imagem: Instagram

Sempre considerei a História uma ferramenta indispensável para a vivência humana plena, mas agora, mais do que nunca vejo como ela se faz necessária. Quanto mais se sabe sobre o que já aconteceu, mais progressivamente é possível caminhar. Entretanto, nem todo mundo gosta de estudar História, né? Por isso, resolvi discuti-la de uma forma diferente: através da literatura. 

Desta forma, como as guerras, em especial a segunda guerra mundial, me são de grande interesse no que tange a tentar compreender como se estabeleceram, decidi trazer a indicação de três livros que tratam de histórias reais de pessoas reais que estiveram na Segunda Gerra Mundial. Vamos conferir?

imagem: instagram

1. O diário de Anne Frank - Anne Frank
Lembro-me de estar cursando o quinto ano quando a professora de língua portuguesa nos entregou um texto confuso, repleto de onomatopeias, e disse que era um trecho do Diário de Anne Frank. De início, me interessei pelo livro porque todos os meus colegas brincavam dizendo que era o meu diário. Anos depois eu, finalmente, puder o livro. 

O livro é exatamente o que o título diz ser: o diário real de Annelies Marie Frank, ma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto (entenda melhor o Holocausto AQUI). O diário foi escrito de 12 de junho de 1942 até 1º de agosto de 1944, sem nenhuma intenção de ser publicado. Em 1944 o governo holandês esteve buscando testemunha oculares da guerra e, após não ter mais dúvidas de que a filha estava morta, o pai dela único sobrevivente da família, Otto Frank, deu o diário para o governo sem lê-lo. 

A estrutura do livro é a de diário, tudo foi mantido como Anne escreveu: datado. Anne relata a rotina de sua família e seus jovens anseios, ela destaca em especial as mudanças e opressões sofridas após a ascensão nazista ao poder. Para quem quer saber mais sobre a guerra a partir do olhar mais sensível de uma pessoa em especial, esse é o livro ideal. 

2. As últimas testemunhas: crianças na segunda guerra mundial - Svetlana Aleksiévitch
Assim que abri o pacote com esse livro e vi a capa, soube que ia gostar. Comecei a lê-lo em uma semana muito difícil em que eu estava extremamente doente e acabei tendo que colocá-lo de lado. Assim, terminei semana passada.

Por mais que eu tenha estudado sobre a guerra, sobre o Holocausto, sobre o nazismo, sobre regimes totalitários, a leitura desse livro foi um soco no estômago. Doeu, doeu, doeu cada página, cada linha, cada narrativa, cada pedacinho de mim. Entretanto, se eu soubesse previamente todas as lágrimas que me causaria, ainda assim leria, precisamos fazer algo acerca da crueldade humana, mesmo que a única coisa possível seja conhecê-la e torná-la pública.

O livro é composto de relatos de pessoas russas que eram crianças na época da guerra, cada relato contém o nome, a idade da pessoa na época da guerra e a profissão atual. Algumas pessoas eram de famílias judias, outras não, mas todas relatam em uníssono: viram e viveram coisas que não deveriam acontecer a nenhum ser humano. Elas relatam como suas famílias foram dizimadas, como elas sobreviveram comendo até mesmo barro e, sobretudo, como é doloroso ainda lembrar de tudo. É livro muito denso, mas necessário. O trabalho de Aleksiévitch, além de ter uma impecável estética literária, é um patrimônio histórico e jornalístico incontestável.

imagem: instagram

3. Maus: A história de um sobrevivente - Art Spiegelman
Como alguma coisa pode ser, ao mesmo tempo, leve e pesada? Eu digo: um livro em quadrinhos sobre guerra. Esse livro, que foi indicação da minha amiga do blog Oi da Lari,  eu li exatamente no mesmo dia em que terminei o livro anteriormente mencionado.

O fato é que eu, após a infância (quando eu lia os gibis da turma da mônica), nunca fui muito de ler história em quadrinhos. Entretanto, todas as que li foram indicações de amigos e me agradaram bastante; não foi diferente com Maus. 

