Um penal entreaberto, folhas vítimas de seus traços, ora inspirados, ora apenas por descaso. Era o que ele via. Uma garrafa que ainda restava água de dias atrás, e uma montanha de livros que serviram de banquete durante madrugadas como aquela. Ele devorara todas as palavras de forma a saciar sua ansiedade.
Uma melodia que ecoava rouca, intensa, como se um chamado. Eram os cães da madrugada que ele ouvira.




- Um bando de filhos da p***! Isso é o que eles são. – Erik esbravejava, enquanto sua voz ecoava pelas escadas que davam acesso à plataforma do metrô.
        Queríamos encontrar outra festa para ir, até que nos expulsassem novamente por causa de alguma confusão causada por Erik. Então partiríamos para outro lugar e repetiríamos o ciclo até o dia amanhecer.
-Acho melhor irmos para casa – disse Linda, prudentemente. 
- Não vamos para casa – Sarah falou. – Só precisamos controlar o esquentadinho aí.
        Já passava da meia-noite. Nós pegaríamos o último trem do metrô da linha 13 e cruzaríamos alguns quarteirões. Mesmo àquela hora, pegar um trem ainda era a maneira mais rápida de se chegar a algum lugar.
        Aquela estação era suja. Pichações cobriam as paredes e o cheiro de urina era forte. Metade das lâmpadas não funcionava e havia ladrilhos da parede despedaçados e espalhados pelo chão.
- Meu Deus! – exclamou Linda, a voz trêmula e assustada.
        Ela apontava para a parede paralela aos trilhos, na plataforma onde estávamos. A imagem de um pentagrama invertido em vermelho vivo bordava os ladrilhos encardidos, a tinta ainda escorria pela parede – parecia recente.
- Precisa mesmo fazer tanto escândalo? – perguntou Erik, que não largava sua garrafa de cerveja.
     Cheguei perto da pintura grotesca para avaliar melhor. Um cheiro de ferro misturado com um aroma adocicado emanava da parede. Toquei na tinta, que era pegajosa e tinha textura espessa.
- É quente! – eu disse, com espanto.
- Meu Deus! É sangue! – Linda se desesperou ainda mais, sempre fora muito assustada com tudo.
- Isso é coisa de algum bosta querendo aparecer – disse Erik. – Sai da frente que foi acabar com esse c******!
       Ele lançou a garrafa que tinha em mãos. O vidro explodiu bem no centro do pentagrama invertido e a cerveja se misturou à tinta (ou ao sangue) do desenho, que começou a se dissolver. 
         Um barulho agudo e um vento quente invadiram a plataforma, mas não havia trem. O lenço que Sarah levava no pescoço foi jogado nos trilhos pelo vento.
- Droga! – Ela saiu correndo para pegar sua peça.
- Não vá para os trilhos, Sarah – disse Linda. – Deixa pra lá.
- Eu paguei uma nota naquilo, não vou deixar aqui.
        Não havia trem vindo. Então Sarah pulou nos trilhos até alcançar seu lenço, que ficara preso a uma das ferragens.
- Esquece isso, Sarah. Eu te compro um novo – eu disse.
        As luzes começaram a piscar e o ar ficou mais frio.
         Sarah enfiou a mão sob o trilho para tentar desprender o tecido, mas seu braço acabou tocando em uma parte eletrificada. A energia do choque jogou seu corpo a cinco metros de distância. Não sei dizer, mas acho que morreu na mesma hora.
         Linda começou a chorar em desespero. Erik ficou estático sem falar uma palavra. Eu corri para a beirada da plataforma para tentar puxar o corpo de Sarah, mas estava muito longe.
         Um barulho alto anunciou o trem chegando.
       Sangue respingou na beirada da plataforma quando o transporte de metal passou violentamente sobre o corpo de Sarah, rasgando pele e triturando ossos.
      Na parede atrás de nós – onde antes ficava o pentagrama – os ladrilhos pareceram estar sangrando. Linhas vermelhas começaram a brotar dos rejuntes e, assustadoramente, formaram com letras distorcidas a frase:
OS SETE PRÍNCIPES CAMINHAM
        As luzes iniciaram sua dança novamente. Uma névoa veio acompanhada de um ar gélido.
        Agarramos Linda pelos braços e a carregamos para dentro do vagão.
      As portas foram impedidas de serem fechadas por completo – o novo sistema de segurança do metrô impedia os trens de se locomover com as portas abertas.
