Título: Sete minutos depois da meia noite
Autor: Patrick Ness
Editora: Novo Conceito
Ano de publicação: 2016
Páginas: 160

Nota: 4/5

Sete minutos depois da meia noite conta a história de Conor O’Malley, um garoto de 13 anos que levava uma vida normal em um pequeno vilarejo da Inglaterra, até ver tudo ao seu redor desmoronar quando sua mãe é diagnosticada com uma doença terrível. A vida pacata que ele conhecia é virada de cabeça para baixo, e onde antes existia um menino inocente, passou-se a ver alguém cheio de mágoas e culpa.

Tudo muda quando, em uma de suas noites intranquilas, exatamente às 00h07, um monstro resolve lhe visitar. Esse monstro é nada menos que a árvore plantada no cemitério da igrejinha vizinha à sua casa, um velho teixo por qual sua mãe demonstra curiosa afeição. O problema é que o monstro não quer assustar ou ferir Conor fisicamente, na verdade seria melhor se assim fosse, porque o que ele cobra é algo muito mais caro e doloroso: a verdade.

Para obter a verdade do garoto, o monstro lhe conta três histórias que mostram que a vida nem sempre é tão simples como imaginamos. O bem e o mal geralmente se misturam, o que torna a realidade bem diferente das visões idealistas e açucaradas que vemos na TV. Dessa maneira, Conor vai aprendendo um pouco mais sobre a vida e os desafios que ela apresenta para cada ser humano, mas isso não torna menor o peso de compartilhar a sua verdade...


Extremamente sensível e carregado de intensidade, esse livro revela as dores de uma criança que se vê obrigada a amadurecer de um dia para o outro, carregando pesos que um corpo infantil não consegue suportar sem ficar com marcas profundas. Patrick Ness nos presenteia com uma história forte, mas ao mesmo tempo suave, que nos proporciona ótimos momentos de reflexão sobre quem somos e quem queremos ser.

imagem: pinterest


Não sei se todo mundo é assim, mas eu percebo o jeitão de um cara aproveitador. Eu mesmo não suporto esse tipo, podem me acusar de tudo, de ser o desgraçado que for, mas aproveitador não. Acontece que esses caras não me enganam e o tal vendedor de seguros era um desses, afinal, ele é um vendedor de seguros. Confesso que, talvez por orgulho, eu não contava com o fato de ele ser esperto, ser um bom vendedor de seguros. Quando encontrei com eles dois no shopping, eu só conseguia construir uma imagem ruim dele na minha mente, como se, por estar com ela, ele fosse um imbecil; mas não. O cara é esperto e me tratou no maior papo aproveitador: ofereceu seguros, planos, mundos e fundos. A coisa toda ficou enrolada porque ele disse que o escritório estava em reforma isso e aquilo e, por fim, não estava atendendo no escritório, só por telefone. Lembrei dela falando que tudo se quebra e se transforma para se reconstruir, se reformar; se isso fosse verdade, eu deveria estar caminhando para a reforma, pois essa confusão toda, essa história de não querê-la mas não esquecê-la, ia acabar me quebrando em mil malditos pedaços. Quem sabe, quebrado, morto, despedaçado, eu não virasse um daqueles mosaicos, uma das obras de arte dela, quem é que sabe de alguma coisa?

Demorou dois dias de uma insistência dos infernos para conseguir marcar com o vendedor de seguros da cara rosa. Acabamos marcando em um bar de chopp dentro do mesmo shopping que eu tinha visto as mãos dele na cintura dela. Fui cedo, mas ele já estava lá; adiantado. Tá aí, ela deveria gostar disso nele também, com aquele jeitinho dela de quem gosta de chegar não sei quantas horas antes. Além de esperto, ele também foi bem mais firme do que eu esperava; cheguei, e ele foi logo me recebendo de pé e com aperto de mãos. Era ele mesmo, bem ali, com aquela cara rosa e as mesmas olheiras da foto; tive que me lembrar várias vezes de que não havia razão para ser hostil com ele. Não ainda. O cara é esperto, mas é chato, me dispersei várias vezes e, já puto com ele, resolvi perguntar logo sobre os seguros para casais. Qual você me recomenda, joguei, qual é o que você usa com sua namorada? Olhei bem fundo para a cara roliça dele, como quem não quer nada, ele vacilou, fez cara de abobalhado. Ele gosta dela, filho da puta. Está dormindo com ela. Comecei a ficar nervoso.  Vou pedir um chopp, você quer? Ele disse que tinha um compromisso depois e que ia dirigir. Mas e esse teu seguro aí, não cobre isso não? Ele sorriu e disse que o seguro cobria tudo, nos melhores hospitais do quinto dos infernos, disse que, inclusive, a namorada dele estava viajando para São Paulo, ou Recife, não prestei atenção. A namorada dele estava viajando com cobertura do seguro e, por isso, ele estava tranquilo. Tomei uma golada de chopp quente, desceu rasgando. Mas que coisa, eu falei, que coisa; achei que sua namorada morasse aqui. Percebi-o todo desconfortável. Claro, porra, claro. Escondendo uma namorada e bancando o romântico com a manteiga derretida pintora. A cara de aproveitador dele não me enganou nem por foto, só mesmo ela para acreditar em um cara desses. Minha vontade foi dizer: e aquela com quem você estava agarrado aqui no shopping? Ela é o que para você? Minha vontade foi jogar na cara dele os cinco anos de história que eu tinha com ela, dizer que se eu ligasse, se eu a convidasse para qualquer cineminha barato, ela iria. Minha vontade foi perguntar se ele estava com ela na noite anterior, se foi por isso que ela não retornou. Ao invés disso, aceitei comprar o seguro individual. Mais uma golada de chopp quente, odiei aquele chopp porque eu não consigo odiá-la.

