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Os primeiros raios de Sol não deram exatamente as caras, uma chuva veranil tão pouco. Quanto mais eu dirigia, mais entrava em uma onda acinzentada nublada, o rádio alertava sobre o record de temperaturas altas na Antártida. Menos de 5 km de distância de casa e o trânsito já estava parado, o aplicativo piscava repetindo: em 30 km você chegará ao seu destino. Que destino, afinal? O destino seria, então, fazer um monte de coisas todos os dias mas, ao final, não ter feito coisa alguma? Desisto da rádio,  procuro um podcast para ouvir, já sofro pelos títulos:

 parlamentarismo velado
o maior desmatamento da Amazônia em cem anos
 a menina Ághata
a extinção de 67% dos animais selvagens
os mais famosos memes
a cultura do cancelamento

Sinto que gostaria de conversar com alguém sobre isso, sobre essa impotência, sobre traçar estratégias, sobre desistir, sobre insistir, sobre, ao menos, resistir. Sobre força. Queria subir no teto do carro e perguntar: alguém ainda tem força? alguém aí, ei, ainda tem força para lutar? alguém ainda está lutando? ou já desistimos todos?

Os carros ao lado são todos iguais: cada um com uma pessoa solitária como eu. Os poucos ônibus que passam também são siameses: todos aporrinhados de gente até o teto, gente que poderia estar compartilhando espaço e oxigênio nos carros solitários. O acostamento está cheio de carros furiosos, todos estamos atrasados. 

Entre buzinas, vozes de jornalistas e radialistas, episódios inacabados, e as mesmas músicas repetidas, o aplicativo me diz que o meu destino está à minha direita. Ainda sem sol, sem chuva, sem ar, olho para as nuvens esperando o sinal esverdear. Viro à esquerda, vejo o seu José, todo atribulado carregando uns cones, abrir o portão do estacionamento. Desço do carro ainda enevoada, nublada por dentro. Ajudo seu José a cruzar o estacionamento com os cones. Ele sorri um sorriso ensolarado e me agradece. 

 - Que é isso, fiz nada! - agradeço descrente. 
- Levantar todos os dias, sem desistir, e continuar vendo as pessoas é fazer muita coisa! - me golpeia ele. 

Entrei em minha sala e abri a janela, ainda lutando para ver um céu que em nada me agrada. Seu José me lembrou o que eu teimo em esquecer: quando não há, ainda, como remediar, a força nossa está em não deixar de lutar. Não desistir é chegar lá.

com amor, 
Ane Karoline

imagem: pinterest

Minha barragem interna foi rompida mais uma vez. Dessa vez, não sei se pelo excesso ou pela falta - acho que barragem ressecada também rompe. Eu vinha ignorando as rachaduras há um tempo, para ser sincera. Fato é que chorei um rio inteiro da pior forma possível, que é exatamente quando tem alguém olhando, tentando infrutiferamente te acalmar. As lágrimas escorriam como que por um tempo infinito, sem que eu conseguisse, ou sequer tentasse, contê-las. Para ser mais exata, foram duas horas contadas em meu relógio biológico quebrado. Depois, junto com o oco dentro da minha cabeça confusa, estava a voz de mamãe, ao longe, ecoando em minha mente: 

Mas, afinal, o que é que tem te incomodado tanto, Carol?

A falta de uma resposta, era o que me incomodava mais. O não saber, a prisão do limbo de não querer coisa alguma em específico mas, ao mesmo tempo, querer tudo que eu não tenho, tudo o que não sei. Lembro de todos os livros que li, todos os zilhões de letras, formando todos os milhões de palavras, formando todas as infinitas ideias e me sinto ainda pior. Talvez eu devesse me desculpar comigo mesma por tudo isso, mas, como não sei nem por onde começar, quero me desculpar com todos os autores que falam direta ou indiretamente sobre autoconhecimento, eu juro! Eu gostaria de encher os pulmões de ar, abrir a boca e dizer: o que me incomoda é tal coisa. Mas eu não sei. Se me aparece alguém agora com uma arma em minha têmpora direita e me diz para revelar o que tanto me aporrinha, eu não vou saber dizer. Vou dizer que atire, vou dizer que se eu soubesse, eu mesma atiraria na tal coisa. Eu diria a esse alguém: e você, por acaso, sabe? Você sabe o que te incomoda?

Será que alguém, afinal, sabe de alguma coisa? 

Eu penso que eu teria que me conhecer bem demais para saber de algo assim. Pode ser que sejam todos aqueles zilhões de coisinhas, como: a rachadura na parede, a tomada frouxa, a lâmpada fraca, o convite de casamento que não recebi, a roupa que nunca consigo desamassar, as cartas que nunca recebo, a cicatriz sob a minha sobrancelha. Pode ser que sejam todos aqueles zilhões de coisas imensuráveis que eu jamais conseguiria resolver: a falta de conhecimento sobre língua de sinais, o presidente eleito, a desinformação, o racismo velado, o sexismo parlamentar, a imprudência parental, o trabalho escravo, a idolatria ao capital, ou a estrada sem asfalto três ruas abaixo da minha casa.

A rua sem asfalto que fica três ruas abaixo da minha casa é uma das coisas que me incomoda, mas não é o meu incômodo todo. Eu penso que se chove, as pessoas que moram lá ficam ilhadas na lama, se é dia de sol, as pessoas de lá sentem dor nos pés de caminhar no cascalho. Não dá para andar de bicicleta em uma rua assim, quem anda cai. Pensar na rua sem asfalto me acalma porque não tenho que pensar em  mim, não tenho que pensar nos meus incômodos, no curso que não faço, no livro que deixo de escrever, nas coisas que não tenho coragem de dizer, na consulta que evito ir, nos eventos que cancelo sem motivo. Pensar em todas as ruas brasileiras sem asfalto me dá espaço para evitar pensar em tudo que tenho feito comigo, me faz trocar a ordem das coisas e concluir, erroneamente, que estou pensando nos outros antes de pensar sobre mim.

Será possível inverter todas as coisas assim?
Será que ainda dá tempo para pensar em mim?

Olho as paredes silenciosas, o escuro do quarto, as linhas retas do assoalho e concluo que preciso parar. A barragem rompida dentro de mim pode ser reconstruída antes que acabe com todos ao meu redor. É hora de se despir de tudo, criar coragem, encher o peito de ar e colocar o pé na estrada sem asfalto do autoconhecer-se. Uma micro luz se ascende dentro de mim, a coragem é o primeiro passo.

Se conhecer de verdade é como andar de joelhos em uma estrada sem asfalto, 
com os joelhos desencapados é que a gente conhece a nossa própria cor.  

com amor, 
Ane Karoline

Imagem: pinterest

O montante de coragem necessário para pegar a caneta e colocá-la sobre o papel parecia muito mais pesado do que os meus 80 kg. Olhei para os lados: todos pareciam imersos em seus micro trabalhos. Tomei ar e me joguei. 

Mãe, 
sei que de tudo que você poderia ter feito por mim, você fez muito mais. Sei que de tudo que eu poderia fazer por você, não  faço metade. Posso imaginar o que uma mulher solteira, que não teve chance de construir uma carreira, tem que fazer para criar um filho que fale inglês e francês neste país. Me lembro de alguns de seus sacrifícios, de outros tantos eu jamais soube, para que eu me fizesse doutor - título concebido pela carteirinha da OAB, não por doutorado ainda.  Mas, mãe, não nasci para ser doutor, nem de uma forma, nem de outra. Tanto fez, que nada faço: arquivo, digito e converso. Nada faço. Não salvo vidas, como você salvou a minha. Não construo pontes, como você construía entre nossa casa e a sociedade. Não tenho feito coisa alguma porque o que sei fazer não é julgar gente, é descrevê-las, é criá-las, é reinventá-las em histórias. Sou um criador de histórias, lembra que você me dizia isso? E calhou que sei escrevê-las, minha mãe, muito mais que proferi-las. Só que o problema é que sabemos bem, eu e você, ainda que não tenhamos falado sobre isso, que o capital abomina a arte; o artista não é visto como produtor - ainda que todos o consumamos. O capital, minha mãe, é cruel, é como um deus grego que, quando mal humorado, ojeriza ambos adoradores e opositores. O capital não me aceita, mãe, e acho que você já sabe disso. Assim como você me conhece bem, eu também te conheço e conhecendo sua alma como conheço, sei que o desprezo que a sociedade tem pelos artistas jamais te incomodaria em ter filho artista, mas não sei se inventor de histórias coloca pão na mesa e é isso que venho te pedir: tens mais paciência ainda comigo, mãe. Haverei de escrever e, se não tivermos pão, teremos, ao menos, o trigo. Fato é que de tudo que eu poderia fazer por você, não faço metade, mas escrevendo, poderia transcender e fazer, não mais, mas com maior qualidade. Portanto, estou saindo do escritório e indo embora para escrever. Quando estiver com algo pronto, volto. Devo tudo a você. 

