Hunger by Cristina Otero Photography © FB / deviantART / Website
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Entrei correndo esbaforida na sala: menos de um mês para entregar os resultados da pesquisa e eu ainda não havia conseguido as respostas da médica. Pelo meu estado abrupto, inevitavelmente, senti os olhares de todos na sala de espera se virarem para mim. Com o rosto ainda enrubescido pelo sol quente lá fora, me identifiquei na recepção, evitei os olhares de todos ali e me sentei na cadeira mais próxima da porta. Quando meu coração estava quase calmo, se recuperando dos cinco minutos de corrida até o consultório, ela falou comigo.

- Moça, licença. – Apontando para a alça da bolsa sobre a qual eu, distraidamente, me sentara.

Foi então que eu a vi. Era exatamente como eu me lembrava, não fosse por alguns detalhes: as maçãs do rosto haviam murchado, os cabelos longos ondulados e castanhos estavam puxados sobre o ombro esquerdo de um jeito bagunçado e a pele clara, com algumas sardas claras sobre o nariz, estava extremamente arroxeada ao redor dos olhos. Detalhes que a diferenciavam bastante da versão sensual e ameaçadora dela que eu havia conhecido mais de dois anos antes.

- Moça?  - Ela me chamou novamente em um tom que deixou muito claro o fato de que ela não fazia ideia de quem eu era ou, pelo menos, não se lembrava.

- Desculpe! Eu não vi sua bolsa aí. Você é a próxima? – Puxei assunto.
- Não. Acho que vou ter sorte se a doutora me atender hoje.

- Você também está atrasada? Eu fiz de tudo para chegar no horário, mas não consegui. – Sorri. Ela não sorriu de volta

- Não, eu não tenho horário marcado, vim parar aqui porque não sabia para onde mais ir.

Olhei instintivamente para a mão dela à procura da aliança que um dia fora minha, não encontrei. As unhas, que antes me eram motivo de grande admiração, agora estavam roídas e sujas. Com os meus formulários de pesquisa dentro da pasta, fiquei extremamente tentada a perguntar a ela o que havia acontecido, aliás, como havia acontecido. Eu não havia sido a primeira e ela não era a última. Os fatos eu conseguia imaginar sozinha, passados e repassados em minha mente, só queria saber os detalhes: quantas vezes haviam ido ao cinema para pernoitarem juntos pela primeira vez, quantas vezes ele ligou para ela na hora do almoço até parar de ligar, quando foi que ele começou a ignorá-la por dias seguidos, quando foi que ele começou a reclamar de cada escolha que ela fazia, como foi que ele a diminuiu e humilhou, quando foi que ele, finalmente, usou a desculpa de que não havia nada de excepcional entre eles. Eu queria saber quem foi que, inconscientemente, entrou no lugar dela como ela entrou no meu; queria entender como foi que ele fez com ela exatamente o que fez comigo. 

Sentada ali, com as pernas cruzadas e a cabeça recostada na cadeira, ela não parecia ser tão voluptuosa quanto ele me dizia que ela era, parecia outra coisa, outra pessoa. Vestindo um casaco de lã azul anil todo desfiado, ela se parecia com a minha versão de dois anos antes: vulnerável, confusa, despedaçada, desiludida. 

Fiquei tentada, sim, a usar meus formulários como uma desculpa para descobrir tudo o que eu queria e me sentir, falsamente, vitoriosa. Mas quando a doutora me chamou para ajudar com os formulários, eu olhei para a minha direita e a vi, ainda, com os olhos abertos fixos no teto e a ficha me caiu. Percebi que o que eu queria ali era afirmar, mais uma vez, que eu não havia caído naquela armadilha sozinha, não havia me sujeitado aquele relacionamento com aquele sujeito por culpa minha, queria me certificar de que, como eu, outras pessoas inteligentes eram passíveis de serem enganadas e atraídas para a sarjeta. Não era culpa dela e nem minha e não haveria vitória nenhuma em saber os detalhes da desgraça dela, em saber quais novos apelidos carinhosos ele havia inventado para ela e como eles haviam substituídos por agressões. A batalha que eu havia travado e vencido, não era contra ela.

Ao sair do consultório, procurei por ela e a vi de pé, perto da janela, olhando a rua. Me aproximei e disse:

- Eu falei com a doutora, ela vai te atender mesmo sem horário marcado, Daniela.  – Ela me olhou confusa, cerrando os olhos e tombando a cabeça de lado, tentando me reconhecer e eu continuei – Quando foi comigo, meu cabelo caiu pela metade e eu emagreci bastante. Você vai superar, a gente não escolheu por isso, não é culpa nossa.