Insisti em assinar o contrato no mesmo dia, sabe-se lá por que razão. Eu só queria manter contato com ele até que eu pudesse saber de tudo. Ele até brincou, querendo ser engraçado, dizendo que eu não morreria em um dia. Quem é que sabe? Insisti. O contrato, ele falou, pode até ser assinado hoje, mas vamos ter que dar uma passadinha na casa da minha prima; ela está indo embora do país, hoje é despedida dela, acabei deixando minha pasta lá. Menos de quinze minutos depois, eu estava seguindo o golzinho dois mil e quinze dele em direção à casa.

Quando cheguei, não vi mais nada. Não sei quem abriu a porta, não sei como entramos, não vi mais ninguém; só o vendedor de seguros indo até ela, parabenizando pela viagem e pegando a pasta na mesinha onde ela descansava os pés. Ela estava nua, a alma nua. Um vestido que eu nunca a tinha visto usar, o cabelo meio preso na frente, o rosto bem exposto, os ombros também nus. Sorria como se nada nesse mundo a incomodasse, como se eu não tivesse ligado para ela noites antes, como se ela nunca tivesse conversado comigo até tarde, como se nunca tivesse chorado por mim, como se nunca tivesse pintado quadros para mim. Sorria como se eu não existisse mais no quadro da vida dela.


Com a casa cheia, aposto que até agora ela nem me viu; se viu, fez que não, e fez bem. Nem a barba eu fiz. Não fiz nada, não tive coragem para me levantar de onde o vendedor de seguros, primo dela, me ofereceu lugar para sentar. Continuo olhando para o copo de plástico com cerveja quente, ouvindo barulhos, risadas, ela cantarolando, eu morto. Parece que o tal seguro não me protegeu desse tipo de morte sem sangue que foi morrer dentro dela. 

Ane Karoline

Títulos: O Azarão, Bom de Briga e A Garota que Eu Quero
Autor: Markus Zusak
Editoras: Bertrand Brasil e Intrínseca

Nota: 5/5

Cameron Wolfe é um garoto comum, membro de uma família comum e habitante de uma cidade comum do subúrbio da Austrália. Os seus dias se resumem a brigar com seu irmão, Rube, a assistir TV e a se apaixonar platonicamente por garotas que nem sequer notam a sua existência. Essa série de livros seria irrelevante se, de fato, estivéssemos falando de um garoto comum, mas como nos lembra Lewis, não existem pessoas comuns, e Cameron, ou Cam, como gosta de ser chamado, descreve e desnuda o mundo com tal sensibilidade que nos questionamos se de fato estamos lendo palavras de um jovem inexperiente que não entende nem a si próprio.  Nos três volumes que integram a série, a saber, O Azarão, Bom de Briga e a Garota que Eu Quero, assistimos ao processo de amadurecimento de um adolescente e todas as dores e sabores que acompanham esse momento. Cam é desafiado a todo e tempo e, através de suas experiências, descobre que a vida não exige força para lutar sempre, mas sim para nunca desistir de apanhar.

Esses livros me proporcionaram grandes reflexões, e eu quero partilhar pelo menos duas com você. A primeira foi sobre como nós simplesmente objetificamos e rotulamos as pessoas que dividem esse planeta conosco. Já parou para pensar nos sentimentos que habitam o interior do carteiro que todo mês deixa as contas na sua porta? E nos anseios do cobrador do ônibus que diariamente libera a catraca para você passar e coloca algumas moedas nas suas mãos? E nos sonhos aquela senhora que limpa o chão do seu serviço ou da sua escola / faculdade? Já parou para imaginar quais são as dores e as alegrias que essas pessoas vivenciam? Já se perguntou ao menos quais devem ser os seus nomes?
Conhecer os pensamentos e lutas diárias de Cameron Wolfe me fez perceber que qualquer um, mesmo alguém que você julgue como inútil, parvo ou extremamente ignorante, possui uma história para contar, e essa história é digna de ser ouvida porque é sobre um ser humano. Cam é só um garoto normal, mas que sente e vive o mundo da sua própria maneira, assim como todos os outros 6.999.999.999 de indivíduos que habitam a Terra. Precisamos ter mais consciência disso.