Art conta a história de seus pais, judeus, durante o holocausto de uma forma extremamente convidativa: ele mostra como seu pai o contou a história e, ainda, como seu pai tem uma personalidade difícil.  É muito interessante como Art conta toda a história sem idealizações: seu pai foi, sim, vítima do holocausto, mas não é retratado como herói por isso. Os quadrinho me ensinaram muito sobre a guerra e, sobretudo, sobre o holocausto.

com amor, 
Ane Karoline


Fonte: Google
Mesmo que eu possa correr da solidão, é impossível que ela não acabe me alcançando. Mesmo que eu possa me distrair, ela me encontra nos momentos antes de pegar no sono. Durante o dia, ela se esconde, largada nos cantos dos lugares onde vou. Hora oculta atrás de uma planta, hora espiando do topo do armário. O fato é, que ela está sempre comigo, à espreita do momento certo para largar-se em meu colo e pesar seu peso no meu coração.
Há os que pensam que solidão significa estar sozinho. Estão redondamente enganados, pois, é possível ser solitário em meio a uma multidão. É possível ser solitário em uma conversa onde o foco é apenas o outro, e nós somos apenas acessório. É possível ser solitário em uma relação em que apenas uma das partes está interessada em continuar. É possível ser solitário em uma família que não faz esforço para te entender.
Há todo o tipo de solidão no mundo, e algumas pessoas são afetadas por mais de um tipo. Uma das solidões que mais dói, é a do silêncio. Seja o silêncio de quem não te procura, ou o daquele que não responde à sua procura. E o silêncio não fala, ele grita.
O silêncio grita, que você não é bom o bastante sequer para receber uma resposta. O silêncio grita, que qualquer coisa é desculpa para que ele se prolongue. O silêncio, alimenta a solidão. É irmão do isolamento, da indolência, da dormência, que se arrastam pelo nosso corpo. O silêncio e a solidão, e todos os seus irmãos, são sombras geladas, que se espalham ao nosso redor, como teias de aranhas, sombras pontiagudas com galhos nodosos e água fria que nos envolve.
A solidão, oculta por máscaras das gargalhadas, presenças em festas e eventos, logo não cabe mais atrás do sorriso amarelo que diz "Está tudo bem", mesmo quando nosso mundo treme como se afetado por um terremoto. Quando nosso mundo está debaixo de uma chuva constante, um frio excruciante, e uma fome de afeto fora do normal.
Aos poucos ela cria raízes tão profundas, que se torna difícil de arrancar. Se alastra, cresce e floresce e quando menos se espera, dá frutos. Mas são frutos podres, que vem em forma de dor, estresse, ansiedade, tristeza e depressão. As vozes constantes fazendo perguntas das quais não queremos obter as respostas. 
Tomara que eu não seja alvo, dessa tal solidão, pois, sinto que cada dia que passa, meu mundo é mais e mais...SILENCIOSO.

- Adolfo Rodrigues


Eu me sinto um forasteiro, alguém que não pertence a lugar nenhum. Dias e dias e eu sou capaz de notar o quão perdido estou, todo o conhecimento sobre o tempo me escorre por entre os dedos, assim como a areia que cai lenta e constante dentro da ampulheta. Estou a espera do momento em que eu mesmo hei de voltar a ser cinzas. Estou estagnado pelo destino, fadado a vagar por terras estranhas, nunca podendo criar laços com a própria terra e nada que dela prover. Marquei diversos caminhos, assisti o pôr do sol inúmeras vezes de forma que já nos conhecemos e, todo início de noite, nos despedimos com um aceno cálido. No céu, se levanta minha velha amiga, prisioneira da noite e, assim como eu, sem chances de brilhar por mais que algumas horas ou dias em um mesmo lugar. Obrigada a vagar pelos céus.

Oh, Iluminada Lua, Filha de Ártemis, Símbolo da Mulher. Me permita descansar sob seu olhar, enquanto aguardo a última brisa desse gélido lugar. Enquanto cada estrela pinga com o pontilhismo de explosões inimagináveis.

