Paulo e Eduardo descobrem um corpo morto na beira do lago. Eles estavam ali para brincar, mas acabaram se deparando com uma cena sangrenta e macabra de assassinato. A mulher assassinada era Anita, esposa do dentista da cidade. Duas crianças de cara com a morte, com a podridão da vida. Certamente eles não seriam os mesmos depois daquilo.

Junta-se aos dois garotos o velho Ubiratan, que mora no Asilo São Simão e não tem ninguém com quem conversar ou jogar xadrez, o que o obriga a escapar diversas vezes, pulando o muro da instituição, para ver algo de interessante na cidade. De modo muito inusitado, o velho e os dois moleques entram no arriscado empreendimento de tentar descobrir quem matou Anita, mas eles não esperavam que essa morte envolveria a elite da cidade e toda a classe política econômica que comandava aquele pedaço de terra.

Escrito de forma rápida e intensa, quase como um torpedo, o livro de estreia do autor Edney Silvestre nos presenteia com vários momentos belos e catárticos. Todas as personagens têm os seus esqueletos no armário. Todos os traumas nos são apresentados, ou melhor, são jogados na nossa cara. Em algumas ocasiões podem até causar desconforto, mas a crueza de tudo também encanta ao não nos poupar nenhum detalhe sórdido das pessoas que habitam aquela cidade.

Ao final, o livro é uma síntese da história do Brasil e seus sucessivos golpes, conchavos, lascívias e dissabores. É uma leitura que deixa um gosto amargo na boca. Porém, fica aquela esperança de que afeições verdadeiras e amizades reais possam ser maiores do que o horror espalhado pela humanidade. Ainda existem Paulos e Eduardos no mundo, felizmente.

imagem: stocksnap.com


Uma neblina desgraçada me cegou logo na esquina da minha casa quando tive a ideia ridícula de sair de casa na noite da minha sarjeta. Depois vi que era fumaça e fechei a entrada de ar externo do ar-condicionado para não me engasgar com tanta fumaça, já me bastava estar engasgado comigo mesmo; engasgado com minha covardia. Se eu dissesse que já havia tomado uma decisão quando saí de casa, estaria mentindo: saí impulsionado pela raiva, sem destino, sem rumo certo; mas vontade eu tinha. Uma vontade velha, moradora do meu peito desde o dia em que ela me chamou de “meu bem” pela primeira vez – queria que ela sumisse, sempre quis que ela desaparecesse, que eu nunca a tivesse conhecido. Fiquei pensando foi que se batesse o carro, se eu morresse ali naquela fumaça, ela nem saberia, ou saberia? Se eu morresse, ela iria no meu velório? Se ela fosse, iam dizer: vossa santidade, manipuladora e destruidora de sanidade mental, chegou; e chegou na companhia do cara com quem ela ria no shopping. É só pensar nela que a morte já vem fértil em minha mente, morte de quem, era o que eu queria saber, quem é que vai ter que morrer para que eu possa voltar a viver. E ela que vivia dizendo que eu não pensava em nada, olha aí, minha cabeça um nó.

Sei lá para onde eu ia, só ia. Pista limpa, livre, sem carro, sem gente, sem nada; a BR que leva para a casa dela estava livre, quinze minutos para chegar lá. Beirando a insanidade, afogado na sandice, entrei rasgando no Drive-thru no meio do caminho para lá. Que diabos era que eu estava fazendo é que eu não sei, sorte foi ter sido lembrado pela fome de que eu estava prestes a fazer idiotice. Débil mental, ela me explicava sentada no meu colo, é uma pessoa de mente fraca. Então era eu, me tornei débil mental, controlado por sentimentos. Ainda que fosse ódio, ainda que fosse raiva, ainda que fosse aquela sanha desmedida de quem dá cinquenta facadas em um cachorro morto, ainda era eu sendo controlado por sentimentos. O que vai querer, senhor? A voz da moça perguntava e eu, tentando parecer o são, tentando fazer a voz mais firme que eu tinha, fiz meu pedido. O que me dá raiva é que na beira da porcaria do balcão de espera tem pinturas dependuradas, para quê diabos pinturas dependuradas ao redor de um balcão de espera? Isso me dá raiva porque ela é pintora e, então, eu tenho raiva de tudo quanto é pintura porque eu não consigo sentir raiva dela. Não sei dizer se é boa pintora, ela me perguntava e eu não sabia dizer, não sou crítico de arte. O que eu pude notar, pelo que andei sondando da vida dela, é que ela melhorou muito; agora parece que pinta com mais confiança, parece que sabe o que está fazendo, parece que não precisa mais da minha aprovação. Inferno, não precisa mais da minha aprovação, como se eu quisesse analisar arte de uma artistazinha de beira de esquina; nunca nem gostei de arte. Se é boa pintora, então, eu não sei, mas sei que pintou com eficiência um quadro ruim de mim para todo mundo.


