imagem: pinterest.com 


Mais uma vez, nada de especial: copo descartável de café na minha mão direita, o que não era lá a melhor ideia para uma pessoa canhota. Lá pelas sete e quarenta e cinco, ele se senta lentamente ao meu lado, de novo. Dessa vez, algumas gotas de água marcam os ombros de sua jaqueta jeans e ele parece meio esbaforido, meio ofegante, apesar de não estar suado. Deve ter corrido, penso. Aproximadamente, quatro minutos se passaram até que ele regularizasse a respiração e, como que para se justificar, soltasse sua frase:

- Que clima maluco, né?!  - a voz dele era tão monótona quanto o primeiro dia em que me disse isso, quatro meses antes. Olhei para ele e vi que havia muita coisa ali mais interessante que isso, havia muita coisa para ser dita, muita coisa que, apesar das minhas investidas, ele nunca havia me dito e, provavelmente, nunca me diria. 

De repente, tudo que eu queria falar estava ali, um jorro de pensamentos, frases prontas, na ponta da minha língua:

Não quero te assustar, se não te respondi quando você falou comigo sobre o clima e nem depois, quando você puxou uma conversa mencionando uma terceira pessoa e minha resposta foi tão murcha quanto uma não reposta, foi por prudência. Não é sempre assim, algumas vezes é pior: eu abro um livro ou coloco os fones de ouvido e encerro a conversa com um meio sorriso amarelado. Não vou mentir, isso acontece porque eu quero desvendar sua alma, quero conhecer seus medos, seus anseios, suas aspirações e inspirações; não quero ouvir você me dizer coisas que já sei, não quero ouvir um tudo bem quando você, claramente, não está bem. Quero pular essa parte, quero mergulhar fundo, mergulhar de cabeça; ao invés de ficar nadando no raso, ensopada de banalidades. 

Sem querer te abalar nem nada, mas é que estranhamento nenhum me causa desnudar minha alma, falar sobre o que eu sinto e sobre como o meu livro favorito me faz sentir como um cavalo novo com fogo nas patas correndo em direção ao mar. Me sinto, sim, deslocada e acometida por uma profunda tristeza sombria quando tenho que enfrentar conversas superficiais que não nos levam a lugar algum, minutos me parecem, então, horas e horas, horas enfadonhas e de um padecimento atroz. Quero pular tudo isso, dar um salto empinado e bem alto, pular esse abismo que é o vale das small talks, quero alcançar seu outro lado, o lado que não está estampado no seu sorriso inventado, o lado de verdade, o lado de dentro; quero poder tocar suas vísceras. 

Terror nenhum quero te causar, mas se pudermos agora mesmo falar sobre o que foi, durante sua infância, que causou essa cicatriz acima da sua sobrancelha direita, é isso que quero. Desejo ardentemente me inteirar sobre você e todas as quedas que te construíram, todos os erros que te fizeram chegar aqui, todas as coisas das quais você sente vergonha e todas das quais você se orgulha, mas sem te invadir, sem me apoderar de você, só quero te conhecer.

O ônibus fez mais uma parada menos de dois minutos depois, respirei fundo, olhei para ele e me limitei a sorrir. Tirei meu livro da bolsa, abri e continuei a ler o mesmo capítulo em que havia parado. 

com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24h



imagem: weheartit.com


De repente, assim sem avisar, já era quarta feira novamente: os gritos dos lixeiros pedindo que o caminhão, sempre a cinco quilômetros por hora, os esperasse explicitavam que o dia lá fora já raiava. Acordada pelo ritual da coleta de lixo, Ana Júlia abriu o olho direito para procurar por qualquer sinal de orientação e viu o quarto já bastante iluminado; já passava das sete horas. Sete horas de uma quarta feira vinte e alguma coisa do mês de Setembro, quase um mês morando sozinha no apartamento novo. Está certo que o apartamento não era nada novo, era novo para ela; a nova Ana Júlia, a Ana Júlia solteira, divorciada e com dez metros quadrados de papel de parede para aplicar no quarto. 

Não que as quartas feiras sejam de alguma forma especiais, mas como também não são desimportantes de todo, calhou de ser exatamente a quarta feira o dia escolhido para a tarefa trabalhosa de colocar o papel de parede. A verdade é que, ao andar na rua, Ana Júlia já sentia como se todo mundo soubesse que ela vinha trocando os rolos de papel amarelo de um lado para o outro, ao precisar limpar o quarto. Sentia como se todos soubessem o quão significativa aquela tarefa insignificante tinha se tornado: era um passo mais perto da nova Ana Júlia, um passo mais longe da velha. 

Apesar de todo o preparo e de toda procrastinação que cercava a expectativa depositada no papel de parede, a quarta feira teria que ser produtiva; Ana Júlia havia conseguido dispensa do trabalho para resolver vários pequenas pendências, sendo a aplicação do papel de parede uma delas. Assim, a ideia é que a tarefa, a qual ela tanto insistia em realizar sozinha, tomasse apenas umas duas, três horinhas no máximo; mas ela não contava com os retalhos. Seis horinhas depois, lá estava Ana Júlia: o pijama sujo de cola, de papel, de lágrimas, de lembranças e de descobertas. Aplicar um papel de parede, ao contrário do que ela pensava, mostrou-se muito mais a construção de um mosaico, que uma composição uniforme; corta aqui, cola ali, emenda, tira o excesso, conserta a emenda, rascunho, corta, cola, emenda, retira, coloca: colcha de retalhos. No início, foi uma chateação, a tarefa se mostrou muito mais difícil do que parecia; mas, afinal, se a própria vida não é linear, por que um papel de parede seria?

De repente, assim sem avisar, já passava da meia noite, já era quinta feira novamente. Ana Júlia, que sempre se julgou indene; se viu, então, retalhada. Ela, que sempre achou que nada em fragmentos poderia fazer bem, percebeu que, toda construção é feita através de pedaços; só se faz realmente inteiro quem já esteve em retalhos. 

com amor, 
Ane Karoline

ilustração em aquarela feita por Agnes Cecile .


A primeira coisa sobre a qual devo advertir você habita entre o estranhamento e o deleite. O fato é que você não me verá hesitar em perguntar logo de cara qual é o seu livro favorito, caso não tenha um, tudo bem; pergunto sobre sua música, banda, seu cantor ou filme favorito. Por horas e horas a fio, me coloco diante de você com a intenção de te desvendar, descobrir tudo que quiser me mostrar, te observar por inteiro; eu também me coloco por inteiro para te acompanhar. Ouço com gosto enquanto te incentivo a falar sobre suas quedas, seus sonhos, seu primeiro ano de escola e o último de faculdade. Quero saber das suas experiências malucas em hospitais, das doenças que teve, de como lidou com a queda dos seus dentes de leite e o relato da primeira vez em que dirigiu; quero conhecer as diversas versões de você que já existiram - as que você se orgulha, as que acha graça e as quais você escolheria esquecer, se pudesse.  Não quero meramente olhar o que você é hoje sem saber o que você já foi para chegar aqui, quero conhecer você através do caminho que você trilhou. 