Mais um Dia me acordou Senhor Sol, mesmo que já tenha lhe pedido que não o fizesse. Sei que possui boas intenções. Entretanto, eu só quero poder encontrar um lar, onde possa dormir e deixar que minha respiração volte para o mundo, que é onde ela deve estar. Livre.

Houve um dia em que caminhei sobre as águas. Não assim como Nosso Senhor Jesus, mas, sim, como uma libélula que descansa ao barulho da água logo após um satisfeito voo. Tinha os joelhos três centímetros abaixo do nível da água, com um frio agradável subindo a espinha. Os raios de sol furavam a capa feita de folhas, aquecendo as partículas do meu rosto. O barulho da água caindo da enorme cachoeira, causava um grande barulho, mas ainda assim, relaxante. Era triste olhar para a margem e saber que nunca poderei sentir a água sobre a pele novamente, mas ainda me alegra poder descansar após um longo banho.

Caia Linda Água, e forme espumas de memórias, que se explodem ao menor dos toques. Caia Linda Água, e limpe a alma dos já caídos. Caia Linda Água, e reflita como espelho da verdade. Caia Linda Água, e me purifique o ser. E, ainda que eu deixe de sentir o seu cair, jamais hei de esquecer seu doce som, seu leve toque e seu poderoso sabor. Caia, Oh Linda Água.

Crepitando dentro do fogo selvagem a madeira grita a cada fio de vida que perde. Não há beleza no fim absoluto de uma vida, mas até mesmo as árvores tão ancestrais, historiadoras importantes, conseguem sentir a beleza que é o sacrifício pelo fogo puro, aquele que ilumina uma jornada pelo escuro do submundo. Eu consigo ver todos os sentimentos que já tive durante essa minha vida, eles queimam uma última vez, até o momento mais calmo em que, enfim, irão se apagar e nunca mais pulsar novamente.

Amado fogo, precisa me ajudar. Eu pequei, mas bem sei eu que tu consegues me salvar. Não sei mais a quem implorar, mas, Oh Impiedoso e Destruidor Fogo Infernal, queime minhas impurezas e me esterilize a alma. Ilumine as linhas com que teço minha sina, com gestos rápidos e precisos. A arte mais linda e que possa alimentar sua existência, Oh Fogo Da Vida.

Me perdeu, tomei demasiado de seu tempo, mas já não tenho tempo para permanecer aqui, já preciso partir. Preciso correr, a cavalaria está chegando, preciso mudar e encontrar uma terra onde é lindo e nobre a morte da mais miserável vida. Uma Terra de Ninguém, livre de ligações, de amores, medos, desejos, ódio e o que mais a humanidade possa usar para envenenar todas as terras.

Adeus!
Marionete de Suas Vontades

Pedro Henrique

imagem: Ane Karoline

Há alguns anos, quando iniciei minha graduação, ouvi falarem sobre Mia Couto. Entretanto, se por destino ou coincidência não sei, acabei me pondo a ler Mia Couto apenas ano passado quando, agora vejo, eu me fiz como gente o suficiente para compreender a magnitude de suas palavras. A escola dos livros aconteceu por acaso: recebi os livros da equipe da Companhia das Letras e me pus a lê-los. Com o que me deparei, não tenho palavras para descrever.

Nunca havia lido um romance histórico antes e, portanto, o gênero foi-me totalmente novo e revelador, retificando a minha ideia de uma literatura que vai muito além da estética, uma literatura com uma função histórica e um potencial social inigualáveis (vide também literatura política AQUI). Pois bem, vamos aos livros. 

A trilogia foi nomeada de As areias do imperador e é composta, em ordem cronológica, pelos livros: Mulheres de Cinza, Sombras da água e O bebedor de horizontes. Em linhas gerais, a trilogia acontece no sul de Moçambique, quando era governada pelo rei Moçambicano Ngungunyane — o último dos líderes do Estado de Gaza. Desta forma, Mia Couto traça a trajetória dos dias finais do reinado do Leão de Gaza, destronado pelos Portugueses. 

