaram.


Uma das minhas primeiras formas de expressão. Desde o ventre de minha mãe, não sabia o que eram, mas sentia que existiam. Logo, os primeiros fonemas começaram a brotar, e quanto mais eu cresço mais as palavras florescem. Ainda não conheci todas elas, mas pelas poucas que sei, reconheço que me sustentam, me movem, me modificam, me enlouquecem, me completam, me desfazem, me refazem e, quando menos esperamos, também se vão.

Julyana Alves

Desinteresse, distância, incerteza;
Por quê os sinto vindos de ti pra mim? 
É sempre assim! Mas não seriam dessa forma as relações humanas?
Pautadas tanto em sentimentos mórbidos e limitados quanto em puros e imensuráveis? 
Não me entenda mal, eu bem sabia que nem tudo seria flores;
Há também desafetos e desamores.

Dou me da melhor maneira que posso
Mas a que custo? 
Custa todo esforço de minha pele e ossos. 
Ao passo de perceber que me limito pra te satisfazer 
Tudo para o seu 'bem me querer' não perder. 
Não quero simplesmente rimar, ou deixar poesia no ar. 
E não há nada de belo em padronizar a forma como se entrega afeto. 
Me deixo, para te deixar feliz. 
E, ainda isso, não é suficiente. Nunca é.

Talvez esteja delirando 
Talvez seja apenas o silêncio
Talvez você só queria ter coberto tudo com um lenço
Mas eu te digo: toda essa incerteza talvez acabe com o resto de ti que restou em mim.

Mas tudo é suportável, 
Até chegar o momento da indiferença.
Sou coercitivamente conduzido para fora de minha existência. 
Existo em ti, no amor que criamos 
E deixá-lo nunca é uma opção
Acaba sendo, literalmente, uma forma de expulsão. 
Agora sei como se sentem as pessoas despejadas:
Acaba o brilhos nos olhos, 
Acaba os abraços ao sorrir, 
Fica apenas uma lembrança do futuro que deixamos de construir.

João Pedro

Prédios. Carros. Transeuntes. Faróis. Olha, o carro da pamonha. Buzinaram. A criança soltou o braço da mãe e atravessou a rua correndo. A velhinha deu milho para os pombos. Caos urbano.

Em meio a essa bagunça, um rapaz atravessava as ruas da cidade. Cabeça baixa, olhos esmaecidos e passos lentos. Ele transitava como quem vai de lugar nenhum para nenhum lugar. Não era como se estivesse cego ou surdo, sem perceber o que o cercava, ele apenas estava alheio, e essa ignorância a respeito do mundo exterior era consciente e provocada, ou melhor, era desejada.

Algumas pessoas recebem a sorte de encontrar algo sublime ao ponto de transcenderem o rotineiro, e, depois disso, fica difícil se envolver com a normalidade da vida. Foi exatamente isso que acontecera com o rapaz. As cores das flores já não chamavam a atenção, as magníficas construções arquitetônicas não passavam de cimento e vidro. Tudo era menor se comparado ao que ele conhecera.

E tudo foi culpa dela, a dona do sorriso que o despedaçou e depois o reconstruiu. Levou-o ao céu em segundos e agora ele estava maravilhado. O brilho daqueles olhos abriu caminho para uma experiência diferente, que outrora a monotonia da existência não o permitira imaginar. Era um novo prisma, por isso as estrelas já não pareciam tão belas e nem a mais excelsa obra de arte conseguia emocioná-lo.


O nosso personagem tinha a imagem dela gravada nas córneas, e os ouvidos dele só escutavam a voz cristalina que invadira os seus sentidos como uma cantiga. Essa música era embalada pelo bate-bate do coração e gerava a melodia mais doce que os seres humanos podem encontrar. 

Jessé Lima

Na vida, passamos por momentos de alegria e de tristeza, os quais nos causam variadas reações, mas o momento que nos cala é o do sofrimento. A dor causa reflexão e é quando percebemos – e valorizamos – as pequenas coisas.

