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Chega. Eu, você, sua mãe e a maior parte das pessoas que trabalham com você sabemos que já é suficiente, você já fez o possível e, claro, poderia continuar fazendo o impossível; mas não vale a pena. Para essa sua relação funcionar, não faça mais nada, é hora de tirar seu time de campo, já está há muito tempo tentando conseguir qualquer avanço e tudo que conseguiu foi avançar sobre si mesmo, né? Pois bem, não mova um músculo sequer para que isso aconteça, não ligue, não procure, não diga coisa alguma. Se possível, nem pense nisso. Vá apenas vivendo sua vida, tome café da manhã todos os dias - mesmo que você acorde às onze horas da manhã - beba oito copos de água ao longo do dia, lave o cabelo, ouça sua música preferida, dê um passeio. Não faça nada além disso, não se esforce de maneira alguma, apenas vá vivendo sem fazer nada até que seja exatamente esse o seu desejo: fazer nada. 

Dói. A tia Lú te alertou que doeria, te disse que quando a gente se espreme muito para caber em um espaço muito pequeno, a gente perde um monte de partes importantes nossas. Você sabia que tentar se moldar era um caminho sem volta, não sabia? Tudo bem, foi lá e fez, foi lá e se pintou de tudo quanto foi coisa na tentativa de que, finalmente, se tornasse o que faria de você o objeto amado; mas não deu. Se há esforço demais, significa que uma das duas partes não está realmente presente, você estava se esforçando de forma vã, não tinha ninguém lá para te ver. E é por isso que venho te dizer para não fazer mais nada, nem mesmo se despedir, nem mesmo explicar que tudo que fez foi por amor; simplesmente aceite que tudo que você poderia fazer, foi feito. Cartas e cartas, despedidas, explicações: tudo isso seria só mais um passo na tentativa frágil de estar fazendo alguma coisa, a tentativa tola de que esse fosse, finalmente, o grande milagre. Por isso, pare agora mesmo e encare o seu milagre nos olhos: você fazendo absolutamente nada.


Passa. Isso eu te prometo. Se você parar agora mesmo, for tomar um ar, apagar esse número com cinco noves do seu celular, eu te garanto que vai passar. Não vai ser hoje, não vai ser mês que vem e nem no dia do seu aniversário, quando a ligação não chegar, mas vai passar. Até lá, continue fazendo tudo, mas por essa relação, não faça mais nada. 

com amor, 
Ane Karoline -
texto do desafio 24 textos em 24h


Caro forasteiro,

Um sentimento melancólico. Senti isso por sua causa. Logo por você, que sempre me alertava sobre os perigos da melancolia e a abominava com todas as tuas forças.  Achei que a força não existia mais em mim, se existisse não a encontrava.  Queria encontrar algo que me fizesse acreditar que a força habitava em mim. Lembrei-me de que era você quem me ajudava a encontrar tudo aquilo quanto buscava, desde o simples ato de encontrar livros na biblioteca pública até palavras para completar meus pensamentos.

Lembra-te da esperança de que tanto me falavas? Foi então que a busquei sozinha no último verão quando resolvi te deixar em espírito, mesmo meu corpo continuando ali em convívio constante com o seu. A decisão de abandonar-te foi tomada muito depois de você já ter feito isso.

Não demorou muito, obviamente, para nos distanciarmos de todas as formas possíveis e, de uma maneira estranha, percebi que a independência que tanto era falada nos meus textos havia permanecido apenas em palavras e tornei-me totalmente dependente de ti. Senti-me inútil. Tornei-me dependente de alguém que não pertence ao lugar onde se encontra. Lidar com outra rotina foi como os primeiros passos de uma criança, só que dessa vez sem ninguém para se apoiar e nem ajudar. As palavras também tornaram a nascer, como se fossem as primeiras da vida, quando não se sabia nem gritar. Foram descobertas atrás de descobertas, até aprender que sempre tive a melhor companhia, uma companhia ímpar, só não a havia descoberto ainda.

Depois de muito tempo percebi que não fiquei sozinha. Nunca estive. Sempre tive a minha companhia. Pode parecer egoísta, mas não trocarei mais minha companhia pela de ninguém, me sinto ótima, me sinto melhor do que nunca me senti em toda minha vida. Lembrei-me que os ímpares existem, e aprendi que os pares nem sempre dão certo. A sua falta me trouxe a melhor presença que já pude ter, a minha. E se um dia sentir vontade, escreva uma carta para mim, mas não envie só por saudade, ou porque gastou o seu precioso tempo fazendo-a. Envie somente se for com amor, mas principalmente se for o amor próprio. Pois dele estou transbordando.

E que nesse barco o amor-próprio possa afogá-lo.

Abraços.