No primeiro livro, Mulheres de Cinza, a protagonista que guiará o leitor é apresentada: Imani, de etinia Vatxopi. Além da poética voz de Imani, o primeiro livro também é composto de cartas escritas pelo soldado Português Germano de Melo para Portugal. No primeiro momento, Imani apresenta sua aldeia, alguns de seus costumes familiares e o cenário Moçambicano. Em seguida, por ser a única falante de Português da região, a moça e a família ficam encarregados de receber Germano de Melo e encaminhá-lo para o quartel Português da aldeia. É importante ressaltar que a família de Imani se via divida entre receber bem o soldado português ou não. Vivendo em dias de guerra e vendo os seus sendo dizimados pelo exército do rei de Gaza, o pai e o irmão mais novo de Imani acabam por acolher bem Germano, na esperança de que Portugal cuide da província, derrote o rei de Gaza e os proteja. Entretanto, a cada carta do soldado, vai ficando claro para o leitor sua total incapacidade de lidar com Ngungunyane.

imagem: Ane Karoline


O segundo livro se inicia já de forma bem mais caótica: a guerra causou na família de Imani várias perdas, o estado de Gaza está em crise e Germano de Melo sofreu um grave acidente. Neste livro, as reflexões de Imani a respeito de sua vida, sua juventude, sua relação com Germano (a qual começou a tomar proporções românticas) e sua feminilidade. Imani, seu pai, Germano e sua amiga Bianca acabam sendo recebidos em uma igreja para que seja tratada a enfermidade de Germano. Boa parte acontece na ilha até que o conflito, de fato, é apresentado. Este livro tem papel fundamental na trilogia justamente por ser o que apresenta a queda do rei de Gaza.

No terceiro livro, Ngungunyane é levado para Lisboa e muito melhor se percebe as intenções de Portugal. Após a queda do rei, Imani, em sua maestria com as palavras, reflete que:

Não era apenas um imperador vencido que os portugueses exibiam. Era África inteira que ali desfilava, descalça, rendida e humilhada. Portugal precisava daquela encenação para desencorajar novas revoltas entre os africanos. Mas necessitava ainda mais de impressionar as potências europeias que competiam na repartição do continente. 

Nesse sentido, esse livro foi, para mim, o mais dilacerador. Mostra, ainda que em uma escala isolada, a monarquia Portuguesa explorou o continente africano, como despatriou os africanos e fez deles escravos. Imani, por exemplo, obrigada a aprender português na infância, é colocada em situação de traição para com seus conterrâneos, ficando em situação de conflito consigo mesma. 

Assim, a maior parte do terceiro livro acontece durante a viagem para Lisboa, mas muitas descobertas são feitas durante esse tempo de enclausuramento dos prisioneiros africanos. 

Minha opinião

Muito, e cada dia mais, tem me interessado saber a história do povo brasileiro e, por isso, tenho me perguntado muito sobre as raízes, sobre o suor e o sangue sobre os quais o país foi construído. Quando li, então, a trilogia, foi como dar um salto lá trás e para olhar uma brecha do que ocorreu no continente africano com a chegada dos colonizadores europeus, como o povo africano foi dizimado, desrespeitado e humilhado. A trilogia é uma aula de história daquelas bem difíceis de serem digeridas, só que escrita pelas mãos brilhantes de Mia Couto; uma aula de grande importância para que possamos dar um passo para trás para conseguir vislumbrar ao menos um pouco da riqueza do continente africano, para que possamos ver a riqueza dos seres humanos quando conectados à natureza, à energia de todos os outros (vivos e mortos), a si mesmos. É uma trilogia que traz uma chance desconstruir essa imagem pobre e torta do continente africano que temos hoje, a imagem que a personagem Bianca, branca e italiana, descreve como:

Noutros lugares (...) as crianças choram como quem aprende a rezar: esperam que as coisas melhorem. As crianças africanas não. Choram sem voz, choram para si mesmas, como se vivessem o seu último dia. As lágrimas imitam-lhe as barrigas: inchadas mas sem nada dentro. 