Outro pensamento que me acompanhou durante essas leituras foi a importância de se ter um porto seguro para onde voltar quando tudo der errado. No caso de Cameron, esse oásis é a sua família. O clã Wolfe, que é composto por sua mãe, seu pai e por seus irmãos (Steve, Sara e Rube). A mãe trabalha como faxineira em casas de bairros nobres, o pai é encanador, já o irmão mais velho (Steve) é o bem sucedido da família que tem um bom trabalho e conseguiu ir pra faculdade, enquanto a sua irmã vive apenas namorando e sofrendo (coisas que são quase sinônimas). Rube, o único irmão que eu ainda não apresentei, é apenas um ano mais velho que Cam, o que torna os dois muito próximos, pois além de irmãos eles são os melhores amigos um do outro. Na verdade, Cameron não tinha lá muitos amigos, então ou ele era amigo de Rube ou então não era de mais ninguém (não que isso fosse o único motivo para os dois serem tão próximos, mas ajudava).
Essa família simples e suburbana possui em seu âmago o instinto do animal que lhes emprestou o sobrenome, e, como uma alcateia, todos se protegem e cuidam uns dos outros quando alguém se fere. Essa relação familiar, longe de ser perfeita, pois são vários os percalços que surgem durante o caminho, como o desemprego do Sr. Wolfe, a péssima habilidade culinária de sua companheira, a soberba de Steve e a preguiça de Cam e Rube, mas é na hora das crises que eles mais se aproximam e permitem conhecer um ao outro, estreitando ainda mais os laços que já os unem tão tenazmente. É impossível não lembrar de Chesterton quando ele disse que "a coisa mais extraordinário do mundo é um homem comum, uma mulher comum e os seus filhos comuns".

Resumindo, a trilogia de Markus Zusak versa sobre a dificuldade da vida em um mundo onde ninguém se importa com ninguém, o que dificulta ainda mais a já conturbada existência de um adolescente, porém o autor também dá pistas durante a sua escrita sobre o que realmente vale a pena nessa jornada cheia de obstáculos, mas também de momentos únicos e inebriantes que fazem todo o resto valer a pena.
No mais, fico por aqui e torço para que, se um dia você decidir também viajar por essas páginas, perceber que o simples é a coisa mais sofisticada que existe, pois nós não somos seres humanos por causa das grandes glórias que alcançamos, mas sim por partilharmos das mesmas limitações enquanto uma raça que sofre para encontrar o seu lugar em um mundo hostil.

Fonte: pinterest

Há sessenta e sete anos, instalavam-se as primeiras redes de Fast-food no Brasil. As lanchonetes de comida rápida conquistaram tamanho espaço na rotina das pessoas que por vezes são a opção de almoço ou janta, substituindo a tradicional comida caseira. Com rotinas de multitarefas, nos acostumamos com alimentações totalmente industrializadas, sem perceber os efeitos que tais alimentos causam em nosso corpo.

Como um carro que precisa de combustível para funcionar, a espécie humana funciona conforme os alimentos que consome. Ainda assim, o cuidado com a alimentação parece ficar em segundo plano diante de uma sociedade que se orgulha em não ter tempo. Felizmente, nós podemos nos livrar de maus hábitos, ainda que exija tempo e disciplina. Para Charles Duhigg, escritor do livro “O poder de um hábito” “Alguns hábitos têm o poder de iniciar uma reação em cadeia, mudando outros hábitos conforme eles avançam através de uma organização. Ou seja, alguns hábitos são mais importantes que outros na reformulação de empresas e vidas. Estes são os ‘hábitos angulares’ e eles podem influenciar o modo como as pessoas trabalham, comem, se divertem, vivem, gastam e se comunicam. Os hábitos angulares dão início a um processo que, ao longo do tempo, transforma tudo”. O hábito alimentar pode ser considerado um hábito angular, cuja a mudança afeta até o nosso cérebro.

Segundo a coautora do livro “Nutrição Cerebral”, Luciana, o sistema neurológico precisa de gorduras boas para manter o bom funcionamento das células. A ingestão de gorduras trans (algumas vezes presentes em sorvetes, chips, batata congelada, donuts, margarinas, massas industrializadas para bolos, cookies, biscoitos recheados e/ou amanteigados, pipoca de micro-ondas, sanduíches fast-food, nuggets, pizza e outros) intoxica a célula, o que interfere na atividade cerebral. Os aditivos químicos em excesso, presentes em corantes, adoçantes e no glutamato monossódico, entram nos neurônios ocupando o lugar dos nutrientes. Essas substâncias são tóxicas para o neurônio, comprometendo o desempenho cerebral. Segundo especialistas, o excesso desses alimentos pode causar demência, déficit de atenção, ansiedade e depressão.