Logo em seguida, quase junto com o processo de te descobrir, começo a abrir um espaço para você em minha memória afetiva. Vou guardando os detalhes das cores favoritas, do carinho pelos cds originais do Renato Russo, da história sobre apendicite e do picolé de milho verde. Com cuidado e carinho, é um júbilo para mim ter os seus medos, preferências e traumas guardados na minha mente, assim, consigo ter a sensibilidade de não te machucar com assuntos delicados para você; não quero atrapalhar a cicatrização das feridas que a vida te causou antes que eu pudesse te conhecer. Quando dou por mim, percebo que seus detalhes vão harmonicamente se tornando parte de quem eu sou também;  naturalmente, expando minha capacidade de amar e de armazenar informações. Através de você, descubro coisas novas, coisas outras, coisas que eu nem sabia que existiam em mim e, por pura sincronicidade e reciprocidade, acabo te levando a conhecer novidades também; te mostro quem eu sou. 

Devagarinho, caminhamos até o momento de minha abertura: me revelo para você. Ao cruzarmos essa linha, te entrego logo um aviso de cautela; recuar daqui é perigoso. Vou querer te contar tudo que você quiser saber, vou te falar sobre quem eu fui, onde pisei e o que deixei de ser; vou te mostrar minhas cicatrizes, minhas escaras, minhas dores, tudo que já fiz e tudo que ainda quero fazer. Involuntariamente, demonstro minhas fraquezas e te falo sobre o que eu tenho tentado esquecer. Sem nenhum lamento, te mostro as citações que mais mexem comigo, as músicas impopulares que ouço, meus caderninhos de anotações, os Cafés escondidos que frequento e as palavras em idiomas diferentes que venho aprendendo. Devagar e cada vez mais longe, vamos trilhando um caminho compartilhado, cheio de detalhezinhos nossos - algumas vezes até antagônicos - entre espaçamentos necessários e distanciamentos obrigatórios para que possamos alçar voo. 

Voar,  esse é o passo que percebo a ligação já como irrevogável. Quando, depois de te descobrir, de me desnudar e de nos misturarmos, preciso de um tempo para me refazer; preciso  de um hiato de nós. Aí, e só aí, percebo que há amor: quando o espaço que eu preciso ter, apesar de toda a vontade de proximidade, é respeitado - e, por consequência, no seu espaço pessoal também não entro. A última coisa sobre a qual devo advertir você é que, ao chegarmos aqui, entre o deleite e o estranhamento, eu te amarei o suficiente para não hesitar mais em desaparecer um pouco, tomar um chá de sumiço para encontrar novidades, para devorar um livro em um dia; é que meu livro favorito tende a mudar frequentemente e eu vou querer falar de todos para você porque, provavelmente, amo você. 


Com amor, 
Ane Karoline

imagem: weheartit.com



A liberdade é uma coisa engraçada: nos liberta de correntes, nos permite seguir, voar, caminhar. A gente vai caminhando, caminhando e, de repente, não sabe mais se está, realmente, andando para a frente ou em círculos. Essa sensação maravilhosa de "tudo eu posso" que estamos (conto com isso) conquistando a cada dia, às vezes faz com que gritemos antes de parar para ouvir, nos faz partir para o ataque antes de entender a proposta do outro. A liberdade é linda, eu posso afirmar. O único probleminha com a liberdade é que ela cruza com respeito: meu espaço acaba onde começa o espaço do outro. Eis a questão: existe lugar mais livre que a internet? Pois então, nesse mundaréu de sites sem donos e caixinhas infinitas para comentários, ninguém parece obedecer a lei mínima de convivência: não invadir o espaço de ninguém.  

Tive a audácia de vir aqui falar sobre o que as pessoas estão falando por razão muito simples: ficou impossível ler qualquer notícia/publicação sem sair devastada pelos comentários. De uns tempos para cá, ficou impossível passar ileso pela internet, sem agressões. E, veja bem, não falo aqui de críticas, não falo aqui de gente que vem expor a opinião numa boa; me refiro a ataques, pancadas, agressão. Me embrulha o estômago abrir uma matéria, em um portal jornalístico qualquer, e perceber o quanto as pessoas, e nós mesmos, perderam a noção do que pode ou não ser dito, perderam o conceito de opinião e acharam o de agressão, no lugar. 

Dia desses vi uma matéria, em algum desses portais online de notícias, sobre uma cantora de funk. Caí na besteira de ler alguns comentários e me afundei em baixaria - gente de tudo que é canto, com tudo quanto é tipo de xingamento. Tinha quem tentasse defender o direito da cantora de se vestir assim ou assado, mas quem quer que tentasse advogar, era acusado de simpatizante da esquerda, vadiagem, luxúria e terrorista contra a família tradicional brasileira. A coisa virou uma briga tremenda, de um monte de gente que não se conhece, para ver quem conseguia ser mais agressivo contras os outros, contra o jornal e contra a cantora. Um monte de gente dessas com perfis e bocas de onde só saem: mais amor, por favor - tipo eu e você. Um monte de gente que acha um horror ver a vizinha comentando a vida alheia. Um monte de gente cheia de ódio, achando que internet é terra de ninguém e que caixa de comentário é ringue de MMA: quem parar de atacar primeiro, perde. Um show de horrores que, infelizmente, não preciso explicar aqui porque sei que todo mundo já viu, afinal, virou cena cotidiana.

Longe de mim delimitar regras, lugares, direitos e deveres. Tá aí uma coisa que tanto não quero, quanto não posso: ditar limites. Mas esse é um limite que a gente tem que ter: é obrigação ter cuidado com o que se vai dizer. É maravilhoso ter voz, eu mesma, que sou escritora em mídias sociais, defendo veemente esse espaço quase democrático que é a internet: gente que nunca teve vez, agora tem mais espaço para se exercer, para gritar, para falar: ei, tô aqui. É avanço? É! Mas ainda precisa ser lapidado. Na sede de emitir, a gente esquece de ouvir e perceber que ninguém tem direito de agressão sobre o outro - nem na internet e nem fora dela.