Coisas pequenas, são crianças. Eu, quando criança, gostava de pensar no futuro, na vida adulta e na liberdade que a mesma me proporcionaria: caminhar com os próprios pés. Ainda que com sede de liberdade, nunca pensei sobre partidas. Acreditava que eu teria cada familiar, amigo e entre outros conhecidos sempre comigo. Até que um dia, pouco tempo depois do meu aniversário de dez anos, a realidade bateu em minha porta levando da minha vida uma pessoa. E depois outra. E depois outra. Como em um efeito dominó. A culpa preencheu o espaço vazio. “Se eu tivesse feito tudo direitinho, talvez tivesse acontecido diferente”.  Tolice. Queria ir contra a lei da vida: tudo é finito. Tudo é finito? Não, espera. Tem que ter alguma coisa... Depois de muito desviar de fins, percebi: tenho medo de perdas. Desenvolvi uma estratégia. Comecei a ser boa e generosa. Exageradamente. Dava o meu melhor em tudo, achando que assim as pessoas permaneceriam. Só depois de muito tempo percebi que não tinha controle e que não podia perder ninguém já que a escolha não era, e nem é, minha. 

Mesmo não podendo escolher, sigo sentindo e ouvindo especulações. Dizem, por exemplo, que a perda é dolorosa e que pior que alguém que já partiu é aquele que ainda tem vida, mas não na nossa vida. Será? Se perdemos alguém que morreu não podemos mais nos conectar com essa pessoa, pelo menos não fisicamente. Então, como é que pode isso? Como alguém que ainda respira, mas respira longe de nós, poderia estar mais ausente? Também não sei, talvez nunca saberei, mas sei que por mais abalados que fiquemos com a saída de alguém de nossa vida, se a pessoa ainda pisa no planeta Terra e inspira gás oxigênio, é nosso dever deixar as boas memórias preencherem nosso coração e desejar sempre o bem, para viver em paz.

Eu mesma, que ouso em vir aqui dizer isso, demorei um tanto para entender que não perdemos as pessoas; podemos perder sonhos, objetos, valores – e, ainda assim, tudo isso, de alguma forma, segue conosco porque faz parte de quem somos. Só que as pessoas não, elas são seres individuais que podem, sim, tornar a nossa vida mais feliz, mas não são a causa da nossa felicidade – o motivo da nossa felicidade deve ser nós mesmos.

De tudo que não entendo, acho que entendi que só podemos perder uma pessoa: nós mesmos. Passamos tanto tempo tentando fazer com que as pessoas não saiam de nossa vida, que esquecemos de cuidar de nós. Percorremos um caminho, construímos uma história, criamos e cultivamos laços que vão nos ajudar ao longo dessa estrada, mas não podemos esquecer de semear em nós coisas boas, fazendo de quem somos um jardim bem cultivado. Se isso não acontecer, podemos perder a única real causa da nossa felicidade: o nosso ser individual e singular.



Giselle Santos

Seu sorriso é aquele meio de canto de boca, desconfiado e meio tímido.
O meu é escancarado, sem controle e bobo.


Você diz que não sabe sorrir.
E ao mesmo tempo tem um dos sorrisos mais bonitos e cativantes que já vi.


Quando sorri, sinto vontade de apertar seus lábios contra os meus.
E quando te digo isso, você me oferta o seu melhor sorriso, na intenção de que nossos lábios se encontrem.


Outro dia me disse que quando eu sorrio meus olhos sorriem e brilham.
Mal sabe que o motivo deles brilharem tanto é você.

Finge não saber que esse riso é causado pelo seu olhar penetrante, a analisar cada traço meu.  
E pelo toque da sua mão em cada parte do meu corpo.


O seu olhar é sério, me causa devaneios.
E ali poderia ficar horas te olhando, te admirando.


Já o meu olhar é meio perdido, procura abrigo.
E em meio aos seus abraços encontro esse aconchego.
E ali juntinhos sonhamos e rimos.
Ali unidos como um - proferimos as nossas maiores confissões um ao outro.


É bem ali olhando as luzes que se acendem pouco a pouco ao chegar da noite,
Que concebemos os nossos sonhos. Porque de nada vale sonhar sozinho.


É por essa mesma janela, janela dos sonhos, que enxergamos o nosso futuro.
É nela que nos debruçamos para sentir o ar frio tocar o nosso rosto. É por ela que sentimos o quanto podemos ser infinitos.


É por ela que apreciamos e ansiamos pela liberdade de sermos nos, eu e você, em um mundo que é formado por bilhões de nós.


E assim nos encostamos um no outro porque somos o alicerce.
E de pernas e braços entrelaçados sussurramos as nossas melhores histórias.


Que nos fazem rir.
E ali em meio ao riso, sinto que achei o que procurava.


E que em meio a copos vazios, corações partidos e pessoas indo e vindo, nos encontramos.
Encontramos-nos no melhor riso. Na melhor mesa, com a melhor batata e na melhor noite de céu estrelado.