Voltei a mim quando senti uma presença se aproximando. Adailton apareceu antes que eu assinasse a carta, dobrei o papel  para que não parecesse distraído. Incisivamente, me cobrou os relatórios e eu os garanti para dali a duas horas. Mais uma vez, não puder fazer o que deveria fazer; o capital não me aceita, mas me amarra. Guardei a carta na pasta, junto com todas as outras para que eu me lembre: enquanto não posso viver de arte, que eu tenha alguma arte para viver. 

Caixa dos Correios feita com caixa de papelão. Excelente atividade para crianças. DIY fácil e simples de fazer
Imagem: Pinterest

8h13 da manhã de uma quinta-feira quente. Decidi jogar o envelope fora assim que ela cruzou a porta giratória, mas o abri antes. A caligrafia torta dizia:

Papai do céu, 
Decidi que não vou mais ajudar a vovó. Eu achei que ela não conseguisse entender as coisas que a gente diz e não conseguisse dizer as coisas que ela quer. Só que ontem eu vi que ela escreveu uma carta longa, longa, longa, com uma caligrafia miúda e cursiva - que eu ainda não sei ler. Quer dizer, ela sabe um montão de coisas que eu não sei! Quando o papai me chamou e disse "Julinha, você tem que ajudar a vovó" eu falei com ele isso, mas ele disse que as coisas que ela escreve não são certas. Como não são certas? Pois eu acho bem certas sim, sabe? Fechei os olhos e fiquei pensando como se eu fosse a vovó, pensando que se eu não quisesse muito falar certas coisas, se eu quisesse mais escrever outras coisas, se eu preferisse cantar umas músicas que ninguém conhece, eu ia querer que as pessoas deixassem. Aí, eu estou te escrevendo essa carta só para avisar, então, que não vou mais ajudar a vovó, ela não precisa de ajuda. Eu acho que o papai ainda não entende que o certo da vovó não é igual ao meu certo e ao certo dele. E, na verdade, eu também não entendo as coisas que a vovó diz, mas eu gosto muito dela, por isso, não vou mais ajudar a vovó, vou deixar ela fazer o certo dela. Se você é o papai de todo mundo, deve entender a vovó assim. 

A carta caiu no balcão. Voltei alguns minutos no tempo: Lembrei da Julinha irrompendo porta adentro da agência com pressa e com muitas moedas, lembrei da minha descrença quando ela veio com o papo de carta para Deus, lembrei do dia começando, do computador arcaico marcando 8h02, o café ainda não estava pronto, as buzinas já alucinavam, as duas primeiras pessoas entravam e a minha mente girava sem saber se esse configurava mais um dia de trabalho burocrático ou menos um dia em minha vida. A verdade é que ninguém mais ia  aos correios para enviar cartas - o que era meu trabalho inicial, antes de ser piedosamente realocado no setor burocrático. Agora, as pessoas vão aos correios para: buscar encomendas, devolver encomendas que não gostaram e pagar contas - essa última opção serve melhor às pessoas acima de 50 anos que querem evitar as filas das casas lotéricas e não usam internet banking. Talvez seja justamente esse desvio de função ao qual os correios estão condicionados que faz com eu não tenha sequer um pingo de paciência com as pessoas. Talvez seja a indiferença delas, talvez seja o fato de as pessoas parecerem nada saberem sobre os processos burocráticos e acharem que a culpa se deve a mim,  talvez sejam os pacotes malfeitos, talvez seja só a minha sensação de inutilidade, mas acabo o dia sempre tendo discutido com cerca de dez pessoas e ignorado todas as outras. É exaustivo. Exaustivo ao ponto de entre às 8h02 e 8h03 eu já ter pensado tudo isso e saber, ao menos superficialmente, como seria o esqueleto do dia. Todavia,  esse seria diferente, às 8h13 passou pela porta giratória alguém que sabia das coisas, alguém que despretensiosamente havia entendido tudo. 

Entender o outro é não medi-lo com a nossa régua. 

com amor,
Ane Karoline

O fotógrafo italiano Alessio Albi resolveu criar um ensaio totalmente inovador em que a beleza e a sensualidade das mulheres são misturadas a elementos da natureza.
imagem: pinterest.com

Aconteceu como acontecem todas as coisas na vida de quem, como  em Godot, espera sempre, mas sem saber o quê: como um vaso de plantas que cai de uma janela, sem aviso prévio ou chance de teste. A criatura dormiu na espera do que não sabia, acordou na descoberta do que não queria. O acontecido desenrolou-se de forma simples, ela abriu os olhos, viu as mesmas marcas no teto e esperou que algum pensamento matinal repetido viesse. Nada veio, ela pensou em algo para pensar. Pouquíssimos segundos se passaram até que o vaso de plantas caiu no meio da testa sem aviso, a realização veio transvestida de um pensamento calmo: todas as palavras já foram ditas, não há coisa alguma a se dizer.  Não há o que de diferente falar, já falaram tudo. 

O pior veio em seguida, outro pensamento sincero e dissimuladamente calmo completou: todas as palavras estão esvaziadas de sentido. Não é possível seja verdade, mas é. 

Ainda assim, a criatura respira e resolve checar. Vou falar sobre o tal sentido, então. Google, pesquisar:
O que significa sentido:
O que é estar sentido:
Não existe sexto sentido:
Vídeo-aula:
Vídeo-música:
Vídeo-vídeo
Signo:
Significante:

Significado...  Nenhum.

O que, afinal, procurava? Já não sabia. Na era da constante maré alta de foto-vídeo-foto-post-foto-vídeo-mancheterasa-fakenews-fakelife sabia apenas duas coisas: 1 - queria falar; 2 - todas as palavras já foram exaustivamente ditas. E que conjuntura odiosa é saber das coisas, saber do fato de as palavras todas terem sido ditas faz da vida um tormento: Falo? Posto? Escrevo? Não, não, não... Já disseram antes de mim. 

A cabeça, assim, cheia ainda passa alguém e solta um "bom final de semana" e sai. O cérebro, ainda tonto da compreensão, responde uma combinação jamais feita antes "bom amanhã". O alguém, já ao longe, olha para ela e sorri. O vaso de planta na cabeça parece um pouco menos doloroso: "bom" e "amanhã" são palavras repetidas, o significado é direto, mas o sentido é imenso. 

A realização, então, veio novamente sem avisar, mas veio com mais cautela, afinal, se as coisas estão desgastadas e esvaziadas de sentidos, daremos a elas sentidos outros, funções distintas, usos opostos. O que existia ontem, pode já não existir amanhã. 