- Você... Ah, meu deus. – Ela gaguejou ao me reconhecer como a ex.
Ane Karoline





Obs: Caso você sofra qualquer tipo de relacionamento abusivo, procure ajuda. 
ou
Ligue: 188



           
  
              Era só mais um dia comum. Mas, acho que é sempre assim que acontece. Um dia como todos os outros, algo acontece, a notícia chega, e te atinge como um tiro no peito. Infames de nós, que vivemos nossos dias alheios à chance intermitente de que algo grande aconteça. Foi assim que a notícia chegou. Me atingiu como uma flecha.
                Estraçalhou o teto de vidro sobre minha cabeça, fazendo diversos cortes diferentes em mim. A chuva de cacos cascateou sobre minha face, que encarava o céu. A dor escorreu como sangue. O choque gelado, o medo avassalador que devorou minhas entranhas. Um frio invernal, meus dedos tremiam, apesar de o termostato não registrar queda na temperatura. Era eu. O frio vinha de dentro.
                Me peguei pensando nas pessoas a que amo. Onde elas estavam agora, o que estariam fazendo, se estariam em segurança. Me perguntava se uma doença arrebatadora não dormia dentro de nenhum deles, apenas esperando para despertar e gerar o caos e o sofrimento que elas causam. Foi assim que os últimos raios de sol do meu dia se despediram de mim. Cravaram firme uma ferida, entalhada na rocha do meu coração.
                Acima de tudo, sou uma pessoa naturalmente pessimista. Meu maior medo é perder a quem amo. Queria eu ser aquele a partir, em minha egoísta forma de pensar, para que não fosse necessário sofrer pela partida deles. Mas isso é apenas meu egoísmo tentando encontrar uma solução que sirva para mim. Sei que agora sou mais necessário do que nunca. Alívio.
                A verdade? A verdade é que não estou pronto. Nenhum de nós está. Mas, me sinto ainda mais despreparado, desestabilizado, para lidar com isso. Afinal, ninguém quer uma pessoa amada em tal condição. É a sensação de impotência que assombra. É ela quem nos faz tremer na base, chorar escondidos, ter nós na garganta que doem como arame farpado.
                Meu coração está pesado. Seu ritmo desajustado, e minha mente atormentada com todo tipo de hipóteses. Mal de quem pensa demais, rápido demais, criativo demais. Enquanto aproveito o silêncio de uma solidão proposital, elas escorrem de mim. Cada uma carrega um pouco da dor embora. Pena que há dor demais e lágrimas de menos.
                Talvez minha reação seja exagerada. Contudo, sou exagerado. Há uma chance de que se procurar pela palavra exagero no dicionário, ache uma foto minha lá. Se não concorda, é por que eu me limito. Me controlo, me ajusto e me camuflo. Tento verdadeiramente encontrar o ar para respirar, dentro desse turbilhão que me afoga. Apenas minha mão alcança a superfície, e o fôlego em meus doloridos pulmões está em seus últimos momentos.
                Quando enfim consigo engolir uma golfada do tão precioso ar, a água me arrasta novamente, em um ciclo ininterrupto de dor e alívio. Espero, no fundo do meu ser, pelo melhor. Torço em silêncio, para que o meu pessimismo seja contrariado, e derrotado, dessa vez. Me diminuo um pouco, para que a tempestade não alcance outros. Fujo para o meu recanto mais seguro, as palavras. Pois são elas, minha melhor forma de vazão.
                Apenas mais um dia, de muitos que virão. O sofrimento endurece a carcaça, mas jamais a torna indolor. Sigo adiante, mesmo que pisando nos cacos de vidro, pois, a única direção em que posso seguir, é em frente.
-Adolfo Rodrigues