E ali, naquele instante, em meio a gargalhadas, encontrei alguém que me faria sorrir em meio ao caos que se instalava dentro de mim mesma.


Pena que foi sorriso passageiro.


Evelin Mendes

Eu tenho medo.

De escuro.
De cobra.
De escorregar no banho e bater a cabeça.
De presenciar um acidente de obra.

Eu tenho medo.

De engasgar e estar sozinho.
Das ressacas não passarem.
De ser confundido com alguém da máfia.
De ter dois filhos e meus pais mimarem.

Eu tenho medo.

De acordar cego.
De tobogãs gigantes.
De nunca mais ter inverno.
De viver o futuro e não lembrar do antes.

Eu tenho medo.

De gente esnobe.
De salada sem sal.
De comer polvo.
De não poder trocar de canal.

Eu tenho medo.

De injustiça.
De paredes mal pintadas.
De conhecer sogro.
De conversas mal acabadas.

Eu tenho medo.

De me perder na floresta.
De não comprar uma bateria.
De ter que pular de um carro em movimento.
De gente que adquire muita idolatria.

Eu tenho medo,
E medos que desse poema vão além. 
Porém, o meu maior medo
É acordar e ver no espelho os medos de outro alguém.

Eduardo Rodrigues


Desde cedo, aprendemos que para tudo na vida existe uma resposta pronta; somos guiados à apologia da aceitação, seguir sem questionar.  Mas a vida humana é repleta de acontecimentos bons e ruins, altos e baixos, situações que nem sempre podem ser caladas com as respostas prontas que nos são dadas. Assim, como que por teimosia, duas palavrinhas fazem morada na mente: e se?

Não é preciso ter uma crise existencial para que elas apareçam, também não aparecem somente em momentos ruins, são duas palavrinhas que formam uma simples pergunta. Pergunta essa que não requer uma resposta, ao contrário, pretende levar o indivíduo a questionamentos.

Individualmente, esses questionamentos podem trazer o impacto para decidir o futuro de uma pessoa, podem representar luta, felicidade e desespero. Às vezes podem ser cruéis em decisões, entre amigos, entre amores, criando ilusões – a desarmonia em meio ao que era harmônico: e se não for para ser?

Coletivamente, podem gerar o caos equilibrado de várias mentes questionando-se mutuamente. Afinal, se não houvesse o desequilíbrio a vida faria sentido? Provavelmente não existe uma resposta objetiva para isso, o que existe é a sementinha plantada em nossa mente que diz: sem questionamentos, a vida não será nada além de mais um substantivo entre tantas palavras no mundo.

Por isso, por escolher acolher a possibilidade e arriscar, venho deixar um recado: lute, cresça, ame, não se prenda, permita-se. As respostas prontas da vida, nem sempre serão suficientes para as suas perguntas, e esse é um sinal de que ainda há muito o que buscar, de que vale a pena seguir sonhando e buscando o que temos de melhor: a possibilidade de ser um humano feliz.

Diego Alves

Tuas iniciais têm o nome da coisa que eu acho mais linda na vida:
O mar!
O mar que mistura as minhas cores favoritas
E, em ondas, me embala.

Foi assim que você veio,
Me atingindo como as ondas em dia de calmaria:
Maré que sobe e desce, num vaivém infinito.

Tu és mar,
Mar que encontra o céu no horizonte,
Mistura as cores, fazendo arte diante da gente.

Eu não sei nadar –
E já até me afoguei um dia –
Essa é a fonte do meu receio.

Mesmo receosa, não resisti à beleza do teu mar,
Devagar me permiti molhar os pés,
Fui me aproximando das tuas ondas
Deixando que a brisa leve o medo embora.

Tu, que nem conheces o mar,
mas tens jeito de mar:
Força, beleza e melodia.

Tu, que és calmaria misturada à confusão que só o desconhecido tem,
Tens uma paciência desejosa que a gente dificilmente vê.
Me atrai sem dizer nada, e me leva todas as palavras,
Me envolve e me traz paz.

É como um ritual: escuto teu cantar, te vejo,
Admiro e questiono os mistérios que tu escondes,
Me dispo de mim e caminho:
Vou mergulhar!




Débora Kelly

Entre trancos e barrancos, quedas e desencontros, é sempre necessário e revigorante quando encontramo o ponto de paz; o ponto chave pelo qual as coisas valem a pena. Por sorte, temos a literatura que, por vezes, é esse ponto onde se repira: ambos autor e leitor. Como exemplo disso, temos a emergência de vários novos autores e Rob Camilotti é um deles. Rob acaba de publicar seu livro "Quilômetro cinza - e outros contos de cabeça" e cedeu um dos contos, presente no livro,  para ser publicado aqui. Vamos fazer uma pausa para respirar enquanto lemos? 