 com amor, 
Ane Karoline 


Fonte: busy.org

Sugerido por Camila Meireles

                Quando falamos sobre consciência, como a percepção que o ser humano possui do que é certo ou errado, servindo como bússola para suas ações como indivíduo perante a sociedade, falamos também sobre individualidade, caráter e experiência de vida. Como seres pensantes, errantes, e que viveram experiências diferenciadas, a bússola moral é formada de maneira diferente.
                Quando pisamos no campo de discussão do que é o certo e o errado, mergulhamos em uma área cinzenta que exige contexto, e uma reflexão profunda a respeito de empatia. É comum que tenhamos o senso de que sabemos o que é o certo, e a vontade de aplicar essa perspectiva tanto em nossas vidas, quanto na dos demais. Nesse aspecto, a empatia nos leva a dois caminhos.
                O primeiro é a compreensão de que, aquilo que me parece o certo, nem sempre se aplica à perspectiva alheia. Uma solução que me parece viável, bem como uma solução que me agrade, possui diferentes implicações nos demais. Dessa forma, apesar de poder aconselhar, usando nosso ponto de vista como base, é importante respeitar que o certo para mim, pode não ser o certo para o próximo.
O segundo caminho é o de que nem sempre as pessoas sabem o que é melhor para elas. Digo isso no sentido de, muitas vezes, não sermos capazes de enxergar a situação em que nos encontramos como um todo, ignorando pontos cruciais, por não ser capazes de mudar o ângulo pelo qual observamos a situação. Quando isso acontece, notar a disposição da pessoa para receber, ou não, auxílio, torna-se vital.
Vemos amigos, familiares e pessoas amadas se submetendo a situações que lhes são ruins, sem muito poder fazer por elas. Não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Porém, isso não é motivo o suficiente para virar as costas a quem precisa. Para tal é preciso inspirar coragem. Pessoas em ciclos viciosos, presas a relações ruins, ou situações negativas, necessitam de coragem para quebrar tais ciclos.
Muitas vezes, por questão de hábito, medo ou costume, as pessoas se mantem em situações negativas ou degradantes, simplesmente por faltar-lhe a coragem de romper com aquilo. Como pessoas de consciência, guiados pela ideia que nosso direito acaba onde o do próximo começa, é imprescindível que tentemos motivar essas pessoas a cultivar a coragem necessária para realizar as mudanças de que tanto precisam.
Inspirar coragem é muito mais do que oferecer palavras. É motivar pelo exemplo, respeitar o tempo de cada um e ajudar a enxergar a amplitude das situações que nos circundam. É oferecer apoio, ser porto seguro e ombro amigo. Sendo a consciência essa grande zona cinzenta em nossas vidas, há pontos que são indiscutíveis. Todos possuem direito a viver relações saudáveis, a procurar o melhor para si e a deixar para trás o que lhes faz mal.
Para tanto, uma junção de consciência, bem direcionada, e uma pitada de coragem, podem ser a chave para abrir as portas para um futuro totalmente diferente.
-Adolfo Rodrigues

Fonte: Google
Sugerido por Juliana Cristóvão

                É inerente à sociedade, e às pessoas, a necessidade de movimentação. Seja do nosso corpo, seja da nossa mente, seja da nossa vida, como rotina. Sempre que estamos presos de alguma forma, somos atingidos pela sensação de estar empacados. A sociedade nos cobra estar sempre progredindo, seja através do estudo, do trabalho, da ação social. Nós mesmos necessitamos disso para nos manter alertas, em dia com o futuro que se aproxima cada vez mais rápido.
                Quando estudamos, sentimos, que estamos a fazer algo de útil, investindo em nós mesmos. Contudo, junto ao estudo, vem aquela sensação e pré-conceito, de que estudar é chato. A ideia que temos de estudar, é a de estar sentados na frente de um livro enorme, lendo textos cansativos, ouvindo palestras demoradas ou respondendo exercícios complexos. Assim como nossa ideia de inteligência é a de pessoas com conhecimentos de física, matemática e literatura.
                No entanto, tudo o que fazemos é estudo. No mundo de hoje, o estudo não mais precisa ser essa luta lenta e dolorosa, pois os padrões de aprendizado mudaram, e muito. Vídeo aulas, slides e apresentações são exemplos de novas formas de abordar conteúdo. Mas, como conseguir a força, a determinação, para estudar por si só?
                Em um mundo onde a internet está ao alcance de um toque, tudo parece mais interessante do que estudar. Tudo é mais rápido, mais interativo e com certeza mais divertido do que se ater a um conhecimento que você precisa ter por “obrigação”. Tudo o que fazemos por obrigação se torna chato ou monótono. Logo, o primeiro passo para alcançar seu objetivo é mudar a ideia da obrigação. Quando estudamos, estamos investindo em nós mesmos. Estamos “malhando” nosso cérebro, e tornando-o mais forte.
                Quando aprendemos algo novo, ampliamos as possibilidades ao nosso redor, compreendemos melhor o mundo que nos rodeia, e nos preparamos para fazer parte ativa da sociedade em que vivemos. Não se estuda para fazer provas, estuda-se para aprender. Ou seja, deixar para estudar pouco antes da prova, ou apenas para fazer aquela prova, não é o mesmo que aprender. Aprender é um processo contínuo, que requer imersão e dedicação, mas em retorno te garante uma riqueza que não pode ser tirada. Conhecimento é poder.
                Se dessa vida levamos algo para um possível pós vida, é o nosso conhecimento. Logo, este passa a ser um tesouro de incomparável valor. Ao encararmos o estudo, o aprendizado, com novos olhos, seremos capazes de melhorar os sentimentos que relacionamos a esse processo, tão manchado pelo tradicionalismo das escolas.
                O segundo passo é encontrar a ordem. Crianças aprendem através do caos. Por isso, é comum ver uma criança rodeada de brinquedos, dando atenção para um de cada vez, por pequenos períodos de tempo. Ali elas aprendem sobre formas, cores, tamanho, profundidade, textura e etc. Mas essa é a forma delas de aprender, enquanto nas idades mais próximas da adulta, a ordem nos facilita a compreensão de conteúdos mais complexos. Saber organizar o conteúdo a ser estudado, de forma progressiva, é uma boa maneira de tornar o estudo mais produtivo.
                Além disso, o hábito é algo poderoso em nosso processo de crescimento. Se separamos, o mesmo horário, diariamente, para uma atividade especifica, facilitamos o condicionamento da nossa mente àquela atividade. Isso quer dizer que, estudar no mesmo horário, todos os dias, tem seus benefícios para os nossos processos de aprendizagem.
                Porém, é importante ressaltar que o momento de estudo deve ser especialmente preparado. Isso requer afastamento das redes sociais e de todas as outras distrações. Outro ponto importante é o silêncio. Ele nos ajuda a nos concentrar no que estamos fazendo e produzir de forma contínua. Alguns fatores devem ser atendidos antes do estudo. É importante que não se tenha fome, sede ou sono no momento do estudo. Esses são fatores chave que nos ajudam a manter o foco por mais tempo, sem maiores distrações.
                Ou seja, estudar depois de um bom cochilo e um lanche é melhor do que estudar no final do dia, antes do jantar. Com menos preocupações na cabeça, o corpo e a mente podem se concentrar na tarefa a que se dispõe.
                Uma das melhores formas de assimilar conteúdo é o uso das cores para destacar o mais importante. Ler um texto nos ajuda a aprender de forma visual e, marcar as partes que lhe parecem mais importantes ajuda os processos de memória. Ler o texto em voz alta pode ajudar àquelas pessoas que aprendem bem de maneira auditiva, enquanto tomar notas pode ajudar quem aprende pondo a mão na massa. O processo de escrever, ajuda na memorização e internalização do conteúdo.
                Além disso, procure vídeos que possam complementar o conteúdo já aprendido. Há algo de poderoso em ouvir alguém explicando a matéria, especialmente quando já se conhece o conteúdo. O mais importante é compreender que, cada pessoa aprende de uma forma, e criar suas próprias estratégias de aprendizado é o ideal para realmente tirar proveito do estudo.
                Quanto à procrastinação, uma dica interessante é dividir seu objetivo em etapas, e se impor prazos para concluir cada etapa. Muitas vezes nos afobamos em tentar concluir uma tarefa, sem antes nota-la como um todo. Quando se tem em mente passos, torna-se mais fácil alcançar o objetivo. É interessante que esses passos estejam visíveis, em um local que se olhe constantemente. Isso condiciona nossa mente à divisão do objetivo, tornando-o mais palpável.
                Acima de tudo, é importante termos em mente que, nosso ritmo individual deve ser respeitado. Tudo leva tempo, e não estamos em uma corrida. O que eu não fiz hoje, posso tentar fazer amanhã. O importante não é chegar ao objetivo o quanto antes, mas alcança-lo de forma a se preservar sua saúde mental, tornando o valor da conquista, significativo. Por isso, esse ano, desejo que cumpra alguns objetivos, não todos. Afinal, realizar todos, é cobrar demais.