      A névoa estava quase invadindo o vagão. Então Erik viu que um pedaço de ferro dos trilhos estava travando o mecanismo da porta. Ele agachou-se no chão e começou a puxar o pedaço de ferro. Me juntei a ele para ajudar.
       Quando finalmente conseguimos, as portas se fecharam bruscamente. Perdi o equilíbrio e caí para o lado, mas as portas prenderam a cabeça de Erik para fora do vagão. O trem começou a se mover enquanto Erik sufocava. Linda e eu tentamos desesperadamente abrir um espaço nas portas para livrarmos nosso amigo, mas pareciam estar travadas. 
         O túnel se aproximava com velocidade.
         De repente, as portas se fecharam por completo.
       Olhei para a camisa de Linda. O que era branco, agora estava manchado por sangue. Minhas roupas também estavam cobertas por sangue e pedaços de pele e cartilagem. 
        No chão, o corpo de Erik sem cabeça era envolto por uma poça do próprio sangue.
     Agarrei linda e a levei para um canto mais afastado. Os vagões não eram interligados, então estávamos confinados àquela imagem de horror até a próxima estação.
Ficamos abraçados, sentados no chão, esperando a próxima estação chegar.
       O frio ficou tão grande que começou a embaçar as janelas. Algo chamou a atenção na janela de frente para nós. O vidro começou a trincar de maneira não natural até formar o desenho do mesmo pentagrama invertido que havíamos encontrado na parede da plataforma. O mesmo fenômeno também se repetiu nos vidros de todas as outras janelas.
Ficamos de pé, apavorados. Já havíamos chegado à estação.  
       O silêncio era apavorante. Olhamos pela janela e vimos a névoa nascer do chão. 
- Ainda não acabou – disse Linda, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Os vidros das janelas explodiram em todo o vagão, as luzes pareciam mais enlouquecidas que antes, lâmpadas também estouraram no caos.
       Corremos pelo vagão e pulamos o corpo de Erik. O cheiro de ferro com tom adocicado era insuportável do lado de fora. Linda tropeçou e acabou caindo na plataforma.
Quase perto das escadas, olhei para trás. Estava tudo calmo novamente.
Linda se levantava vagarosamente. Seus dedos da mão estavam retorcidos de forma asquerosa, seu corpo todo tremia. De repente, ela emitiu um grunhido assombroso incomum a qualquer espécie animal.
       Aproximei-me para olhar em seus olhos. Foi como olhar nos olhos de um demônio.
- Saia daqui, filho da luz! – disse a voz distorcida que saiu da boca de Linda. – As asas que o protegem não nos deixam tocá-lo. Mas a cada alma que nossos cavaleiros levam nos tornamos mais fortes. Vá, filho da luz! Deixe o medo crescer dentro de si, até chegar a hora que beberei seu sangue. 
       O corpo de Linda se contorceu violentamente e caiu sem vida no chão.
       Não sentia meus pés, mas corri. Subi as escadas. Saí correndo no mundo lá em cima. Continuei correndo. Correndo. Correndo. Não olhava para trás.
Ainda não tenho coragem de olhar para trás.
***
- Há algo a mais que queira me contar, Arthur? – perguntou o médico psiquiatra e terapeuta Augusto Flynn.
        Arthur balançou a cabeça negativamente. Era sua primeira sessão com Augusto, mas já estava convencido de que seria o mesmo que foi com todos os outros.
- Você sofreu um grande trauma, Arthur. As investigações constataram que você e seus amigos foram atacados por um serial killer com indícios psicóticos. A sua mente transformou tudo o que você sofreu em uma alucinação, que substituiu a memória traumática sofrida por você naquela noite. Casos assim são mais comuns do que imagina. Eu posso lhe afirmar que não há nada de sobrenatural quanto ao que aconteceu na linha 13. Podemos começar a trabalhar na próxima sessão para livrarmos você desse trauma.
        Arthur se despediu educadamente de Augusto, mas não voltaria a se consultar novamente com nenhum médico. Sabia que não era louco, não queria admitir o contrário.
        Na mesma noite, voltou à estação onde tudo começou. O horário era aproximadamente o mesmo de quando pisou seus pés ali pela última vez.
- Vem me pegar! – começou a gritar. – Você me quer? Vem me pegar! Acabe com isso logo! Vem me pegar! Vem me pegar!
Seus gritos viajaram pelas paredes do túnel. Gritou com todas as forças. Gritou. Gritou. Gritou...