Acho bonito a garra de ir lá e fazer, de ter audácia e,  principalmente, de ter alguma coisa para dizer. Desde que isso não seja feito através de baixaria, desrespeito, perfis falsos e palavras agressivas. Sem tortura, agressão, palavrão ou pressão psicológica. De não gostar, discordar, desacreditar a gente tem todo o direito, desde que não justifiquemos agressão com "essa é minha opinião", é bem possível opinar sem insultar. 

com amor, 
Ane Karoline. 

imagem: weheartit.com


Eu nunca gritei com você, né? Já gritei por muitas coisas: paz, igualdade, humanidade. Já gritei com muitas coisas: raiva, medo, e com uma bandeira na mão. Mas nunca gritei com ninguém em específico, mesmo que eu tenha me exaltado, porque o grito ultrapassa o meu espaço e atinge o outro. E eu sempre tive uma repulsa danada de gente que invade o espaço do outro. Essa repulsa me empurrou e eu combinei comigo que nunca se deve invadir o espaço de ninguém. Ralhei tanto comigo para não invadir o espaço alheio que acabei fazendo o contrário, deixei que invadissem o meu.

Foi por ser boa em matemática que errei nas contas e perdi a dose, exagerei. Não sei quando começou, mas a primeira vez que reparei foi assim: fiquei me roendo por dentro para dizer que b deveria ser diferente de zero. Eu os via calculando, recalculando, amassando folhas e folhas sem pauta,  procurando um número complexo sem entender que a parte imaginária não pode ser multiplicada por zero, o erro era insistir no zero. Quando eu abri a boca, para tentar ajudar, você me disse, sem levantar os olhos: meu bem, deixa a gente calcular aqui, cálculo 1 reprova muita gente. Cálculo 1, engraçado, era onde eu deveria ter parado. Deveria ter parado de me anular no primeiro cálculo em que percebi uma incongruência, na primeira vez  em que topei com os números inteiros e percebi que +1 e -1 se anulam: que se eu me jogar, otimista, em uma relação com alguém que não tem nenhuma intenção de me amar, eu vou me anular. É ciência. 

Era o que eu deveria ter feito: parar de me anular. Mas nem sempre a gente faz o que deve ser feito e eu tratei de me convencer que matemática era uma coisa sua, não queria tirar isso de você. Fingia não saber como derivar, não entender o resultado da força sob a massa e a aceleração para que você tivesse o que, feliz, me explicar. É bobagem pura, agora eu sei. Como também sei que só descobri isso, só descobri a minha insensatez com sua ajuda. Entenda, era hábito antigo meu: insistir em me diminuir para elevar as pessoas ao meu redor, deixá-las felizes. Já cansei de esconder nota boa para não ofender os amigos, cansei de fingir não saber calcular para não competir com os meninos, já calejei de tanto cair em jogo de futsal para deixar que minhas amigas vissem que, sim, elas eram melhores que eu. Já tropecei em aula de dança para não deixar alguém constrangido sozinho, já desafinei para encorajar gente mais tímida a cantar, já até ignorei uma aprovação no vestibular porque uma amiga não havia passado. Loucura, eu sei, mas só percebi que isso era loucura com você, porque você foi além de todas as outras pessoas. Você conseguia me fazer sentir culpada por ter qualidades que você não tinha e, de repente, eu comecei a desacreditar de mim. De tanto fingir que era incapaz, chegou um dia em que eu não sabia fazer mais nada.

Eu queria mesmo era bater no peito, hoje, e dizer que fazer o que fiz - me anular, me diminuir, me decompor em pedacinhos- ajudou alguém em alguma coisa. Queria que os aniversários que perdi, que as vezes que deixei de me colocar, que as vezes que ouvi mentiras quando já sabia a verdade, queria que tudo isso tivesse servido para alguma coisa e tivesse sido um presente meu para as pessoas. Mas não foi. Não há heroísmo nenhum em se anular em prol de alguém, o amor genuíno jamais pediria isso. Só percebi isso quando percebi que não havia amor entre nós, o que havia era um anseio meu em agradar as pessoas a qualquer custo,  isso não é amor. 

Acabou que nunca presenteei ninguém com esse meu tal altruísmo distorcido. A única coisa que consegui dar às pessoas foi o direito de me diminuir, dei espaço para que me dissessem coisas que eu não merecia ouvir, me dessem tarefas que não cabiam a mim, e um tratamento muito inferior ao que me é digno. Hoje, não posso dizer que estou orgulhosa mas agradeço a você e a todas as pessoas que me fizeram sentir inferior, vocês me mostraram que a única coisa que a gente ganha quando se diminui para agradar alguém é a consequência de não cumprir a missão mais importante de todas: cuidar de si mesmo.

Ane Karoline

imagem: we heart it

Ontem foi domingo e ninguém me ligou. Eu só percebi isso hoje quando, por sinal, alguém me ligou. Foi o maior susto porque quase ninguém me liga e eu, também, quase não ligo para ninguém - me importo com um monte de gente, mas não ligo para elas. Por isso, hoje quando o telefone tocou, me espantei. Assombro gostoso é esse de quando a gente é tomado no susto porque não estava esperando nada e nem ninguém. Não que eu seja desesperançosa, pelo contrário, eu espero por um monte de coisas: ganhar na loteria, a descoberta da cura do câncer e que minha vizinha responda ao meu bom dia. Mas não espero por ninguém, não estou esperando por ninguém. Não espero que ninguém apareça, que ninguém fique e, muito menos, que ninguém volte. E não é por falta de gente, tem muita gente que vale a pena. Inclusive, eu amo muita gente vividamente: sem dúvidas, sem poréns, sem julgamentos e sem fingimento. Mas não preciso ligar para essas pessoas para amá-las. Ontem, no domingo, não liguei para ninguém e continuo amando um monte de gente. 

 O que acontece comigo é eu sou livre. Não alimento e nem crio relações baseadas em dependência -física ou psicológica. Eu digo isso sempre que conheço alguém: eu sou um espírito livre. As pessoas desacreditam disso, até perceberem que eu não atendi ao telefone por estar muito entretida com um, céu, um filhote de cachorro ou uma canção. A ausência da minha ligação não é desleixo, é harmonia: imagina se te ligo e te roubo da primeira festa de aniversário de sua prima caçula? Não ligo não. Inclusive, antes de ontem era sábado e eu só fiz uma ligação, para a pizzaria. Sábado eu não falei com nenhum dos meus amigos e até hoje não sei o que estavam fazendo mas lembrei deles: minha amiga, que gosta de pizza de banana, me ensinou a comer pizza doce- e foi uma dessas que pedi, quando liguei para a pizzaria. Isso não tem preço, digo, essa oportunidade de estar ligado a alguém sem estar preso. Estou ligada à minha amiga fã de pizza de banana, sempre vou me lembrar dela quando vir uma pizza doce, mas posso aproveitar uma pizza doce sem estar fisicamente com ela. Esse é o meu fascínio com a liberdade: nos abre portas para conhecermos o mundo.