-Adolfo Rodrigues

Fonte: Pinterest
Sugerido por Ane Karoline
                Ao pensar na sociedade como um todo, e fazer algumas pesquisas para escrever esse texto, que foge tanto de minha zona de conforto, acabei me deparando com uma verdade que me atingiu como um tapa na cara.
                Tudo, é política
                Desde muito jovem, sempre fui uma pessoa que se manteve afastada de discussões a respeito de política. A partir do momento em que passei a precisar votar, sempre consultei meus pais a respeito dos melhores candidatos, e me poupei de ser a pessoa que tomava as decisões sobre quem eu queria governando meu município, meu estado e meu país. Foi assim por muito tempo, e eu sempre acreditei que, mantendo-me neutro, evitava ferir alguém.
                Um erro que, mais recentemente, acabei percebendo, graças ao cenário político atual. É inacreditável a direção que o mundo toma, perdido por palavras de pessoas que usam sua oratória para manipular, e criar verdadeiras máquinas de cópia, que ignoram completamente sua faculdade de raciocínio e seguem cegamente o discurso bem estruturado de quem possui o poder.
                Nunca, neste país, percebeu-se com tanta clareza o buraco que a falta da educação formal deixa no raciocínio das pessoas. Em um mundo onde as pessoas ignoram os fatos, comprovados por estudiosos da área, e passam a disseminar o pensamento de uma Terra plana, ignorando séculos de pesquisa nas mais diversas áreas da ciência, é impossível manter-se neutro. O mundo grita por ajuda, e, permanecer no silêncio, seguindo a crença de que não é meu dever elucidar tais mentes, mas de outra pessoa, é o que nos levou a o momento atual na politica brasileira.
                Um país que hoje reflete um descaso progressivo com a educação, e afirmo isso como aluno e como professor, cava mais e mais fundo sua própria cova, ao acusar professores que estudaram por anos, se especializaram em suas áreas e trabalharam duro para transmitir aqueles conhecimenos, de ser doutrinadores. Um país onde se é de direita, ou de esquerda, que ignora os tons de cinza, apelando para o preto ou branco, torna-se irracional e intolerante.
                Mais e mais, dia após dia, as pessoas disfarçam seus ódios como forma de opinião, destilando seu veneno sob a proteção de seu aclamado “direcionamento político”, quando, na verdade, refletem seu âmago egoísta e cruel, ao fazer-se de cegos perante a mais crua verdade que paira sobre nós.
                Não existem lados, existe apenas, pessoas.
                Pessoas, que nascem de diferentes formas e cores, com culturas e pensamentos diferentes e traços pessoais que a tornam única, mas, acima de tudo, pessoas. Seres vivos que, como todos os demais, possuem direitos e deveres. Pessoas que amam, choram, sofrem e sentem dor. Pessoas que tem pouco, ou nenhum, estudo, tornando-se alvo daqueles que detém o conhecimento. De fato, conhecimento é poder, e por quê compartilhar o poder, se pode-se te-lo apenas para si?
                Ainda falando sobre educação, é crucial enfatizar o motivo do descaso para com esta. Quem muito sabe, muito questiona, muito raciocina, muito desenvolve. Quem muito sabe, entende a necessidade da mudança, da adaptação e da evolução. Mas por qual motivo, aqueles que estão no poder gostariam de dar às massas o poder de reivindicar aquilo ao que tem direito, quando é muito mais fácil permitir que se saiba apenas o mínimo necessário para continuar a seguir. A Sociologia e a Filosofia como armas de combate, existem suprimidas pela disseminação da ideia de que são conteúdos chatos, ou inúteis. E é através desse mecanismo de controle que formamos perfeitos seguidores, em diversos aspectos. Os sábios da internet, ocultos por trás de seus perfis, espalhando notícia falsas e seu ódio, contestanto quem realmente sabe enquanto defendem seus “políticos de estimação”, ignorando um mundo em chamas, respeitando barreiras territoriais como forma de se eximir da responsabilidade de cuidar do que realmente importa.
                Controlados pelos grandes eventos, e pelas migalhas que o governo oferece como grandes presentes, alimentando seus egos para que possam sentir-se superiores a quem os rodeia. Um típico exemplo são as pessoas que são contra benefícios sociais, mas fazem doações no fim do ano, para sentir-se bem consigo mesmas e alimentar seu falso moralismo, enquanto mostram algo que não são.
                Pessoas que desejam a punição do jovem negro, de periferia, mas não se consideram bandidos por roubar eletricidade pública, ou embolsar uma resma de papel no trabalho. Pessoas que são contra o aborto em “benefício da vida”, e ao mesmo tempo acreditam que benefícios sociais criam “vagabundos”. Esses são apenas alguns exemplos da hipocrisia na qual o país se vê afundado, sem prerrogativa de melhora, pois, em grande maioria, continuamos olhando para os nossos próprios umbigos, tapando nossos olhos para a mídia manipulada, e esquecendo com facilidade os crimes daqueles que tanto “admiramos”.
                A hora já passou, e passou há tempo demais. A hora de compreender que pautas sociais não podem ser divididas em lados, pois são questões de interesse nacional. A hora de compreender que a fome, a miséria e o crime devem ser resolvidos por todos e cada um de nós, e não por um partido político, um cargo do alto escalão, ou um multimilionário. Não há multidão, sem esforço individual. Não há vitória sem sacrifício.
                Quando, e unicamente quando, mudarmos a forma arcaica como vemos a política em nosso país e passarmos a ver uns aos outros com olhos de humanidade, em união para compreender que os patrões do pais, somos nós, o povo, poderemos mudar essa situação. Até lá, que a sorte nos acompanhe.
- Adolfo Rodrigues

Fonte: Tumblr

Sugerido por Renan Prais

                Se tem uma palavra que definiria o ano de 2019, essa palavra, com toda a certeza, seria Resiliência. Digamos que, nesse conturbado ano, que encontrará seu fim em apenas alguns dias, tive que, uma vez atrás da outra, encontrar forças para tirar das (inúmeras) situações ruins, algo de bom. De novo e de novo, precisei me adaptar aos difíceis acontecimentos que esse ano me trouxe.
                Resiliência, por definição física, é a capacidade que alguns corpos possuem de voltar à sua forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Refletindo a respeito, penso que temos um coração elástico. Desde muito pequenos, somos expostos a todo o tipo de situação e sentimentos e, são eles, que formam o nosso caráter. Adaptar-se, contudo, requer muito esforço.
                Particularmente, acredito que nosso coração não volta à forma original, mas se adequa a um novo formato, depois de cada grande obstáculo que vencemos. São essas mudanças, causadas pelas adversidades, que nos permitem moldar o nosso ser, para quem gostaríamos de ser. Ora, a resiliência é uma propriedade que serve, principalmente, para aprendizado, é importante que tentemos, de forma ativa, agregar algo novo com cada pequeno acontecimento que nos incorre.
                A amizade que cai por terra, quando duas, ou mais, pessoas, simplesmente se retiram das vidas umas das outras, sem a menor satisfação. Ou ainda a amizade que termina em uma grande confusão, onde palavras ruins são trocadas, e outras pessoas são afetadas, por pessoas que não mais se encaixam uma na outra. Aprende-se, então, que nossas vidas e relações são processos cíclicos, que iniciam, e terminam, e nada podemos fazer a respeito. É como aprendemos na escola, quando crianças. O ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre.
                Assim também são as relações entre os humanos. Por vezes, a amizade nasce e cresce, mas ali termina, sem se reproduzir. O essencial é compreender que, tudo está fadado a terminar, e nada podemos fazer a respeito. Em relação a isso, cabe também a resiliência de aprender que, tudo encontrará um fim, deixando para trás uma saudade dolorosa, um vazio massacrante e olhos molhados. O luto é um sentimento poderoso, difícil de enfrentar.
                Apenas com o uso ativo da resiliência, pode-se entender que, em seu tempo, o fim nos alcançará, e a tudo e todos ao nosso redor. Ser resiliente é aceitar e procurar lembrar-se do que de bom nos foi deixado, por aqueles que partiram. Pensando de forma cíclica, eles encerraram seu tempo conosco e, iniciam um novo ciclo, que começaremos também, quando for nossa vez.
                Mas a morte não é a única forma de final que nos machuca tanto. O amor romântico entre duas pessoas, se instala, cresce, evolui e em algumas ocasiões dura uma vida inteira. Com o avanço da modernidade, as mudanças de valores, de pensamento e ideologias, menos e menos relacionamentos alcançam esse patamar. Todos conhecemos alguém que namorou três vezes em um ano ou que teve inumeros parceiros em um curto período de tempo.
                Nesse aspecto, o aprendizado a ser buscado vem de dentro, e não de fora. Afinal, aprendemos mais sobre nós mesmos, dia após dia. Jamais sabemos como reagiremos a uma situação, até finalmente passarmos por ela. Experiência e maturidade vem quando experienciamos algo em primeira pessoa. Logo, não podemos clamar experiência por algo que outra pessoa passou. Podemos, sim, exercitar nossa empatia e aprender algo com uma situação vivida por outrem. Contudo, incorrer que absorvemos tudo daquela situação ou, que agiriamos de uma forma ou de outra, não pode ser confirmado, a não ser por experiência em primeira pessoa.  
                Como seres complexos que somos, em constante mudança e adaptação, somos, para nós mesmos, um mistério que se renova diariamente. A pessoa que desferiu um tapa há 1 mês, não mais representa quem somos hoje. Ou seja, a vida é um constante processo de auto compreensão. Compreensão esta que vem do exercício diário de aprender com os erros e acertos, de interpretar a nós mesmos, de conhecer mais e mais do que somos capazes. Do quão resilientes, podemos ser.
                Levar nossa resiliência ao limite, nos impedindo de forma ativa de reclamar do que não temos, e não reconhecer o que já conquistamos é um exercício a ser praticado diariamente. Observar nossas crises e provações sob uma nova ótica, em busca de aprendizado, não acontece naturalmente, nem do dia para a noite. Aprender requer esforço, dedicação e repetição. Ser resiliente é encontrar forças para entender que, se podemos resolver um problema, devemos faze-lo. Mas, caso não haja o que fazer, não vale a pena sofrer por algo que está fora de nosso controle.
                Ser resiliente é erguer a cabeça em meio à tempestade. É sorrir, apenas por ser um ato de rebeldia contra os obstáculos da vida. É brilhar, quando a escuridão do mundo parece te sufocar. Ser resiliente é sentir tristeza, chorar, sofrer e sentir dor, mas se reerguer ainda mais forte, quando tiver forças para faze-lo. Ser resiliente é não se permitir ficar em lugares que não te cabem, é não aceitar menos do que se merece, é amar primeiro a si.
                Encarando a vida como um eterno aprendiz, ganhando um pouquinho com cada passo que damos em direção ao futuro. Às vezes professor, sempre aluno.


