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Não foi você que me trouxe, eu já estava aqui. Eu estava aqui antes de você chegar. Na verdade, tenho estado aqui há um tempo. Foram várias escolhas, vários tropeços e até alguns acertos que me trouxeram aqui. Não tem muito a ver com você. Acho que não tem nada a ver com você, pode acreditar. E, justamente por não ter sido você o causador do caos, não acho justo você, por isso, pagar. Parece loucura, então, vou explicar.
Eu vou continuar aqui, não sei quanto tempo essa estagnação vai durar e eu não posso te pedir para ficar. Esse sorriso tímido que você provoca em mim, e que tanto te encanta, ele não vai evoluir. Eu sei que parece que vai, né? Mas não vai. Não agora. Eu sei disso porque eu também já criei essa fantasia, afinal, eu me vejo todos os dias. Em alguns desses dias, ao olhar meu reflexo no espelho, achei que esse mau tempo passaria e que eu, como o Sol, sorriria. Mas não passou, meu bem. As nuvens ainda estão por aqui e eu ainda estou nublada. Também sei que, vez ou outra, parece que meu sorriso vai finalmente eclodir e vai ser o raio de Sol que era antes. Ah é, você ainda nem sabe: meu sorriso costumava ser um raio de Sol. Mas isso foi antes. Meu sorriso era um raio de Sol quando eu estava inteira.
Agora me vejo como uma daqueles aparelhos de TV dos anos 90 , que, depois de um tempo funcionando perfeitamente, começava a dar defeito. E aí não tinha choro nem vela, era esperar. Uns batiam, outros acariciavam e nada da TV voltar a funcionar: tínhamos que esperar. Passava-se por um lapso e, então, um belo dia, ela voltava a funcionar. Talvez, não funcionasse da mesma forma como funcionava antes: descobríamos, vez ou outra, uma cor nova enquanto perdia-se outra. Mas voltava. Sempre voltava. E o tempo é que se encarregava de consertar. Mão humana, por mais amorosa que seja, não tem poder de reparo imediato. Estou em um lapso agora mesmo. É claro, já estive mais longe de voltar mas, admito, não é agora que vou voltar a funcionar. 
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O que acontece é que, nesse tal antes, eu apostei alto e perdi. Sim, eu me reergui, mas ainda não posso sair daqui. E você, que agora já me julga interessante, acredite se quiser, mas eu costumava ser descomedidamente viva: ria muito, falava mais, especulava menos e enfrentava mais. Enfrentava o mundo, enfrentei o mundo. Mas agora, nesse exato momento, não  posso fazê-lo porque estou enfrentando a mim mesma. Uma batalha calma e silenciosa que tem me ensinado a dar um passo de cada vez e, ocasionalmente, recuar. Uma batalha que tem me mostrado o caminho para me conhecer e reconhecer, nesses pequenos sorrisos, a tempestade de alegria que eu costumava ser - e serei. Sei que serei, novamente, o raio de Sol, a TV em cores que costumava ser, aliás, serei ainda mais colorida. Sei que voltarei a cogitar, imaginar, construir e funcionar. Sei - e sinto - que meu coração vai ser ainda mais impulsivo e impetuoso. Sei de tudo isso porque eu, agora, me conheço. E, por me conhecer, sei que algum tempo vai levar e eu não te peço - e nem aconselho -  a esperar. 


Com amor, 
Ane Karoline

 