Por ser livre é que tudo me cativa. De alguma forma, tudo que vejo, sinto, ouço, leio, me constrói um pouquinho mais, mas sem me amarrar. É por não estar amarrada por certezas, que me permito aprender mais. É por não estar presa a ninguém, que me permito ver as pessoas, além de olhá-las. É por não estar presa a uma personagem, que me é possível reinventar quem eu sou. Funciona de um jeito tão natural que me seria impossível de explicar com fidelidade, mas é mais ou menos assim: eu achei que eu não gostava de sushi, não entendia a lógica de comer um peixe cru, mas um alguém muito gentil me levou para comer sushi e, apesar de ser desconhecido, eu provei. Agora eu gosto de sushi. O desprendimento da minha alma me abre portas, oportunidades e a mente. 

Foi por isso que mais um domingo se passou sem que eu percebesse que ninguém havia me ligado: estou ligada a um monte de gente mas ontem não as vi e nem falei com elas, porque eu estava conversando com outras pessoas e provando caldo de abóbora pela primeira vez. Também não esperei que ninguém me ligasse porque certeza é uma cela da qual estou liberta. Jamais quero ter a certeza que alguém vai me ligar - imagina se alguém me liga por obrigação? Em nome de tudo que é mais sagrado: não quero. Eu sei que é um choque, eu mesma me assustei quando percebi que não sou grudada com nada, mas já aceitei a autonomia do meu ser e, ainda, quero mais. Quero ser sempre mais livre do que fui no minuto anteirior. Quero ser sempre solta, leve, e receber ligações de alguém que me liga porque, realmente, anseia em falar comigo, não para mostrar isso. Quero uma soltura de uma forma tão singular que chego a pensar que liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome.


Ane Karoline, 
(Quarto texto do desafio "15 dias escrevendo sobre")

imagem: pinterest

Dona Maria Lúcia pariu duas vezes, mas criou três crianças. Duas crianças eram suas; nascidas de suas entranhas, geradas em seu ventre. A outra criança era fruto de outro ventre, de uma outra mulher que, assim como dona Maria Lúcia, tivera um romance marcante com o Luís da Cunha - pai das três crianças e de algumas outras que andavam por aí, Deus sabe onde. O filho dessa, ficou para Dona Maria Lúcia terminar de criar e apesar de serem meio- irmãos, ela não fazia distinção entre as duas meninas e o menino: onde come um, comem três. E comiam mesmo. Graças a Deus, estavam sempre alimentados - mesmo que ela não estivesse.

A mais velha das meninas, nascida de dona Maria Lúcia, era a Luciana. Ela gostava que a chamassem de Lu porque remetia à Luz e fazia com que se sentisse especial, iluminada, e não precisava dividir isso com ninguém, seu nome, apesar de que era acostumada a dividir coisas. Cresceu assim: dividindo tudo, sem saber. Não sabia que dividia porque, para ela, nada era dela - tudo era de todo mundo. Dividindo bem, todo mundo ganha um pedaço de bolo, uma peça de roupa e uma parcela de culpa. 

Letícia era uma das três amigas de Luciana, as outras duas eram: a irmã mais nova e a vizinha. As quatro tinham quatro coisas em comum: eram mulheres, eram pobres, eram fortes, eram felizes. De resto, não tinham mais nada em comum, eram opostas. Opostas que se alegravam em se ajudar- uma blusa emprestada aqui, um conselho ali, um restinho de rímel misturado com azeite,  uma noite da pipoca, um consolo, umas broncas, umas brigas e uma certeza: iam se apoiar até chegarem lá - onde quer que fosse esse lá.

O bairro era um daqueles não planejados, surgira da necessidade primeira de alguém: pertencer a algum lugar. Esse lugar, especificamente, era abarrotado de casas pequenas - com tetos baixos e gastos- envoltas em um emaranhado de fios que pendiam dos postes bambos. Dona Maria Lúcia morava sob um desses tetos baixos, do qual ela se orgulhava e não media esforços para manter tudo organizadinho: ser pobre não é ser sujo, ela dizia. Era a imagem que ela tinha de gente pobre: limpa. A vizinhança era de gente humilde, não pobre - pobre e humilde não é a mesma coisa. Era um povo assim: não deu certo hoje, amanhã vai melhorar; o governo vai mudar; alguém da família vai engajar; tudo vai se acertar. Um povo, operário, com muito em comum. As meninas, ousando e sob esforço, tiveram a chance de tomar um caminho diferente de suas mães - estudavam, levantavam bandeiras e iam para o samba no final de semana. Os meninos, incluindo o filho-enteado de Dona Lúcia, seguiam tentando entender se gostavam ou não dessa conversa de mulher atrevida, enquanto as convidavam para um cinema, matando aula, na segunda-feira à noite, quando é meia entrada para todo mundo. A segunda-feira do cinema e o samba do sábado eram quase democráticos: quase todo mundo tinha vez.

Diante dos holofotes, talvez nunca seria a vez dessa gente: gente que sabe o peso que tem os novecentos reais no bolso no quinto dia útil do mês, mas nunca carregou a leveza de comer o que quisesse no meio do mês; gente que não ganha um carro aos dezoito, mas não deixa de ganhar um bolinho com guaraná no aniversário. Versátil, essa gente que lava a própria roupa, faz o próprio café, as próprias unhas e o próprio TCC. Esperta, essa gente que corre atrás de ônibus, de oportunidades e de sonhos. E sonhar, que ainda é de graça, é que o salva essa gente forte que só tem a opção de fazer de si mesmo seu próprio salvador. 

Ane Karoline
(Quarto texto do desafio "15 dias escrevendo sobre:")



Nunca é suficiente. Foi o pensamento que me ocorreu hoje, depois de passar a noite escrevendo e reescrevendo a mesma frase, na tentativa de começar um texto, o melhor texto de todos os meus textos. A insuficiência ficou martelando em minha cabeça o dia todo, virou um pensamento pesado e fixo. Não era poesia, esse pensamento, era uma constatação. Constatação que, claro,  não veio do nada, sendo eu uma pessoa de pensamentos concludentes, nascidos, sempre, a partir da junção de vários fatos e fatores. O negócio começou a germinar logo de manhã, enquanto me aprontava, percebi que o espelho do quarto não era grande o suficiente. Além disso, estava meio torto, meio sujo, meio espatifado. O tal do espelho foi a fagulha causadora do incêndio. De repente, o quarto era pequeno, os livros eram poucos, a cama dura, as paredes sujas, a própria casa estava mal localizada. Um incômodo horroroso aquilo tudo gerou em mim e, assim, saí para encontrar o dia de hoje: incomodada. 