            O convite que fazemos é para uma alimentação consciente. Por uma semana, preste atenção aos alimentos que ingere e em como você se sente após ingeri-los. Você notará que ao comer fast-food, por exemplo, sentirá satisfação aos dez primeiros minutos, enquanto o açúcar alcança o pico e é liberada dopamina – mesmo efeito proporcionado pelas drogas. Depois disso, você perceberá a fadiga, enquanto o sistema digestivo trabalha arduamente para digerir o alimento rico em gorduras e açúcares. Por outro lado, ao diminuir a quantidade de alimentos processados, você sentirá uma melhora desde o seu nível de energia para realizar as atividades diárias até o funcionamento do seu cérebro. 

Ane Kelly

Fonte: tumblr

                Explicar ao guarda e à bibliotecária o que estavam fazendo àquela hora, debaixo daquela chuva no descampado atrás da biblioteca foi mais difícil do que as garotas esperavam.
- Estávamos caçando vagalumes! – Mentiu Kelly.
                Ruby e Celine arregalaram os olhos e a encararam, incrédulas. Kelly deu de ombros, foi a melhor ideia que teve.
- Caçando vagalumes, debaixo da chuva? – Ralhou o guarda.
- Eu comecei antes da chuva. – Retrucou Kelly.
- Estava caçando vagalumes com as mãos? – Rebateu o guarda.
- Meu jarro ficou lá, afinal vocês não deram tempo de nos explicar. – Ela ergueu a sobrancelha em desafio ao guarda.
- Sair da chuva era mais importante. – A voz dele se alterou.
- Muito bem, já chega! – Interrompeu a Bibliotecária - Não me interessa quem estava fazendo o quê. As meninas não quebraram nenhuma regra, nem se feriram. Seu trabalho aqui acabou. – Disse com autoridade ao guarda.
                Ele a encarou feio, depois às meninas. Ruby erguia o queixo, desafiando-o o retrucar. Por fim desistiu, meneou a cabeça e saiu xingando baixinho.
- Boa noite! Obrigado! – Gritou a bibliotecária, sarcástica. Então virou-se para as meninas – Vamos procurar toalhas para secar vocês e depois vão me contar direitinho o que aqueles dois espíritos as disseram. – Ela sorriu.
                As meninas se entreolharam, chocadas. A boca de Ruby estava aberta.
- O quê? – Foi tudo o que ela conseguiu dizer.
*
                O ambiente quente da biblioteca cheirava a livros velhos e poeira, mas também a desinfetante e naftalina. As luzes fluorescentes davam ao ambiente uma claridade artificial. As garotas estavam secas e o aquecedor ligado. A bibliotecária, que finalmente havia se apresentado como Amélia Reinhart, havia trazido uma xícara de chá earlgrey para as meninas. Elas estavam sentadas em um canto mais afastado da biblioteca, onde algumas poltronas estavam dispostas ao redor de uma pequena mesa de vidro.
                Amélia as encarava por cima de seus óculos de meia lua, com as pernas cruzadas, mostrando longas pernas sob a saia preta de camurça. Os cabelos ruivos eram uma bagunça ao redor da face, marcada pela idade. Estavam presos com vários grampos coloridos, o que a tornava um pouco diferente.
- Podem começar. – Disse.
                As meninas explicaram exatamente o que havia acontecido, desde o sonho de Celine até o encontro com Kelly e as entidades. Disseram à mulher sobre as perguntas que haviam feito e as respostas recebidas.
- Eu acredito em vocês! – Disse Amélia.
- Acredita? – Indagou Ruby – Eu mesma não sei se acredito no que vi, sabe?
- Essa não é a primeira vez que vocês enfrentam algo inimaginável! Eu sei.
                As garotas se entreolharam.
- Ora, todos na faculdade sabem o que ouve com vocês e seu grupo. O que me leva a perguntar, onde estão seus amigos?
- Charlie e Darius estão em outra cidade resolvendo alguns problemas. – Respondeu Celine, olhando para as mãos em seu colo.
- E por que ainda não ligaram para eles?
- Não! – Disse Kelly.
                Amélia ergueu a sobrancelha.
- Ela está certa. – Completou Ruby – Cabe a nós resolver isto.
                Amélia se levantou e andou ao redor da sala. A mão no queixo, ponderando algo. Enfim ela pareceu tomar uma decisão, virando-se para as meninas, decidida.
- As entidades que vocês viram são espíritos guardiões.  – Ela caminhou e sentou-se no braço da poltrona. As mãos no ar, explicando enquanto ela falava – Eles eram irmãos em vida, Alex e Ana, da cidade de Hushwoods. Foram conhecidos como grandes espiritualistas, lidando com coisas além da imaginação. Viveram muitos anos, e faleceram no mesmo dia. As pessoas passaram a dizer que os viam nos bosques de Hushwoods depois disso. Há relatos de pessoas que fizeram trilhas na floresta e viram a jovem Ana sentada na relva, ou ainda de pessoas que se perderam na floresta e alegam que o jovem Alex os guiou para fora dali. – Explicou.