Fonte: Tumblr
        Uma certeza a respeito da vida, é que ela muda. Sejam as situações, as pessoas, os lugares ou você mesmo. Tudo muda. Às vezes de forma programada, outras repentinamente, dando-nos a sensação da perda de controle. O medo e a ansiedade de ter nas mãos uma situação completamente fora de ordem. Refletindo bem, a mudança é o estado necessário para a vida, pois, é através dela que ela é concebida.
O primeiro momento em que temos consciência da vida é a transição do nascer, onde somos arrancados da nossa zona de conforto e expostos a um mundo barulhento, muito claro e doloroso. Depois disso, tudo gira em torno da mudança. O alimento muda, as sensações térmicas, as dores e medos. Então os cabelos mudam, surgem os dentes, as pernas esticam, a fala se desenvolve e o crescimento progride.
Logo mudamos de uma escola para outra, de uma casa para um apartamento, então de novo para uma casa. Ganhamos um cachorro, então um peixe, perdemos o peixe, ganhamos uma bicicleta. Fazemos amigos, perdemos esses amigos por mudar de escola. Brincamos com os primos, e depois não brincamos mais, porque fomos morar em outra cidade. Gostamos de um desenho, e depois perdemos o interesse. Tudo ao nosso redor, é mudança.
Então, no dia em que uma pessoa amada, com quem estamos há tanto tempo, se prepara para partir, o coração dói. A antecipação da ausência. A ausência da voz, do toque, do cheiro, da presença. A ausência da segurança, da sensação e das memórias. A mudança na rotina, na certeza que aquele alguém nos proporciona. É como uma facada gelada no coração, que atinge em silêncio, causando uma tempestade dentro, que nem sempre é expressada fora.
Mas não podemos impedir a mudança. Nem a nossa, nem a das pessoas ao nosso redor. Assim, relações são desfeitas, amigos vão para longe, pessoas de quem gostávamos se tornam inimigos, e vice-versa. Pode parecer que não, mas, tudo ao nosso redor está em constante mutação. O sentimento de não ter absolutamente nenhum controle da nossa vida pode assombrar, assomando sobre nossas cabeças, como uma nuvem de chuva.
Então um dia chega uma mensagem. Ela está vindo te visitar pela primeira vez depois de anos. Sim, aquela pessoa querida que mudou para outra cidade. Estará aqui em apenas alguns dias. É como se um pequeno sol se iluminasse dentro de nós. O caos do dia a dia dá uma trégua, por alguns instantes, para que possamos apreciar o prazer do retorno. O coração acelera, ela está aqui. Chegou e podemos nos ver novamente.
O abraço conhecido, o toque comum, esperado, representando a saudade como um ser vivo. Mergulhar nos braços das memórias, da segurança do amigo. A alegria vem e muda. Muda a rotina monótona, acrescenta aos momentos banais, torna cada instante precioso. O valor que damos àquilo que perdemos, é incomparável.
Mesmo que em alguns dias ela tenha que partir novamente. Mesmo que aquele pequeno espaço de tempo não seja o bastante para matar a saudade, a melhor coisa a respeito da partida, é o prazer, do retorno...

- Adolfo Rodrigues

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Você se prometeu que leria mais em 2018 mas ainda não conseguiu ler nada? Está de férias e não sabe como passar o tempo? Ou está, simplesmente, à procura de um bom livro? Pois bem, nós fizemos uma lista especial com dez livros maravilhosos para você! Vamos conferir? 

1. O sol na cabeça - Giovani Martins
Livro curto, composto de contos baseados a realidade periférica brasileira;

2. O Circo Mecânico Tresaulti - Genevive Valentine
Tamanho médio, ficção/fantasia, um livro a respeito das relações que tornam pessoas próximas ao ponto de se tornarem família;

3. Jogador nº 1 - Ernest Cline
Livro grande,  infanto juvenil, ficção científica. Fala sobre a humanidade em uma realidade futurística, conectado a vários aspectos da Cultura pop;

4. Sete minutos depois da meia noite - Patrick Ness
Livro curto, fantasia infanto juvenil com uma mensagem muito bonita;

5.A garota das laranjas - Jostein Gaarder 
Livro curto, um romance filosófico;

6.Surpreendente - Maurício Gomyde
Livro de tamanho médio, de um autor brasiliense sobre o valor da amizade;

7.O maravilhoso agora - Tim Tharp
Livro de tamanho médio, um romance sobre quem somos e como o contexto nos influencia;

8. Contos Peculiares - Rasom Rigs
Livro curto, composto de contos baseados nos personagens do livro "O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares";

9. O que o sol faz com as flores - Rupi Kaur
Livro curto, poesia;

10. Novena para pecar em paz - Lisa Alves, Lívia Milanez, Patrícia Colmenero, Paulliny Gualberto e mais cinco autoras brasilienses
Livro curto, composto por contos de não-ficção.

E então, vamos ler?