-Fernando F. Morais


Lembro-me daquela noite como se fosse ontem. A chuva era torrencial do lado de fora. O vento uivava pelas frestas da janela, trazendo uma sensação de mau agouro.  Eu estava sozinha em casa, assistindo à um filme qualquer na televisão. O filme apenas passava, sem que eu realmente prestasse muita atenção a alguma coisa. Minha mente cheia repassava coisas inúteis.  Já passava das onze da noite quando meu celular tocou. Eu estava tão perdida em pensamentos que dei um pulo no sofá. Com o coração palpitante, chequei o nome na tela. Era minha amiga Laura. Respirei fundo antes de atender, na tentativa de não parecer uma maluca. Laura sempre falava demais. Essa noite ela estava propondo que fossemos com o namorado dela visitar um hospital desativado.


                   Eu detestei a ideia da viagem assim que meu pai a anunciou. Nunca gostei de viajar de carro. Era desconfortável, e, acima de tudo, entediante. Infelizmente, meu pai era do tipo de gente teimosa, que não muda de ideia fácil. Contra a minha vontade, organizei minhas coisas em uma mochila velha. Minha mãe continuava a reclamar que eu estava levando poucas coisas, e que a mochila não aguentaria tudo o que eu colocava nela.



                Eu havia tentado de todas as formas sair do trabalho no horário. Até havia colocado um alarme no celular para ser lembrada. No entanto, mais uma vez eu tinha me perdido em pesquisas e estudos. Para piorar a situação, havia começado a chover, e eu tinha esquecido o guarda-chuva no carro. Organizei os papéis em minha mesa, guardei os tubos e as substâncias com as quais eu trabalhara e tranquei tudo no armário.


Parece que se passaram anos desde aquele dia. A saudade que sinto hoje não se compara com a dor que ele sentiu naquela época.
Era uma tarde de verão e, sabe quando se é criança e se tem “o” melhor amigo? Então, ele era meu melhor amigo. Suas canelas magricelas, compridas e seus cabelos ruivos desgrenhados montavam a imagem perfeita de uma criança esquisita. Mas tinha que ser estranho mesmo, pois se não o fosse, não teríamos nos conhecido.


   O dia estava nublado, com um vento frio a despertar calafrios. Os corpos dos três homens eram engolidos pelas chamas em frente à igreja de pedra do vilarejo. A multidão, com pedras e paus nas mãos, incitava as labaredas em sua dança mortal.
Ester correu o mais rápido que uma mulher de 62 anos, com as pernas inchadas pelas varizes, poderia correr. Ela conseguiu chegar à porta da casa, que ficava na estrada que seguia até o vilarejo.
- Os homens! – gritou Ester, a voz rouca e fatigante. – Os homens!
As outras três mulheres dentro da casa olharam a imagem da matriarca em desespero e não tiveram muita reação se não se assustarem com os gestos de Ester.
   Quando estava prestas a abrir a boca para enxotar mais palavras, a ponta de uma estaca de madeira brotou de seu peito. A preocupação no olhar das outras mulheres deu lugar ao medo. Homens com tochas, paus, pedras, inchadas e garfos abriram caminho por cima do corpo ensanguentado da velha, que ainda se debatia no chão de madeira rústica. Eles agarraram as mulheres e começaram a bater nelas com as mãos e pedaços de madeira. Quebraram tudo o que viram pelo caminho; a mobília, os utensílios, vasos de planta e ornamentos.
   Um dos homens lançou um lampião contra a mobília e o óleo fez o fogo se espalhar rapidamente por toda a parte.
Helena vinha da floresta com uma cesta cheia de folhas e ervas para preparar chá e produzir fragrâncias. De longe, ela ouviu os estalos provocados pelo fogo na madeira. Quando estreitou a vista, percebeu a casa de dois andares, construída por seu pai e seu tio, sendo consumida por labaredas vermelhas e expelindo uma fumaça negra para o alto.
   Ela largou a cesta que trazia e começou a correr em direção ao horror diante de si. Quando se aproximou da casa, começou a gritar em desespero o nome de sua mãe, o da tia e o de sua prima. Também chamou pelo nome do pai, do tio e do irmão mais velho.
   Antes que pudesse continuar, uma mão grossa e áspera tapou sua boca e um braço forte a agarrou pela cintura, afastando-a daquele cenário.
   Sarah, a mais jovem da família, foi brutalmente morta ao ser arrastada pelos cabelos durante o caminho até a praça do vilarejo. Sua mãe e sua tia tiveram as roupas rasgadas e foram levadas por uma multidão enfurecida ao local onde os corpos dos três homens não ardiam mais.
