Fonte: Tumblr
Eu caminho em silêncio, sem sorrisos no rosto
Mantenho poucos amigos, me abro para menos ainda
Eu não procuro o amor, espero que ele em encontre
Eu não sorrio à toa, guardo sorrisos para momentos valiosos
Não derramo lágrimas facilmente, mas transbordo quando preciso
Eu não sou do tipo que toca, mas anseio pelo toque das pessoas certas
Eu não inicio conversas com frequência, pois prefiro conversar com os olhos
Eu não espalho os segredos de ninguém, mas não conto a ninguém os meus
Não sou do tipo que dança em público, mas rodopio pelo quarto quando estou só
Não memorizo a letra de todas as músicas, mas relaciono-as a momentos e pessoas
Eu, que de tanto me querer pouco, acabei me apaixonando por mim mesmo
E hoje eu sou auto suficiente, enfrento a maré e a enchente
Hoje aprecio a minha companhia, com um pouco de chocolate e um bom filme
Eu tenho meus hábitos e rituais, mas vez ou outra me permito agir por impulso
Quando fecho os olhos antes de dormir, não há ninguém em minha mente
Apenas as personagens do mundo que criei, para fugir da minha própria realidade
Meu alento é a escuridão, meu conforto meu edredom
Minha trilha sonora é a chuva e cheiro do incenso que queimei mais cedo
Meu gosto é eletricidade, intensidade e calor
E meus olhos são tão profundos que dá para confundir com o céu escuro
Há muito mais sobre mim do que o exterior que pode ser visto a olho nu
Mas cabe a mim decidir com quem compartilhar
Pois a minha alegria é o meu bem estar,
E isso, ninguém vai me tirar.


-Adolfo Rodrigues

 
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    Chegava na borda da piscina ofegante, sem ar algum nos pulmões, as vias nasais ardendo como se em um passado distante eu houvesse sido um dragão fumegante capaz de soltar fogo pelas ventas, mas na versão humana só restara o incêndio; dentro de mim, por sinal. Todas as vezes em que apoiava as duas mãos molhadas na borda de cerâmica ouvia o barulhinho agudo do cronômetro e o grito: mais rápido, dá para ser mais rápido e mais fundo, o mergulho tem que ser mais fundo. Ao mergulhar de costas para reiniciar, me perguntava como é possível se sentir incendiada, seca, em chamas, mesmo estando imersa em tanta água. 
   Cheguei a pensar que o conjunto dos questionamentos mentais era exatamente o que me fazia atrasar, não conseguia entender o que me atrasava. Nadava, nadava, nadava e não conseguia acelerar o percurso nem por um segundo; nadando sem sair do lugar como quem corre sob o sol e pensa que as pernas não são fortes ou grandes o suficiente, ou como quem está preso em um labirinto e, ainda que trilhe diferentes caminhos, ainda que planeje diferentes estratégias, não consegue resultados diferentes. Ainda que em movimento, eu me sentia paralisada, condenada pela água parada da piscina. Não tinha correnteza e nem onda para me atrapalhar: só eu só a me boicotar. Nadando sempre numa água estática, a mesma água com cloro e sem vida; não era mar, tenho certeza absoluta de nunca ter nadado na liberdade do mar, meus braços e pernas curtos estapearam sempre uma água inerte e infértil, para chegar sempre ao mesmo lugar. 
   No mergulho também não conseguia evoluir: ao tentar mergulhar mais fundo, ficava logo com medo de ancorar e abria os olhos, pupila com cloro não dá. Em todas as tentativas de me entregar ao mergulho, de ir fundo, mergulhar de cabeça, acabava com os olhos vermelhos e inchados como quem chora três dias seguidos por perder o avô ou por perder uma prova de intercâmbio. A diferença é que meus olhos acabavam secos, ardendo muito, e o peito cheio de água - muito diferente do alívio que se sente depois de chorar por três dias seguidos. Mergulhava de costas, saltava ou entrava devagarinho e o resultado era sempre o mesmo: olhos inchados, falta de ar e peito muito cheio, pesado. 
   A última coisa da qual me lembro, além dos gritos, é do cronômetro apitando cada vez mais alto como que para me dizer: mais rápido, mais rápido, mais rápido, você está atrasada, ainda não chegou lá, ainda não conseguiu, não foi rápida o suficiente, você é lenta, você é tardia. Abri a boca e soltei a respiração, que há tanto prendia, dentro d'água. Me permitindo afundar, ancorar, fui movida apenas pelos espasmos do meu próprio afogamento, percebi os barulhos diminuindo gradativamente enquanto constatava que ninguém apareceria para me salvar. 
    Era como se minha vida fosse, então, líquida e não aquele peso duro, seco e estanque. Era como se tivesse que me derreter inteira para tomar outra forma. Era como se... tudo, porque nada, de fato, era. E,então, eu acordei. O despertador me chamava para  natação diária que é a vida.