Realmente aborrecida, comecei a notar o tempo e achar que este, tampouco, me era suficiente: já acordei atrasada. Comecei logo a pensar em todos os meus atrasos; a prova que perdi há alguns anos, o começo do filme que não vi no mês passado, o atraso das contas, a demora da formatura, o mestrado que não chega nunca, o romance que não sai do terceiro capítulo e o tardamento em me sentir satisfeita: nunca é suficiente. Nunca estava saciada porque quando eu não era atrasada, era prematura. Terminava coisas antes do tempo por não estar satisfeita com elas, até para nascer, eu nasci antes. Os relacionamentos, encerrei todos antes do tempo, não satisfeita, achei que não fossem vingar. Os bolos, estraguei vários, por abrir o forno antes da hora. Foi nessa história de que nada, nunca, me é suficiente que eu saí pensando hoje de manhã.

A coisa do aborrecimento é que ele cega a gente. E eu hoje, tão ocupada em estar aborrecida, nem vi quando tropecei em uma tigela de água na porta de uma vizinha que mora a três casas de distância da minha. Era uma tigela redonda, com água limpa, que não deveria estar ali. Eu, comedida que sou, não fiz alarde, me limitei a olhar minha calça jeans molhada e constatar: já não estava boa mesmo. O minuto e meio que passei ali, olhando para a barra molhada da calça, me apareceu uma senhora toda de azul, com um cabelo grisalho molhado. A mulher já me apareceu com a mão na testa, como quem já  tivesse visto meu incidente com a tigela dela. Respirei, olhei para ela, e já fui logo falando:

- A senhora vai me desculpar mas não vi sua... Tigela de água limpa do meio do rua? Pois bem, eu não a vi e derrubei toda a sua água.

- Não é minha não.

- Ah, entendo. Então, tudo bem. - ela parecia meio avoada, resolvi sair logo.

- É dos cachorrinhos, sabe? Os de rua.

Fui catando a tigela do chão, já que ela não parecia se incomodar em fazer isso.

- Sei... Mas a senhora sabe que só isso não é suficiente, né? A gente alimenta um ou outro aqui, mas eles acabam morrendo aí, pela rua. 

Ela nem se alterou e nem pareceu surpresa.
 
- Ah, eu sei. Nada é suficiente. Imagina a gente, desse tamanhinho, fazendo alguma coisa completa. A gente não faz nada para ser a solução não, a gente faz um pedacinho só. Um pedacinho hoje, um pouquinho amanhã.  Aí, juntando tudo, depois vira uma coisa grande. Se eu fosse tentar salvar todos os cachorros abandonados, eu já tinha endoidecido. A gente, quando quer abraçar o mundo, e vê que não consegue, fica achando que não presta para nada, que nunca é suficiente. 

Saí dali olhando meus braços débeis, incapazes de abraçar o mundo todo de uma vez; as mãos raquíticas, para uma pessoa adulta, incapazes de escrever um romance best seller em seis meses. Saí dali insatisfeita, mas disposta a escrever uma página de cada vez. Nunca vai ser suficiente e é para isso que serve meu minuto seguinte: dar mais um passo. 

Ane Karoline.

(Segundo texto do desafio " 15 dias Escrevendo Sobre:")




reprodução/internet


Era uma manhã ensolarada de domingo, mesa do café da manhã posta e linda - café feito com muito carinho pela minha mãe - e pássaros cantarolando no jardim. Minha mãe veio até meu quarto, abriu as cortinas e me chamou para o café da manhã, e assim, também, o fez com Maria, minha irmã mais nova. Enquanto meu pai, como de costume, sentado à mesa, lia seu jornal. Estávamos nos preparando para o almoço em comemoração às Bodas de Ouro dos meu avós.

Após o café da manhã, entre brincadeiras e risadas, minha mãe pediu para que eu e Maria fôssemos nos aprontar. E meu pai, levantando-se da mesa, sentou-se em sua poltrona e manuseava folha por folha do jornal. De repente, as páginas do jornal se movimentaram com um vento que acionava todas as páginas do jornal: minha mãe e Maria que se moviam de um lado para o outro. Minha mãe arrumando a cozinha, passando roupa, etc. Minha irmã questionando o que usar. Observando toda aquela movimentação, perguntei ao meu pai:
- Pai, não vai se aprontar?
- Estou esperando sua mãe terminar de passar minha camisa - disse meu pai
- Mas, pai, por que o senhor mesmo não faz isso? - perguntei
- Isso é coisa de mulher, João. Assim que sua mãe terminar, eu irei me vestir. Vá terminar de se arrumar - disse meu pai com a voz brava
-  Tudo bem então, mas hein pai, o senhor sabe onde coloquei meu tênis branco que ganhei do vovô? - repliquei
- Não. Vá até o quarto e pergunte sua mãe, ela deve saber – disse estressado com tanta pergunta
E, assim, fiz o que ele havia me ordenado.
- Mãe, a senhora sabe está aquele tênis branco que o vovô me deu?
- Filho, eu lavei ele ontem e está dentro do seu guarda-roupa, na terceira prateleira de cima pra baixo e atrás do tênis que você comprou na semana passada - expressou minha mãe
Voltei para o meu quarto, calcei meu tênis, sentei no sofá próximo ao meu pai e continuei a observar, enquanto minha irmã gritava incessantemente pela minha mãe.
- Manhê, socorro! Eu não estou achando o vestido que usei no aniversário da Rafa. A senhora sabe onde está? - perguntava Maria
- Filha já estou indo, só um momento - disse mamãe
Minha mãe, saindo do quarto, parou na frente do meu pai e pediu para ele ir se vestir, pois sua camisa já estava passada. Meu pai levantou-se e foi até o quarto. Quando, de repente, o ouço chamar pela minha mãe.
- Amor, traz pra mim um copo com água, aqui dentro está muito quente. E traz aquela bermuda azul que está estendida lá fora, na área de serviço - gritava meu pai
Minha mãe, já suada de tanto andar de um lado para o outro, de fazer isso e aquilo, enfim, consegue entrar no banheiro, tomar banho e se arrumar. Ela saiu do quarto linda, radiante e super animada com o almoço que logo mais tarde iria realizar-se.

Já dentro do carro, com toda a família a caminho da casa do vovô e da vovó, minha mente barulhenta pensava em tudo aquilo que eu havia presenciado naquela manhã. É mesmo o papel da matriarca de cuidar da casa, dos filhos, lavar, passar enquanto o patriarca folheia seu jornal sentado em uma poltrona confortável? É só dela o papel de cuidar dos filhos? E eu como filho, estou disseminando essa cultura?
Então comecei a refletir, sobre mim e minhas atitudes. Eu, cego sob minhas ideologias miseráveis; com aquele papo de que lugar de mulher é na cozinha (risos), hoje tenho vergonha disso, e percebo que foi necessário para o meu crescimento como ser humano e intelectual. Há males que vêm para o bem, não é mesmo?  É errando que se aprende!