   Com uma mão grande impedindo sua boca de soltar um grito, Helena olhava nos olhos daquele homem rústico de cabelo e barba engrenhados.
- Não lhe farei nenhum mal – disse o homem. – Promete não gritar se eu soltar a sua boca?
   A garota assentiu com a cabeça, tranquilizada pela voz calma do homem.
- Seu pai me enviou, Helena, para lhe proteger.
- Quem é você? – perguntou Helena, ainda receosa.
- Meu nome é Nicolaj Ulrich. Sou amigo de seu pai desde que cruzávamos os mares em busca de riquezas. Estava passando por perto, então resolvi ver como estava meu velho amigo. Para a minha desgraça e a de seu pai, encontrei-o pouco antes de o terem levado para ser julgado.
- Como sabia onde eu estava, Sr. Ulrich?
- Seu pai me disse que estaria na floresta como costuma fazer todas as manhãs. Infelizmente, cheguei tarde demais para proteger sua família daquele grupo de fanáticos.
- Minha mãe! Minha prima e minha tia! O que vai acontecer a elas?
- Temo que não possa fazer nada por elas, Helena. Desculpe.
   As lágrimas vieram junto com a dor de quem sofre com a ignorância e intolerância dos homens.
- Vamos, Helena! Preciso lhe tirar deste lugar, para isso temos que voltar ao vilarejo onde está minha carroça.
    Nicolaj entregou à garota sua capa com capuz para que ela pudesse ficar longe dos olhares inquisidores. Então seguiram a pé a estrada de terra que daria em um aglomerado de casinhas de madeira, estalagens para viajantes e tavernas.
   A carroça de Nicolaj com cobertura de lona estava em frente à estalagem local. Ele era um caixeiro viajante que vivia de cidade em cidade comercializando seus artigos e procurando por novos.
   Helena permaneceu debaixo da lona amarelada que cobria a carroça e protegia os produtos negociados por Nicolaj, enquanto ele foi buscar os cavalos para poderem partir.
Uma agitação na praça chamou a atenção de Helena.
   Ela espiou por um pequeno buraco na lona o que estava acontecendo ali perto. Sua mãe, Martha, e sua tia, Abigail, estavam sendo levadas até o alto da escadaria da igreja de pedra por um grupo hostil de homens.
   Uma multidão agitava as mãos no ar, gritando “morte”, “morte às bruxas”.
   Martha e Abigail foram colocadas, com as mãos atadas para trás, sobre bancos de madeira. Do alto viam duas cordas com uma forca trançada.
   Um homem que carregava uma bíblia preta nas mãos pediu silêncio para a multidão, então começou a falar:
- Vemos aqui duas esposas de Satã tomadas por espíritos que as fizeram, também, corromper seus bons homens. Para eles, que tiveram seus corpos purificados pelo fogo, Deus será misericordioso e salvará suas almas. Elas, que abraçaram a fé pagã de demônios e de falsos deuses, a sentença levará suas almas para o poço profundo dos pecadores para sofrerem por seus atos contra Deus.
   O homem abriu a bíblia e passou a recitar trechos em latim. A corda foi amarrada em volta do pescoço das duas mulheres e a multidão começou a jogar paus e pedras em direção aos seus corpos.      Dois homens se aproximaram por trás e, quando o sacerdote terminou de recitar e fechou a bíblia, eles chutaram os bancos sobre os quais estavam Martha e Abigail.
   Helena quase perdeu os sentidos quando viu o pescoço de sua mãe quebrar quando seu corpo despencou. Sua tia ainda se debateu por alguns segundos até que seu sopro de vida também a deixou.
- O fogo queima os pecados – disse o sacerdote, com uma tocha na mão.
   A chama pareceu congelar, os sons desapareceram. Helena não sentia frio nem calor. O tempo havia parado de repente, ela era a única acordada.
- Menina! – soou uma voz doce.
   Helena se virou bruscamente para olhar na direção da voz.
- Quem é você? – disse Helena para a velha que entrara debaixo da lona da carroça.
- Sou apenas um mensageiro.
- O que você quer? – Helena espiou o lado de fora e viu Nicolaj congelado no tempo com seus dois cavalos. – O que está acontecendo?
- A mensagem que trago é simples: você é o espírito profetizado. A herdeira das eras que trará o equilíbrio ao mundo.
   Helena continuava sem compreender, a confusão assolava sua mente.
- Eu não entendo! Por que isso está acontecendo? – As lágrimas começavam a brotar dos olhos e escorrer pelas curvas do rosto.
