imagem: pinterest

Deitado de barriga para cima, mais uma vez sem sono, sem vontade de dormir, sentindo minhas costas já afundando no colchão pelo longo tempo na mesma posição, mas sem vontade de me virar para o lado. Sabia que se me virasse para o lado, os óculos iriam ficar naquela posição desconfortável e, então, eu os tiraria, fecharia os olhos na vã tentativa de dormir. Depois desistiria, abriria os olhos e ficaria olhando o teto sem vê-lo. Essa história de olhar sem ver é coisa dela também, ela deve ter me rogado uma praga, pedido para os anjos para que essas frases de efeito ficassem rondando minha cabeça – vai saber, ela era meio mística, meio tudo. Frequentemente isso se repete, quando eu estou mais cansado e com raiva; ela me vem quando eu estou fraco; é como se meu cérebro soubesse que quando forte, não preciso dela.

Percebi, mais uma vez, que não dormiria e, remotamente, pensei em ler um livro. Ler alguma coisa, que fosse. Ri de mim mesmo: eu nem gosto de ler. Ela deveria estar lá, lendo às pampas e conhecendo palavras melhores que “às pampas”. Olhei a tela do celular: 23:57. Ela deveria estar dormindo, será? Será quem tem aula cedo? Pensei ter visto em algum lugar, ou alguém me falou que sim: ela tem que acordar cedo às segundas. Devo ter visto em algum lugar, ninguém me falou não, eu não falo dela com ninguém, eu não falo dela para ninguém. Os poucos que sabem, nem me perguntam mais... Já tem o quê? Cinco, seis anos? Espero que em mais cinco, ela suma. Evapore da minha cabeça como minha paciência evaporava com ela. O único amigo que fala nela é sempre para me deixar puto de raiva, é sempre para me dizer que eu ainda gosto dela. Nunca gostei, eu respondo. E não minto, não sei mesmo se gostei, por isso não sigo o conselho do Maurício e não vou falar com ela, se eu for falar, ela vai querer certezas, vai se negar a ficar com alguém em dúvida. Que raiva que eu tenho disso. O que eu vi no shopping não parecia uma certeza, não parecia um para sempre, não parecia porcaria nenhuma; mas se for comigo, ela quer certeza, quer me atormentar com perguntas para as quais eu não tenho as repostas.

Afora a insônia e essa indignação que me gerou o fato de tê-la visto, mal nenhum ela me fez, o mal dela é amar, aliás, o tal jeito dela de amar. Ama e acha que a gente tem que amar de volta, que a gente tem que gritar isso na rua, tem que apresentar para os conhecidos. A desgraça que seria se eu levasse ela em casa... Isso ela não vê, nunca viu. Na primeira piada machista do meu pai ela ia fazer o quê? Revidar? Quando minha mãe deixasse de jantar com a gente para lavar as louças ela ia responder o quê? Um discurso? Evito esse tipo de coisa. Quando eu pensava, quando eu penso – porque eu ainda penso – em trazê-la em casa, pensava no trampo que ia ser para termos, pelo menos, um segundo de paz no meu quarto, sem ninguém para encher o saco; antes disso ia ter que atravessar meio mundo de gente e eu pisando em ovos por causa das opiniões fortes dela. Quer opinar em tudo também, inferno. Tá, eu também gosto de ter minha opinião, mas não fico gritando por aí, levantando bandeira de tudo quanto é porcaria o tempo todo. Pronto, conseguiu me estressar mesmo sem estar aqui. Só em lembrar, já me dá raiva de tudo: raiva porque eu ainda moro com meus pais, porque ela é difícil de lidar, porque eu fico calado, por tudo, raiva de tudo; agora fico me perguntando porque já passa da meia noite e continuo pensando essas porcarias. Tem gente babaca, como o Maurício , que diz que depois do que eu vi ontem estou triste. Engoli em seco? Sim. Achei esquisito e tudo, mas triste não estou, não sinto nada. Triste é quem perde parente em acidente de carro, triste é quem descobre que o padrinho morreu, triste é quem tem câncer. Eu fiquei triste quando achei que ela tivesse câncer – o que foi o primeiro motivo pelo qual eu meti o pé e saí fora pela primeira vez – porque ela reclamava de dores de cabeça, tinha espasmos. Com dezessete anos, como eu ia lidar com espasmos? Não deu. As dores de cabeça dela deveriam ser eu porque agora ela, pelo que sei, não as tem mais; ontem ela ria e não parecia ter dor de cabeça nenhuma. Não perguntei nada para ela, mas eu sondo; é melhor assim, ser sombra que presença.

