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Eu não sei se vocês sabem, mas nós aqui de baixo também sentimos. Digo, sei que a ordem aí é fazer rir da cara de quem sua a camisa para manter o país de pé. Sei também que, via de regra, a comédia é para ser feita de nós, sei que somos o elenco engraçado da novela das oito: nosso jeito de falar, nossas roupas de flanela que nunca passaram nem pelas portas da forever 21, nossa coleção de sacolinhas para colocar na lixeira dos nossos banheiros de meio metro quadrado. Somos uma alegoria, vem ver, basta ligar a tevê: morreu, matou, roubou, sucumbiu no corredor do hospital. Os nossos costumes e desgraças fazem a graça da família real. Sei de todas essas coisas, e dumas outras que vocês nem suporiam que alguém que vem de onde eu vim saberia. É por saber, que venho dizer: nosso sentimento também existe, de desespero a gente tem rido, nosso riso é latente: para vocês é um latido. 

Por desesperador que seja, fator de distração, nosso riso - do quão ridícula é essa situação - soa como latidos repetidos: incomoda. Não querem nos ver; querem que sejamos só o backstage, nunca os protagonistas - quem limpa, cuida, aplaude; quem nunca é aplaudido. Isso porque somos o oposto da ideia de perfeição de vocês, assumimos nossa incompletude, não há farsa em nossas mazelas: estão tatuadas em nossa pele - seja nas marcas de Sol, que a falta do protetor solar causa; seja nos calos nas mãos por limparmos as suas casas e as nossas próprias. Somos marcados demais, para que sejamos incluídos no conceito de "perfeição clean" de quem finge que de mãos brancas não escorre sangue negro, indígena, mulato. Somos a marca indelével de que, aqui nesse chão, há o costume de se contruir castelos sobre as cabeças das vidas que parecem valer menos; aqui, tem se feito lucro assim: roubando a parte de quem não é visto. Assim, nossa existência, que é uma resistência, deve ser muito incômoda. Que inoportuno, que grande estorvo deve ser, para quem está aí, admitir que, sim, coexistimos, somos feitos do mesmo barro e pó, nós e vocês teremos todos a mesma fetidez após três dias de morte. É por isso que nos pintam como asquerosos quando, na verdade, somos compositores, têm medo da força que temos quando juntos. 

De compositores que somos, até com nossa desgraça vim compor, escrevo agora como quem grita em silêncio: eis me aqui. Empresto minha voz aos meus, aos que olham o mundo, construído por suas próprias mãos sangrentas, e não se veem refletidos nele, não se veem partes do mundo, não veem espaço no mundo. Escrevo, agora, para dizer que sabemos que não somos invisíveis, nossa invisibilidade foi inventada, é proposital - com o propósito de tomar de nós a nossa parte no mundo, de apagar a nossa subjetividade, como se ela valesse menos. Que pareça um latido, então, isso que digo agora. Que pareça tão cru, tão real, tão cortante, tão pungente e tão banal quanto um latido: nós, os desgraçados, também existimos. E valemos tanto, e valemos quanto, e valemos muito, como vocês - vocês que falam de cima de palanques e de dentro dos estúdios da tevê. A nudez da verdade é essa: fingem que não somos relevantes, repetem isso para que acreditemos, nos tratam como cachorros abandonados, porque sabem; sabem que sem nós, não viveriam um dia. 

Injustiçados, seguimos. Levantamos todos os dias para manter o mundo girando. Desrespeitados, seguimos observando venderem, esbanjarem, destruírem tudo que é nosso, sem nos consultar. A esperança é que ainda temos vida, onde há vida, há verbo: a palavra não podem nos saquear. E, se for verdade isso de que todo escritor tem uma pergunta, venho questionar aqui, senhores-doutores-merítissimos-de-coisa-nenhuma: porque é que pelo que é nosso temos que implorar? 

Ane Karoline

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Dona Maria Lúcia pariu duas vezes, mas criou três crianças. Duas crianças eram suas; nascidas de suas entranhas, geradas em seu ventre. A outra criança era fruto de outro ventre, de uma outra mulher que, assim como dona Maria Lúcia, tivera um romance marcante com o Luís da Cunha - pai das três crianças e de algumas outras que andavam por aí, Deus sabe onde. O filho dessa, ficou para Dona Maria Lúcia terminar de criar e apesar de serem meio- irmãos, ela não fazia distinção entre as duas meninas e o menino: onde come um, comem três. E comiam mesmo. Graças a Deus, estavam sempre alimentados - mesmo que ela não estivesse.

A mais velha das meninas, nascida de dona Maria Lúcia, era a Luciana. Ela gostava que a chamassem de Lu porque remetia à Luz e fazia com que se sentisse especial, iluminada, e não precisava dividir isso com ninguém, seu nome, apesar de que era acostumada a dividir coisas. Cresceu assim: dividindo tudo, sem saber. Não sabia que dividia porque, para ela, nada era dela - tudo era de todo mundo. Dividindo bem, todo mundo ganha um pedaço de bolo, uma peça de roupa e uma parcela de culpa. 

Letícia era uma das três amigas de Luciana, as outras duas eram: a irmã mais nova e a vizinha. As quatro tinham quatro coisas em comum: eram mulheres, eram pobres, eram fortes, eram felizes. De resto, não tinham mais nada em comum, eram opostas. Opostas que se alegravam em se ajudar- uma blusa emprestada aqui, um conselho ali, um restinho de rímel misturado com azeite,  uma noite da pipoca, um consolo, umas broncas, umas brigas e uma certeza: iam se apoiar até chegarem lá - onde quer que fosse esse lá.

O bairro era um daqueles não planejados, surgira da necessidade primeira de alguém: pertencer a algum lugar. Esse lugar, especificamente, era abarrotado de casas pequenas - com tetos baixos e gastos- envoltas em um emaranhado de fios que pendiam dos postes bambos. Dona Maria Lúcia morava sob um desses tetos baixos, do qual ela se orgulhava e não media esforços para manter tudo organizadinho: ser pobre não é ser sujo, ela dizia. Era a imagem que ela tinha de gente pobre: limpa. A vizinhança era de gente humilde, não pobre - pobre e humilde não é a mesma coisa. Era um povo assim: não deu certo hoje, amanhã vai melhorar; o governo vai mudar; alguém da família vai engajar; tudo vai se acertar. Um povo, operário, com muito em comum. As meninas, ousando e sob esforço, tiveram a chance de tomar um caminho diferente de suas mães - estudavam, levantavam bandeiras e iam para o samba no final de semana. Os meninos, incluindo o filho-enteado de Dona Lúcia, seguiam tentando entender se gostavam ou não dessa conversa de mulher atrevida, enquanto as convidavam para um cinema, matando aula, na segunda-feira à noite, quando é meia entrada para todo mundo. A segunda-feira do cinema e o samba do sábado eram quase democráticos: quase todo mundo tinha vez.

Diante dos holofotes, talvez nunca seria a vez dessa gente: gente que sabe o peso que tem os novecentos reais no bolso no quinto dia útil do mês, mas nunca carregou a leveza de comer o que quisesse no meio do mês; gente que não ganha um carro aos dezoito, mas não deixa de ganhar um bolinho com guaraná no aniversário. Versátil, essa gente que lava a própria roupa, faz o próprio café, as próprias unhas e o próprio TCC. Esperta, essa gente que corre atrás de ônibus, de oportunidades e de sonhos. E sonhar, que ainda é de graça, é que o salva essa gente forte que só tem a opção de fazer de si mesmo seu próprio salvador. 

Ane Karoline
(Quarto texto do desafio "15 dias escrevendo sobre:")