- A natureza trabalha de forma sábia, menina. Tudo o que está acontecendo não é obra do acaso.    Mesmo a presença do cacheiro amigo de seu pai não é coincidência, ele foi escolhido para ser seu protetor, mesmo que não saiba disso.
- Por quê? – questionou Helena em prantos.
- Não chore, Helena. Sua tarefa neste mundo é grande. Você é a criança prometida; a filha de Pandora que trará paz aos planos desta terra. A natureza a guiará e irá lhe inspirar nos momentos certos para que você possa reunir os instrumentos necessários à sua jornada.
   A velha estendeu a mão. Quando Helena a tocou, o mundo pareceu ser sacodido e o tempo andou novamente.
   A velha desapareceu.
- Vamos, Helena – disse Nicolaj. – É hora de partirmos.
   Na praça, os corpos de sua mãe e tia queimavam enquanto a carroça se distanciava mais.
   Quando saíram do vilarejo, Helena sentou-se ao lado de seu protetor na frente da carroça. Eles se aproximaram da casa, que agora era um entulho de madeira queimada. A garota ouviu um assobio provocado pelo vento em seu ouvido, então algo lhe chamou a lembrança.
   Ela pediu para Nicolaj parar a carroça ali onde estavam. Ela começou a caminhar entre os destroços de seu antigo lar. Debaixo de uma porta queimada pelas chamas, ela viu a ponta de um livro azul intocado pelo fogo.
- O que é isso, Helena? – perguntou Nicolaj, vendo que a garota trazia algo nas mãos.
- Este é o Livro das Sombras de minha família. Ele contém os segredos dos séculos.
- O que pretende fazer com ele?
- Vou usá-lo em minha jornada.

Fernando F. Morais


   A colaboração de hoje é do Fernando, um jovem autor com ideias revolucionárias e uma forma de ver o mundo bem pessoal. Ele possui outros contos, tão bons quanto o acima, e esperamos que continue a colaborar conosco. Para entrar em contato com ele você pode clicar aqui para localizá-lo no Facebook. Obrigado pela contribuição Fernando!


                Eu detestei a ideia da viagem assim que meu pai a anunciou. Nunca gostei de viajar de carro. Era desconfortável, e, acima de tudo, entediante. Infelizmente, meu pai era do tipo de gente teimosa, que não muda de ideia fácil. Contra a minha vontade, organizei minhas coisas em uma mochila velha. Minha mãe continuava a reclamar que eu estava levando poucas coisas, e que a mochila não aguentaria tudo o que eu colocava nela.
                Nós passaríamos doze horas dentro de um carro em direção a uma pequena cidade, ao sul. Eu sequer me lembro do nome do lugar. O céu era cinza como concreto, e me dava calafrios apenas de olhar. Por isso, decidi usar as minhas botas. Ainda descalça, corri pelo quarto, para selecionar algum livro para levar comigo. Certifiquei-me de encher meu celular com músicas de que gostava, e de carrega-lo antes de partir. Meus pais tinham o péssimo hábito de ouvir músicas ruins e cantá-las ao mesmo tempo.
                A última coisa que fiz foi pegar um pacote de biscoitos e um guarda chuva. Entrei no carro de cara feia e tratei de abrir meu livro. Ingenuidade minha acreditar que conseguiria me concentrar.
- Por que está de cachecol? –Indagou minha mãe – Está se sentindo bem? Eu disse que você não devia sair à noite.
                Olhei para baixo, para o cachecol azul, de algodão, enrolado em meu pescoço. Estava frouxo, e cobria o colo de meu busto.
- É bonito. – Respondi.
- A garota está bem, pare de neuroses, Clarisse. – Disse meu pai.
                Uma discussão iniciou-se por causa disso. Eles falavam sobre mim e meus hábitos, como se eu não estivesse ali, no banco de trás, ouvindo-os perfeitamente. Em certo ponto, desisti da leitura e joguei o livro sobre o soalho do carro. Pluguei os fones em meus ouvidos e deitei-me sobre meu braço, o qual eu apoiei contra a porta do carro, formando um tipo de travesseiro. A música me distraiu, enquanto eu encarava a paisagem verdejante que passava como um filme pela minha janela. Meus olhos pesaram, e eu adormeci.
*
                O som de uma das portas do carro se fechando me acordou. Esfreguei as costas das mãos em meus olhos, preguiçosamente. Olhei ao redor, tentando me orientar. Era noite. No painel do carro, o relógio marcava uma da madrugada. Minha mãe abriu a porta ao meu lado, curvando-se para falar comigo.