Sombras somos os dois: ela, com aquele jeitinho, e eu. Ela nem me viu, eu acho, mas parece que acendeu a porra de uma dinamite no meu cérebro, uma dinamite que está para explodir; dois dias sondando, pensando, repensando. Escuto uma música, lembro; vejo um negócio aqui, outro ali, eu lembro dela. Eu nem gosto dela, tenho certeza disso. Se me chega alguém e me oferece um trocado qualquer: ela ou o dinheiro? Eu escolho o dinheiro! Por que é, então, que ela fica fazendo aparições na minha mente, surgindo quando estou distraído, em flashes que se repetem mais que a música hit do carnaval? Nem para isso ela serviu, nem para ser carnavalesca, nem para ser uma desgraçada que gosta das coisas que eu não gosto, nem para ser uma ordinária que age de um jeito que dá nojo, que assim eu tomaria logo ódio e não teria essas epifanias esporádicas. Se é que já não tenho ódio, talvez essa obsessão seja ódio por ela ter estragado tudo; aparecendo com aquele jeito de “quero te conhecer”, assistindo minhas coisas preferidas, cantando as músicas da banda que eu gosto nos tons mais agudos que eu já escutei, um tom capaz de penetrar minha mente e me atormentar.

02:23 e eu acordado ainda, se é que a cólera deixa alguém realmente acordado. É certo que alguma coisa despertou em mim nos últimos dois dias, alguma coisa que me diz para acabar logo com isso. Escuto o barulho abafado de alguém abrindo a torneira do banheiro, encaro o teto como que assombrado, mas assombrado por dentro, o fantasma dela me persegue e não me deixa seguir em frente. Ainda hoje, mesmo sei lá quantos mil dias depois, lembro de como ela fazia um beijo parecer uma coisa importante; parecer um momento especial, e isso me assombra. Essas importâncias ridículas me perturbam como se me cobrassem alguma coisa que eu sei que não devo a ninguém. Será que sei? Ela tem esses misticismos, eu não. Eu sempre planejei as coisas pensando na realidade, sem especulações fantasiosas, sem pseudociências, sem sentimentalismo irracional; e, ainda assim, fiquei atazanado quando ela não me mandou um “feliz aniversário” esse ano. É por isso que tem algo errado, o fantasma de alguém que não significa nada para mim, me atormenta; pior, o fantasma de uma pessoa viva. Viva demais. A cabeça já doendo, os olhos ardendo de cansaço, decido que tenho que me livrar dessas memórias quentes e festivas, ilusões, memórias agitadas de alguém que não deveria estar roubando minha paz. Ela vai ter que sumir, da minha mente e da minha vida, de um jeito ou de outro sobrou para mim resolver isso. Às 02:57, no ápice da raiva, peguei as chaves do carro, joguei o casaco velho da universidade no ombro direito e saí fechando a porta com cuidado para não acordar ninguém em casa.