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No reflexo no espelho, olho nos olhos do caos: fundos, amarronzados e derretidos. Olho-os tanto que me perco neles, vejo-os líquidos, como um poço sem fundo, infinito e enigmático. Não é como se reconhecesse algo aqui, pelo contrário, perco-me cada vez mais, mas sigo em hipnose, como quem não pode evitar se afundar. Olho o caos tão de perto que não sei mais se o enigma se dá pelo acumulo de coisas ou, ao contrário, pela ausência de tudo; o vazio me parece tão caótico quanto a multidão. 

Por um instante ou dois, consigo me segurar na realidade e amplio a imagem, olho ao redor dos olhos do caos: olheiras esverdeadas, uma sobrancelha mais arqueada que a outra, manchas, muitas manchas; um rosto. Rosto de quem, meu deus? Estou tão perto do caos, tão imersa numa liquidez funda, que não ouço nada, não sei de nada; o nada me esmaga, se infiltra nas minhas células, me desintegrando, não sou mais capaz de me reconhecer. É um esforço me distanciar desse estado de abstração completa, alguém me chama lá longe e eu consigo colocar um pé na realidade. 

Começo, então, a puxar e arrancar tudo o que me sorve para esse centro líquido e caótico, exponho tudo que tenho tentato esconder: uma amiga; um cachorro morto; um bebê desconhecido sorrindo; um atropelamento; a moto voando por cima do canteiro; uma traição; duas traições; pressão; uma viagem cancelada; um apertão no braço direito; o pulso envolvido por uma mão grande; um grito; dezoito gritos engolidos em uma única semana; o sangue escorrendo demais o mês inteiro; o sangramento que não cessa; duas crianças caídas no chão; o menino baleado com uniforme escolar; uma adolescente suicida; vários suicidas desconhecidos; uma criança descalça pisando em cacos de vidro correndo do pai; uma mulher gritando; um beijo sem vida dento do carro escuro; o volante do carro escorrendo das mãos; uma mãe gritando; uma mãe com as mãos queimadas de crack; dois meninos pedindo um lanche; um homem armado; três tiros toda madrugada; a escuridão da rua de baixo; o estuprador atrás da parada de ônibus; uma velhinha caindo no ônibus; dois livros molhados no chão, mofados; uma gota de suor frio na testa, a acusação ecoante: frígida. 

Todas as coisas que constituem o caos estão ligadas por um só fio e, ao puxá-lo, começo a reconhecer o rosto do caos. Vejo, então, os cílios ralos, como os de minha mãe, o nariz redondo, minha marca de catapora na bochecha direita: meu rosto. Caótico e lúcido. Como uma pintura há muito abandonada, escondida por trás de sujeira e mofo, existo. Por cima de mim, existem coisas, dentro de mim, outras tantas; coisa me destruindo, coisas me sufocando, coisas fazendo com o que eu não me reconheça. Ao tocar o fio invisível que as mantém unidas, sou esmagada pela imagem dos meus pés sangrando por dois quarteirões e sei, sem nenhuma dúvida, que vou me fazer em pedaços ao tentar emergir. 

Ainda assim, opto por retirar tudo, cada pedaço, cada memória, cada grito ouvido, cada palavra engolida: destruo tudo. Me transformo em destroços. Quando me olho no espelho e reconheço meus olhos inchados, fundos, amarronzados, mas lúcidos, descubro: é se despedaçando que a gente se refaz. 

Ane Karoline


Título: A Incendiária

Autor: Stephen King
Editora: Suma
Ano de publicação: 2018
Páginas: 448
Nota: 4/5

Andy McGee e Vicky Tomlinson eram dois universitários comuns, que viviam de forma pacata e só queriam se formar. Tudo muda quando ambos aceitam participar de um experimento controlado no departamento de psicologia (eles ofereciam 200 dólares aos voluntários, e quem é ou já foi universitário sabe que dinheiro é algo que sempre falta no bolso). O Dr. Wanless, chefe do experimento, garantiu que não haveria efeitos colaterais graves e que todos poderiam ficar tranquilos, porém muita coisa saiu do controle... O teste em si tratava da administração de uma substância chamada "Lote Seis", que era nada mais do que um programa do serviço de inteligência dos Estados Unidos, gerenciado por um órgão chamado Oficina, para desenvolver habilidades psiônicas, como telepatia, dominação mental, entre outras paranormalidades.