Nota: 10/10 

Com amor, 
Ane Karoline


Em geral, eu sempre tenho uma ideia do que eu pretendo ler no ano seguinte, entretanto, não tenho costume de fazer uma lista muito fechadinha para que eu não me frustre depois. Para o ano de 2018, como estive muito atarefada com o fim da graduação, acabei lendo o que convinha com meu tempo livre, mas para o ano de 2019, resolvi fazer diferente: criei meu próprio desafio literário. No total, pretendo ler 50 livros, mas decidi estabelecer apenas 40, para deixar uma margem livre para os livros que vierem. Por fim, uni tipos de leitura que acho extremamente necessárias (como leituras políticas) a leituras que me dão imenso prazer e das quais eu estava afastada (poemas) para, com muito carinho, criar um desafio. 

O desafio não inclui títulos, inclui apenas tipos/gêneros de literários os quais o leitor deve encaixar em suas leituras. Não há necessidade de cumpri-lo em ordem e, ainda, quem quiser ler só alguns também está convidado. Além disso, para alguns tipos eu já tenho possíveis livros os quais quero ler, os quais ficam como sugestões para vocês. Vamos ver o desafio, então?

1. Um livro histórico (“As últimas testemunhas”)
2. Um livro que eu gostaria de ter lido em 2018 (“The hate you give” )
3. Um lançamento de 2018 (“Becoming Michelle”)
4. Um lançamento de 2019
5. Um clássico brasileiro (“Grande Sertões: Veredas”)
6. Um clássico estrangeiro (“Persuasion”)
7. Um livro teen (“Depois dos 15”)
8. Um livro sobre sociedade (“Racismos”)
9. Um livro de suspense ("os mistérios ABC")
10. Um livro recomendado por alguém que você admira (“Quarto de despejo”)
11. Um livro de um autor negro (“Quem tem medo do feminismo negro?”)
12. Um livro de autor asiático
13.Um livro escrito por uma mulher
14. Um livro sobre feminismo (“Women, race and class”)
15. Um livro sobre educação (“No princípio era a educação”)
16. Um livro técnico (“Educação do homem integral”)
17. Um livro em outro idioma (“Mom and me”)
18. Um livro ganhado de presente (“Dias de despedida”)
19. Um livro com a palavra “amor” no título (“Os números do amor”)
20. Um livro em espanhol (“La multitud errante”)
21. Um livro em quadrinhos
22. Um livro que sempre quis ler (“Ensaio sobre a cegueira”)
23. Um livro de um autor que nunca li
24. Um livro sobre política (“Eduardo Cunha: pseudônimo”)
25.  Um livro de poemas 
26. Um livro escrito por alguém com menos de 30 anos
27. Um livro escrito há mais de 10 anos
28. Um livro sobre ditadura
29. Um livro com um título de uma palavra
30. Um livro com uma cor no nome (“The color purple”)
31. Uma peça teatral
32. Um livro que já foi banido
33. Um livro de memórias
34. Um livro que eu consiga terminar em um dia (“A princesa salva a si mesma nesse livro”)
35.  Um livro de fantasia (“O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”)
36. O primeiro livro de um autor (“Uma coisa absolutamente fantástica”)
37. Um livro best-seller
38. Um livro de contos (“Contos – Lygia Fagundes Teles)
39. Um livro lançado antes de você nascer (“Mrs. Dollaway”)
40. Um livro escolhido pela capa





Ela está sempre lá. Quando chego do trabalho cansada, quando estou em um trânsito terrível, quando estou triste, quando estou feliz, quando preciso relaxar, quando quero ser produtiva. Ela me guia, me mostra os caminhos mais doces e sempre tem a frase que eu preciso ouvir. Ela me ajuda a dar conselhos e, quando eu quero muito ajudar alguém mas não sei o que dizer, basta correr e dizer "acho que sei um livro que pode te ajudar". A literatura. Ela tem me salvado desde que aprendi a ler e esse ano de 2018 não foi diferente: a literatura me ajudou a respirar.

