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Pode ser ficção. Ou não. Eu posso ter inventado a figura de uma pessoa sábia que, enquanto eu chorava aos soluços, tenha me segurado pelos ombros e me dito para seguir sempre em frente, afinal, eu invento várias coisas. Mas, ao mesmo tempo, pode ser a mais pura verdade, como o dia em que minha mãe disse que tudo ia passar, e passou. O fato é que eu não sei, não lembro quando comecei a basear minha vida no ato de seguir em frente, se tivesse que adivinhar diria que foi bem cedo, já que eu entendi o lema de forma errada e o tomei como literal demais, como fazem as criancinhas pequenas. 

Digo que pode ser ficção, mas também pode ser memória falsa, como o dia em que eu rodei, rodei, rodei no balancinho colorido e dei com a testa no chão. Meu cabelo era ralo, mas batia na cintura e eu entrei caladinha, pálida e com a coluna ereta igual à Wandinha Addams, fingindo não ver o fio de sangue escorrer pela testa até ouvir mamãe dizer que deveria estar doendo tanto que eu fiquei abobada. Não sei se foi verdade, mas sei que foi justamente para evitar o abobamento que, depois, quando partiram meu coração pela primeira vez, eu chorei dezesseis lágrimas contadinhas, ou dezessete, talvez, mas não mais que isso, logo segui em frente. Esse foi meu jeito de dar o próximo passo: a dor era tão feia, doía tão fundo, que condensei em dezesseis lágrimas e o resto eu amassei bem amassadinho e escondi no fundo da gaveta da alma. Quando me perguntaram, ainda no dia seguinte, eu sorri e desconversei. Mamãe errou ao achar que eu estava abobada de tanta dor, ao contrário, a letargia sempre foi meu jeito de evitá-la, de fingir que não existia, 

Daí, para o fingimento total, foi um piscar de olhos. Recebi de peito aberto os maiores furacões que a vida me lançou, levantei, ainda que esfrangalhada, depois de cada rasteira que tomei. Uma atrás da outra. Sem ar. Sem parar para respirar. Insisti em me manter de de pé, ainda que sangrando, depois de cada uma das facadas recebidas nas costas. Caminhei sangrando todas e cada uma das manhãs, mas não sabia eu que sangramento que não estanca, mata. Me mantive de pé, mas sem alma. 

Acredite: pode ser tudo ficção! Eu invento até amores, imagine se não vou inventar dores. E já que existe essa possibilidade, ninguém vai saber se minto, vou aproveitar para dizer: eclodiu. Imagine só! A coisa formada por todos os bloquinhos condensados de dor, os quais escondi por todos esses anos, ela tomou vida, tomou minha vida. Ela se alojou na minha garganta e não saía por nada, eu não conseguia falar e nem engolir. Usei os antibióticos para seguir em frente. A coisa se fortaleceu caladinha e me atacou no espelho: acordei com outra cara, com uma cara que denunciava a minha falta de vida, o meu sufocamento, a minha asfixia causada por tanto fingimento.

De tanto fingir que não doía, parei de sentir. Achei que o quer que fosse, eu poderia passar por cima, poderia acordar renovada no outro dia, poderia esconder de todos, poderia desmarcar todos os cafés,  poderia recusar todos os convites, poderia me esconder no trabalho e na ciência. Achei que tinha entendido Clarice que dizia que deve-se viver apesar de, mas não. O que fiz até agora foi seguir em frente apesar de, mas sem vida. Era para lutar pela vida apesar de todos os pesos e pesares, não para passar por cima dela com todos eles. Clarice tentou me ensinar a semear minha vida todos os dias e eu, interpretando como ficção, a vim esmagando ao caminhar. Sorte que a vida é forte e se sustenta: se a gente pensa em esmagá-la, ela é quem, antes, golpeia a gente. 

Sendo a minha história ou a sua, sendo ficção ou não, a tal voz sábia que me disse para seguir sempre em frente esqueceu de me dizer para me levar junto. Só se caminha de verdade quando se está inteiro, se um pedacinho de nós quebrou, é hora de parar para remendar. 