Ane Karoline

imagem: wehearit.com


Tem gente que leva rasteira da vida quando anda para frente, eu não, eu levo rasteira quando insisto em dar uns passos para trás. A última rasteira que levei foi antes mesmo de voltar, apenas me virei em direção à volta, me virei como quem está pronto para voltar e esquecer quaisquer contratempos e injúrias anteriores. Virada para trás, antes mesmo de dar um passo, percebi que, apesar de me chamar, você não queria que eu voltasse; queria apenas despertar em mim a vontade da volta. Você me quer como número, não como presença, quer que eu componha a pluralidade da sua vida, não a singularidade.  

Você quer números, provavelmente, porque quer aplausos. Não te condeno por isso não, pode se acalmar. Acho até normal, sabia? Acho comum. Gente querendo aplauso é o que mais tem, em tudo que é beira de esquina. O danado é que eu achei que você não fosse comum, achei que você queria mais que isso, achei que você almejasse admiração, não aplausos vazios. Não posso mentir, tenho que admitir, não posso negar que acabo te condenando de uma forma ou de outra. Mesmo sem direito algum para fazê-lo, mesmo agora, quando percebo que te conheço menos do que achei que conhecia, mesmo com todos os meus erros (e talvez por causa deles), acabo te condenando. Não te condeno para ninguém e nem diante de ninguém, não tenho tamanho poder e nem vontade, apenas reconheço a sentença quando olho para você: alguém que quer quantidade de companhia, não qualidade.

Eu poderia ficar aqui, de pé, por horas te aplaudindo - como já fiz, com muito gosto e amor. Mas isso não é o que você quer, né? Isso não te preencheria. Você quer multidões, quer uma massa de gente de que não te dá a mínima para te aplaudir. Você quer quantidade, quer casa cheia, quer gente com pedigree, gente com nome anunciado em rádios, gente com passaporte carimbado e delineador bem passado. Variedade, gente saindo e entrando, gente te dizendo maravilhas para, logo em seguida, te abandonar. Tudo bem. Eu espero que, sim, esses e essas daí te aplaudam mas que, também, estejam com você nas noites difíceis, nas noites apáticas e nas viradas de ano. 

Daqui, do meu lugar de quem existe irrisoriamente, torço para que não te faltem holofotes e palmas; já que as minhas eu resolvi recolher. Espero que esses aplausos vazios, te encham, te preencham. Teria gosto em aplaudir, com amor, tudo que viesse de você e, ainda hoje, não posso negar todas as maravilhas que você tem. Acontece que quando a alma deixa de fazer parte da produção de alguém, eu não sou mais capaz de apreciar; quando sinceridade passa a valer menos que imagem, eu não posso mais ficar. Podem descer as cortinas, rufar os tambores, pelo espetaculo das aparências você já pode receber as palmas, sem mim; eu sei a hora de sair de cena. 

Ane Karoline

imagem: google


Eu não sei se vocês sabem, mas nós aqui de baixo também sentimos. Digo, sei que a ordem aí é fazer rir da cara de quem sua a camisa para manter o país de pé. Sei também que, via de regra, a comédia é para ser feita de nós, sei que somos o elenco engraçado da novela das oito: nosso jeito de falar, nossas roupas de flanela que nunca passaram nem pelas portas da forever 21, nossa coleção de sacolinhas para colocar na lixeira dos nossos banheiros de meio metro quadrado. Somos uma alegoria, vem ver, basta ligar a tevê: morreu, matou, roubou, sucumbiu no corredor do hospital. Os nossos costumes e desgraças fazem a graça da família real. Sei de todas essas coisas, e dumas outras que vocês nem suporiam que alguém que vem de onde eu vim saberia. É por saber, que venho dizer: nosso sentimento também existe, de desespero a gente tem rido, nosso riso é latente: para vocês é um latido. 