-Adolfo Rodrigues

Fonte: Tumblr
Sugerido por Adrielly Martins
                Não é possível, ou inteligente, falar de saudade, sem antes tentar compreender o que ela é. A saudade, como a compreendemos no idioma português, falado no Brasil, traz consigo o sentido de nostalgia, lembrança e vontade de ter o que outrora lhe pertenceu. A raiz da saudade está no afeto, no apego e no amor que dedicamos a algo, ou alguém. Como diria Antoine de Saint-Exupéry, em seu clássico “O pequeno príncipe”, cativar é criar laços, criar a necessidade de algo, ou alguém.
                É justamente nesta raíz que se encontra a semente da saudade. Ora, viver é mudança constante, e mudança requer adaptação. Quando vivemos por muito tempo da mesma forma, ou repetimos os mesmos hábitos durante muito tempo, criamos um pequeno ciclo. Acontece que, em nossa jornada pela vida, nada permanece o mesmo por muito tempo e, quando chega a hora de mudar, sentimos esse aperto no coração, esse medo que é a mudança.
                Esse sentimento ainda não é a saudade. Ele é a resistência à mudança, ou ao novo. Muitas vezes, lembramos de situações, ou coisas que nos aconteceram no passado, épocas melhores, em que éramos mais felizes ou mais tranquilos, e sentimos a nostalgia no peito. Aquela lembrança, ao mesmo tempo triste e alegre, de algo que passou. Contudo, é importante notar que, temos o costume de super valorizar acontecimentos do passado.
                Dizemos coisas como “Meu ensino fundamental foi perfeito, a escola era incrível e a professora a melhor”. Quando criamos esse senso de perfeição, criamos também uma ilusão. Vejamos como exemplo a situação de um desenho animado, que adorávamos quando crianças. Era o melhor desenho do mundo, e podíamos passar horas assistindo aos mesmos episódios, de novo e de novo. Agora, como adultos, quando temos uma chance de reassistir aquele desenho, não sentimos mais o mesmo prazer de antes. Isso acontece, não por que o desenho não era bom, mas por quê nós mudamos, e não mais enxergamos a diversão de outrora.
                Mas então, o que seria a saudade?
                A saudade é um sentimento agridoce. Ele aperta o peito, transborda os olhos, mas ao mesmo tempo aquece o coração. Sentir saudade significa ter cativado, ou ter sido cativado. Ter vivido algo único e especial, compartilhado um pedaço da sua vida com alguém. A saudade vem nos lembrar que, a hora de viver é agora e, que quando espalhamos o amor, ele cria raízes. A saudade vem nos dizer que dói a perda, a nostalgia e a memória, mas, ao mesmo tempo, que fomos felizes o bastante para viver aquilo de que hoje sentimos falta.
                A saudade de quem está longe, ainda pode ser resolvida. Basta não esperar, até que não seja possível resolve-la. A saudade de quem já se foi, a que chamamos de perda, neste contexto, vem para nos lembrar que fomos sortudos o suficiente, para conviver no mesmo tempo, no mesmo lugar, com aqueles que ja perdemos. Ela vem nos lembrar do quão maravilhosa é a dadiva de guardar memórias daqueles que perdemos, e não para nos lembrar da tristeza de não os termos mais aqui. A saudade, traz consigo a opressão de não mais podermos tomar aquelas pessoas em nosso abraço, ou de não poder mais ouvir a voz daquela pessoa amada. No entanto, essa não é sua função.
                A saudade serve para relembrar, para expressar sentimentos e, acima de tudo, para nos assegurar de que amamos alguém o bastante, para que suas memórias criem raízes em nosso íntimo. A saudade é a mais bela homenagem a quem já partiu, dada a nós pela natureza em si, como presente, para que possamos ter a quem amamos, sempre dentro de nós. Quem carrega no coração o amor de alguém que já se foi, anda com um tesouro no peito, sempre pronto para ser aberto e enriquecer nosso dia.
                Não encaremos a saudade como um sentimento ruim, pois, essa não é sua função. Permita-se recebe-la de braços abertos. Procure lembrar-se mais dos bons momentos do que dos momentos ruins. Abra o baú de memórias e se permita tomar por tudo aquilo gravado em seu peito. Expresse, pelo choro, ou qualquer outro meio, como aquilo lhe faz sentir. E lembre-se, sentir saudade é confirmar dia após dia a importância do que se viveu. É certificado de que se está vivendo, marcando as pessoas e sendo marcado por elas. Dando propósito à nossa existência passageira neste plano. Sentir saudade, é viver.