Esse ano, em especial, foi muito diferente dos anteriores: por conta da conclusão da graduação, li apenas vinte e cinco livros. Entretanto, foi mais difícil escolher os meus dez preferidos já que, pelo tempo limitado, selecionei com muito cuidado os livros que leria. Assim, os que indico aqui são a nata preciosa que tive o prazer de encontrar esse ano e quero, com muito carinho, indicar para vocês que me leem. 

É importante lembrar que nem todos os livros aqui listados foram lançados em 2018, mas eu os li em 2018. De alguns deles teremos resenhas completas em 2019 e, por isso, farei apenas um breve resumo agora. 

1.Um teto todo seu - Virgínia Woolf
Foi minha estréia com a incrível Virgínia Woolf e fala justamente sobre o meu dilema: como uma mulher que ainda não é financeiramente independente pode escrever livremente e se manter? Fiz uma resenha dele em março AQUI.




2. I know why the cageg bird sings - Maya Angelou
Esse livro vai ganhar uma resenha especial sobre ele — a qual ainda não tive tempo de fazer, mas terei. Porém, já adianto que é um livro autobiográfico e extremamente sensível. Angelou escreveu muito poemas incríveis, mas foi o romance que dela que de fato me marcou. É um livro que consegue perpassar muitos temas difíceis de serem discutidos através da figura representativa da Maya. A leitura é indispensável. 

3. O Sol na cabeça - Geovani Martins
Como brasileira, posso dizer que esse foi um dos melhores livros que li na vida. É lançamento do ano da Companhia das Letras e escrito por um autor também lançamento. Fiz resenha dele em abril AQUI.


4. Os homens explicam tudo para mim - Rebeca Solnit
Eu comprei esse e-book acidentalmente, mas acabou sendo um encontro. Devorei o livro em dois dias para tentar engolir o nó — necessário — que trouxe à minha garganta. Solnit vai além do feminismo e traz outras discussões e reflexões extremamente necessárias acerca da vida em sociedade e, acima de tudo, sobre respeito. Tem uma mini resenha dele AQUI


5. Pedagogia da autonomia  - Paulo Freire
Em seis anos de licenciatura, não havia lido ainda Paulo Freire. Ao escrever meu trabalho final, senti a necessidade e, ainda que não tenha sido uma leitura obrigatória e nem tenha entrado, de fato, em em meu trabalho, Freire me libertou com seu ideal pedagógico. É uma reflexão libertária e essencial. 


6. Mulheres de cinzas -  Mia Couto
É o primeiro livro da trilogia "As areias do imperador" em que Mia Couto trata sobre a chegada de Portugal à Moçambique. Foi minha primeira leitura de um romance histórico e notei o poder que esse tipo de literatura tem: a força história unida à estética literária. Leitura essencial. Não vou me delongar pois em Janeiro teremos resenha da trilogia completa. 

7. Sombras da água - Mia Couto
É o segundo livro da trilogia "As areias do imperador" acima citada. 

8. O bebedor de horizontes - Mia Couto
É o terceiro e último livro da trilogia "As areias do imperador" acima citada. 

9. O que é lugar de fala? - Djamilla Ribeiro
Em 2018 tive ainda o prazer de participar de uma #MaratonaDeLeiturasFeministas e o primeiro livro lido foi justamente essa obra esclarecedora da Djamilla Ribeiro. Ainda que eu tenha estado em um estado de pesquisa constante nos últimos dois anos, esse livro me foi essencial por diversas razões mas, sobretudo, para entender mais sobre respeito. Até então, o conceito de lugar de fala me era muito problemático, mas ao ler o livro, percebi a simplicidade do assunto. É um livro curtinho e muito simples, obrigatório para quem quer entender mais sobre respeito e vida em sociedade.