Por desesperador que seja, fator de distração, nosso riso - do quão ridícula é essa situação - soa como latidos repetidos: incomoda. Não querem nos ver; querem que sejamos só o backstage, nunca os protagonistas - quem limpa, cuida, aplaude; quem nunca é aplaudido. Isso porque somos o oposto da ideia de perfeição de vocês, assumimos nossa incompletude, não há farsa em nossas mazelas: estão tatuadas em nossa pele - seja nas marcas de Sol, que a falta do protetor solar causa; seja nos calos nas mãos por limparmos as suas casas e as nossas próprias. Somos marcados demais, para que sejamos incluídos no conceito de "perfeição clean" de quem finge que de mãos brancas não escorre sangue negro, indígena, mulato. Somos a marca indelével de que, aqui nesse chão, há o costume de se contruir castelos sobre as cabeças das vidas que parecem valer menos; aqui, tem se feito lucro assim: roubando a parte de quem não é visto. Assim, nossa existência, que é uma resistência, deve ser muito incômoda. Que inoportuno, que grande estorvo deve ser, para quem está aí, admitir que, sim, coexistimos, somos feitos do mesmo barro e pó, nós e vocês teremos todos a mesma fetidez após três dias de morte. É por isso que nos pintam como asquerosos quando, na verdade, somos compositores, têm medo da força que temos quando juntos. 

De compositores que somos, até com nossa desgraça vim compor, escrevo agora como quem grita em silêncio: eis me aqui. Empresto minha voz aos meus, aos que olham o mundo, construído por suas próprias mãos sangrentas, e não se veem refletidos nele, não se veem partes do mundo, não veem espaço no mundo. Escrevo, agora, para dizer que sabemos que não somos invisíveis, nossa invisibilidade foi inventada, é proposital - com o propósito de tomar de nós a nossa parte no mundo, de apagar a nossa subjetividade, como se ela valesse menos. Que pareça um latido, então, isso que digo agora. Que pareça tão cru, tão real, tão cortante, tão pungente e tão banal quanto um latido: nós, os desgraçados, também existimos. E valemos tanto, e valemos quanto, e valemos muito, como vocês - vocês que falam de cima de palanques e de dentro dos estúdios da tevê. A nudez da verdade é essa: fingem que não somos relevantes, repetem isso para que acreditemos, nos tratam como cachorros abandonados, porque sabem; sabem que sem nós, não viveriam um dia. 

Injustiçados, seguimos. Levantamos todos os dias para manter o mundo girando. Desrespeitados, seguimos observando venderem, esbanjarem, destruírem tudo que é nosso, sem nos consultar. A esperança é que ainda temos vida, onde há vida, há verbo: a palavra não podem nos saquear. E, se for verdade isso de que todo escritor tem uma pergunta, venho questionar aqui, senhores-doutores-merítissimos-de-coisa-nenhuma: porque é que pelo que é nosso temos que implorar? 

Ane Karoline

"A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece."
                                                                                                                                                         Veracidade





       "Não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios",
diz Isabella de Andrade em seu livro "Veracidade". Eu concordo e assino embaixo: vivemos querendo preenchê-los. O fazemos porque dói. Qualquer sinal de vazio, dói que é uma coisa. Mas existe, sim, coisa mais dolorida que os vazios que fazem morada nos buracos dentro de nós: a tentativa desesperada de preencher esses vazios; vãs tentativas, tentativas naufragadas de preenchimento. Impulso humano é esse de caminhar em busca da plenitude, mesmo que não se saiba que plenitude é essa, afinal. Caminha-se em busca do que nem se sabe, de um caminho certo, caminho verdadeiro, veracidade, voracidade. 

Eu, que sou voraz, quando leio um livro, engulo os livros, devoro as páginas. Com Veracidade, foi diferente: a escrita de Isabella me engoliu - cheia de doçura, mas o fez. Cada palavra colocada despretensiosamente com um cuidado todo pessoal, bordadas. Uma escrita contemporânea e atemporal, simples e complexa, que em frase curta resume um dramalhão da humanidade inteira. Jogos de repetições bem colocados, como quem sabe que na vida a gente repete passos todos os dias, mas nunca de forma igual. Escrita sensível que incentiva, empurra o ser à criação.  Isabella discute as belezas e mazelas do processo de criação do artista; o que ronda o criador e a criação.

É um livro muito simbólico. A palavra silêncio, a exemplo,  tanto aparece no texto, quanto se faz presente quando lida, silêncio que grita: silêncio é necessário para respirar. A autora consegue criar uma atmosfera de convite à reflexão, sem jamais deixar de ser leve, doce, suave. É um livro que vem de encontro, não em contraste.