CONTO: Quilômetro Cinza (Um caso vampiro em São Paulo).
Escrito por Rob Camilotti.

Hiroilto foi sem destino então. Fincou a chave no carro, desobedecendo a advertência veiculada continuamente no rádio para que ficasse em casa dada à excepcionalidade do que ocorria com o tempo em São Paulo. - “Talvez, o clima esteja igual no mundo.” - pensou enquanto dirigia.
“Que está acontecendo?” - a neve caía torrencial ao longo da Bandeirantes, em flocos grossos, instalando o frio que não era menos aterrador. Foi percebendo que, enquanto dirigia, era literalmente o único em toda a cidade que havia tido a ideia de se atirar ao desconhecido, mas dirigiu o carro com cuidado em todo momento. Certa hora, Hiroilto parou ao avistar, no acostamento da marginal, um menino sozinho que não aparentava ter mais de dez anos. Deu duas pancadinhas no vidro do carro como quem o anunciava que podia se aproximar, só que o menino porém limitou-se a olhar em sua direção, dando a entender que não entendia o que Hiroilto queria. - “Ele vai morrer congelado se eu não tirá-lo de lá”. - abriu a porta do carro e se entregou ao frio.
A pista estava escorregadia por causa de uma crosta de neve que, com alguma rapidez, acumulava-se nas bordas, quase que se estendendo a um rio congelado. Tinha que ser mais ligeiro no resgate ao menino. - “Não tenha medo, garoto, deixa eu te ajudar!” - estendeu-lhe a mão enquanto caminhava, para que viesse ao seu encontro, porém, de novo, o menino não reagiu. Valente, no que se aproximou, Hiroilto envolveu o menino nos seus braços e o levou com ligeireza para dentro do carro. - “Que merda, Hiroilto!” - na pressa de socorrê-lo, Hiroilto esqueceu de fechar a porta ao sair do carro e uma boa camada de neve encobria todo banco do motorista. Com duas braçadas generosas, expulsou a maior parte da neve. Entrou no carro mesmo assim e colocou o menino sentado no banco do carona, ao seu lado.
“Ufa, que aventura hein?! Como se chama, garoto?”
O menino respondeu:
“CD.”
“CD?” - sorriu para o menino, que fez que sim com a cabeça. - “Prazer em conhecê-lo, CD. Vou levá-lo para casa, certo? Onde estão seus pais?” - Hiroilto não disfarçou a afeição que já sentia pelo menino.
CD não o respondeu. Em vez disso, lançou-lhe um olhar opaco, fosco, inabilitado de sentir. Hiroilto presumiu desse modo que o menino não tivesse os pais e que, justamento por isso, o encontrara na rua.
“Pobre garoto!” - exclamou baixo. Disse em seguida. - “Vamos ficar juntos até que a neve passe e depois te levo para uma delegacia. Quem sabe eles não te arrumam uns pais bem legais! Combinado assim, CD?”
CD o encarou com desinteresse. Deu-se a entender que, para ele, tanto importava o que fariam depois. CD tinha o rosto e as mãozinhas tão brancos que impressionavam fortemente Hiroilto, e cada vez mais.
“Está com frio?”
“Um pouco.” - CD respondeu.
“Coitadinho! Não se preocupe porque já estamos chegando. Vou te levar para casa.”
E Hiroilto passou-lhe as mãos nos cabelos, confortando-o. Ao fazer isso, se impressionou mais uma vez: os cabelos de CD estavam extremamente secos e sua pele, sem viço algum, ficava cada vez mais branca, diferente em comparação a qualquer outra que já havia visto, como a de um cadáver de um menino congelado. Em seguida, ao levar a mão ao nariz e cheirá-la, quase vomitou ao sentir um cheiro terrivelmente podre em um pouquinho de óleo que se impregnara na ponta dos dedos. Era como se houvesse acabado de passar a mão na carniça de um animal morto. Assustado, decidiu levar o menino direto para uma delegacia, invés de levá-lo para casa como o havia prometido.
“Estou com fome e eu quero comer agora.” - CD pôs as mãozinhas sobre sua barriga.
“Já estamos chegando em casa, CD.” - Hiroilto escondeu-lhe aonde verdadeiramente estavam indo. - “Aguente só mais um pouco, combinado?” - e foi acelerando o carro, mostrando pressa em se livrar do menino.
“Eu disse que eu quero comer agora, não me ouviu?”
O menino, antes indefeso, se revelou então. Ao olhar para o lado, Hiroilto foi tomado pelo horror. Criatura medonha, a cabeça de CD revelou-se peluda; as orelhas, os olhos, o nariz e os dentes fininhos lembravam os de um asqueroso morcego.
“Não precisa ser do jeito mais doloroso para você. Só quero um pouco de sangue. Vou transformá-lo.”
“Vá embora, demônio!” - Hiroilto enfiou o pé no freio.
Com toda calma possível, CD, pequeno conde vampiro, foi se aproximando lentamente do homem, que, já em paz e a vontade com seu destino, sentiu cravar os dentinhos na jugular.
“Só uma dose do seu sangue.”
  