Pintora, artista, como diria ela, pode até ser útil para a sociedade. Mas e quanto a um cara que vende seguros? Sentado no carro, no meio da madrugada, com uma mão eu comia o sanduíche, com a outra procurava a maldita foto que ela postou com o cara. Achei o perfil dele e ele é vendedor de seguros. Digamos que ela seja útil, digamos que ela seja única, como ela deve achar que é, mas e quanto a um cara que vende seguros? Qualquer um pode vender seguros! Se ele some, se ele desaparecesse, outro vai lá e faz igual ou melhor que ele. Se alguma coisa se quebrasse nela também, talvez eu me consertasse; se ele morresse, talvez eu voltasse a viver. Na foto, que eu já tinha visto dezenas de vezes em dois dias (ou três, perdi as contas), ela, abraçada nele, sorria de um jeito menos tenso, de um jeito muito mais espontâneo do que quando tiramos nossa única foto juntos; mais viva, mais segura. Olhei novamente para a cara safada dele: barba torta, olheiras de quem passa noites acordado vendo pornografia na internet, as bochechas roliças amassadas pelo sorriso; ele olhava para ela como se só esperasse pelo momento de devorá-la, como se ela fosse uma cigana que tem algum tipo de sumo de vida.  Nesse rumo de pensamento, parece até que a vida é ela; quem a tem, tem vida. O foda é que eu não tive peito de ir lá me sentir vivo com ela, não tive coragem para tentar, perdi logo a paciência com o jeito nhem-nhem-nhem dela. Enquanto ela estava só, vá lá, eu sentia que ainda emanava vida para mim, ainda era minha; isso antes de ela se enlaçar com um vendedor de seguros. Foi esse vendedor de seguros aparecer para eu ficar cheio de nóia, dois dias pensando, repensando, sondando. Antes disso, eu nem queria saber, me perguntavam dela e eu fazia pouco caso; tá maluco que eu vou ficar com uma mulher adulta que ainda quer ir para a Disney? No dia que ela me veio com essa, cortei logo: se for para gastar isso tudo, que seja para a Europa, porra. Agora, Disney? O tal vendedor de seguros deve ter aceitado, imagino a cara dele concordando, engolindo os caprichozinhos dela, escutando as pseudociências dela, levando ela para ver filme infantil e comer com guardanapinho de pano no colo. Puta que pariu, o cara vende seguros, olhei o perfil dele todo e vi que a vida dele toda se resume a ser um banana, que diferença faz se um cara desses existe ou não? O imbecil, achando-se grande empreendedor, colocou o endereço no perfil. Débil mental. Ativei o localizador, limpei a boca na manga do casaco, girei a chave na ignição e comecei a odiar esse vendedor de seguros porque eu não consigo odiá-la. 


Ane Karoline

"A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece."
                                                                                                                                                         Veracidade





       "Não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios",
diz Isabella de Andrade em seu livro "Veracidade". Eu concordo e assino embaixo: vivemos querendo preenchê-los. O fazemos porque dói. Qualquer sinal de vazio, dói que é uma coisa. Mas existe, sim, coisa mais dolorida que os vazios que fazem morada nos buracos dentro de nós: a tentativa desesperada de preencher esses vazios; vãs tentativas, tentativas naufragadas de preenchimento. Impulso humano é esse de caminhar em busca da plenitude, mesmo que não se saiba que plenitude é essa, afinal. Caminha-se em busca do que nem se sabe, de um caminho certo, caminho verdadeiro, veracidade, voracidade. 