Felizmente, Andy e Vicky não apresentaram nenhum comportamento drástico, mas viram outros voluntários enlouquecerem e até mesmo arrancarem os próprios olhos. Apesar de todo esse cenário gore, os dois acabaram se aproximando e se apaixonando, o que levou a um casamento e a formação de uma nova família. E foi aí que os problemas deles começaram.

Vicky acabou desenvolvendo uma telecinese fraca, em que fazia portas se fecharem ou luzes piscarem quando ficava agitada, já Andy percebeu que conseguia exercer domínio sobre a mente das pessoas, obrigando-as a fazer aquilo que ele desejava, mas seu 'poder' também não era espalhafatoso e acabou passando despercebido pela Oficina. No entanto, não deu pra esconder as coisas estranhas que aconteciam na casa da família McGee quando nasceu Charlie, filha de Andy e Vicky, que demonstrou possuir um poder muito mais impressionante e destrutivo que o de seus pais: a menina criava fogo a partir da própria mente. Quando ela sentia cólica, quando estava com fome, quando chorava... Qualquer alteração de humor que Charlie sofria era marcada pela incineração de alguma coisa dentro de casa. Isso deixou os seus pais em pânico e despertou o interesse da Oficina, que percebeu que a filha do casal havia herdado os genes modificados pelo experimento a qual seus pais haviam sido expostos.

Com a possibilidade de usar o poder de Charlie nas guerras em que os EUA estavam envolvidos, a Oficina inicia uma caçada para capturar a garota e descobrir o potencial de seu poder. A partir daí, a vida dos McGee se torna um inferno. Fugindo das emboscadas que os agentes da Oficina criam a todo instante, Charlie se vê obrigada a usar o poder para salvar a vida da família, e isso pode desencadear uma série de desastres que nem a própria menina aparenta conseguir controlar. 

Com críticas pesadas aos métodos desumanos que os governos usam para alcançar seus objetivos, A Incendiária cria uma trama de ficção interessantíssima para tratar sobre questões como o abuso de poder do estado, a falta de respeito pelos cidadãos, a política de que "o fim justifica os meios" e todas as atrocidades que sabemos que são cometidas pelos governantes com a desculpa de que são pelo bem comum.

Stephen King nos conta uma história forte, com seu característico dom de prender a atenção do leitor da primeira a última página. Esse clássico dos anos 80 sem dúvida é um dos grandes trabalhos de King, que sempre sai de sua zona de conforto e escreve sobre variados temas. A editora Suma, através da coleção Biblioteca Stephen King, fez um ótimo trabalho ao relançar essa obra com nova tradução e com uma edição espetacular. Recomendadíssimo!

P.S. Também não posso deixar de agradecer pela cortesia da Editora Suma, que disponibilizou o livro para que lêssemos assim que foi lançado e pudéssemos escrever essa resenha. Obrigado!



Era uma vez eu, eu estive convicta de que estava evitando falar sobre como me sinto e sobre todas as atrocidades as quais vejo acontecer. Acontece que até mesmo nessa historinha inventada, eu estava errada: não estava evitando falando sobre isso, estava sendo, sutilmente, silenciada. Mesmo hoje, certa, segura de minhas crenças e minhas lutas, me vejo ainda pisando em ovos, me desculpando desnecessariamente e evitando falar sobre um assunto ou outro porque sei que a resposta vem; e a resposta é violenta, e a resposta tem uma voz mais grossa que a minha, apesar de não ter razão alguma. A resposta que eu recebo é sempre tão irracional que me fez, e ainda faz, cair na pior armadilha de todas: será que estou exagerando? Bom, vamos aos fatos, para citar uma mulher, me valho de uma frase de Ellen Oléria "todo mundo conhece essa história? Pois bem, ela é mais ou menos assim":

Me parece que eu nasci incomodada, porque não sei dizer quando começou, mas tinha sempre uma pulguinha ali que me fazia parecer brava. Quieta, mas brava - aliás, eu sempre me vi brava, os outros me viam estressada. Um menino de nome Moisés jogou minha prova de matemática embaixo do filtro de água da sala de aula e, quando eu revidei, me disseram que eu era uma criança muito estressada; afinal, ele gostava de mim, achava meu cabelo lindo, por isso, havia destruído minha prova de matemática - não passou pela cabeça de nenhum adulto sorridente que eu havia conseguido uma nota muito melhor que o Moisés. Houveram muitos Moisés em todas as etapas da minha vida, alguns mais agressivos, alguns mais manipuladores, alguns mais cínicos, alguns doutores, alguns linguistas, alguns publicitários e alguns engenheiros; todos eles me diminuindo, todos eles me colocando em dúvida, todos eles me envergonhando e me sacaneando de formas diferentes. Todos eles, por fim, me intitularam de muito, muito estressada, irritadíssima. E eu ficava ali, com oito, com dez, com doze, com quinze, com vinte anos, boquiaberta, gaguejando, tremendo por dentro, querendo explicar racionalmente todos os motivos pelos quais eu deveria mesmo estar brava; mas nunca consegui explicar, calava a boca. 