- Espera um pouco! – Interrompeu Ruby – Eles eram pessoas?
- Exatamente! Diz-se que depois que faleceram se tornaram guardiões de tudo aquilo o que é espiritual.
- Mas o que temos a ver com algo que aconteceu em Hushwoods? Eu sequer sei onde é esta cidade. – Reclamou Ruby.
- Nossa mãe é de lá. – Explicou Kelly.
                Ruby empalideceu e a encarou. Passou os olhos para Celine em busca de confirmação. A garota assentiu. Ruby ergueu o braço, mostrando-o às meninas.
- Eu me arrepiei toda! – Riu.
                As meninas sorriram, e até Amélia pareceu ficar um pouco mais tranquila.
- Mas, senhora Reinhart, eles nos falaram de uma entidade ruim que está atrás de um sacrifício. Disseram que devíamos encontrar algo chamado Alrisha. – Explicou Celine.
- Por favor, me chame de Amélia, querida! – Ela sorriu. Então cruzou os dedos sobre o colo – Há todo tipo de entidade ruim nesse mundo. Algumas mais inteligentes que outras. Alex e Ana não podem agir no mundo físico, mas podem encontrar alguém que o faça. Se eles querem que vocês encontrem Alrisha, é o que devem fazer.
- Mas o que é isso? O que é um Alrisha? – Indagou Kelly.
- Não o quê, mas quem! – Respondeu Amélia – Vocês devem ter a mente aberta para compreender o que vou lhes dizer agora.
                O clima ficou mais pesado. Algo sério estava acontecendo ali. Kelly sentou mais perto de Celine, que segurou suas mãos. Ruby se endireitou na poltrona, cruzando os braços. As garotas sequer piscavam, ouvindo atentamente à mulher que falava.
- Alrisha é uma das estrelas da constelação de peixes. Há um ciclo de 33 anos, que é quando ela nos visita. Alrisha sempre encarna em uma criança e permanece na Terra por um curto período de tempo. A luz de Alrisha é azul, e tem o poder de consumir a escuridão. Em outras palavras, se Alrisha brilhar, as trevas que estiverem perto dela, vão morrer.
                Nem mesmo a respiração das meninas era audível. As três tentavam fazer sentido do que acabavam de ouvir. Era difícil compreender que uma estrela, que não passa de um amontoado de rocha, gases e reações químicas poderia ser também uma entidade espiritual e, mais que isso, poderia encarnar em um corpo físico. A razão gritava que aquilo era brincadeira dentro das cabeças delas, mas elas sabiam que o que sentiam era real. Nenhuma delas havia esquecido tudo o que haviam passado apenas um ano antes. Elas sabiam o quanto tudo aquilo era inexplicável, e, no entanto, não deixava de ser a verdade.
- Onde nós podemos encontrar essa criança? Alrisha? – Kelly rompeu o silêncio.
- Em Hushwoods. – Celine disse para si mesma, ainda perdida em pensamentos e divagações.
- Exato! – Concordou Amélia.
- Onde exatamente? – Perguntou Ruby.
- Isso nem mesmo eu sei! – Respondeu Amélia – Mas, tenho a sensação de que, uma vez que cheguem a Hushwoods, vocês serão guiadas até Alrisha.
- E o que faremos depois disso? – Perguntou Celine.
- Eu não sei, querida. – Amélia levava um tom maternal na voz – Só o que posso afirmar é que vocês devem protege-la. Devem proteger essa criança do mal que a procura.
- Nós iremos! Somos boas nisso! – Explicou Ruby – Nós enfrentamos um inimigo que era a personificação da maldade. Vamos conseguir! – Ela encarava Kelly e Celine, que assentiram para ela.
- Não percam tempo, meninas! Aproveitem o fim de semana, viagem imediatamente. Hushwoods fica 50 quilômetros depois da cidade de Denley, vocês chegarão lá ao amanhecer se partirem agora. – Explicou Amélia.
*
                Ruby parou em um posto na estrada para abastecer. Celine aproveitou a parada para comprar algumas guloseimas na loja de conveniência. As garotas haviam corrido para seus dormitórios, tomado um bom banho quente, vestido roupas secas e arrumado as malas. Elas partiram antes da meia-noite, no carro de Ruby. Kelly dormia no banco de trás, descansando para quando fosse sua vez de dirigir. Elas iam alternar, para que todas tivessem a chance de descansar. Quando o tanque estava cheio, Celine retornou da pequena lojinha do posto com um saco com garrafas d’água, biscoitos, salgados e doces. Nas mãos ela trazia um mapa e uma lanterna.
- Achei que seria útil! – Disse quando entrou no carro.
- É uma boa ideia. Com essa chuva o GPS não vai funcionar direito. – Comentou Ruby enquanto acelerava.
- Foi exatamente o que pensei. – Disse Celine, satisfeita.