Ane Karoline

imagem: we heart it

A loucura era que todos os dias me eram iguais: começavam antes que eu estivesse pronta, me atropelavam um amontoado de acontecimentos e, no fim, uma exaustão e uma sensação de que não havia feito nada do que deveria. Nesse marasmo, todos os dias fazia questão de escolher a bandeja verde no refeitório da faculdade e escolher, com cautela, o lugar em que me sentaria. Sem perceber, cultivava uma fagulha de esperança em meio aos meus dias cinzas. Foi em um desses dias, escolhendo um lugar para sentar,  que eu vi outra bandeja verde.

Ela era uma moça de estatura mediana. Os cabelos, desengrenhados, estavam presos em um rabo de cavalo deixando o rosto dela nu. Não parecia pensar em nada, não era tranquila e nem agoniada - apenas era. Estava ali, ocupada sendo ela mesma, como tantos outros o estavam naquela manhã cinzenta de uma quinta-feira qualquer. A manhã era como ela: não se destacava entre as demais mas, com certeza, tinha uma existência única e fundamental. Muitos não a viam, como não veem as várias manhãs que passam indistintas como páginas no calendário. Mas, naquele dia - não sei se por acaso, destino, distração ou identificação- eu a vi. Me vi nela: uma alma, dentro de um corpo, querendo existir. Não é o que somos todos, afinal? Tanto nela me vi que me senti convidada e fui sentar-me com ela. 

Como costumeiro da vida cotidiana, não conversamos. Imersas nos mundos de nossas próprias bandejas, nos assustamos com o barulho seco de algo caindo no chão. Peguei o livro  e fui entregá-la, era um dicionário português-francês. Olhando para ela, entreguei o dicionário e, só quando  ouvi o "Merci" acompanhado de um aceno de cabeça, eu percebi: uma francesa. Eu não falo francês. Poderia responder-lhe em outras quatro línguas, mas não na dela. O sorriso que ela me deu me mostrou que não era necessária, uma resposta, nem mesmo suficiente. Foi um sorriso tão breve, mas carregado de cumplicidade e simpatia o suficiente para acender em mim uma fagulha de fraternidade - há muito perdida. Então eu reparei que essa fagulha de fraternidade só apareceu porque eu senti, nela, o amor. 

Terminamos nossas bandejas, e eu saí de lá assim: a bandeja verde, de esperança, o coração aquecido, de amor. Saí desse tal dia, vendo tudo colorido e sabendo que o amor que carregamos dentro de nós não é lá tão diferente: somos todos gente. Todos confusos, buscando um caminho. A loucura é ter esperança na fraternidade em meio à tanta desavença, mas o meu lado da força é esse e eu vou ousar afirmar que se nos respeitarmos e nos permitirmos ser, podemos crescer e florescer. 

com amor, 
Ane Karoline

imagem: weheartit.com

Eu, se fosse você, não tentava. Como não sou, vou apenas te alertar: se não souber - ou não quiser- mergulhar, não invista seu tempo em tentar. Você não vai conseguir me encontrar: não estou na superfície. E, como sei que nem todo mundo tem coragem para entregar-se, não tenho arriscado. Abdiquei da profissão de tentar nadar onde água não há: se oceano não for, não venha uma tempestade procurar. Eu não sei garoar.
Eu não saberia te dizer quantas vezes tentei, foram muitas. Tentei me colocar em uma caixinha e me silenciar: ser como aquela brisa suave que a gente quase não nota, ser a mocinha de um romance que sempre concorda, ser silenciosa como um violão sem cordas. Eu até quis ser uma donzela em perigo que se faria menor para fazer do príncipe maior; quis ficar caladinha e deixá-los argumentar, para que eles tivessem onde se segurar. Mas carrego em mim uma nuvem de emoção: eu chovo comoção.
Estou sempre transbordando opiniões, ideias e aspirações. Sempre lançando indagações, inquietudes e definições. Sempre descobrindo novas maneiras de ser, de me encontrar e me esconder. Sempre construindo hesitações, muros e questões. Sempre refletindo sobre esse incessante tumulto que sou: uma montanha-russa de sentimentos que em um segundo ama com vigor, no seguinte já segue sem alento. 
Espero não assustar você, mas alguém teria que falar: eu não sou de calar. Estou sempre a comprar uma ou outra briga em nome do que acredito e do que defendo; busco sempre gritar em meu nome, e em nome daqueles precisam se expressar, até que alguém possa me escutar; falo, muitas vezes, sem pensar e fujo, constantemente, quando deveria falar. Esbravejo, bato o pé, vou à TV, à imprensa, à Lua, não temeria em gritar no meio da rua: a gente não pode fugir do que é. 
Essas metades, meias verdades e fracas vontades não me servem, aliás, não me cabem. Comigo é tudo ou nada, é ir ou ficar, é mergulhar ou se afastar. Portanto, se essa tendência à dramaticidade te assustar - ou não te interessar - eu, sinceramente, não vou te mandar para a fogueira, só peço que não apareça do lado de cá - que é o lado onde tudo acontece: tem muito choro mas tem muito amor, tem muito drama e muito vigor. Então, se o seu coração for daqueles quietinhos, que temem se afogar, vou te avisar: não precisa nem tentar, meu bem, quem está na chuva é para se molhar. 