10. O que é empoderamento? - Joice Berth
Ainda impulsionada pela maratona, o livro de Joice Berth foi o segundo a ser lido e também me esclareceu outro termo que me parecia extremamente abstrato — empoderamento. A autora dialoga com Paulo Freire ao pensar em um empoderamento coletivo social e não individualizado. Além disso, me ajudou a visualizar melhor como a mulher negra é posta na sociedade brasileira.

com muito amor — e desejando um lindo 2019, 

Ane Karoline



imagem: Google
Pode ser ficção. Ou não. Eu posso ter inventado a figura de uma pessoa sábia que, enquanto eu chorava aos soluços, tenha me segurado pelos ombros e me dito para seguir sempre em frente, afinal, eu invento várias coisas. Mas, ao mesmo tempo, pode ser a mais pura verdade, como o dia em que minha mãe disse que tudo ia passar, e passou. O fato é que eu não sei, não lembro quando comecei a basear minha vida no ato de seguir em frente, se tivesse que adivinhar diria que foi bem cedo, já que eu entendi o lema de forma errada e o tomei como literal demais, como fazem as criancinhas pequenas

Digo que pode ser ficção, mas também pode ser memória falsa, como o dia em que eu rodei, rodei, rodei no balancinho colorido e dei com a testa no chão. Meu cabelo era ralo, mas batia na cintura e eu entrei caladinha, pálida e com a coluna ereta igual à Wandinha Addams, fingindo não ver o fio de sangue escorrer pela testa até ouvir mamãe dizer que deveria estar doendo tanto que eu fiquei abobada. Não sei se foi verdade, mas sei que foi justamente para evitar o abobamento que, depois, quando partiram meu coração pela primeira vez, eu chorei dezesseis lágrimas contadinhas, ou dezessete, talvez, mas não mais que isso, logo segui em frente. Esse foi meu jeito de dar o próximo passo: a dor era tão feia, doía tão fundo, que condensei em dezesseis lágrimas e o resto eu amassei bem amassadinho e escondi no fundo da gaveta da alma. Quando me perguntaram, ainda no dia seguinte, eu sorri e desconversei. Mamãe errou ao achar que eu estava abobada de tanta dor, ao contrário, a letargia sempre foi meu jeito de evitá-la, de fingir que não existia

Daí, para o fingimento total, foi um piscar de olhos. Recebi de peito aberto os maiores furacões que a vida me lançou, levantei, ainda que esfrangalhada, depois de cada rasteira que tomei. Uma atrás da outra. Sem ar. Sem parar para respirar. Insisti em me manter de de pé, ainda que sangrando, depois de cada uma das facadas recebidas nas costas. Caminhei sangrando todas e cada uma das manhãs, mas não sabia eu que sangramento que não estanca, mata. Me mantive de pé, mas sem alma

Acredite: pode ser tudo ficção! Eu invento até amores, imagine se não vou inventar dores. E já que existe essa possibilidade, ninguém vai saber se minto, vou aproveitar para dizer: eclodiu. Imagine só! A coisa formada por todos os bloquinhos condensados de dor, os quais escondi por todos esses anos, ela tomou vida, tomou minha vida. Ela se alojou na minha garganta e não saía por nada, eu não conseguia falar e nem engolir. Usei os antibióticos para seguir em frente. A coisa se fortaleceu caladinha e me atacou no espelho: acordei com outra cara, com uma cara que denunciava a minha falta de vida, o meu sufocamento, a minha asfixia causada por tanto fingimento.

De tanto fingir que não doía, parei de sentir. Achei que o quer que fosse, eu poderia passar por cima, poderia acordar renovada no outro dia, poderia esconder de todos, poderia desmarcar todos os cafés,  poderia recusar todos os convites, poderia me esconder no trabalho e na ciência. Achei que tinha entendido Clarice que dizia que deve-se viver apesar de, mas não. O que fiz até agora foi seguir em frente apesar de, mas sem vida. Era para lutar pela vida apesar de todos os pesos e pesares, não para passar por cima dela com todos eles. Clarice tentou me ensinar a semear minha vida todos os dias e eu, interpretando como ficção, a vim esmagando ao caminhar. Sorte que a vida é forte e se sustenta: se a gente pensa em esmagá-la, ela é quem, antes, golpeia a gente. 

Sendo a minha história ou a sua, sendo ficção ou não, a tal voz sábia que me disse para seguir sempre em frente esqueceu de me dizer para me levar junto. Só se caminha de verdade quando se está inteiro, se um pedacinho de nós quebrou, é hora de parar para remendar. 

Ane Karoline