O conto “Quilômetro Cinza” se soma a outras quinze histórias que fazem parte do livro “Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça”.

O livro está à venda na Amazon em formato eBook através do endereço /https://www.amazon.com.br/dp/B073TRN521/ ou em versão impressa pelo link https://www.amazon.com/dp/1521801509/





"Aos poucos me destruo, tentando consertar nosso amor..."

É puro êxtase e ao mesmo tempo o pior efeito da metanfetamina 
É a mais bela paisagem, outrora a mais horrível das catástrofes
É essa a droga do amor
Que te faz rolar na cama ,ter insônia ,incerteza , paranoia .
 Eu não sei como é possível as pessoas dizerem que é um sentimento bonito
Se pelo mesmo pessoas se matam ,
Sofrem alcoolizadas a cada sexta feira ,
Implorando em pensamento pra que alguém puxe a cadeira ao seu lado
Pra dizer que tudo vai ficar bem ,
Que ele(a) vai voltar ,
Essa meus amigos , 
É a droga do amor ,
A destruição ou a salvação dessa geração

- Mathews Ferreira


A contribuição de hoje é do espírito jovem e intenso do meu grande amigo Mathews Ferreira . Ele que tem vários talentos, decidiu nos presentear com um pouquinho das suas palavras, e está sempre com a mente cheia. Esperamos novas contribuições em breve. Muito Obrigado, Mathews!



Ps: Se você tem vontade de enviar sua contribuição, entre em contato conosco!

"Ainda sinto o calor da ponta dos seus dedos contra os meus..."

O tempo foi passando 
Tudo foi mudando
Nada era mais igual
Você deixou de me amar
Conseguiu me magoar

A cada dose que tomei
Pra tentar te esquecer 
Cada cigarro que fumei
Na esperança de entender

A saudade eu matei
A dor eu suportei
Sua falta eu ignorei
Mas por muitas noites eu chorei

Em noites escuras eu andei
Em pessoas vazias eu naufraguei
Bebidas geladas eu tomei
Rostos e bocas amargas eu beijei

Fui me afogando em vícios 
Na esperança de te esquecer
Me sentia vazio e precisava de algo pra preencher
A felicidade vinha mas era passageira
E assim como meu amor ela se perdeu na poeira

Tentando me achar
Mas só dor consegui encontrar 
Um lugar escuro e vazio
Andando sem caminho 
Parecia estar pisando em espinhos
Sem saber o que fazer ou em que crer
Escrevendo pra tentar me achar
Como sempre sentia que este não era meu lugar 

Muitas vezes te encontrei
Por medo eu corri
Por medo eu fugi 
Nunca mais espero te ver
Pois seu olhar me faz sofrer

Nos tornamos algo
Algo que nunca imaginamos 
Fizemos muitas coisas
Das quais não nos orgulhamos

Por todas mentiras que contou 
Por todas as vezes que te amei e você me ignorou
E eu só te conheço o bastante pra saber que nunca me amou

E ao mesmo tempo que eu acho muito engraçado 
Eu acho muito triste 
Eu fui morrendo
Por causa de um dos melhores sonhos que um dia já tive

E eu não me esqueço daquele dia
6 de Março o dia onde tudo começou 
E acabou que você se foi, e so dor me restou

Mesmo depois de tantas promessas
Tantas histórias e memórias 
Parece não ter sido difícil pra você 
Sabe? Simplesmente me esquecer

Meu erro foi acreditar
Foi cada momento planejar
Faculdade, trabalho, casamento e um lar

-Gabriel Oliveira

Mais uma contribuição do nosso jovem autor, Gabriel Oliveira. Hoje ele trás à tona os pensamentos mais profundos de seu âmago. Obrigado por mais uma vez compartilhar suas palavras conosco!