Tenho lido bastante nos últimos anos, lido de tudo, lidado com tudo, e poucas coisas me tocaram como Veracidade. Eu, como ser sensível, como ser criador, como ser humano, me senti atravessada pela afabilidade das palavras que li; me lembrei de Clarice Lispector, me lembrei de mim, lembrei do meu primeiro amor e dos amores que ainda sinto, me lembrei da humanidade inteira - algumas vezes a gente sente tanto e vive tão pouco. Por fim, concluí com Isabella que inquietude é coisa de gente e que "nem todos os pontos, nem todas as vontades e nem todos os amores, precisam virar conexão".

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:

Onde comprar o livro: Mandar mensagem no email: isabelladeandrade@gmail.com 
ou na loja da Editora: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=343




Sobre a autora:
Autora do livro Veracidade (Patuá, 2015), Isabella de Andrade é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e graduanda em Artes Cênicas no mesmo local. Trabalha atualmente como repórter de cultura do jornal Correio Braziliense e já trabalhou como arte-educadora no CCBB. Acredita firmemente no poder transformador e enriquecedor da arte na vida e no desenvolvimento de cada indivíduo. Estuda as possibilidades do jornalismo literário, da literatura, da poesia, da dramaturgia e uma possível convivência harmônica entre eles. É autora e produtora do projeto de arte e cultura www.ociclorama.com. Brasiliense apaixonada pelo céu da capital e pelo modo como as palavras nos possibilitam viver várias vidas. 

Instagram: @isabella_deandrade e @ociclorama



Ane Karoline

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Não quero falar sobre culpa; aliás, não mais. Não é por causa da culpa e nem com ela que ando engasgada. Apesar disso, mesmo que sem culpa ou remorso, venho admitir um erro meu.  De todas as coisas que você pode me acusar, essa eu assumo e bato no peito; não posso negar que fiz. Aliás, poder eu até poderia, as pessoas são acostumadas a lidar com gente que finge que não sabe que faz o que faz, não são? Mas eu não. Nem sou dessa gente e nem sei lidar com quem finge que não sente. Não se engane, não é por santidade e nem bondade; não finjo porque não sei fingir, soubesse, talvez colecionaria relacionamentos frívolos como outros tantos fazem. Entretanto, sendo cara limpa e alma flamejante como sou, vim aqui tatuar meu erro na pele da nossa história: eu achei que você fosse como eu.  

Foi uma crueldade desmedida a minha, agora vejo. Beirei o egoísmo, não foi? Achei que você fosse como eu, fiquei me procurando nas suas ações e reações, procurando meu cuidado no seu descuido, acabei criando uma emboscada para mim mesma e fiquei te esperando para me resgastar - mas você não é como eu. Para mim, foi uma grande ofensa você não me resgatar, você não me dar a mão, afinal, eu jamais hesitaria em te oferecer os meus dois braços. Esse é o ponto xis da questão: você hesita. Eu na beira do abismo e você ponderando, será que o abismo não tem razão em me puxar? 

Olhe, veja bem, não estou sendo injusta, sei bem que você até chegou a me amar, não foi? Prefiro pensar que você não simularia esse sentimento assim. Mas me amou em ondas, até que chegasse alguém para colocar esse amor em xeque e te tornasse pura hesitação: sei não. Eu não conhecia esse amor hesitante não, para mim sempre foi tudo claro- se amo, amo; faça chuva, faça sol; na frente do fulano ou do beltrano; na presença ou na ausência. E esse foi meu erro: tentei medir seu amor pela minha forma de amar e não coube.

Eu mostro a cara, chuto o pau da barraca, enfrento quem for, tenho o mesmo discurso na frente do padeiro e do papa. Eu luto contra mares e marés, multidões e solidões, choro e faço show. Faço o que achar que tem que ser feito por amor e por justiça- e isso tem lá suas dores e louvores. Louvores e desventuras que  gente que ama manso como você, não conhece e nem faz questão de conhecer; já não sei se por inaptidão ou desinteresse. Por não saber é que não me cabe julgar, somente aceitar. É por isso que não vim aqui falar de culpa, vim falar de liberdade, eu vim aqui libertar você. Não quero que você se sinta em débito por não amar como eu amo, por não ter esse amor que é febril e fiel - pelo menos, não por mim. Não quero que você sinta obrigação em agir assim ou assado, de fazer isso ou aquilo. Isso, é claro, não garante que eu fique feliz em ter esse amor pela metade que você oferece, esse amor que não se assume, nem garante que vou deixar a porta aberta. Entretanto, garante que eu respeite e entenda que a gente só pode dar o que tem: se você não tem amor, não o pode dar a mim também. 