                Ruby lançou o carro na rodovia, acelerando o máximo que podia naquelas condições climáticas. A chuva caía torrencial e ela estava completamente alerta para a estrada desconhecida. Dentro do carro o aquecedor criava um clima aconchegante.
- Você queria ter chamado o Charlie, não é? – Indagou Ruby, ainda olhando para frente.
- Me sinto mais segura com o grupo reunido. – Celine respondeu olhando pela janela para a mancha negra que era a paisagem.
- Mas você trouxe seus próprios meios de se defender, estou certa? – Dessa vez Ruby olhou para Celine por um segundo.
                A garota virou-se para a amiga e seus olhos se encontraram. Celina havia contado a Ruby sobre a arma que ainda tinha, algumas noites após a morte de Black. Ruby a aconselhara a esconder a arma. Celine se surpreendeu ao notar que Ruby ainda se lembrava daquilo, e mais ainda por que ela estava certa.
- Sim! Eu trouxe. – Comentou, enquanto verificava se Kelly estava realmente dormindo no banco de trás.
- Eu não sou a favor dessas coisas, mas uma garota tem que se defender. Eu mesma trouxe meu bastão de baseball e meu soco inglês. – Explicou.
- Espero que não tenhamos que os usar. – Comentou Celine.
- Até por que eles seriam ineficazes contra fantasmas! – Ruby gargalhou com o próprio sarcasmo.
- Esses fantasmas me parecem bem reais, sabia? Talvez se fossem apenas fantasmas uma oração seria o bastante, mas, contra coisas reais, é bem mais complicado. – Disse Celine.
- O que é aquilo na estrada? – Ruby apertava os olhos tentando enxergar algo à sua frente.
                Celine seguiu o olhar de Ruby e viu que havia algo parado à frente delas. Ruby desacelerou enquanto observava aquilo. Uma forma escura, semelhante a uma nuvem negra bruxuleava e tremulava no ar, a poucos centímetros do chão. O formato era semelhante a um vórtice, girando no sentido horário. Era como um redemoinho de fumaça negra, no começo, mas logo começou a mudar. A fumaça caiu no chão em dois pilares, que foram se erguendo e se completando, até que formaram duas pernas, e aos poucos um corpo humano foi feito da fumaça.
                Ruby parou. Ela acendeu o farol alto enquanto Celine chamava por Kelly no banco de trás. A garota despertou com o susto, sentando-se no banco e olhando ao redor. Ela encontrou a figura bem a tempo de vê-la terminar de se transformar. Agora, um homem muito alto estava parado a alguns metros do carro, bem no meio da estrada. Sua cabeça estava baixa e seus braços largados ao lado do corpo.
                Ruby buzinou para ele. Ela abriu um pouco a janela do carro.
- Se não sair da minha frente eu vou passar por cima de você, idiota! – Gritou.
- Ruby!! Você não acabou de ver o que aconteceu? – Indagou Celine, incrédula.
- Nós devíamos dar a ré e fugir daqui! – Sugeriu Kelly, ofegando.
- Coisa nenhuma. Não vou me assustar por isso. – Ela voltou a buzinar – Último aviso!! – Berrou.
                O homem se mexeu, abrindo os braços e erguendo a cabeça. Ele não tinha face. Seu rosto não tinha nariz, boca ou olhos. Suas mãos brilharam levemente em um tom púrpura e um zunido se iniciou.
- Ruby, vamos sair daqui, agora!! – Berrou Celine – Ele está fazendo alguma coisa, olha as mãos dele.
                Ruby engatou a ré e pisou no acelerador. Com velocidade, ela retornou alguns metros até estar a uma boa distância. Então engatou a primeira e acelerou.
- Se segurem, vamos bater nesse desgraçado! – Passou para a segunda e para a terceira.
- Ruby, não! – Kelly tentava prender o cinto de segurança.
                Um dos postes da estrada começou a tremer e ameaçou cair. Ruby calculou rapidamente sua chance e continuou na velocidade que estava, passando pelo poste segundos antes dele cair. O próximo poste começou a cair e Ruby já estava preparada. Ela acelerou ainda mais, passando por ele quase tarde demais. Atrás delas o ruído do concreto quebrando era alto. Enfim chegavam perto daquele ser sem rosto, era a vez dele de pagar.
                O homem virou ambas as mãos na direção de Ruby, como se planejasse absorver o impacto com elas. Ele dobrou um pouco os joelhos e se preparou. Ruby manteve a velocidade, se aproximando cada vez mais. Segundos antes de atingir o inimigo, ela virou o carro, de forma a desviar dele pela direita, passando a centímetros de distância do inimigo. A garota não diminuiu, prosseguindo a 100 km por hora pela estrada escura e inundada.
- Ele está correndo atrás de nós!! – Anunciou Kelly.
- Maldito! – Berrou Ruby – Celine, livre-se dele! – Ordenou.
- Não posso! Não acertaria com a chuva e nessa velocidade.
- Que inferno! E agora, o que vamos fazer?