-Adolfo Rodrigues

Créditos: Imagem
Sugerido por Rafael Daher


                 Ansiedade, por definição, nos remete a palavras como aflição, angústia ou perturbação. Muito se diz a respeito dela, e uma grande parcela da população possui um ou mais traços desse mal que aflige pessoas das mais diversas idades. A ansiedade pode ser encarada como uma antecipação de algo que nos faz sentir mal. Muitas vezes, causada por experiências anteriores que deixaram marcas profundas, a ansiedade não precisa de um gatilho para se desencadear.
                Quando em contato com as relações humanas, há inúmeras formas e razões pelas quais pode se manifestar. Uma das mais intensas formas de descarrilar uma reação, é o uso desmedido de palavras. Uma pessoa ansiosa, dentro de uma relação será também uma pessoa insegura. Não por quê algo aconteceu, não por que houve um motivo, mas pelo simples fato de a ansiedade trabalhar na mente das pessoas em conjunto com a paranóia.
                Um dos grandes exemplos dessa combinação dentro de uma relação, é quando o transtorno atinge a auto estima. A pessoa ansiosa se torna muito auto consciente daquilo que não gosta em si, e isso se tornará motivo para que se compare com outras pessoas. Logo, a pessoa ansiosa será capaz de enxergar apenas seus “defeitos”, simultaneamente enxergando apenas as qualidades dos demais. Isso leva à famosa comparação, ou a questionamentos do tipo “por que eu, sendo que não tenho nada a oferecer?”, ou ainda “qualquer pessoa seria capaz de acabar com meu namoro, pois todos os outros são melhores que eu”.
                Quando isso acontece, a consequência mais comum são as crises. O choro, os tremores, a falta de vontade de fazer qualquer outra coisa. A sensação de ser pouco é aterrorizante e, gera um medo sem precedentes: O de ficar sozinho. É importante notar que há um abismo de diferença entre estar sozinho por opção, e estar sozinho por que não se consegue relacionar. A solidão pode ser aterradora, e o silêncio doloroso. Sentir-se sozinho é como se afogar em água fria e escura. A superfície e visível, mas não alcançável.
                Outra forma comum de ansiedade dentro de relacionamentos, causada especialmente pela crescente facilidade na comunicação, é o famoso “ghosted”, ou, como é conhecido em português, vácuo. O vácuo compete a não resposta ou o ignorar uma mensagem, ou chamada. Quando o parceiro não te atende, não responde suas mensagens, uma série de paranóias se forma automaticamente. A necessidade da pessoa ansiosa grita, corrói e machuca.
                Isso não acontece por uma necessidade ou carência excessiva, e sim por conta do constante estado de insegurança vivido pela pessoa. Ser ansioso é ter que esperar e hiperventilar por isso. É ter uma dúvida e se corroer até resolve-la. É ter uma situação nas mãos e não conseguir deixar de pensar nisso ao ponto de passar noites em claro. É a incapacidade de controlar sentimentos que os demais conseguem. Ser ansioso é viver constantemente com um saco plástico na cabeça, forçando-nos a respirar uma quantidade diminuta de oxigênio.
                Ser ansioso é ter uma tempestade eterna no estômago. É não ter forças para sair da cama, para lidar com as pessoas, para cumprir tarefas simples como sorrir para um conhecido na rua. Ser ansioso é encarar situações comuns do dia a dia como verdadeiras provações. É sentir o coração oprimido diariamente, sem nada poder fazer a respeito. É ouvir de novo e de novo o quão importante se é, e ainda assim ser incapaz de acreditar. É ter de chorar por meia hora, antes de ser capaz de realizar uma tarefa simples, apenas pelo fato de que sua mente grita, alto demais para que se possa reagir.
                Dentro de uma relação, a pessoa ansiosa pode acabar sofrendo ainda mais, caso não esteja em um lugar estável com seu parceiro. Requer esforço e compreensão, requer adaptação e diálogo. O ansioso não tem controle, mas pode aprender a exercer esse controle, se ambos encontrarem um lugar em comum, onde possam trabalhar aquilo e encontrar soluções, juntos. Logicamente, o esforço requer mutualidade. Coisas simples como avisar que ficará incapacitado de responder mensagens ou ligações pelos próximos minutos, podem evitar crises fortes.
                Evitar comentários ou brincadeiras sobre assuntos que causam desconforto, ou ainda tomar atitudes que reafirmem e tranquilizem seu parceiro em relação à situação e status em que se encontram, são passos simples, que fazem toda a diferença. Ou seja, acima de tudo, relacionar-se com uma pessoa ansiosa, requer compreensão e reciprocidade.
                Afinal, não são assim todos os relacionamentos?
                De nada diferem os ansiosos dos demais. Requerem apenas, um pouco mais de compreensão, empatia e cuidado, e nos entregam de volta, um amor real, um carinho intenso, e uma entrega absoluta. Quem bem cuida de quem te ama, colhe apenas frutos maduros. Respire fundo, exerça a empatia, faça perguntas claras, e consolide o que já foi conquistado. Tenha sempre a certeza, de que estará caminhando, em direção ao sucesso.


-Adolfo Rodrigues

Fonte: tumblr
Sugerido por Oslan Lima

Amor, como palavra, sentimento e forma de expressão, existe em suas variadas formas, ao nosso redor. Temos o amor puro, inabalavel, vindo dos nossos queridos pets. Eles nos ensinam um amor sem cobrança, sem critérios e puramente baseado no fato de te amarem. Temos o amor da família, das nossas mães, de quem somos e sempre seremos uma parte. Entre esses e outros amores, encontramos o amor romântico.
                A sensação natural que temos, seja por viver numa sociedade que nos impõe isso, seja por sermos seres naturalmente sociais, de que precisamos de alguém. A mídia, os livros, as pessoas, as histórias, tudo isso nos mostra o que devemos acreditar que é o amor. O amor ideal, retratado nos livros e filmes, que tudo enfrenta, tudo suporta e se molda para dar certo. Sinceramente, um amor falso e artificial, criado para nos iludir.
                O amor de cinema e de livros, inicialmente, foi desenhado para agradar o coração das mulheres. Ele era mostrado como um amor submisso, servil e gentil, onde as mulheres eram mostradas de forma casta e obediente. Por muitos anos esse foi o padrão mostrado na mídia. A mulher como alguém alegre, educada e encantadora, que se apaixonaria pelo homem forte, bonito e honrado.
                Com a evolução da sociedade, dos valores e do que era visto como amor, o que era representado na mídia também teve que mudar. O amor romântico passa a nos ser vendido de várias outras formas. Mesclado com o erotismo, mesclado com a guerra, com a proibição e etc. Ele se adapta, mas continua nos mostrando uma ideia falsa do que deve ser visto como o amor. O amor mostrado na mídia prega um príncipe num cavalo branco, mostra uma relação sem conflitos, onde tudo é perfeito, e as imperfeições são ignoradas com sucesso.
                Amor, seja ele paternal, fraternal, romântico ou amigável, vem com autos e baixos. Relacionar-se, por si só é cheio de suas próprias nuances. Viver, é resolver situações, problemas e confusões. Uma palavra dita, ou não dita, causa um vendaval em relações. Um olhar, um sorriso, podem ser o bastante para iniciar uma relação, ou para destruir uma. Portanto, idealizar um amor que ignora a natureza básica do ser humano, é uma viagem só de ida para quebrar a cara.
                Ignorar que, mudanças de humor, ansiedade, depressão, alegria e tristeza, podem todas ser sentidas em um mesmo dia, é a forma errada de iniciar algo. Voltamos, então ao questionamento que entitula nosso texto. Ainda existe o amor?
                A resposta? Sim! O amor ainda existe.
                O amor do pet que abana o rabo quando chegamos, ou da roupa limpinha que a mamãe nos deixou. Na mensagem animada da amiga querida, ou no beijo de boa noite enviado pela vovó. O amor nos circunda, e está até mesmo na plantinha que cresce com nosso cuidado gentil. O amor romântico, ainda existe. Ele só não cabe mais nos padrões que nos são mostrados todos os dias através da mídia.
                Amor romântico, ama primeiro a si mesmo. Amor romântico suporta os problemas e situações, desde que estes não o machuquem. Ele cresce, se adapta, mas não muda para caber em lugar nenhum. Ele expande, completa e acrescenta, sem nunca sufocar. Ele aproveita as situações comuns, para criar memórias incríveis, sem nunca exigir o mesmo do parceiro. Ele é carinho, sem cobrança, presença sem exigência e entrega sem perda. Como todas as melhores coisas da vida, acontece naturalmente. O amor existe, isso não se pode negar. Cabe a nós enxerga-lo em suas verdadeiras nuances, deixa-lo nos encontrar e vive-lo sem esperar demais. Um dia após o outro, ele cresce, germina e cria raíz. Quando a gente menos espera, floresce.


-Adolfo Rodrigues

imagem: pinterest


- Não é que o mundo fica girando o tempo todo?
- Não é.
- É ou não é?
- É, Mariana.
- Mas a gente não percebe, não é?
- É.


Eu menti para ela. Mariana, com seus intensos olhos castanhos e seus cachinhos, me lembrava cachinhos dourados - historinha que ela mesma, no auge de seus seis anos de idade, não conhecia. Eu menti para ela porque afirmei não perceber o mundo girando comigo dentro, mas percebo: Mariana não conhecer cachinhos dourados já me mostra que o mundo está aí dando todo tipo de giro doido e eu, tonta, dentro. 

Minha vertigem é por isso: minha cabeça quer parar um pouquinho para pensar, mas o mundo inteiro girando o tempo todo e eu não consigo ficar caminhando em círculos assim. Quero caminhar em linha reta, quero partir da vértice e ir: fazer isso, depois fazer aquilo, depois se formar, depois escrever o livro, depois ir à disney, depois beijar na França, depois ter um Golden Retriever, depois ser mestre em ioga, depois fazer isso, depois fazer aquilo outro, e... O mundo girando. O mundo dando voltas malucas feito um kamikaze e eu tentando ficar de pé: quando decido dar um passo, o chão não está mais lá. 

Todo mundo que estava aqui, todos os que sabiam meu endereço, meu telefone, meus gostos, meus sabores, meus amores, meus desejos e meus medos: todos giraram também. Provavelmente estão do outro lado, provavelmente estão na China, quem sabe? Sei que não estão aqui, nada está aqui, nada fica aqui, tudo gira, e eu, junto, capoto. Mas eu finjo que não. Eu ando por aí tentando manter o queixo erguido, tentando manter um pé na frente do outro, tentando equilibrar tudo que sou, tentando ignorar o mundo inteiro chacoalhando.

 A verdade é que, depois de um tempo, a gente percebe o mundo girando, Mariana, mas a gente finge que não vê. A gente finge que não vê o mundo girando e atropelando tudo para não endoidecer, para tentar, além de existir, viver. 