- Vamos querida, passaremos a noite aqui, venha. – Orientou.
                Aqui? Aquilo não era um bom sinal.
                Sai do carro com as pernas meio bambas. O frio externo me atingiu, fazendo me tremer e abraçar-me, à procura de alento. Enfim ao lado de fora, olhei ao redor, apertando os olhos para tentar enxergar melhor. Estávamos em algum tipo de desvio, e havia uma casa grande à nossa frente. Ao olhar para trás pude ver a rodovia. Bosques sombrios, com árvores altas, se estendiam por todo o lugar, circundando a casa.
                O lugar era grande, com dois andares e estilo vitoriano. Era daninha crescia em suas bases, e eu não era capaz de identificar a cor das paredes externas.
- Onde estamos? –Indaguei.
- O GPS quebrou e tivemos que dar uma parada. Por sorte encontramos essa casa. Seu pai foi até lá, mas parece que está vazia. Com o GPS quebrado não podemos continuar, ao menos não em meio a essa escuridão. Passaremos a noite aqui. –Explicou minha mãe.
- Eu não acho que seja uma boa ideia. –Resmunguei – Por que não chamamos um guincho?
- Por que nosso carro não está quebrado! –Respondeu papai, caminhando até nós. Ele destrancou a mala do carro, e começou a retirar um pouco da bagagem. – E porque estamos sem sinal.
                Minha mãe caminhou até mim, passando os braços ao meu redor. O quão clichê era aquilo? Passar a noite em uma casa velha e abandonada, sem sinal de telefone.
- Vocês não assistem filmes? Casa velha abandonada significa: Vá embora se não quiser ter uma morte horrível. –Resmunguei.
- Isso é a vida real, Laura. Pare de besteiras, logo vai começar a chover.
- Podemos dormir no carro. –Retruquei.
                Papai apenas me encarou, revirando os olhos.
-Não custa nada tentar. –Disse.
- Vamos querida! – Orientou.
                Suspirei. Aquilo não me agradava nem um pouco, mas estava cansada demais para discutir. Estiquei o braço para dentro do carro e peguei minha mochila, jogando sua alça sobre meu ombro e fechando a porta do veículo em seguida. Segui minha mãe, ouvindo nossos pés esmagarem a terra úmida sob nossos pés. Papai ia à frente, com a lanterna do celular ligada, guiando-nos. Enfim alcançamos o alpendre da casa, onde subimos alguns degraus, antes que meu pai abrisse a velha porta de madeira.
                A casa estava úmida e cheirava a mofo. O odor era intoxicante e fazia minhas narinas coçarem. Olhei para cima, ouvindo o vento uivar contra a madeira no telhado escuro. O assoalho velho rangia a cada passo que dávamos. À nossa frente havia uma escadaria longa, que levava ao andar de cima. Ao lado esquerdo estava a cozinha, ao direito a sala de estar. Papai virou-se para nós.
- Eu vi um disjuntor lá atrás, vou ver se consigo alguma luz para nós. –Ele entregou o celular para minha mãe e saiu.
                Caminhei dentro da escuridão, observando os detalhes da casa. A única mobília que havia ali eram três sofás velhos, que formavam um “C”, na sala. As paredes estavam descascando, e provavelmente o aquecedor não estaria funcionando.
- Laura, eu vou ver se há água nas torneiras da cozinha. Volto em um instante. –Disse minha mãe.
                Olhei para trás e assenti. Ela saiu, caminhando apressada, e levando a única luz que havia ali. Saquei meu celular do bolso e acendi sua lanterna. Continuei caminhando, saindo do hall e adentrando a sala de estar, onde estavam os sofás. Não havia cortinas, e um dos vidros da janela norte estava quebrado. Eu usava a claridade da lanterna para me guiar, enquanto observava as paredes. Foi apenas quando ergui o facho de luz um pouco mais que notei a grande pintura, pendurada na parede em frente aos sofás.
                O retrato era grande, com as bordas comidas por cupins e a cor desbotada. Nele havia três figuras. Um homem velho, com a barba cheia e a feição séria, uma mulher elegante, com longos cabelos louros e cacheados, e uma garotinha, de cabelos compridos e lisos. Foi a disposição das pessoas no retrato que me chamou a atenção. O pai e a mãe olhavam para baixo, para a filha, com feições duras, como se a reprovassem por algo. A garota, no entanto, parecia me encarar diretamente.
