Fonte: livingstills.tumblr.com
Ela ia, todo dia
Ia e voltava como maresia
Quando me via
Ela sorria

O vestido girava ao movimento dos pés dançantes
Seus olhos expressivos com pupilas gigantes
Nada mais seria como antes
Desde que o que flagrei seus traços marcantes

Em um instante estava apaixonado
Nem sabia que havia me perdido, quando me senti encontrado
Era difícil me manter concentrado
Quando tudo que queria era ser do seu agrado

Meu coração não sabia o que era ficar estável
Um sentimento tão complexo que era inefável
E enquanto você conversava com um sorriso amável
Enrolava o cabelo indomável

Como poderia sobreviver àquela experiência?
Gostar de você me parecia impertinência
Sequer pensar em nossas mãos se tocando era prepotência
Mas sobre mim, admiro acima de tudo, a persistência

Foi assim que a coragem me encontrou
O sentimento se alastrou
Minha mente se concentrou
Meu sorriso enfim se mostrou

"Quer tomar sorvete comigo?"

-Adolfo Rodrigues -


Cheia de certezas, transbordava sonhos e chovia opiniões. Ritmo desenfreado. Adolescente coração pulsante, que não a permitia descanso. Somente acelerava parecia em busca de um amor. A mente era colecionadora de devaneios. Tão pouco tempo vivido e do mesmo modo sentia: tão. As mazelas do mundo carregava nas costas. Tão assertiva, se achava, que não via ninguém. Quando o viu, foi um alívio: um poço de tranquilidade. Alguém que sonhava mais devagar. Alguém que não era nothing but a song without no rhyme. Foi quase imediato: um rompante, um soco. A lâmpada se acendeu naquela cabecinha sonhadora.  Ele tinha o espaço que faltava nela, o descanso que ela queria, a calma que ela buscava, a praticidade que ela praticava - fazia contas como ninguém- e, pelas contas dele, seriam felizes. Era uma graça, graciosa a relação. Quem a via, a via intensa e calma: a cabeça, quando doía, era recostada no ombro dele. Quem o via, o via orgulhoso e levemente inquieto: queria protegê-la. 

Ela tendia a ver demais, ver além da conta, e via nele o lugar para repousar. Era quase escravidão: o tratava como um rei. Fazia das coisas do coração, leis. No começo, o amava com paixão: cegamente. Se ligava, estava interessado. Se não ligava, sem problemas, devia estar ocupado. Se a convidava, era êxtase. Se não a convidava, ela não esperava, quebrava o tabu e o chamava. O colocou em planos, sonhos e canções. Escreveu para ele em emails, cartões, guardanapos de padaria e em seu coração. Deixou que a fantasia do amor a envolvesse, depois da formatura ficariam juntos. Afinal, seria a melhor oportunidade de apresentá-la para a família. A dele, a dela já sabia. Na verdade, quem quer que a visse, saberia. Estava estampado na sorriso tímido que ela dava quando o via argumentar. Paixão, como passa, passou. O amor se tornou a caridade que tudo suporta: doente, ia vê-lo jogar. Só para vê-lo e, quem sabe, fazer com que ele a visse. Deitava-se, todos os dias, com a esperança  virginal de uma criança, a ponto de estar sempre só: esperando um sim ou um nunca mais.

Ele via de menos. Não viu neles o futuro que teriam. O fim chegou quando ela, finalmente, terminou o que ele nem havia começado. Para ele ainda era cedo e ela já não tinha mais tempo a perder. Desistiu, quando percebeu que o primeiro amor, esgotado, estava impedindo o segundo de chegar. Saiu cambaleante: já não tinha mais certezas e as opiniões começaram a garoar. Satisfeita, fora da insensatez da adolescência, aprendeu que essa montanha russa que é o amor, pode nos lançar longe mas nos ensina, também, a frear. 

com amor, Ane Karoline (texto sugerido pela Hidaiana Rosa)