Ane Karoline

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Meu bem, não se assuste com minha mania de nudez, eu não gosto de disfarces; para mim, as coisas devem estar sempre tão nuas quanto for possível. Tudo em panos limpos e bem expostos: alma, sentimentos e verdades. É por isso que me desnudo para ti e te revelo coisas que requerem tanta intimidade: não quero que a gente se desgaste tanto para realizar nossas recíprocas vontades. Por isso, repito, sente-se, acalma-se; não chego nesse rompante por querer atordoar-lhe, longe de mim querer roubar a tua paz - eu luto muito para manter a minha própria, imagine se haveria vontade para perturbar a tua.

Apesar de todo o meu exposto deleite em te ter, não quero amarrar você, não posso garantir que ficarei aqui, e nem isso espero de ti. Não estou, e suspeito que nunca estarei, totalmente entregue nem a ti e nem a ninguém; só sou capaz de me entregar por completo a mim. Portanto, não se escandalize ao saber que te amo; não é por exagero, maldade, loucura ou carecimento de coisa alguma que revelo, sem pudor, amar você. Talvez você não tenha me ouvido dizer ainda, mas deve ter notado que te amo pela forma como respiro em sossego perto de ti; deve ter notado que te amo por ter minhas mãos sempre ao alcance das tuas e, sobretudo, deve ter percebido como é fácil para mim estar com você. Não é fácil para mim deixar que as pessoas me acompanhem, me desnudar e conversar sobre meus anseios e receios, mas contigo é. É por isso que sei que te amo e, também, sei que isso assusta você. Pois bem, não se deixe alvoroçar por isso, meu amor é calmaria.

Contudo, e exatamente, por amar você com calmaria é que não me mascaro. A gente vai chegando em uma idade, ou melhor, em uma fase da vida (já que idade não vem com um rótulo de estado de espírito) que se cansa de gente difícil. A graça que pode ter, um dia, existido no mistério de gente que some, gente que tem gosto por complicação, acaba. Pode anotar aí: o fetiche, o desejo latente e o interesse por gente desinteressada, se esvaem. Depois de um tempo, a gente começa a desviar de quem gosta de sonegar sentimento e quando, por acidente, esbarra em alguém assim, procura logo outro rumo.

É assim que te digo que não tenho intenção alguma de tomar o teu espaço, entrar na tua vida com força e roubar a tua paz - nem nada disso quero de ti. O que acontece aqui, na verdade, é que não me atrai em nada criar complicações, mon miel. Se tivermos de jogar, que seja no mesmo time, um jogo que seja aprazível para ambos. Fato é, tesoro mio, que estamos, diariamente, nos acabando, a vida que nos foi dada é finita e, à essa altura, não mais tão longa quando nos era há cinco anos atrás; portanto, por que haveríamos nós de gastar o tempo que temos com complicações desnecessárias? Deixe de se escandalizar com meu desnudamento e traga tuas vontades também à tona; sei bem que há muito aí dentro de ti para evidenciar.

 Ane Karoline

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Mais uma vez, nada de especial: copo descartável de café na minha mão direita, o que não era lá a melhor ideia para uma pessoa canhota. Lá pelas sete e quarenta e cinco, ele se senta lentamente ao meu lado, de novo. Dessa vez, algumas gotas de água marcam os ombros de sua jaqueta jeans e ele parece meio esbaforido, meio ofegante, apesar de não estar suado. Deve ter corrido, penso. Aproximadamente, quatro minutos se passaram até que ele regularizasse a respiração e, como que para se justificar, soltasse sua frase:

- Que clima maluco, né?!  - a voz dele era tão monótona quanto o primeiro dia em que me disse isso, quatro meses antes. Olhei para ele e vi que havia muita coisa ali mais interessante que isso, havia muita coisa para ser dita, muita coisa que, apesar das minhas investidas, ele nunca havia me dito e, provavelmente, nunca me diria. 

De repente, tudo que eu queria falar estava ali, um jorro de pensamentos, frases prontas, na ponta da minha língua:

Não quero te assustar, se não te respondi quando você falou comigo sobre o clima e nem depois, quando você puxou uma conversa mencionando uma terceira pessoa e minha resposta foi tão murcha quanto uma não reposta, foi por prudência. Não é sempre assim, algumas vezes é pior: eu abro um livro ou coloco os fones de ouvido e encerro a conversa com um meio sorriso amarelado. Não vou mentir, isso acontece porque eu quero desvendar sua alma, quero conhecer seus medos, seus anseios, suas aspirações e inspirações; não quero ouvir você me dizer coisas que já sei, não quero ouvir um tudo bem quando você, claramente, não está bem. Quero pular essa parte, quero mergulhar fundo, mergulhar de cabeça; ao invés de ficar nadando no raso, ensopada de banalidades. 

Sem querer te abalar nem nada, mas é que estranhamento nenhum me causa desnudar minha alma, falar sobre o que eu sinto e sobre como o meu livro favorito me faz sentir como um cavalo novo com fogo nas patas correndo em direção ao mar. Me sinto, sim, deslocada e acometida por uma profunda tristeza sombria quando tenho que enfrentar conversas superficiais que não nos levam a lugar algum, minutos me parecem, então, horas e horas, horas enfadonhas e de um padecimento atroz. Quero pular tudo isso, dar um salto empinado e bem alto, pular esse abismo que é o vale das small talks, quero alcançar seu outro lado, o lado que não está estampado no seu sorriso inventado, o lado de verdade, o lado de dentro; quero poder tocar suas vísceras. 

Terror nenhum quero te causar, mas se pudermos agora mesmo falar sobre o que foi, durante sua infância, que causou essa cicatriz acima da sua sobrancelha direita, é isso que quero. Desejo ardentemente me inteirar sobre você e todas as quedas que te construíram, todos os erros que te fizeram chegar aqui, todas as coisas das quais você sente vergonha e todas das quais você se orgulha, mas sem te invadir, sem me apoderar de você, só quero te conhecer.

O ônibus fez mais uma parada menos de dois minutos depois, respirei fundo, olhei para ele e me limitei a sorrir. Tirei meu livro da bolsa, abri e continuei a ler o mesmo capítulo em que havia parado. 

com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24h



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Não é como se fosse uma surpresa total, era uma daquelas situações em que a gente já sabe o que está acontecendo, vê todos os sinais, mas não quer acreditar. Meu histórico infalível de sagacidade estava colidindo catastroficamente com meu outro histórico infalível de não querer acreditar em mim mesma. Eu não queria bancar a mística, bancar a bruxa, a louca ou a má, a que vê malícia em tudo, mas o fato é que eu já sabia. Olhava para aqueles olhos fundos dele, aqueles olhos que me diziam até o que ele não queria dizer, e me faziam ter certeza absoluta que eu estava me fazendo de cega. 

Ele me dizia que a coruja aparecia sempre naquele horário porque era quase noite e o ninho dela deveria ser próximo de nossa casa, dizia que era loucura minha, dizia que coruja é bicho burro que não sabe nem onde está direito, quisera seguir alguém; ele me dizia muitas coisas, o suficiente para que eu não soubesse mais o que eu pretendia falar. Eu até acreditaria na teoria dele sobre a coruja, como fazia questão de acreditar em tudo que ele me dizia, não fosse pelo fato de ela me olhar tão intensamente como quem sabia que eu havia me perdido e precisava de uma bússola para me encontrar. Eu até deixaria para lá, não fosse o cheiro doce nele e o fato de a coruja acompanhá-lo ao chegar. 

Todos os mil novecentos e dois dias, todas as malditas quarenta e cinco mil horas em que aquela aliança dourada esteve apertando meu dedo, eu soube e eu planejei o que dizer, ensaiava no trabalho, ensaiava enquanto tomava banho. Nos meus devaneios, eu estava sentada na poltrona em frente à TV segurando minha caneca cor de rosa, cheia de café, com as duas mãos; ele chegaria e eu diria: eu sei. Depois do primeiro ano, tive que mudar minhas visualizações porque ele quebrou minha caneca cor de rosa. Eu poderia ter dito logo no começo, sim, poderia, mas ele era tão doce, tão quente segurando minha mão, tão vivo, tão. Quando a coruja começou a aparecer com mais frequência, ficou mais difícil, se eu tocasse no assunto, ele ficava carrancudo, frio. Assertiva, algumas vezes a coruja chegava a pousar na minha janela como que para me chamar de tonta, como que me convidando para ser assertiva também,  aqueles olhos imensos me dizendo o que eu não queria saber. 

