Imagem: https://www.instagram.com/anekar0line/


Me lembro com clareza da criança que fui, aprendo com ela ainda hoje. Aprendo mais com minha criança que com qualquer outra versão minha. Minha criança sabe exatamente quem eu sou. Me lembro, também com clareza, da expressão gentil e divertida da primeira pessoa que me ensinou sobre crianças. Eu, no auge dos dezoito anos, com o sentimento de quem sabe de tudo, vi que ela me olhava com curiosidade durante toda a aula. Ao final, disse que a pessoa escolhida para o trabalho acadêmico sobre lecionar inglês na primeira infância seria eu. Eu questionei, esbravejei: logo a mim coube a incumbência mais distante do que eu julgava ser a minha personalidade docente. Fiz o trabalho, como me coube, e achei a teoria linda, mas sabia bem que a realidade seria outra - só não sabia que a realidade seria ainda melhor. 

Comecei, enfim, a trabalhar com crianças em 2016. Tudo em mim se quebrou, todas as certezas que eu tinha foram abaladas, todos os meus medos modificados, minha intensidade foi multiplicada por doze cabecinhas: por dois dias semanais, dezesseis horas mensais. Eu ainda não sabia, me seriam elas responsáveis por grande parte de quem  eu sou agora. Agora, passo cerca de cento e vinte horas mensais sendo ponte no processo de ensino-aprendizagem de crianças incríveis e, por mais que a carreira acadêmica me chame, sei que esse processo pelo qual passo - que é, muito provavelmente, temporário - me torna cada dia mais quem eu sou. As minhas crianças são as principais responsáveis pelo meu processo diário de quebra e reconstrução: elas me ensinaram que só a alma permanece, o resto a gente tem que quebrar e reconstruir todos os dias. Ser criança é abraçar a efemeridade da vida.

Pensando, então, nesses seres mestres, separei uma lista com 26 livros infantis (sobretudo, voltados para a primeira infância) e 12 gibis da turma da Mônica para que as letras os façam companhia durante esse momento - além de poderem usar as histórias literárias como inspiração para criar suas próprias, como sei que fazem. Os arquivos em pdf estão disponíveis em duas pastas no google drive para download gratuito. Os títulos dos livros estão descritos abaixo. Desejo boa leitura a todos e, às minhas crianças, até breve. 

Link para download dos livros, CLIQUE AQUI.

Link para download dos gibis, CLIQUE AQUI. 

1. Era uma vez um gato xadrez
2. O homem que amava caixas
3. Você troca?
4.  Lagartinha Comilona
5. O mostro das cores
6. A casa sonolenta
7.  Menina bonita do laço de fita
8.  Marcelo, marmelo, martelo
9. Cada um mora onde pode
10. Bom dia todas as cores
11. Coletânea de poemas
12. Tenho medo mas dou um jeito
13. O grande rabanete
14. O peixinho e o gato
15. Quando me sinto assustado
16. Tenho mais monstros na barriga
17. Os dez amigos
18. Quando me sinto zangado
19. O poço do Visconde
20. Reinações de Narizinho
21. Urupês
22. Peter Pan
23. A borboleta rosa
24. A honestidade sempre vence
25. A festa da muriçoca
26. História das invenções
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18 gibis da turma da Mônica

com amor, 
Ane Karoline



Quem é fruto da periferia tem sempre a cabeça muito cheia. Não é uma escolha: a pessoa nasce e vai crescendo, vai crescendo, vai se fazendo gente e percebendo que a vida de quem nasceu ali é mais difícil que a vida de uns outros tantos. É correndo de bala perdida, ou carregando um fuzil no ombro que, ali por volta dos doze, treze anos, o filho da favela percebe que a vida é selvagem: matar ou morrer. É vendendo o almoço para comprar a janta e entregando panfleto de loja de calçado que a molecada aceita logo cedo o seu destino desgraçado. 