Ane Karoline

Fonte: http://mishencetu.tumblr.com
Acho que a felicidade não gosta de mim
Pois nunca me pertence
Não me apetece
Chega rápido e logo desaparece

Não me habita
Vem às vezes para breve visita
Logo se vai
Pela ponta dos dedos se esvai

Cria um ciclo vicioso
Algo que me torna desgostoso
Pois sempre que se apresenta a mim
Acaba me quebrando no fim

Chega e bate na porta
Se instala e se acomoda, toda torta
Mas sempre que começa a criar raízes no chão
Se arranca, ferindo meu coração

Me tornou uma pessoa infeliz
Não consigo acreditar no que diz
Me falam que devo ser minha própria felicidade
Mas não posso ser o que não é minha realidade

Se mudo pra tentar ser algo que não sou
É como ser um pedaço falso que restou
O espelho sempre me acusa a verdade
O sorriso é apenas falso alarde

Enquanto me acostumo aos jogos doentios do tempo
Cavo mais fundo a cova do sentimento
Logo haverei de me tornar estéril como um deserto
Onde sentimentos não brotam, por certo

-A. Rodrigues

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Ai, que dor do lado esquerdo do peito eu sentia quando ainda nem sabia qual era o lado esquerdo. Mas já a sentia; ela vinha acompanhada de bochechas esquentando de vergonha e mãos nervosas, inquietas. Um ritual já conhecido, porém, inevitável. Era ativado cada vez que alguém me golpeava com a pergunta: o que você vai ser? Essa sede de saber o que eu viria a ser em algum outro momento triturava meu senso de mim mesma. A pergunta era sempre feita com um tom capaz de expressar a indiferença pelo que eu já era, era como se me dissessem: o que você vai ser quando, finalmente, for alguma coisa?

Enquanto eu não era coisa alguma, me apressava em responder para não decepcionar ninguém: médica, advogada, dentista, cirurgiã, engenheira, veterinária. Deus é que me livre de fazer alguém pensar que eu eu não iria ser nada - e o próprio me perdoasse por todas as vezes em que menti só para ter alguma coisa para dizer. Era como se dizer, resolvesse o problema de não ser nada. Era como se dizer me desculpasse. Era como se aos 6;7;10;15 anos de idade, não sendo nada, eu teria que decidir  o que eu iria ser, minha redenção.

Decidi. Mais de uma vez, inclusive. Tantas vezes me perguntaram que a pergunta ecoou em minha cabeça até me fazer cair na armadilha da decisão. Caí em no vão daqueles que nada são: queria tanto ser alguma coisa que não era nada. Fui um monte de coisas, umas escolhi, outras me escolheram. Cursei isso e aquilo, trabalhei numa coisa e noutra, estudei cada ano uma coisa diferente. Decidida a calar a pergunta que não calava: o que você vai ser? Por mais que que fosse equilibrista, surfista, bailarina, professora ou escritora, sempre aparecia alguém: o que você vai ser? A fulana, o beltrano, a filha da vizinha de não sei quem, o primo do amigo da cunhada, a moça da padaria e o Faustão: todos eles eram alguma coisa, eu não. 

Tropeçando, segui decidindo e respondendo, cada vez com menos certeza, com menos enfâse. Sempre tive lá aquelas vontades que todo mundo tem, preferências aqui e ali, sonhos, utopias. Sempre tive coisas que caminharam comigo, agora mesmo tenho muitas. Mas a pergunta não era essa, a pergunta nunca foi direcionada ao que eu já era, ao que já sou. Uma pergunta trapaceira, arquitetada para o impossível, não importa onde eu esteja, não importa o que eu já seja, lá vem ela - se não for da boca de alguém, vem do meu reflexo no espelho: o  que você vai ser?

Sei lá o quê, foi o que eu quis dizer dia desses. Eu, já com diploma na mão, alguém me pergunta: mas e de agora em diante, o que você vai ser? Eu poderia ter dito professora. Queria ter dito. A dor do lado esquerdo veio acompanhada da boca cheia para anunciar mais essa certeza, a vontade de deixar claro que eu já sou alguma coisa. Mas aí percebi: quem pergunta, já não sabe? Sabe sim. Quem pergunta já está ali, me vendo em carne, osso e estrabismo. Quem atira essa pergunta já sabe que sou alguma coisa, que eu existo em 1,60m de alma, espírito, utopias, ideologias e amor, e, ainda assim, insiste em perguntar. Foi por isso que resolvi, dessa vez, não me categorizar: de agora em diante, sou um projeto de mim mesma, serei sempre um projeto - respondi. Sou alguma coisa em construção, é assim que posso evoluir e me transformar no que me couber ser a cada dia. De agora em diante, não sou nada. E eu sinto um alívio danado em não ser nada. 

Ane Karoline