Agora, torço para que num futuro próximo, não exista mais esse negócio de “ismo” e que todos possam viver em paz, sem distinção de sexo, cor e raça. Um respeitando o outro, colocando em primeiro lugar aquele sentimento que falta muito nos dias de hoje: O AMOR!


Obs: A historinha contada acima é fictícia, mas é um relato que ocorre diariamente em vários lares brasileiros

Romário Rocha



Seis meses era também muito tempo para ele. Ele não se recordava de tudo que fizera nesse tempo. Porém ela, lembrava de tudo. Cada detalhe- até do dia em que ele percorreu Paris com a camisa do lado avesso. Ele não se lembrava nem, ao menos, que estivera em Paris. O tempo, mesmo que compartilhado, passava diferente para ambos.

Ela: intensa, sensível e visionária. Não era a pessoa que se encontra em qualquer esquina, ou em uma mesa de bar. Era a pessoa que você iria encontrar perdida em pensamentos, ou caindo em uma freada brusca, em meio a um trânsito caótico- pelo simples fato que ela estaria tão distante, observando o vai e vem da cidade. Já ele, ele seria: O cara! Aquele cara despercebido, desatento, porém, pé no chão. Com o tipo de fisionomia que combina com o cinza do concreto. Eram distintos, mas eram complementares. Ela era o que faltava nele e virse-versa.

Mas a vida não é um conto de fadas, nem um enredo de filme romântico. Na vida real seria difícil doarem-se um ao outro, em meio a um mundo de possibilidades. Entretanto, o destino ou simplesmente as nossas escolhas, realizam pequenas mágicas, e foi em um desses passes de mágica, que a vida uniu os caminhos.

A neblina tomava conta da cidade. Carros, pessoas e ônibus iam e vinham. As luzes de natal piscavam num ritmo que para muitos era imperceptível. Todos tinham pressa, exceto ela, que fotografava cada detalhe que lhe chamava a atenção. A cada registro ela sorria, encantada, observava a foto como se ali estivesse a ver pela primeira vez Monalisa. Cada passo, uma fotografia e o êxtase tomava conta de si; a caricatura de uma criança que ganha um brinquedo novo. Ali parecia ter todo o tempo do mundo e,por mais que não tivesse, ela acreditava nisso.

Do outro lado da rua, alguém nutria o sentimento de que o tempo mesmo que infinito nunca seria o suficiente. Eram mil coisas na mente, mãos e pés não pareciam ser suficientes. Ele desejava agarrar o mundo ali e agora, por crer que não teria tempo para isso futuramente. Enquanto pensava em tudo que teria que fazer, o tempo passava, impiedosamente. E nada ele realmente fazia para aproveitá-lo. O tic-tac do relógio soava em sua mente, quando de repente: um clarão. Desordem. Susto. Uma mão gélida. Por segundos, ele acreditou estar morto. Uma voz angelical sussurrava palavras em seu ouvido, ou distante dele, ele não sabia distinguir; poderia ser um anjo, ou qualquer outra coisa. A melodia da voz o acalmava e acalentava. “Estou morto”, disse. Abriu os olhos. Mirou em um olhar negro, que lhe olhou de volta, e o penetrara a alma e o e livrara de todos os pensamentos que lhe encurralavam. Encheu-se de um sentimento que não reconhecia, jamais havia sentido. Assim passaram-se alguns minutos e pela primeira vez na vida ele não pensava em agarrar o mundo, mesmo que tudo que ele acreditava ser o mundo, estivesse bem na frente dele.  A partir daquele momento, não eram mais dois indivíduos distintos, passaram a ser um.

Nem tudo são flores, pessoas guardam segredos, histórias e medos.  Dali em diante, o mundo foi pequeno. Por vezes, ele conseguiu segurar em seus braços o que agora era o seu mundo. Ela captava cada detalhe dos universos que percorria e aos poucos, escrevia sua história por onde passava. Ele não compreendia ao certo o porquê de tantos lugares, histórias, fotos e lembranças. Se os dois eram complementares, assim o seriam em qualquer lugar, pensava consigo.

Em uma tarde ao pôr-do-sol ela recordava com ele cada lugar que visitaram: a primeira foto da viagem, os sotaques, comidas e sonhos. Não poderiam deixar de lembrar de como se conheceram e de cada cerimônia de casamento que tiveram. O amor era infinito, mas o tempo não. Em meio às recordações, ela pegou uma rosa, das flores que os cercavam, arrancou pétala por pétala ao relembrar as histórias que os fizeram chegar ali. Pegou a mão do amado, a encheu de pétalas e fechou. Beijou os lábios dele e encostou a mão dele em seu peito, ele sentia cada batimento dela: ritmo lento, como uma canção de ninar.   Eles se abraçaram e as pétalas voaram pelo ar.
A partir de então, ele descobriu que o tempo começou a tic-taquear diferente para eles. Seis meses era bastante tempo para ele. Seis meses era, também, bastante tempo para ela. Mas os caminhos, ao final, seriam diferentes. O motivo: Ela florescera e ele terá sua rosa colhida.

Evelin Mendes
Codinome Beija-Flor - página 67


imagem: we heart it

A loucura era que todos os dias me eram iguais: começavam antes que eu estivesse pronta, me atropelavam um amontoado de acontecimentos e, no fim, uma exaustão e uma sensação de que não havia feito nada do que deveria. Nesse marasmo, todos os dias fazia questão de escolher a bandeja verde no refeitório da faculdade e escolher, com cautela, o lugar em que me sentaria. Sem perceber, cultivava uma fagulha de esperança em meio aos meus dias cinzas. Foi em um desses dias, escolhendo um lugar para sentar,  que eu vi outra bandeja verde.

Ela era uma moça de estatura mediana. Os cabelos, desengrenhados, estavam presos em um rabo de cavalo deixando o rosto dela nu. Não parecia pensar em nada, não era tranquila e nem agoniada - apenas era. Estava ali, ocupada sendo ela mesma, como tantos outros o estavam naquela manhã cinzenta de uma quinta-feira qualquer. A manhã era como ela: não se destacava entre as demais mas, com certeza, tinha uma existência única e fundamental. Muitos não a viam, como não veem as várias manhãs que passam indistintas como páginas no calendário. Mas, naquele dia - não sei se por acaso, destino, distração ou identificação- eu a vi. Me vi nela: uma alma, dentro de um corpo, querendo existir. Não é o que somos todos, afinal? Tanto nela me vi que me senti convidada e fui sentar-me com ela. 