Eu, que sou voraz, quando leio um livro, engulo os livros, devoro as páginas. Com Veracidade, foi diferente: a escrita de Isabella me engoliu - cheia de doçura, mas o fez. Cada palavra colocada despretensiosamente com um cuidado todo pessoal, bordadas. Uma escrita contemporânea e atemporal, simples e complexa, que em frase curta resume um dramalhão da humanidade inteira. Jogos de repetições bem colocados, como quem sabe que na vida a gente repete passos todos os dias, mas nunca de forma igual. Escrita sensível que incentiva, empurra o ser à criação.  Isabella discute as belezas e mazelas do processo de criação do artista; o que ronda o criador e a criação.

É um livro muito simbólico. A palavra silêncio, a exemplo,  tanto aparece no texto, quanto se faz presente quando lida, silêncio que grita: silêncio é necessário para respirar. A autora consegue criar uma atmosfera de convite à reflexão, sem jamais deixar de ser leve, doce, suave. É um livro que vem de encontro, não em contraste.

Tenho lido bastante nos últimos anos, lido de tudo, lidado com tudo, e poucas coisas me tocaram como Veracidade. Eu, como ser sensível, como ser criador, como ser humano, me senti atravessada pela afabilidade das palavras que li; me lembrei de Clarice Lispector, me lembrei de mim, lembrei do meu primeiro amor e dos amores que ainda sinto, me lembrei da humanidade inteira - algumas vezes a gente sente tanto e vive tão pouco. Por fim, concluí com Isabella que inquietude é coisa de gente e que "nem todos os pontos, nem todas as vontades e nem todos os amores, precisam virar conexão".

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:

Onde comprar o livro: Mandar mensagem no email: isabelladeandrade@gmail.com 
ou na loja da Editora: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=343




Sobre a autora:
Autora do livro Veracidade (Patuá, 2015), Isabella de Andrade é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e graduanda em Artes Cênicas no mesmo local. Trabalha atualmente como repórter de cultura do jornal Correio Braziliense e já trabalhou como arte-educadora no CCBB. Acredita firmemente no poder transformador e enriquecedor da arte na vida e no desenvolvimento de cada indivíduo. Estuda as possibilidades do jornalismo literário, da literatura, da poesia, da dramaturgia e uma possível convivência harmônica entre eles. É autora e produtora do projeto de arte e cultura www.ociclorama.com. Brasiliense apaixonada pelo céu da capital e pelo modo como as palavras nos possibilitam viver várias vidas. 

Instagram: @isabella_deandrade e @ociclorama



Ane Karoline

imagem: pinterest  (protesto em memoria aos desaparecidos na ditadura do Chile)


Eu, que fui mal alfabetizada não sei mais por negligência de quem, não me calarei. Bem sei que me queriam calada aqueles que têm todos os direitos, aqueles que, não importa o que façam, são direitos. Eles queriam a nós calados, eu e toda a gente como eu. Sei bem disso, assim como sei que ninguém parece querer ouvir falar - e, muito menos, se responsabilizar - pela falta de pavimentação em minha rua. Parece cansativa e esquecida a história do filho da minha vizinha que morreu por falta de leito no hospital - hospital construído como presente aqui, para essa minha população periférica composta de vidas que valem menos. 

Aqueles que detém o que a maioria não tem, não querem ouvir falar sobre as vidas que valem menos. E nem é por sentirem pesar o bolso cheio de quem tem conta escondida em tudo quanto é país gringo, é porque o saco está cheio de ouvir a tentativa de grito dessa gente marginal que somos. Afinal, gente de verdade indo às ruas e se opondo às atrocidades atrapalha o jantar de gala e ameaça o monopólio do lugar de fala. Quem são esses que, agora, acham que podem falar? Não deveriam estar ocupados acordando às 4h da manhã, cansados demais para opinar? Imagina que loucura se a mão de obra começa a questionar, quem é que vai ser explorado?