Ane Karoline


imagem: fanpage "hm, sei lá"

Eram duas. As duas, juntas, não somavam 100 kg e nem 40 anos de vida. Inquietas, tentavam falar baixo na medida em que o zum zum zum do ônibus permitia. Uma loura, a outra morena - a segunda mais cabisbaixa. Eu as observava como quem esquece os fones de ouvido e, para distrair-se, põe-se a observar a vida alheia. 
- E vocês, como estão?  - ouvi a loura perguntar cautelosa.
Logo deduzi de que tipo de "vocês" se tratava.
- Ah...
- Mas de novo?
- Não. - suspirou e colocou uma mexa do cabelo castanho atrás da orelha - agora acabou mesmo.
Os tempo que passaram calada, depois disso, só me fez perceber o meu grau de envolvimento e de interesse para com a prosa.
-Poxa - a lourinha, finalmente, disse - mas vocês nem conversaram?
Traição, pensei.
- E desde quando ele me ouve? Ou me responde?
Fui juntando as peças: o cara não estava interessado, não queria conversar.
-Talvez seja melhor assim. -sorriu, tentando animar a outra.
Comemorei: isso! Mostra para ela que alguns começos vêm disfarçados de finais.
- É...
- Mas você ainda poderia chamá-lo para conversar - tentava animar a outra a todo custo.
- Ele não quer.
- Tem certeza?
Comecei a me inquietar. A conversa estava indo para um rumo que levaria a mocinha a pedir, provavelmente pela milésima vez, para alguém voltar.
- Acho que tenho. Ele foi me direto. 
Roí uma unha, e olhei de relance para elas. Percebi que ela estava começando a pensar no assunto.
- Será que não vale a pena tentar mais uma vez?
- Não sei... Será?
Pronto. Lá ia atrás dele. Cutuquei outra unha, impaciente. 
- Ah, vale sim! Quem sabe ele não está só esperando você ligar?
- Ele ligaria se quisesse - foi da senhora sentada à frente das meninas que veio a resposta que eu queria ter dado.
As meninas se entreolharam confusas mas a senhora não pareceu constrangida e continuou.
- Não conheço os detalhes da sua novel mas esteja certa de que se ele quisesse, ligaria. Se você deu de si o que tinha e ele não se envolveu, se não achou suficiente, você tem que partir. Eu, que não te conheço, não pude deixar de me envolver com a conversa por que a gente se envolve com tudo! Se com ele não aconteceu, se ele não se envolveu, esse lugar não é seu.
Eu, que à essa altura já acompanhava o desenrolar da cena descaradamente, não pude deixar de notar os olhos das mocinhas brilhando com as lágrimas da emoção da gratidão e da dor da compreensão. Não falei com elas e não sei, então, qual foi o fim. Mas, dali, peguei algo para mim:  entre tanta gente disposta a nos escutar, por que temos escolhido quem por nós não se permite afetar?