  Não sei se você vai ter tempo para ler, não sei onde você está e, também, não sei como você vai reagir a isso mas achei que deveria lhe dizer. Achei que deveria lhe dizer que ainda dá tempo. Estava daqui observando e acho que ninguém te contou, não é? Não se preocupe, a gente não nasce sabendo: a gente vai se fazendo. Ninguém me contou também, mas quero muito investir minha energia em dizer-te isto: ainda dá tempo.
  Não precisa me dizer que a vida te ensinou a ser assim, eu já sei. Já sei que o comando sempre foi esse: seja melhor que os outros. Sei que lá no jardim de infância, a tia só pendurou na parede o desenho mais bonito. Sei que só quem grita mais alto é ouvido, sei que só são mencionados os que são tidos como melhores. Eu sei. Sei que os "melhores" são escolhidos por um padrão injusto que, no fim das contas, não sabemos quem foi que inventou. Eu nunca assinei nenhum contrato, nunca disse que queria e nunca concordei com a ideia de estarmos todos sempre competindo. Aposto que você também não. Então, porque estamos nós seguindo uma ideia que, no fim das contas, não nos favorece? Porque estamos agindo de acordo com uma filosofia que não foi pensada por nenhum de nós? A troco de quê, estamos matando-nos uns aos outros? Não ter essas respostas me relembra: ainda dá tempo.
  Não quero impor, insinuar ou sugerir a ideia de que somos todos iguais em grau, número e gênero. Não me apetece o discurso de que, no fim das contas, pensamos as mesmas coisas e temos as mesmas ideias, isso não é verdade. É discurso de quem tem preguiça de ver as singularidades. E, quando digo que ainda dá tempo, quero ressaltar exatamente isso: as singularidades. Nenhum quebra cabeça é montado com peças iguais: é a diferença que nos constrói e faz de nós necessários. Somos todos necessários. Pense por esse lado: olhe a infinitude de coisas que podemos construir. Juntos.  E ainda dá tempo.
  Não vejo um motivo, ou argumento, forte o suficiente para me convencer do contrário: juntos podemos reconstruir todos os laços, podemos reorganizar nossos passos e arrumar toda essa bagunça. Um pensa na forma, o outro vai dando um jeitinho, aquele ali fotografa, o outro aqui traz as cores enquanto uma galera canta para nos aquecer a alma. Uns vão falando e outros escrevendo. A uma ideia boa aqui, outra nem tanto. Uma discordância ali, às vezes, vira um canto. E em meio a tudo isso, você pode, ainda, estar em dúvida: será que ainda dá tempo? Sim.
  Sim. O não nós já temos até agora e, sinceramente, não me parece que tem dado certo assim. Então, sim, te convido a abrir mão, dizer não ao seu troféu de "o melhor", por agora,  para que possamos construir o planeta "dos melhores". Sim, quero investir toda a minha energia em dizer-te isso: ainda dá tempo. 

 

   Quando foi que a honestidade começou a doer? É que só pode ser esse o motivo de ser tão evitada: dor. Afinal, não existe outro motivo bom o suficiente para que se possa deixar de lado a sensação de veracidade. Ou existe?
   Para a minha personalidade inquieta, é impossível compreender a razão de esconder a verdade. Porque não ser o primeiro a dizer "eu te amo"? Medo? Mas medo de dar amor? Não pode. Não precisa. É tudo muito mais simples. Já reparou na beleza do céu, logo pela manhã? E quando começa a primavera, quando aqueles ipês maravilhosos florescem? Isso é o Universo derramando amor, sem medo, sem dó, sem jogo. Agora diz aí: isso consegue ser ruim? Um amor tão puro, sincero e singelo consegue ser ruim? 
   A gente acaba perdendo os detalhes: coisinhas simples que poderiam nos fazer felizes, uma vida inteira (ou várias) mudada por uma palavra que não foi dita, um coração que não foi seu mas poderia ser.  Pra quê, então dar preferência a esses joguinhos de quem ignora mais? Quem fala por último é o vencedor, hoje em dia? Ah, mas que bobagem. Com esses freios sem pé nem cabeça que colocamos em nós mesmos, com essa mania de passar por cima do que a gente quer, acabamos colecionando pedaços das coisas; pedaços das pessoas. Fotos, por exemplo, são muito boas mas o bom, o bom mesmo, é ter participado do momento da foto; ter vivido. E depois passa, como tudo na vida. A gente não precisa colecionar nada, pra quê se encher de tanta coisa desnecessária? 
   Não faz mal mudar de emprego, de roupa, de estilo, de cidade ou de amor. Não faz mal cair sete vezes se o importante é levantar oito. O que faz mal é ficar no emprego que não gosta, usar uma roupa que aperta ou tentar reciclar um amor que há muito já foi enterrado. O que faz mal é iludir a nossa própria alma. Os impulsos que a gente reprime acabam nos derrubando. 
   Até tentei atenuar, diminuir e suavizar. Tentei suportar metades. Paciência. Tentei, mas já aviso logo  que  o êxito não foi atingido. Em contra partida obtive êxito pessoal em descobrir que não vale a pena: não dá para diminuir a nossa própria frequência. Antes se arrepender pelo excesso do que pela falta: de tentativas, erros e acertos. Pra quê manter os pés no chão mesmo tendo asas e querendo voar?


Ane Karoline