Os filhos da favela são muitos e estão por aí, aglomerados em qualquer ônibus velho; mesmo assim, não são representados: uma maioria esmagadora que vive sendo esmagada. Nem nos livros, nem nos filmes, nem nas telenovelas; ninguém parece querer retratar aqueles que mantém o país andando, ninguém parece achá-los dignos de representação - nem eles mesmos. QWN

Contrariando a maré, Geovani Martins escreve O Sol na Cabeça. O livro é um grito determinado a contar histórias de pessoas silenciadas através da re-humanização daqueles que são sempre marginalizados. Em seus contos, o autor traz à tona as condições de vida das pessoas que vivem nas periferias do Rio de Janeiro no Brasil, coloca sua escrita sobre a linha tênue que existe entre a realidade e a ficção abordando temas reais e atuais através de seus personagens fictícios - os quais, inclusive, representam muitas pessoas reais. 

Dentre os temas abordados no livro estão: o problema do tráfico de drogas nas comunidades, a criminalização de crianças, corrupção policial e intolerância religiosa. Martins coloca tudo de uma forma tão rasgada e natural que é um soco na boca do estômago do leitor ao se deparar com a realidade cruel tão nua - realidade essa que, sempre que possível, é posta de lado, é tida como normal. Citando o autor: "A gente se acostuma com cada bagulho sinistro, que pena é coisa que dá e passa".

De minha parte, só posso dizer que vejo o livro como um manifesto extremamente importante na literatura brasileira. Além disso, acrescento que é muito bem escrito e, sobretudo, que os contos são muito interessantes. Recomendo a leitura a todos e, em especial, a todos os brasileiros.

NOTA: 9,5/10

Ane Karoline


Título: Tartarugas até lá embaixo
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2017
Páginas: 256

Nota: 4/5


John Green é protagonista de um dos maiores fenômenos literários recentes: sua obra encontra cada vez mais espaço entre jovens e adultos que procuram por livros relevantes e que conversem com suas dores e questões íntimas. Autor do best-seller A culpa é das estrelas e outros três grandes sucessos editoriais, Green finalmente voltou à ativa com o seu mais novo livro, intitulado Tartarugas até lá embaixo. Título curioso, né? Mais curiosa ainda é a temática da obra: o transtorno obsessivo compulsivo (TOC). 

(Aqui eu preciso fazer uma pausa e dizer que, quando descobri o tema do livro, fiquei bastante animado. Sou portador de TOC desde os 7 anos de idade e sempre me entristeci ao ver como o transtorno quase sempre é abordado na mídia, de forma superficial e rasa, prestando um desserviço para quem luta por reconhecimento e melhores condições de vida para quem sofre com esse distúrbio ou qualquer outra desordem mental.)

A trama é narrada em primeira pessoa por Aza Holmes, uma adolescente de 16 anos que enfrenta problemas com o TOC desde quando se entende por gente. As suas obsessões são, em sua maioria, relacionadas ao medo de contrair bactérias e doenças virais que podem levar à morte. O seu círculo de convivência se resume a sua mãe e sua amiga Daisy, e é esta segunda que inicia uma jornada que mudará para sempre a vida de Aza.

Daisy convence a amiga a se juntar a ela em uma investigação sobre o sumiço do dono das empresas Pickett, o maior conglomerado empresarial da cidade, a qual desapareceu recentemente após se tornar alvo de uma investigação sobre corrupção. A polícia está oferecendo uma recompensa de 100 mil dólares para quem der pistas sobre o paradeiro do empresário e Daisy crê que, pelo fato de Aza ter tido uma pseudo-amizade na infância com o filho do magnata, elas podem se reaproximar da família Pickett e investigarem o caso, afinal não é todo dia que surge uma oportunidade de faturar essa grana toda.

O problema é que Davis, filho do bilionário e alvo principal dos planos de Daisy e Aza, se mostra muito mais humano e profundo do que as duas amigas imaginaram, o que cria espaço para o desenvolvimento de uma relação de amizade (ou até algo mais) e a resposta para as questões internas desses três adolescentes.