Eu enxergo. Sinto a agonia de quem me queria quieta, de quem me queria concordando com atrocidades e servindo, unicamente, de cuidadora do lar (o que também não é tarefa fácil). E eu devo admitir que  queria dizer que não vejo os olhares tortos e que não sei o que confabulam. Queria dizer que não ouço os cochichos críticos sobre o meu atrevimento, inclusive, daqueles que nasceram da mesma terra áspera e abandonada que eu - mas que almejam ser frutos da  árvore podre de onde vêm essa gente que rouba de nós para ter campo de golfe no quintal. Queria fingir que não sei que eu seria orgulho nacional se ficasse quieta, se me abstivesse de pensar, se não soubesse discutir, argumentar, ler e nem calcular - assim eu não saberia quantos direitos me são roubados por dia. Queria não viver todos os momentos em que minha inteligência é questionada - por ser mulher e por ser pobre. Queria ser indiferente à minha parcela de culpa na corrupção e na vida das crianças fumando crack na rodoviária. De atriz, que já tentei ser, queria ser  parte desse teatro de horrores na vida real: ser capaz de dissimular e fingir que não é para o professor que ensinou meu filho a ler que estou negando o direito de descansar. Ser covarde é tão mais fácil.

Mas não. E, mesmo sendo dessa gente que nem sempre tem o privilégio de poder escolher sempre o que comer, meu estômago teve a audácia de nascer fraco para o que não presta: sou indigesta com hipocrisia, não me desce. Sei de tudo isso e muito mais, sei que me queriam muito menor que sou. O estorvo é que eu me quero muito maior que sou, na intenção de levar meu povo comigo: para cima. Nessa doidera de tentar atravessar o lago JK a nado, me afoguei uma porção de vezes, mas continuo respirando. Ainda que hoje me afogasse, tanto eu já teria dito, que não me calaria, e não me calarei.  As palavras são sempre o meu bote salva-vidas: são minhas armas. Admito, as palavras são armas pequenas, mas não deixam de ser armas e com elas estou em punho: pronta para lutar. 

Ane Karoline

imagem: pinterest.com


Não se torture não, vim dizer coisa rápida. É só um bilhete, o que agora escrevo. Acabaram os meus discursos para você. Esse bilhete é só para te lembrar de cuidar de você. Não é um aviso de "volto logo", não é um pedido de "venha atrás de mim", nem é um adeus - não é necessário dizer adeus quando já se foi embora. Esse bilhete aqui é só para te lembrar de ligar para marcar seus exames na segunda, de tomar dois litros de água por dia e levar o cachorro ao veterinário. Pode parecer que estou sendo a primeira a soltar as mãos, a primeira a me desvincilhar do abraço - que seja! De abraço sem entusiasmo, a gente tem mais é que escapar. É por isso que estou deixando aqui esse bilhete: eu não vou mais ficar.

Tudo, tudo estou deixando no lugar, não vou criar escândalo e nem fazer barulho, não vou mais tentar te acordar. Não escrevo para te escandalizar, não quero bagunçar nada. Quero mesmo é que você se lembre de trocar as pilhas dos controles e aprenda a organizar seus parágrafos, quero que sua vida dê certo. Ah, falando em certo, suas certezas também estou deixando organizadinhas, como você gosta, sem questionamentos, sem interrogatórios. Com a minha partida, partem-se em pedacinhos as dúvidas e incômodos que te criei, cansei de cansar você.

Você vai estranhar porque a sua certeza era que eu sempre ficaria, né? Parece que ontem mesmo eu disse que te amava, e eu amo, acredita? Pois acredite: eu te amo. Amo você, mas não quero mais que você me machuque - ou que eu me machuque, esperando que você me trate com menos frieza, esperando que você perceba quanta gente importante a gente deixa escapar por descuido. Pois bem, prefiro não ficar, te olhar de longe e continuar te vendo como a pessoa que eu pensei que fosse - ou que talvez seja, mas não quis ser comigo. Prefiro continuar te amando e torcendo por você, mas eu preciso me retirar para fazer algo que você não se dispôs a fazer: me amar também. 

Ah! E não se esqueça de mandar um recado de agradecimento para a vizinha que te fez um favor dois dias atrás, quem sabe um dia ela não o faça mais, né? Flor que a gente não rega, murcha. 

Ane Karoline