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Hoje eu sei que se você não me perguntou, não foi por não se importar, foi por já saber a resposta, apesar de alegar veemente não saber. Você não me perguntou, mas hoje, depois de ter aprendido a nadar e ter emergido do poço de lágrimas ao qual você me atirou, eu resolvi vir falar mesmo assim. Não foi particularmente nada que você fez, nem especialmente nada que você disse, foi justa e puramente o abandono. Logo você, quem mais reclamava de abandono, quem me contava mazelas de outros abandonos, me abandonar assim, seria cômico se não fosse tão triste. É triste sim, repito, e não por eu estar chorando em posição fetal; não estou. É triste porque é sempre uma lástima quando alguém que já foi querido sai da vida da gente assim: quebrando tudo, sem nenhuma chance de volta. É triste, sobretudo, porque achei que você fosse como eu.

Não há perfeição nenhuma em mim e, talvez por isso mesmo, nunca tive costume e nem gosto em cobrar nada de ninguém. Talvez tenha sido medo. O fato é que vi em seus olhos algo parecido comigo, aliás, achei ter visto; achei ter encontrado em você alguém que pudesse ser a minha exceção, alguém que poderia ter grande espaço na minha vida e no meu coração. Pensei que você seria sempre quem leria as coisas que escrevo, quem escutaria as músicas que escuto e quem dividira comigo suas aspirações e inspirações; não pensei que você se tornaria uma: a inspiração mais catastrófica de todas. Pelo visto, não era bem amor o que você queria e hoje, só hoje, sei que esqueci de te avisar que comigo não existe trivialidade, não existe isso de mais ou menos, não existe isso de amigos que não se dão verdadeiramente as mãos. Aqui, não.

Talvez, se eu te dissesse isso e tudo mais que ensaio na frente do espelho, você me acusaria de injustiça, você me diria que vivemos bons momentos juntos, você me diria que estou te cobrando amor. Vivemos, sim, momentos lindos; vivemos momentos em que eu pude ver o infinito do horizonte, que pude chorar de rir, que realmente acreditei que a amizade é um amor que não morre.  Mas morreu.  Essa é uma carta posterior à minha partida, fui embora para não ter que te cobrar nada.


com amor, 
Ane Karoline
- texto do desafio de 24 textos em 24h



Quatrocentos miligramas de baunilha com chocolate, toda sexta feira à noite para adoçar as lembranças amargas e, quem sabe, apagá-las. Um filme qualquer, ao qual eu não dava a mínima atenção. Coração na mão. Algumas semanas, mais calmo. Outras, apertado. Sexta-feira, quando era doze, era ainda mais penosa. Oitocentos miligramas de baunilha com chocolate e música triste. Sempre achei que precisava de alguém para me ajudar a tomar meu sorvete, mas fui aprendendo a tomá-lo sozinha: devagarinho, o tempo ajuda. Era tudo muito sutil mas muito significativo. O ritual do esquecimento também incluía uma olhada na timeline do facebook. 
Rostos sorridentes. Quem bom, melhor chorar de sorrir que rir para não chorar. Muita gente bonita, de rosto bonito e alma bagunçada. Muitas informações. E você. Você sempre aparecendo, mesmo que eu tente me esquivar. Sempre sorridente nas fotografias, ao lado de alguém - ou vários alguéms- que não conheço, ou que não conheço mais, pessoas que você nunca fez questão de me apresentar ou que se apresentaram de formas diferentes para mim e para você. Lá está você: sorrindo de orelha à orelha, fazendo piadas e compartilhando músicas que você nunca me mostrou. Amigável, jogando o futebol sobre o qual nunca quis falar comigo, cantando e dançando como se não tivesse ignorado todas as canções que fiz para você.
Ali, naquela página azul, dia após dia, parei de te reconhecer. As fotos, as frases, o discurso, a humildade forjada de quem não quis os meus poemas ler. Não vejo você. Vejo, sim, um produto que não corresponde com a realidade - ao menos, a realidade que eu conheci. Vejo alguém que vende gentileza e entrega descortesia. Vejo alguém que vende amor mas entrega desistência. Vejo alguém que, ao contrário do que pensei, não merece minha insistência.
Na última sexta feira, cansada da rotina semanal, cheguei a passar perto da sorveteria mas passei direto. Enjoei. Segui. Saí. Aceitei o convite para um daqueles programinhas calmos, que eu sempre te convidava para ir. Foi bom, pasme: tinha gente de verdade lá.  Ninguém tentando me ferir ou me manipular. Mais tarde, olhando as fotografias da noite, percebi que as expressões de alegria correspondiam exatamente ao que estávamos sentindo. Reais. Acabei optando por nem postar: vou deixar esse papel de sorridente das redes para você. Mas confesso que acho engraçado e fico me perguntando se, algum dia, a aceitação (de que no mundo real existem pessoas mais legais que seus amigos fieis, que existem reais maneiras de ser feliz - sem aos outros diminuir, que nem tudo que você vê é o que realmente é) vai chegar até você. Enquanto não chega, espero que esse sorriso com covinhas seja oferecido, também, para as pessoas reais.

Para quem conseguir nas entrelinhas se encontrar, achando graça, 
Ane Karoline