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Chegava na borda da piscina ofegante, sem ar algum nos pulmões, as vias nasais ardendo como se em um passado distante eu houvesse sido um dragão fumegante capaz de soltar fogo pelas ventas, mas na versão humana só restara o incêndio; dentro de mim, por sinal. Todas as vezes em que apoiava as duas mãos molhadas na borda de cerâmica ouvia o barulhinho agudo do cronômetro e o grito: mais rápido, dá para ser mais rápido e mais fundo, o mergulho tem que ser mais fundo. Ao mergulhar de costas para reiniciar, me perguntava como é possível se sentir incendiada, seca, em chamas, mesmo estando imersa em tanta água.
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"A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece."
Veracidade
"Não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios",
É um livro muito simbólico. A palavra silêncio, a exemplo, tanto aparece no texto, quanto se faz presente quando lida, silêncio que grita: silêncio é necessário para respirar. A autora consegue criar uma atmosfera de convite à reflexão, sem jamais deixar de ser leve, doce, suave. É um livro que vem de encontro, não em contraste.
Tenho lido bastante nos últimos anos, lido de tudo, lidado com tudo, e poucas coisas me tocaram como Veracidade. Eu, como ser sensível, como ser criador, como ser humano, me senti atravessada pela afabilidade das palavras que li; me lembrei de Clarice Lispector, me lembrei de mim, lembrei do meu primeiro amor e dos amores que ainda sinto, me lembrei da humanidade inteira - algumas vezes a gente sente tanto e vive tão pouco. Por fim, concluí com Isabella que inquietude é coisa de gente e que "nem todos os pontos, nem todas as vontades e nem todos os amores, precisam virar conexão".
INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:
Onde comprar o livro: Mandar mensagem no email: isabelladeandrade@gmail.com
ou na loja da Editora: http://editorapatua.
Sobre a autora:
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