Perpassando toda a história, as obsessões e compulsões de Aza exprimem o sofrimento de quem enfrenta o TOC no dia a dia,  considerado pela OMS um dos dez transtornos mais debilitantes. John Green permite que mergulhemos na mente de um obsessivo-compulsivo e vivamos a espiral, metáfora usada por Aza para descrever o sentimento de impotência gerado pelos sucessivos pensamentos intrusivos que obrigam o portador a realizar compulsões no intuito de aliviar a sua mente agitada.

No geral, é um livro muito bom e necessário para os dias em que vivemos, onde os transtornos psíquicos viraram epidemia e o número de pessoas diagnosticadas dobra diariamente. Eu fico extremamente feliz por ver que um autor relevante como o John Green tenha entrado nessa luta pela saúde mental e espero que esse livro ajude muitas pessoas a reconhecerem os seus problemas e encontrarem forças para se manterem lutando por mais qualidade de vida.

Em um mundo doente, se manter são é um trabalho árduo, mas quando somos compreensivos e honestos com a nossa própria história, a luta se torna menos debilitante e passamos a contar com uma ajuda importantíssima: a nossa própria.

Muita gente me pergunta, se pergunta, pergunta ao universo e aos professores: como é, afinal, que se adquire o hábito de leitura? Sinceramente, eu não sei. O que sei é que não existe idade certa nem jeito certo. Além disso, sei como e quando eu adquiri o meu hábito de ler: na infância, com um livro que uma professora me indicou - um livro que não estava relacionado com a escola. Hoje, vejo a importância que isso teve em minha vida e vejo, também, a importância que tem na vida das várias crianças que conheço: tanto as que têm o hábito de ler, quanto as que não têm. Vejo que Muito se fala sobre a importância de ler, mas pouco se fala sobre como deve acontecer o incentivo à leitura.    


Por tudo isso, fiquei muito feliz quando recebi o livro Diário de Estela, lançado pela editora Jangada: é um romance infantil! Um livro repleto de aventuras narradas de uma maneira engraçada e harmoniosa pela personagem principal, Estela.

Estela é uma aprendiz do ofício de Anjo do Amor. Com seu jeito inocente e atrapalhado, ela precisa cumprir uma missão entre dois humanos, na Terra, para conseguir, finalmente, tornar-se um Anjo do Amor e receber suas asas. Com toda sua impulsividade e ingenuidade, nossa protagonista passa por muitos problemas mas, mesmo assim, está sempre disposta a continuar. Pela ansiedade em conquistar as asas e ser um Anjo de verdade, por várias vezes, Estela se precipita e só quando, finalmente, entende que deve seguir seu coração e colocar sua responsabilidade com o amor acima de seus interesses pessoais, ela consegue a nomeação de Anjo. 

Juntamente com uma narrativa muito cativante e narrada com linguagem acessível para as crianças, o livro é repleto de lindas ilustrações que criam o imaginário a respeito das aventuras de Estela. Além disso, o fato de o livro ter sido escrito em forma de diário é uma construção interessante que pode incentivar as crianças a escrever, criando um próprio diário. 


Para não me estender e acabar contando o que acontece com Estela, estragando a surpresa, me contento em dizer que o livro é ótimo e apropriado para crianças e pré-adolescentes - mesmo para adultos, a história não deixa de ser cativante e surpreendente. As autoras Stern (desenhista e leitora profissional de literatura infantil e Juvenil) e Jem ( escritora e jornalista) foram muito cuidadosas com toda a produção do livro  e pretendem lançar mais aventuras da Anjinha Estela. A tradução é da Ivana Mihanovich, foi publicada no Brasil em 2014, e não em deixa em nada a desejar. Deixo aqui meu convite a todos: vamos nos aventurar com Estela?

Ane Karoline