Como costumeiro da vida cotidiana, não conversamos. Imersas nos mundos de nossas próprias bandejas, nos assustamos com o barulho seco de algo caindo no chão. Peguei o livro  e fui entregá-la, era um dicionário português-francês. Olhando para ela, entreguei o dicionário e, só quando  ouvi o "Merci" acompanhado de um aceno de cabeça, eu percebi: uma francesa. Eu não falo francês. Poderia responder-lhe em outras quatro línguas, mas não na dela. O sorriso que ela me deu me mostrou que não era necessária, uma resposta, nem mesmo suficiente. Foi um sorriso tão breve, mas carregado de cumplicidade e simpatia o suficiente para acender em mim uma fagulha de fraternidade - há muito perdida. Então eu reparei que essa fagulha de fraternidade só apareceu porque eu senti, nela, o amor. 

Terminamos nossas bandejas, e eu saí de lá assim: a bandeja verde, de esperança, o coração aquecido, de amor. Saí desse tal dia, vendo tudo colorido e sabendo que o amor que carregamos dentro de nós não é lá tão diferente: somos todos gente. Todos confusos, buscando um caminho. A loucura é ter esperança na fraternidade em meio à tanta desavença, mas o meu lado da força é esse e eu vou ousar afirmar que se nos respeitarmos e nos permitirmos ser, podemos crescer e florescer. 

com amor, 
Ane Karoline


A rotina do dia pesava sobre as costas muito bem vestidas. Aquele terno era parte de uma realidade na qual há muito não se encontrava. Reminiscências de outra época: Aquela que fora realmente feliz. Sua vida perfeita havia sido destruída por uma única jogada errada. Tudo se perdeu. Se foi seu prestígio no escritório, seu renome, seu dinheiro, sua mulher e filhos... Tudo que um dia foi bom acabou sendo levado pra longe. Seu destino era como a criança sádica do parquinho, dando-lhe tudo que sempre quis somente pra poder tirar-lhe no final.  Essa última, sua esposa, doeu mais. Doeu muito. A ponto de fazer com que pensasse em se matar tantas e tantas vezes e, ainda assim, ser covarde o suficiente pra continuar vivendo. Como poderia culpá-la? Aquele homem que já teve tudo era o mesmo que agora tinha de pegar o metrô para ir trabalhar, sob o risco de não ter o que jantar no fim da noite. Sequer se considerava um homem, era só fração daquilo.
Naquele dia em especial, teve a infeliz ideia de andar para espairecer. Afinal, em uma vida desgraçada, tudo parece sufocar. Precisava de ar. Ar que fizesse circular o sangue, ar que o fizesse pensar melhor, ar que fizesse a ansiedade da vida em declínio ir embora. Ironicamente, naquele dia choveu. Em meio a um mês de fins de tardes quentes e céu limpo, naquele dia o céu decidiu desabar sobre sua cabeça, como todo o resto do mundo. Inutilmente, tentou utilizar o jornal velho que carregava consigo para cobrir-se dos respingos. Que ingenuidade a sua! Aquela chuva estava longe de ser só garoa e na medida que engrossava, fazia seu andar se apressar, findando em uma corrida desesperada por abrigo.
“Onze horas da noite.” Pensou consigo mesmo. “Onde vou achar um lugar aberto?!” E porque talvez o destino estivesse cansado de brincar com sua cabeça, um barzinho velho despontou no final da rua escura. Era sujo, estranho, mas o único lugar que tinha suas luzes acesas, ainda que as portas estivessem fechadas. Não pensou duas vezes ao correr até lá, empurrando a porta que parecia emperrada. “Não tem ninguém!” Chutou uma poça com raiva, desistindo de tentar se cobrir com o jornal ensopado.

Como um anjo, uma jovem saiu detrás do balcão, abrindo-lhe um sorriso apressado e se adiantando para abrir a porta. Não pensou em nada, só entrou. Ao menos ali estava seguro da tempestade que estaria por vir, ainda que não fizesse ideia do porque seus pelos da nuca se arrepiaram.
— Graças a Deus! Achei que não tinha ninguém aqui...
A garota sorriu com simplicidade, mas de uma forma que julgou no mínimo encantadora.  
— Tudo bem. Já estávamos fechados, mas não iria te deixar na chuva.
Algo no tom da voz dela o fez acalmar. Talvez fosse o fato de que pela primeira vez em semanas, alguém havia lhe tratado com gentileza. Bateu as mãos nas roupas, tentando se livrar do excesso de água. Ela havia sido gentil, ele também seria com ela.
— Acho que eu poderia beber algo, pra compensar o incômodo de ter de me abrigar aqui.
— Não é incomodo algum..
Ela sorriu, caminhando na direção do balcão e se posicionando atrás dele, voltando a secar uns copos que estavam ao alcance da mão. Aquilo mais parecia uma desculpa, pois nenhum deles parecia sequer molhado. Será que estava com medo dele? Talvez tivesse se arrependido de tê-lo deixado entrar. Sentou-se em um dos bancos, escorando-se na bancada. Ficaria bem ali, onde pudesse vê-lo. Sem saber o porquê, achou que deveria ser também gentil.
— Pode me servir um copo de uísque?
De pronto se apressou em entregar-lhe um copo bem servido de White Horse, que ele agradeceu com um sorriso ameno. Bebericou de qualquer jeito, relaxando o corpo cansado e frio sobre o balcão.
—Dia difícil?
— Nem me fale... O pior de todos. – suspirou. — Acho que preferia estar morto.
— Preferia?
Ela riu de uma forma engraçada, a reação completamente oposta a que ele achou que seu comentário iria causar.
— Não sei.. Talvez eu já esteja. – deu de ombros – O que poderia ser pior que isso?
— Huummm – ela pensou, estreitando o olhar. — Talvez o inferno.
O inferno. Sempre foi um cara que acreditou que o inferno era a própria Terra. Os acontecimentos dos últimos meses só confirmaram suas crenças. A lançou um olhar desdenhoso.
— Acho que o inferno é superestimado no final das contas.
A risada que recebeu em troca do gracejo foi gostosa, boa de se escutar. Aquela garota não era bonita e vestia roupas que haviam saído de moda há pelo menos dez anos atrás, mas algo nela era atraente. Talvez fosse porque ela era de fato um sopro de vida em meio a tantos dias mortos. Por isso conversaram. Conversaram por uma hora que passou em menos de dez minutos. Estava tão descontraído que nem se deu conta que lá fora, a chuva já havia passado. Sentiu um pesar comprimir o peito. Aquela era a única pessoa com quem tinha realmente tinha tido uma conversa decente, fora do automático e acabou percebendo que aquilo fazia falta. Queria conhecer mais sobre aquela garota, muito mais.
— A chuva parou.. – disse ele.
— É, parou.. – respondeu.
Um segundo quase constrangedor de silêncio se instalou entre eles, até que ele finalmente deixou vir à tona seus pensamentos.  Culpe o quarto copo de uísque, mas sentia que havia uma conexão palpável entre eles.
— Escuta, não quero parecer pretensioso..  Mas possivelmente eu não vou voltar aqui depois que sair por aquela porta... - pigarreou um tanto desconcertado - Então, pensei que talvez pudesse pegar o seu número.
As bochechas da jovem coraram. Pegou um pedaço de papel e uma caneta, se colocando a escrever, enquanto ele avaliava os traços daquele rosto um pouco pálido pela falta de sol. Tomou o último gole da sua bebida e se colocou de pé, pronto para sair. A moça empurrou pequeno pedaço de papel em sua direção, recolhendo as mãos acanhadamente. Talvez não fosse tão comum assim que acasos a levassem a um potencial encontro, então tentou dar a ela o crédito da surpresa. Sorriu, encorajando-a enquanto guardava o papel no bolso. Queria dizer alguma coisa, mas um barulho ecoou pelo bar vazio, chamando sua atenção para os fundos.