                Andei para o lado, sem mover a vista dos olhos dela. Eles pareciam me acompanhar. Era um daqueles retratos em que, não importa onde você esteja, estará olhando para você. Ótimo. Um chiado chamou minha atenção.
- Temos água! –Gritou mamãe, de algum lugar distante.
- Ótimo! – Gritei em resposta, sem olhar para trás.
                No segundo seguinte a luz da sala se acendeu. Meu coração deu um salto, mas apenas por um segundo. Olhei para trás. Papai estava ali, com um sorriso satisfeito no rosto.
- E temos energia também. – Disse – Quem são os figurões? – Indagou, indicando o quadro à minha frente com um movimento de queixo.
                Olhei para trás, observando a figura novamente.
- Não sei. Gente estranha. –Respondi.
- E não somos todos?
- Pare de colocar essas ideias na cabeça dela, Richard. –Disse mamãe, entrando na sala – Vá buscar os cobertores no carro.
                Meu pai assentiu, retirando-se.
- Há um banheiro no fim do corredor. Vá aprontar-se para dormir. – Orientou Mamãe.
                Assenti.
                Caminhei até o fim do corredor, onde havia uma porta branca. Empurrei-a, com certa cautela. Deslizei a mão pela parede ao meu lado, até esbarrar no interruptor. Pressionei o pequeno botão, iluminando o cômodo.
                Era um banheiro simples. O assento ficava no canto, havia uma pia, com espelho acima, próximo à porta, e um chuveiro no canto mais distante. Ignorei o assento, virando-me para o espelho. As olheiras sob meus olhos eram arroxeadas, e eu estava pálida. Não que eu não fosse, mas parecia mais visível nesse lugar. Passei os dedos entre meus longos cabelos castanhos, desembaraçando-o.  Meu rosto era fino, e meus olhos quase negros. Eu era magra, e baixa. Liguei a torneira e juntei as mãos em concha, para pegar um pouco de água. Usei-a para lavar o rosto e o pescoço. Então me curvei e peguei minha escova e pasta de dentes. Algo naquele ritual de me preparar para dormir me acalmou.
*
                No final das contas acabei ficando com o sofá menor. Era a coisa mais lógica, já que meu pai tem quase um metro e noventa de altura, e eu apenas um e sessenta. O outro sofá parecia em melhores condições, por isso me apressei e deitei-me nesse, para que mamãe pudesse ter ao menos um pouco de conforto. Se é que isso era possível.
                Ela havia trago pães e frutas, e foi apenas o que comemos. Meu pai reclamou, mesmo depois de ter comido seis pães. Ele havia encontrado um pedaço de madeira para cobrir o buraco no vidro da janela, enquanto mamãe havia encontrado algumas velas, para nos aquecer, pois não havia aquecedor por aqui. Elas não fariam grande diferença, mas seria bom não ter que dormir no escuro total.
                Nós conversamos um pouco, depois que as luzes foram apagadas. Papai foi o primeiro a dormir, seguido de minha mãe. Eu, no entanto, estava agitada. O vento ao lado de fora fazia sons assustadores, e a falta de cortinas fazia com que sombras dançassem pelo teto. Decidi que seria uma boa ideia ouvir música, mas a bateria do meu celular estava baixa, e não havia tomadas por perto. Decidi ler.
                Peguei a mochila, no chão, ao lado do sofá, e comecei a vasculhar. O livro não estava ali. Foi quando me lembrei de que o havia largado no carro. O mais silenciosamente que pude, calcei minhas botas e caminhei até a porta de entrada. Ela fez um ruído alto quando a empurrei, mas não alto o bastante para acordar meus pais.
Corri em direção ao carro, abrindo a porta de trás assim que o alcancei. Procurei pelos bancos, sem sucesso. Acendi as luzes do teto, e continuei minha busca. Enfim o avistei, debaixo do banco do motorista. Curvei-me em direção a ele, pegando-o com suavidade. Com o livro em mãos, afastei-me e fechei a porta do automóvel. Virei-me de maneira corriqueira, para voltar a casa, mas congelei ao olhar direito.
No canto lateral direito da casa, havia a silhueta de uma figura humanoide, agachada. Ela se colocou de pé, revelando um corpo masculino, alto. Duas luzes esbranquiçadas eram seus olhos. Levei a mão à boca, prendendo um grito. O que era aquilo?