Daí, veio o adesivo de carro com a Dilma de pernas abertas que todo brasileiro deve conhecer: o rosto da presidente unido a um par de pernas bem abertas, deixando um espaço no meio, onde o bico da bomba de gasolina seria inserido. Com o adesivo, vieram os insultos de baixo calão, todos eles referentes à feminilidade ou à sexualidade da presidente; não se preocuparam em atacar seu governo com qualquer racionalidade, atacaram-na, sobretudo, como mulher. Eu ali, sentada no banco do passageiro de um carro dirigido por um homem, comecei a me sentir enjoada, enojada dentro daquele posto de gasolina; me senti violentada e, novamente, não disse nada porque, se dissesse, estaria exagerando. Afinal, qual o problema de desmoralizar (mais uma vez) uma mulher usando o corpo dela como público? O corpo feminino não é público?

Não resolveu, mesmo que meu medo de ser considerada histérica tenha me calado, eu continuei sendo vista como histérica; uma histeria emburrada. Ao invés de ser bonitinha e ordinária, virei a bonitinha, mas histérica. Fala demais. Para quê esse tom mesmo? Se for para falar alto, que seja gemendo, oras. Ou para ser líder de torcida, né? Uma boquinha tão bonita, mas fala demais. 

Não teve jeito, aconteceu foi que de passo em passo, caminhei para a histeria completa quando comecei a acompanhar o trabalho da deputada Manuela D'ávila. Tive que garimpar muito antes de conseguir chegar nela, antes disso, me deparei com um cerco de insultos sexuais ao redor dela. Novamente, pouquíssimos se dispunham a questionar as propostas e os posicionamentos políticos dela racionalmente, insultos e mais insultos. O corpo público dela se estendeu ao processo de maternidade e à Laura (filha dela): todo mundo opinou. Sobre política, nada. 

Demorou, mas consegui. Caminhei de volta para a racionalidade, juntei dois mais dois, quando a situação ilustrativa foi o Michel Temer. O preço da gasolina nas alturas e o máximo que se ouve sobre ele é: corrupto. Nada de adesivos, nada de piada, quando tem insulto, é direcionado à mãe dele. Não vejo, de forma alguma, insultos e zombarias com bons olhos; mas foi só então que percebi como a imagem de um homem, ainda que corrupto, é imaculada. O corpo dele é sacro, do qual ninguém fala, no qual ninguém toca,  sobre o qual ninguém opina. Só política dele é criticada, ele é visto como um profissional - como as mulheres também deveriam ser. 

Aí, eu vi: meus argumentos sempre foram plausíveis, mas não adianta apresentar respostas racionais para pessoas que não me consideram um ser racional, no máximo, inteligente, mas muito emotiva - se for no vigésimo oitavo dia do mês então, né? A ficha foi caindo pedacinho por pedacinho: por mais que eu tenha dez anos no estudo de uma língua, insistem em ouvir a voz do vizinho que conhece inglês só a partir de video-games; por mais que eu passe noites (de bom grado, por sinal) lendo, relendo, procurando acervos, fazendo pesquisas e cursos sobre política, rebatem todas as minhas colocações e aplaudem ao primo que repete discurso de facebook. Mas, agora, isso não me deixa mais com medo; não me deixa mais histérica; me mostra, ao contrário, que devo me colocar mais, falar mais, gritar mais alto, rasgar todos os adesivos de mulheres com pernas abertas. Se tenho que me colocar com mais força, se tenho que estudar duas, três, quatro vezes mais que um homem qualquer para poder ser ouvida, o farei. E, a partir de agora, o próximo que me perguntar " mas você está estressada?" vai saber que o que não me faltam são motivos para estar estressada e que, com maestria, posso enumerá-los, fazer um gráfico deles, escrever um artigo em três línguas diferentes ou, para os mais limitados, desenhar. Quem sabe assim fica mais claro?


Ane Karoline