Noites e noites mal dormidas, crises irremediáveis, discussões que me faziam ouvir coisas as quais eu jamais achei que alguém seria capaz de dizer. Na noite número mil novecentos e dois, ele estava atrasado novamente, eu desisti de dormir e fui olhar a coruja sobre o muro, ela piava incessantemente e eu resolvi olhar mais de perto. Não quero ser mística, eu pensava, não quero ser louca, coruja é um bicho burro. Em guerra com minha própria mente, segui a coruja que voava por alguns metros e parava para me esperar. Não fomos longe, cinco casas para a direita, avistei o carro dele. A coruja pousou no muro da casa, o portão era bem aberto, a porta estava aberta e eu pude ver o menininho, que deveria ter mais de mil novecentos e dois dias de vida,  chamando a coruja como se a conhecesse. Ele tinha aqueles olhos fundos, aqueles olhos que me diziam até o que ele não queria dizer, e me faziam ter certeza absoluta que eu estava me fazendo de cega. Deixei a aliança dourada em cima do carro e parti, mais uma vez certa de que minha intuição era muito mais infalível que qualquer esforço para me fazer desacreditar de mim.

Com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24h

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Se tivesse como descrever, a onomatopeia seria: tum, tum, tum. Meu coração parece bater mais devagar quando começa, todos os dias de manhã, o vizinho gritando e batendo alguma coisa no chão, é um tum, tum, tum sem parar. A cadeira do meu quarto rangendo quando eu subo nela para pegar um troco no cofre, o pai puxando o braço da criança na rua, o grito da criança com o bracinho esticado, a professora gritando quando poderia falar baixo, um homem desconhecido na rua me chamando, me chama para quê? Prefiro nem responder e sinto meu coração em um tum, tum, tum desenfreado, se eu enfartasse, cessaria. Alguém bate a porta com violência, por que não fechar com gentileza?  Um zum, zum, zum dentro do ônibus, um senhor gritando alguma coisa sobre Jesus, será que Jesus gritaria? A senhora do meu lado me cutuca e diz que ele tem razão, que viado é coisa do cão, eu olho para ela e percebo as marcas da hemodiálise, penso que se ela precisasse de sangue, eu poderia salvá-la; alguém sempre me diz que ó negativo é o sangue que salva, mas eu sou fraca para agulhas, era pensar em doar sangue para ficar fraca, o tum, tum, tum aumentar e a enfermeira me mandar para casa por estar muito alterada. Minha fraqueza é ser alterada, eu estou sempre muito alterada e isso parece ser um inconveniente para quem não consegue sentir tanto.

O inconveniente para mim já é quando escuto que não é para tanto. Tem alguém berrando no ouvido de uma criança de quatro anos bem ali ao lado, o rapaz que estudou comigo chama a namorada de vagabunda porque ela aparece usando saia justa no churrasco, mataram um menino negro que na frente do shopping limpava carros, e não é para tanto? Eu tenho certeza absoluta que meu coração vai bombear tanto sangue tão lentamente que vou explodir como se fosse um dente de leão, em mil pedacinhos translúcidos. Tem alguém dizendo que a Amazônia deve ser vendida, que os ribeirinhos são inúteis para a evolução social e que os índios não têm direito a nada; mas não é para tanto, me dizem. Alguém bate no meu ombro e diz que eu não preciso ter uma opinião sobre tudo, que eu devo ser menos afetada. Uma criança de dez anos de idade me pergunta se só crianças brancas sabem ler livros grandes e eu vou ser menos afetada? Engulo em seco o incômodo, como se engole uma gosma azeda de quando se está gripado; cada vez que ouço um não é para tanto, é uma facada. 

À facadas se mataram dois japoneses semana passada e alguém usou isso para defender o porte legalizado de armas, quando questiono a fala de um homem adulto da minha família, me dizem que estou exagerando e criando caso, afinal, não é para tanto. O tum, tum, tum nos meus ouvidos fazem parecer que meu coração pesa uma tonelada; eu quero falar também, quero poder dizer que é para tanto sim, que o bullying na oitava série matou vários sonhos meus, quero que ouçam o meu grito de humanidade como a manifestação política que ele é, e não como um dos sintomas da TPM. 

Grito, berro, soco, tapa, choro, cheiro de bicho morto, duas, três horas em pé em um ônibus sujo, livros bagunçados, suor gotejante, menininhas amarguradas, correria, tiro,  gritos, tiro, tiro, silêncio. O incômodo no meu peito parece crescente e parece maior que eu, parece querer tomar conta do meu corpo inteiro, possuir a minha alma, um tum, tum, tum lento e ritmado, a visão alterada pelo medo, pela ânsia de acertar, pela amargura de errar, tudo, tudo isso eu posso aguentar, sobretudo porque eu não posso falar. Vivo incomodada, afetada, entrecortada, o coração na mão, mas permaneço calada porque prefiro agonizar que perceber que, para quem não sente, tudo é pequeno demais, tudo é mínimo, é mimimi. Antes enfartar, morrer engasgada pelo meu pranto que ouvir que não é para tanto. 



Com amor, 
Ane Karoline -
texto do desafio de 24 textos em 24h


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Acordo. Hoje acordo no horário, sem dores nos joelhos e nos punhos, sem frio graças ao calor e ao sol exuberante fora da minha janela. Como se nada no mundo fosse capaz de me afligir, simplesmente por ser um dia ensolarado, vou logo abrindo tudo: a janela, o chuveiro, o peito, o sorriso. Preparo um café forte, corto frutinhas, coloco-as em um prato branco, me sento comigo mesma para degustar um dia lindo prestes a começar. Saio de cabelo molhado mesmo, deixo que o vento o seque  alto, livre, solto, expressando a força, a audácia, a euforia e o sol latentes dentro de mim. Quem me visse assim, seria capaz de supor que o sistema solar inteiro dependia de mim, não fosse pelo desconforto que o vento, já forte demais, me traz ao andar pela rua às oito da manhã. Sopra tão gélido em meus ouvidos que me traz uma lembrança sua, você, que sumiu, estou ainda sem notícias. 

Esperando pelo metrô, vejo nuvens se aproximando, vindo da esquerda e da direita para unirem-se no meio, como se houvesse algo de magnético sobre a minha cabeça atraindo-as. Alguns segundos sem ver o sol e já percebo o calafrio percorrer minha espinha de baixo para cima: por que raios eu estava tão feliz ao começar o dia? Talvez não tenha sido uma boa ideia sair com os cabelos molhados, a umidade começa a me lembrar o dia em que tomamos uma chuva e você parecia me amar daquele jeito louco que só os adolescente conseguem amar, mas logo depois você sumiu; não tive notícias suas. Agora estou com frio, é sempre muito frio quando não tenho notícias suas. Entro no metrô antes que a primeira gota me alcance, a cada estação, vejo pessoas entrarem gotejadas de chuva. 

Uma hora depois, eu com a cabeça recostada no encosto duro do assento do metrô, os olhos fechados para evitar o enjôo de estar sentada do lado contrário ao qual nos movíamos, sinto meu celular tocar antes mesmo de escutá-lo; é você. Não escondo minha empolgação e afirmo, talvez um pouco alto demais, que, sim, é perfeitamente possível almoçarmos juntos hoje. Tanto tempo conversamos que nem percebi a moça na minha frente tirando o casaco e a claridade voltando a aparecer. Quando desembarco, já não sinto mais frio algum, coração e corpo quentes, o Sol já voltara resplandecente. 

Entre pausas de leitura da previsão do tempo, tento ler as entrelinhas do que você me diz "adoraria ver você hoje". Adorar é desejar? A manhã inteira é uma agonia, fecho e abro as janelas, ligo e desligo o ventilador, estou sempre sob o glacial ou escaldante, não há um meio termo. Você tampouco me ajuda, me envia mensagens as quais me animam e me derrotam com a mesma intensidade, não consigo saber o que você está pensando. Por várias vezes, o vento me lembra do casaco esquecido sobre a cama, outras tantas, penso que poderia ter calçado algo mais leve. Olho através da janela pela quinquagésima vez, me vejo refletida no vidro e vejo como o clima nunca é ameno: nem fora, nem dentro. Junto com a ventania, meu peito não sossegou um minuto e ainda não são meio dia, não faço ideia do que nos aguarda; seja em nosso almoço, seja na chuva que tomarei logo ali na esquina.

Com amor, 
Ane Karoline -
 texto do desafio 24 textos em 24h