Foto por: Ane Kelly


   Eu cortei o cabelo. Cortei, também, meus dedos nas cordas afiadas do violão de tanto tentar compor alguma coisa, acredita que, finalmente, eu consegui? Pois é, eu nem te contei, né? Também não contei que quase fui sequestrada e que li quatro livros maravilhosos no último mês. Não contei do meu novo trabalho artístico, do problema no banco, da cirurgia do meu tio e nem te chamei para comemorar o aniversário da minha mãe. Pensando bem, não te contei nem que mudei de sonho, de gostos e de jeito. Parando aqui para calcular, percebi que a última pessoa para a qual pensei em contar foi você. Pelos meus cálculos a gente não só não se pertence mais: a gente nunca se pertenceu. 
   A verdade, meu bem, é que a gente tem que largar essa ideia fixa de que as pessoas nos pertencem, aliás: temos que ser cautelosos com qualquer ideia que tenha a pretensão de ser fixa. Qualquer coisa que tenha essa característica invariável, inflexível não pode ser agradável. Nós, por exemplo, sempre seguimos um padrão de comportamento: um lado sempre fez besteira e o outro lado sempre tentou consertar. Se, ao menos uma vez, as coisas fossem diferentes, flexíveis, maleáveis, nós conseguiríamos caminhar lado a lado, sem que ninguém tivesse que carregar o outro nas costas, poderíamos caminhar lado a lado sabendo que todos somos carne, osso e um turbilhão de emoções: não há como sermos rígidos e constantes. E foi, por ser alguém de carne, osso e um furacão de emoções que eu desisti de tentar fazer de mim um baú que recebe e guarda tudo, que sempre tem um espacinho a mais para coisas que não merecem um espacinho. Desisti, finalmente, de ser um baú que guarda coisas que, há muito, deveriam ter ido embora.
   É isso mesmo: às vezes a gente tem que se despedir para poder avançar. É mais saudável ter uma lembrança bonita e verdadeira dos dias de Sol na sorveteria e dos abraços quentes nos dias frios, do que manter-se acorrentado a alguém que não te faz mais rir durante o sorvete não consegue mais te entender e consolar em um abraço. É totalmente natural que você, que costumava saber tudo sobre mim, não me conheça mais o suficiente par me consolar em um abraço e nem tenha mais tanta intimidade me arrancar um sorriso durante um sorvete. O que não é natural é manter uma relação acorrentada: quando duas coisas estão acorrentadas uma, naturalmente, se arrasta e, nesse caso, quem tem sido arrastada sou eu. 
   Não é que eu esteja sendo radical, mas alguém tem que ter a coragem, né? Não quero nunca apagar nada e nem vou falar de ponto final, mas é preciso tirar as engrenagens que não funcionam mais para que o carrossel da vida gire. Se for para existirmos você vai saber se transformar em uma engrenagem que é cuidada e que funciona.  Afinal, se ainda existíssemos eu não precisaria falar do corte de cabelo: você notaria. 


Ane Karoline

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