Continua...

                

O tempo é caprichoso. Me parece que tudo tem um tempo certo, um tempo próprio, um tempo outro que não o que é conhecido ou esperado. Me parece que, além de dar o melhor de si, não há muito pelo que correr, não há razão para perseguir o que quer que seja; o tempo é caprichado, desenhado, feito para acontecer da melhor forma possível. Afora as vezes em que somos ludibriados, ou que ludibriamos a nós mesmos, tudo tem tempo certo para acontecer. Paciência.

Tanto discorro sobre o tempo porque sou apressada, mas tenho percebido que a pressa só me prende. Este ano muito li sobre tempo e, de alguma forma, certo tanto aprendi. Não sem razão, com carinho, separei os dez livros que mais me disseram, que mais conversaram comigo esse ano. Nove deles foram publicados em anos anteriores, mas acabaram me ensinando exatamente por isso, por serem atemporais. Afinal, não temos sempre que ser uma novidade, certo? 

1- Um sopro de vida - Clarice Lispector
Eu poderia escrever livros sobre o quanto Lispector conversa comigo através de seus escritos e, ainda assim, jamais conseguiria descrever a força com a qual este livro me alcançou. É uma narrativa construída em torno da construção da escrita: escritor e personagem falam. A autora construiu um personagem escritor que, além de falar em terceira pessoa sobre sua personagem fictícia, dá espaço para que a personagem fale de si mesma. Existe uma grande metáfora sobre criação, criador e criatura - além de ser um livro para a vida, recomendo fortemente para quem gosta de escrever. 

2- As meninas - Lygia Fagundes Telles
Posso dizer sem medo e sem vergonha que antes de ler os livros da autora, eu ainda não havia compreendido a infinidade de possibilidades literárias; ainda não havia compreendido como uma obra literária pode ser, ao mesmo tempo, uma obra sociológica e política. Em, "As Meninas", Telles monta, através de narrativas cruzadas de três moças jovens comuns, um retrato político da resistência contra o regime militar no Brasil. É um livro, ao mesmo tempo, sensível, forte e crítico. 

3- Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur
Quando comecei a tomar gosto pela leitura, lá com meus 10 anos de idade, lembro que gostava muito de ler poemas; ainda que não os compreendesse muito bem, passava horas lendo os mesmos poemas. Entretanto, quando me perguntavam sobre poetas, eu sempre mencionava Cecília Meireles e Mário de Andrade; até agora. Há um tempo tenho visto frases soltas e isoladas do livro "Outros Jeitos de usar a boca" (em inglês, "Milk and honey") da poeta Rupi Kaur, mas somente em julho deste ano (por ter recebido de presente de aniversário) pude ler o livro completo. Há muito o que discutir e refletir na obra de Kaur, mas já adianto que recomendo fortemente o livro. A leitura muito me encaminhou em um auto descobrimento de minha feminilidade e na descoberta do amor próprio - apesar de não ser um livro de auto-ajuda. 


4- The bluest eye - Toni Morrison
Aqui, novamente, retomo a reflexão sobre o tempo: um livro publicado em 1970 e que, só agora, o descobri. Na verdade, só descobri essa escritora esplendorosa que é Toni Morrison este ano. Um livro extremamente sensível e, ouso dizer, necessário; traz assuntos essenciais, dos quais aqui destaco o racismo. 

"eu foquei, então, em como uma coisa tão grotesca quanto a demonização de uma raça inteira poderia fazer raízes no interior do membro mais delicado da sociedade: uma criança."


5- Northanger Abbey - Jane Austen
Alguns diriam que sou tendenciosa ao falar de Jane Austen, pois tenho um apreço genuíno pelas obras da autora. Entretanto, apenas este ano pude completar todas as minhas leituras dos romances de Austen, sendo, então, o último deles "A abadia de Northanger". Neste livro, de forma mais intensa que nos lidos anteriormente, a ironia e o senso crítico social da autora se fazem presentes. A trajetória da heroína é muito bem traçada e, tratando-se de uma moça pobre que, enfim, tem a oportunidade de conhecer a sociedade, é uma narrativa muito divertida. 