                                                                                               Julyana Alves



Seis meses era também muito tempo para ele. Ele não se recordava de tudo que fizera nesse tempo. Porém ela, lembrava de tudo. Cada detalhe- até do dia em que ele percorreu Paris com a camisa do lado avesso. Ele não se lembrava nem, ao menos, que estivera em Paris. O tempo, mesmo que compartilhado, passava diferente para ambos.

Ela: intensa, sensível e visionária. Não era a pessoa que se encontra em qualquer esquina, ou em uma mesa de bar. Era a pessoa que você iria encontrar perdida em pensamentos, ou caindo em uma freada brusca, em meio a um trânsito caótico- pelo simples fato que ela estaria tão distante, observando o vai e vem da cidade. Já ele, ele seria: O cara! Aquele cara despercebido, desatento, porém, pé no chão. Com o tipo de fisionomia que combina com o cinza do concreto. Eram distintos, mas eram complementares. Ela era o que faltava nele e virse-versa.

Mas a vida não é um conto de fadas, nem um enredo de filme romântico. Na vida real seria difícil doarem-se um ao outro, em meio a um mundo de possibilidades. Entretanto, o destino ou simplesmente as nossas escolhas, realizam pequenas mágicas, e foi em um desses passes de mágica, que a vida uniu os caminhos.

A neblina tomava conta da cidade. Carros, pessoas e ônibus iam e vinham. As luzes de natal piscavam num ritmo que para muitos era imperceptível. Todos tinham pressa, exceto ela, que fotografava cada detalhe que lhe chamava a atenção. A cada registro ela sorria, encantada, observava a foto como se ali estivesse a ver pela primeira vez Monalisa. Cada passo, uma fotografia e o êxtase tomava conta de si; a caricatura de uma criança que ganha um brinquedo novo. Ali parecia ter todo o tempo do mundo e,por mais que não tivesse, ela acreditava nisso.

Do outro lado da rua, alguém nutria o sentimento de que o tempo mesmo que infinito nunca seria o suficiente. Eram mil coisas na mente, mãos e pés não pareciam ser suficientes. Ele desejava agarrar o mundo ali e agora, por crer que não teria tempo para isso futuramente. Enquanto pensava em tudo que teria que fazer, o tempo passava, impiedosamente. E nada ele realmente fazia para aproveitá-lo. O tic-tac do relógio soava em sua mente, quando de repente: um clarão. Desordem. Susto. Uma mão gélida. Por segundos, ele acreditou estar morto. Uma voz angelical sussurrava palavras em seu ouvido, ou distante dele, ele não sabia distinguir; poderia ser um anjo, ou qualquer outra coisa. A melodia da voz o acalmava e acalentava. “Estou morto”, disse. Abriu os olhos. Mirou em um olhar negro, que lhe olhou de volta, e o penetrara a alma e o e livrara de todos os pensamentos que lhe encurralavam. Encheu-se de um sentimento que não reconhecia, jamais havia sentido. Assim passaram-se alguns minutos e pela primeira vez na vida ele não pensava em agarrar o mundo, mesmo que tudo que ele acreditava ser o mundo, estivesse bem na frente dele.  A partir daquele momento, não eram mais dois indivíduos distintos, passaram a ser um.

Nem tudo são flores, pessoas guardam segredos, histórias e medos.  Dali em diante, o mundo foi pequeno. Por vezes, ele conseguiu segurar em seus braços o que agora era o seu mundo. Ela captava cada detalhe dos universos que percorria e aos poucos, escrevia sua história por onde passava. Ele não compreendia ao certo o porquê de tantos lugares, histórias, fotos e lembranças. Se os dois eram complementares, assim o seriam em qualquer lugar, pensava consigo.

Em uma tarde ao pôr-do-sol ela recordava com ele cada lugar que visitaram: a primeira foto da viagem, os sotaques, comidas e sonhos. Não poderiam deixar de lembrar de como se conheceram e de cada cerimônia de casamento que tiveram. O amor era infinito, mas o tempo não. Em meio às recordações, ela pegou uma rosa, das flores que os cercavam, arrancou pétala por pétala ao relembrar as histórias que os fizeram chegar ali. Pegou a mão do amado, a encheu de pétalas e fechou. Beijou os lábios dele e encostou a mão dele em seu peito, ele sentia cada batimento dela: ritmo lento, como uma canção de ninar.   Eles se abraçaram e as pétalas voaram pelo ar.
A partir de então, ele descobriu que o tempo começou a tic-taquear diferente para eles. Seis meses era bastante tempo para ele. Seis meses era, também, bastante tempo para ela. Mas os caminhos, ao final, seriam diferentes. O motivo: Ela florescera e ele terá sua rosa colhida.

Evelin Mendes
Codinome Beija-Flor - página 67