O semblante da garota mudou no mesmo instante, ficando nervosa e agitada. Fechou os olhos, como se algo de muito perturbador estivesse prestes a acontecer. Estava ávida e sobressaltada, genuinamente com medo. Mas porque?
— Se não se importar, eu tenho que ir agora. – Apressou-se, saindo de trás do balcão. — Acho que meu pai voltou.
O homem se frustrou com a ideia da outra o deixar sozinho e até tentou impedir, mas ela já havia desaparecido em direção aos fundos do bar. “Eu te ligo.” Pensou intrigado com a súbita mudança no comportamento da jovem. Será que seria muito estranho, caso decidisse segui-la? Guiado pelo instinto, caminhou na direção onde a outra havia sumido segundos atrás e para sua surpresa, o que saiu de lá foi um homem grande, careca e com uma espingarda muito bem carregada nas mãos.
— O que diabos pensa que está fazendo, invadindo o meu bar?!
Ergueu as mãos por instinto de preservação, arregalando os olhos para o careca grandalhão à sua frente.
— Invadindo? Não! Estava chovendo lá fora então a menina me deixou entrar! – foi tudo o que conseguiu dizer em sua defesa, logo recuando dois passos largos.
— Que menina?! Você está louco? Eu estou sozinho! – o homem retrucou com azedume. — Estava nos fundos arrumando as coisas e ouvi ruídos aqui. Como ousa invadir o meu bar?! – apontou a espingarda para o rosto do homem, já branco de medo. — Vou te matar por isso.
— Por favor! Ela estava bem ali, atrás do balcão. Foi ela quem me deixou entrar! – a exasperação não o deixava formular sentenças coerentes, tudo o que realmente queria era salvar sua pele. — Nós ficamos conversando enquanto eu bebia uísque! Eu não estou mentindo! Ela.. ela.. – o suor descia gelado pela testa. — Ela era morena, mais ou menos um metro e sessenta. Sardas no rosto e olhos cor de mel! Eu não estou inventando. Ela deve estar por ai em algum lugar!
A expressão do homem mudou por completo, mas ele não soube identificar se era tristeza ou ofensa. Abaixou a arma só o suficiente para se encararem.

— Você está dizendo havia uma garota aqui? – passou a mão por detrás do balcão, puxando um porta retratos. — Essa garota?!
O homem estreitou os olhos, vendo a imagem perfeita da garota que o acolhera, abraçada ao brutamontes arrogante. Era ela! A mesmíssima pessoa com quem passou uma hora extremamente prazerosa, minutos antes. Conservava o mesmo sorriso tímido, o mesmo olhar meio insano.. Parecia até que estava olhando pra ele. O outro homem, por sua vez, parecia muito mais novo e não ostentava nem de longe aquela carranca amarrada ou mesmo a barriga protuberante.
— Sim! Foi ela mesma! É sua filha?
Um tiro. No chão, mas passou perto demais.. O grandalhão fincou o porta-retratos no balcão com força.
— Como se atreve a falar que minha filhinha esteve aqui?! – engatilhou a arma novamente caminhando com raiva em sua direção.  — Minha filha morreu há dez anos atrás!
E mais um tiro, só que esse realmente pegou. Dor. O tiro pegou de raspão, mas doía como se etivesse cravada em seu braço. A morte estava tão próxima que podia sentir seu cheiro. Saiu em disparada, correndo o mais rápido que pode, sem saber que seu braço sangrava. Pulou cadeiras, jogou mesas para trás, tudo no intuito de desviar a atenção do homem e tentar salvar sua vida.

O coração batia tão forte que por um segundo achou que fosse sair pela boca. Puxou a porta e saiu, batendo-a logo em seguida. E correu. O máximo que pode. Sem olhar pra trás. Até suas pernas vacilarem. Quando não conseguiu mais, sentou-se no chão, resfolegando. Não havia sinal do grandalhão e tampouco sabia exatamente estava ou quanto tempo havia corrido. O que diabos estava acontecendo? Aquele homem falava coisas, mas não fazia sentido algum. O pânico se apoderou dele. Será que a garota estava bem? A expressão de pavor no rosto dela não lhe saía da cabeça e agora conseguia entender o motivo: Seu pai era louco!

Precisava falar com ela, saber se estava bem ou se, no ápice da loucura, seu pai não havia lhe feito mal. Apertou a palma das mãos contra os olhos e as luz do poste piscou três vezes, fazendo um calafrio percorrer o corpo. A sensação era de que estava em um pesadelo e não conseguia de fato sair dele. O que fazer? Deveria ligar para a polícia?

Ligar.
“O telefone!”
Enfiou a mão nos bolsos, sacando o celular e o pedaço de papel que havia ganhado da garota. Se ela atendesse, saberia que aquilo era loucura! Desejou que ela estivesse bem, com toda a sua alma. Suas mãos tremiam, geladas pelo susto e pelo clima, mas ainda assim conseguiu - na terceira tentativa - desbloquear o telefone. Desdobrou o papel com cuidado.“Por favor, que não tenha me dado seu número errado..” Esticou-o sobre a perna dobrada, se esforçando para ler em meio a pouca claridade. Para a sua surpresa, não havia números ali. Era uma mensagem simples e de fácil compreensão.
“Você implorou para estar morto. Eu vou voltar pra te buscar.”

Raíssa Barreto