Ane Karoline


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A gente tem tanto medo de estar devendo, tanto medo de ser cobrado pelo que fez e deixou de fazer, que quando, finalmente, decide fazer alguma coisa entra em colapso e começa a se enfiar em problema. Isso é teoria minha, não tem base científica, ela iria adorar. Formulei isso enquanto conferia pela vigésima vez no GPS o caminho que deveria tomar e vi um cara com uma lanterna sinalizando para o acostamento. Não um cara qualquer com uma lanterna qualquer, era um policial na verdade. Porra. Habilitação vencida. Antes de abrir o porta luvas, lembrei que pedi o Júnior para limpar o carro e ele tirou os documentos de lá. Porra. Fui parando, desesperado, nem desliguei o GPS e só me lembrei dele quando ouvi “recalculando rota”. Abaixando o vidro, olhei para as minhas bermudas sujas de molho do sanduíche e me lembrei da última mensagem de ano novo dela “Que você tenha o melhor ano da sua vida, mesmo que você seja um mentiroso”. Certo.

- Boa noite. - fui logo tentando agilizar o processo com o meio metro de policial que me abordava.
- Vamos descobrir agora, ligue a luz interna, por favor. Documentação em mãos.
- Esqueci em casa.
- Onde é que o senhor mora e aonde está indo a essa hora?
- Eu moro duas quadras para trás, vim comprar um sanduíche. – apontei para as bermudas sujas de molho – vim de pijama mesmo, acabei até me sujando.
- E porque o senhor pegou essa via? - Ele me olhou desconfiado. Mentiroso filho da puta, ele deveria estar pensando. Era o mesmo jeito que ela me olhava quando me questionava sobre nós, parece que me lia: mentiroso. Minto. Se for para me salvar, minto. Minto até se for para evitar a fadiga, como era com ela.
- Eu ia pegar o próximo retorno, é mais iluminado e ali embaixo está um fumaceiro desgraçado.
- Desce do carro, por favor. – ele se afastou da porta para que eu a abrisse e se alongou olhando ao redor preguiçosamente. Quando desci, tirei o celular do suporte que ficava acoplado ao duto do ar para que, por via das dúvidas, ele não visse o GPS. Ele deu uma boa olhada no carro, perguntou sobre porte de armas e me deixou ir. Se foi sorte ou azar é que eu não sei. Não sei o que eu fui procurar quando saí de casa, não sei o que eu estava procurando quando fui falar com ela pela primeira vez, mas amaldiçoo as duas vezes: continuei sem encontrar.

Depois de demorar vinte e três minutos dirigindo na velocidade da via, estacionei porcamente na garagem de casa, dei uma checada no celular e vi que o Maurício estava online, mandei uma mensagem convidando para jogar em casa na sexta, para testar. Ele respondeu rápido e eu acabei contando por alto o que tinha acontecido, longos minutos de espera se passaram antes que ele respondesse “liga para ela” e eu liguei. Liguei no impulso, coisa que não era muito minha, ela que era toda impulsiva, toda cheia das maluquices de quem não pode esperar, não pode ponderar e age de forma passional. Três toques. A voz dela era sonolenta, grogue “alô?”. Eu não disse nada, desliguei e disse para o Maurício que não liguei, que a ideia era ridícula. Madrugada de um domingo para segunda, imagina só se eu iria ligar para ela, e se o tal vendedor de seguros atendesse? Certo, ela não costumava ser do tipo que levava um cara para dormir na casa dela, mas e se agora ela fosse? Como é que eu tinha chegado a esse ponto, não sei; tão pouco saberia dizer se era adrenalina, sono ou as cervejas que havia tomado na tarde do domingo. Tudo que sabia era que o tal vendedor de seguros não atendeu o telefone dela e não ligou de volta perguntando quem era; havia uma chance de eles não estarem dormindo juntos e, de repente, isso me pareceu vital: descobrir se ela estaria dormindo com ele, descobrir se ela pintava quadros dele nu com aquele rosto roliço dele, descobrir se eles dividiam a cama e sabe-se lá o quê mais dividiam.