Ane Karoline

Imagem: google


É perturbador. Você me tirou um pouco da fé que eu tinha nas pessoas, sabe? Me fez duvidar do amor, ao perceber que ele nem sempre é o bastante. Sei disso porque eu te amei. Na verdade, ainda amo e, todos os dias, tento limpar um pouco da bagunça que esse amor deixou aqui. Tento encaixotar cada parte desse amor aos poucos e guardar em algum lugar onde pese menos, um lugar onde todas as lembranças não baguncem tanto a sala de estar da minha vida. 
Em alguns dias sou mais forte e encaro a confusão. Em outros dias nem tanto. E, ainda existem dias, certos dias em que eu apenas apenas fecho os olhos, puxo a coberta e choro baixinho para ninguém ouvir - para que acreditem que sou realmente tão forte quanto pareço ser. E, assim, vou seguindo: um dia após o outro, um passo de cada vez, me reorganizando devagarzinho, percebendo que não é possível ir mais rápido, ansiando que o tempo faça seu trabalho.
Tenho também que admitir que caminho de forma contida porque estou decepcionada e com medo. Eu apostei alto no que tínhamos e perdi tudo. Eu achei que nunca perderia, entreguei tudo que tinha, mas errei, e, quando a gente erra nessa proporção, é difícil se equilibrar na estrada da confiança outra vez. Tenho, sobre mim, uma nuvem de medo constante de passar por isso de novo. Não aguentaria essa dor, a devastadora sensação de não ter nada novamente - me desespero só em imaginar, cogitar algo assim. Esse medo fez com que eu me fechasse para as pessoas, em uma tentativa de proteger meu coração até que eu fique mais forte. Na verdade, espero ficar forte um dia. Espero não fugir do amor para sempre, não ficar com o pé atrás com todos os caras que se aproximarem de mim, duvidando de tudo. Espero sair dessa.
Não dá para negar: é muito doloroso quando a gente acredita em alguém, quando a gente, cegamente, acha que conhece alguém e, de repente, percebe que tudo foi um erro, uma sucessão de erros que durou tempo demais. Nesse caso, uma sucessão de erros que durou tempo suficiente para que eu me dispusesse a fazer esforços inimagináveis. Eu ia abrir mão de quem eu sou, por você. Acho que você não tem a mínima ideia do que é isso: eu cogitei me anular, esquecer meus sonhos e te escolher. Estive a centímetros de o fazer, de pular de cabeça mais uma vez, quando algo me segurou, me olhou nos olhos e me lembrou que o amor não prende, o amor dá asas. O amor é voo!
Foi assim que fiz a escolha mais difícil da minha vida: eu me escolhi. Apavorada, fechei os olhos, inspirei, reuni toda a coragem que existia em mim e cortei os laços. Em um rompante de coragem súbita. Desesperada, bati a porta e saí correndo na minha direção. Doeu ter que fazer isso sozinha. Eu era uma menina que acreditava no amor, ansiosa para ser "feliz para sempre", em busca do futuro. Mas me tornei mulher.
Me tornei mulher ao entender que não existe um final feliz se o caminho não for feliz, porque o futuro é feito de vários presentes, é feito agora! Me tornei mulher ao entender que ninguém vai me completar, eu sou completa e devo buscar, em mim, os sonhos que meu coração anseia, a força que meus pés precisam, as respostas para todas as perguntas que carrego também em mim. Me tornei mulher ao perceber a beleza existente na paciência, na confiança plena de que o que é meu vai chegar até mim, desde que eu continue caminhando e me construindo para estar pronta e perceber quando chegar. Me tornei mulher ao ver que o futuro é o que eu decido agora, e eu preciso me organizar para caminhar sem pressa mas, também, sem perder tempo. 
O que eu quero dizer é que eu nunca direi nunca - na verdade, ainda busco maneiras e caixas grandes o suficiente para encaixotar esse amor que ainda é teu - mas, hoje, eu enxergo o mal que nos fizemos mutuamente. Vejo todos os nossos erros e quero continuar me escolhendo. Todos os dias, antes de sair de casa, eu relembro cada motivo e convenço meu coração de que partir foi a melhor escolha. Bato a porta do carro e falo em voz alta, como que uma prece para o meu coração entender: hoje não. 