Era alto demais para ser um homem, e magro demais também. Com a respiração entrecortada, e os olhos vidrados, retirei a mão que cobria minha boca e a levei ao bolso de meu casaco. Saquei o celular e o ergui na altura dos olhos, desviei o olhar por apenas um segundo, enquanto localizava a lanterna.  Apertei o botão que a ligava, e ela se acendeu. Mas não havia mais nada ali. Eu mal podia respirar. Era como se meus pulmões houvessem murchado e o ar não conseguisse inflá-los. Meu estômago pesava com uma tonelada de medo que havia se instalado ali. Era como engolir uma bigorna, fria. Eu tinha de avisar meus pais. E se ele não estivesse sozinho?
Dei um passo para frente, decidida a correr de volta para dentro da casa. Antes que eu pudesse dar o segundo passo, a porta da frente bateu, com um ruído alto. Não pude conter meu grito.
- Não!! – Me desesperei.
                Tomei fôlego e corri de volta em direção a casa. Alcancei-a em um segundo, subindo os degraus depressa e levando a mão á maçaneta da porta.  Eu esperava alguma resistência, mas ela girou com facilidade. Irrompi porta adentro, sem sequer olhar para trás. A lanterna do celular ainda estava ligada, e me dirigi à sala de estar imediatamente.
                Meu mundo caiu quando notei os sofás vazios.
- Mãe! Pai! –Gritei a plenos pulmões.
                Os cobertores deles estavam no chão, mas não havia sinais de combate. Continuei a gritar, olhando ao redor, atordoada. Quando o facho de luz atingiu o retrato na parede, eu comecei a chorar. A figura estava vazia...
Continua...

"E aí, passa teu whatsapp pra nóis trocá uma idéia?"
   Não sei se foi a menção à palavra conhecida ou aquele dialeto (que, por sinal, esfaqueava a gramática) que chamou a minha atenção, mas me coloquei em posição de bisbilhotar a cena. Observei,com aflição,a mocinha digitar algo no smatphone do rapaz possuidor do dialeto peculiar. Ela não parecia ofendida com o fato de o digníssimo não ter se apresentado, se ficou ofendida disfarçou bem. Quase não acreditei quando ele saiu cuspindo um "falou". Pensei: NÃO É POSSÍVEL! Mas era, e foi. Esse foi o início, meio e fim da conversa. 
   O escândalo com a cena só não foi maior do que o de perceber que a situação era (é) extremamente comum. Me dispus, então, a investigar em minha memória onde raios tudo isso havia começado. Vasculhei a caixinha de memórias e: não soube dizer.
    Saber dizer eu não soube,mas me lembrei de uma época em que aquele que tinha o numero de telefone da casa (sim, da casa, celular não era mais importante que água) da gente podia se considerar amicíssimo. Quer dizer, era preciso muita intimidade para pedir o número de telefone de alguém. Contudo, essas lembranças são muito remotas.
    Depois de algum tempo, os mais ousados diziam "você tem E-mail?" - que se transformou em MSN, orkut, facebook e, finalmente, whatsapp. Os e-mails atualmente são vistos apenas como algo ultra sério: está bancando o substituto da carta.
     O engraçado (ou triste) é perceber o quanto essa revolução tecnológica influencia nas relações não-virtuais. Os aniversários, por exemplo já maior importância. Até porque, as pessoas tinham que, minimamente, lembrar os aniversários sem uma rede social virtual que fizesse isso por elas (e, nesse quesito, o orkut era muito mais eficiente que o facebook). E o melhor: tinham que ir até a sua casa ou ligar, se quisessem desejar-lhe bonanças. E por mais que nas ligações de aniversário a gente sempre fique tipo "ahã, obrigada, ahã, hehe", as ligações são muito mais pessoais do que um "parabéns" em nossa timeline. 
   Inclusive, esse momento histórico da ligações-ahã foi simultâneo ao momento histórico das fotos reveladas. Pasmem: as pessoas fotogravam para guardar as fotos ao invés de postá-las online. E o mais maluco: não viam o resultado final da fotografia no ato de tirá-las. Esse tempo existiu, tia?
    Certa vez ouvi o vento me dizer que "a internet aproxima quem está longe e afasta quem está perto". É clichê mas me parece apropriado até certo ponto. 
     O fato é que, somando os prós e contras na calculadora digital da vida, eu ainda ficaria com os convites de aniversário feitos de papel que diziam "seria uma honra tê-lo em minha festinha". Não digo que largaria a tecnologia, sem radicalizar, mas optaria por não conhecê-la, se fosse possível. Ou não. Ouvi dizer também que as memórias são um exagero só.