A coisa de pedir conselho para o Maurício era essa: ele não tem paciência e te joga logo no meio do caos. Me mandou procurá-la e, mesmo sem admitir isso para ele, eu fui sem hesitar; como se só precisasse de um cachorro de rua para me olhar como confirmação. Na hora não deu nada, ela dormiu, mas e depois? E se ela ligasse de volta? Eu ia ter que mentir de novo, que diferença isso faria à essa altura? Demorei vinte minutos, ainda dentro do carro, sujo e com frio feito um vagabundo, para conseguir decidir que, caso ela ligasse, eu diria que liguei sem querer, que esbarrei no celular, aliás, que o celular estava no bolso, eu, no bar, esbarrei no celular e nem percebi. No minuto seguinte, decidi como descobriria se estavam juntos ou não; era só isso, prometi para mim mesmo, só descobriria e depois a mandaria para o quinto dos infernos de onde ela nunca deveria ter saído.
Caminhando para dentro de casa, procurei novamente o perfil do vendedor de seguros, encontrei o telefone, abri o aplicativo de mensagens e digitei o que eu achei que seria o atestado de óbito dela dentro de mim “Tenho interesse em fazer um seguro. Podemos nos encontrar amanhã?”

Ane Karoline



 É saber que você está lá comigo. A certeza de que se eu cair, terei forças para levantar. É a voz calma que sussurra e grita ao mesmo tempo, impedindo que a dor dentro de mim se alastre e me queime por completo. É a boia que flutua acima do meu corpo, que pesa e afunda cada vez mais na água. É a lufada de ar que atinge minha face quando meus pulmões parecem não mais funcionar. É o ponto de equilíbrio quando meu corpo treme tanto, que me confundo com um terremoto.

É a voz que aciona o botão de emergência que há dentro de mim, e normaliza os batimentos do meu coração. É a piada boba, contada para que a minha mente encontre um minuto de tranquilidade. É a palavra amiga, que abre o sorriso que eu precisava. É o elogio profundo, que não atinge apenas o externo, mas encontra a verdade por trás da obra. Incentivo é presença, que vê, torce e acalenta. É a mão que acaricia, procurando aliviar a tensão, o medo.

É o pai que te faz ler contra a sua vontade. A mãe que te impede de brincar até terminar o dever. O irmão que diz que precisam de alguém naquela loja. É o professor que não aceita um trabalho mal feito, pois sabe do seu potencial. É o tio que te indica na empresa dele, pois sabe o quão inteligente você é. É o amigo, que vê sua arte e a elogia, e implora para que você continue, publique, procure um curso, se dedique. É a irmã, que conta para todo mundo o quão bem você faz tal coisa, promovendo você, mesmo que isso te envergonhe. É a avó que te dá dinheiro para seguir em frente.

É a pessoa que fica ao seu lado, sabendo dos riscos que fazer aquilo pode representar. São os amigos que te mandam mensagens de apoio. São as críticas, positivas ou negativas, que te machucam, te moldam e te mudam, amadurecendo você e a sua arte. São as dificuldades, os dois empregos, a faculdade à noite, as dores de coluna, as noites em claro. São as noites encarando o teto, as lágrimas descendo do rosto, as manhãs com cara inchada. É aquela sensação dentro de você, que te diz que você não está sozinho, não importa o quanto pareça estar.

O resultado é se levantar depois de tudo isso, e ser capaz de abstrair toda a dor. Jogar ela contra o branco, e criar. Se derramar, se transmitir, ser parte da arte. É lembrar-se de cada uma dessas pessoas, do bem e do mal que lhe foi feito. Das alegrias e sofrimentos do percurso. E usar isso tudo como incentivo, para quebrar todas as barreiras. Para alcançar mais além. Para provar-se e ao mundo, e assim encontrar a paz. É iniciar o ciclo, se impulsionar usando as pedras no caminho. É certeza incerta. É trabalho árduo.

Incentivo, é viver querendo mais, e para ser mais.

Adolfo Rodrigues