 Texto e imagem por: Bianca Martinez



É difícil. Eu entendo. 
Você, provavelmente, está lendo isso porque está perdido sobre o que está fazendo ou porque você está lidando com algo que sente que ninguém nunca vai entender. Você já esgotou as soluções, você já tentou tudo o que há para tentar para, sempre, cair no abismo do insucesso.
Eu sei que é difícil quando você se encontra de cara com uma situação que parece que não vai melhorar. Eu sei, eu sei, acredite em mim, eu sei. Se você está lutando com assuntos acadêmicos, trabalho, amigos ou com seu relacionamento com alguém de muita importância (ou a falta dele), eu espero que você saiba que você não está só. Deixe-me lembrá-lo que existem milhares de pessoas que também estão lutando e estão dando o máximo de si em batalhas árduas.



Eu sei que se conselho fosse bom, a gente deveria vender. Eu sei que não posso e nem quero me meter. Mas se eu pudesse te dar um conselho, te aconselharia a não esperar a vida acontecer: ir lá e fazer. Caminhar, correr, cair e levantar sem medo de perder. A gente perde mesmo é pelo medo de tentar. Esse, na verdade, é o conselho número 2: arrisque. Vivi 18 anos sem comer mostarda porque achei que fosse ruim. Veja só que medida mais sem comprimento: achei. Achei errado, como várias outras vezes. Provei, gostei e a única coisa que perdi foram 18 anos daquele gostinho marcante de mostarda em minha vida. 
Ah, esse é o conselho número 3: esse espaço de tempo consciente que apelidamos carinhosamente de vida é exatamente isso, um espaço de tempo que passa - e passa que é uma beleza. Aliás, pode ser uma beleza. E pode não ser. Mas a gente pode tentar fazer ser uma beleza, ao nosso jeitinho, especialmente nesse dia que fica entre o ontem e o amanhã! Porque, de repente, ele já não existe mais. Tem isso também: tudo passa, ainda bem! E esse é o conselho número 4: não se aborreça tanto assim, tudo vai chegar ao fim. Tudo pode mudar. As coisas são criadas e recriadas a cada instante. Essa sua tragédia de agora, possivelmente, não será nada no próximo ano. Quem te chateia hoje, amanhã vai estar seguindo outros rumos.
Eis o conselho número 5: as pessoas são coautores de nossa história. Não desperdice isso e nem, tão pouco, faça delas os únicos autores. Somo todos colaboradores e ninguém está nenhum degrauzinho acima. Falando em estar acima, não queira. Conselho número 6: faça o melhor que puder, seja o melhor que puder sem precisar (ou desejar) estar acima de ninguém. Mantenha a ideia de que somos colaboradores.
Plante, cultive e espalhe amor é a melhor forma de convivência e sobrevivência existente. Diga bom dia e seja o último a sair de um abraço. Somos colecionadores de miudezas, na verdade, somos construídos por elas. Falo das coisas que não têm tamanho, aquelas que podem parecer pequenas mas são tão apreciáveis que tornam-se imensuráveis. Coisinhas. Coisinhas que nos edificam sem que percebamos. Conselhos 7, 8 e 9. E esperando que o décimo seja realmente um acréscimo digo: acredite. Qual é o pior que pode acontecer? Não acreditar é um ato de desesperança e covardia tão grande que apaga milhares de chances todos os dias. Acreditar é ter um caminho para trilhar.