"Mas quando uma moça jovem tem que ser uma heroína, a perversidade de quarenta famílias ao seu redor, não pode impedí-la. Algo há de acontecer para colocar um herói no caminho dela."


6- Crime e Castigo - Dostoiévski
Apesar de se tratar de um clássico, publicado em 1866, também só tive acesso a esse livro este ano. E que sorte a minha! A graça e sagacidade com que escreve Dostoiévski se abrilhantam nesta narrativa de forma que, apesar de ser um livro extenso, em momento algum chega a ser cansativo. Sem querer estragar a surpresa dos possíveis leitores, me contento em dizer que, além de ser um livro excelente para distração, é uma reflexão e crítica social atemporal.
 

7- Gente Pobre  - Dostoiévski
O primeiro livro escrito pelo autor, nada perde em qualidade para Crime e Castigo. Para quem não gosta de ler livros muito extensos, essa é minha recomendação. É um livro interessantíssimo, curto e todo escrito em cartas - a narrativa é expressa através da troca de cartas entre os personagens principais. 

8- Sombras de reis barbudos - José J. Veiga
Esse vai especialmente para quem gosta de distopias. Além de ser um livro curto, gostoso de ler e divertido, ainda é uma super crítica social expressa através da narrativa contada por um menino. Apesar de, assim como Lygia Fagundes Telles, Veiga ter escrito em meados do período ditatorial brasileiro, o livro é atemporal. 


9 - Veracidade - Isabella de Andrade
Curto, um sopro, um suspiro. Um dos livros mais sensíveis e sensoriais que já tive o prazer de ler. Caso queira mais detalhes, eu já fiz resenha dele aqui no blog, neste LINK

10- Trem bala - Martha Medeiros
Do ano passado para cá, tenho lido bastante Martha Medeiros e, até então, achei que ela fosse uma excelente cronista, isso porque eu não a tinha lido como romancista. É um romance sobre perda, sobre finais e recomeços. Me doeu ler, mas aprendi um bocado. 

E aí, bora ler?

Com amor, 
Ane Karoline




imagem: pinterest

A gente tem tanto medo de estar devendo, tanto medo de ser cobrado pelo que fez e deixou de fazer, que quando, finalmente, decide fazer alguma coisa entra em colapso e começa a se enfiar em problema. Isso é teoria minha, não tem base científica, ela iria adorar. Formulei isso enquanto conferia pela vigésima vez no GPS o caminho que deveria tomar e vi um cara com uma lanterna sinalizando para o acostamento. Não um cara qualquer com uma lanterna qualquer, era um policial na verdade. Porra. Habilitação vencida. Antes de abrir o porta luvas, lembrei que pedi o Júnior para limpar o carro e ele tirou os documentos de lá. Porra. Fui parando, desesperado, nem desliguei o GPS e só me lembrei dele quando ouvi “recalculando rota”. Abaixando o vidro, olhei para as minhas bermudas sujas de molho do sanduíche e me lembrei da última mensagem de ano novo dela “Que você tenha o melhor ano da sua vida, mesmo que você seja um mentiroso”. Certo.

- Boa noite. - fui logo tentando agilizar o processo com o meio metro de policial que me abordava.
- Vamos descobrir agora, ligue a luz interna, por favor. Documentação em mãos.
- Esqueci em casa.
- Onde é que o senhor mora e aonde está indo a essa hora?
- Eu moro duas quadras para trás, vim comprar um sanduíche. – apontei para as bermudas sujas de molho – vim de pijama mesmo, acabei até me sujando.
- E porque o senhor pegou essa via? - Ele me olhou desconfiado. Mentiroso filho da puta, ele deveria estar pensando. Era o mesmo jeito que ela me olhava quando me questionava sobre nós, parece que me lia: mentiroso. Minto. Se for para me salvar, minto. Minto até se for para evitar a fadiga, como era com ela.
- Eu ia pegar o próximo retorno, é mais iluminado e ali embaixo está um fumaceiro desgraçado.
- Desce do carro, por favor. – ele se afastou da porta para que eu a abrisse e se alongou olhando ao redor preguiçosamente. Quando desci, tirei o celular do suporte que ficava acoplado ao duto do ar para que, por via das dúvidas, ele não visse o GPS. Ele deu uma boa olhada no carro, perguntou sobre porte de armas e me deixou ir. Se foi sorte ou azar é que eu não sei. Não sei o que eu fui procurar quando saí de casa, não sei o que eu estava procurando quando fui falar com ela pela primeira vez, mas amaldiçoo as duas vezes: continuei sem encontrar.

Depois de demorar vinte e três minutos dirigindo na velocidade da via, estacionei porcamente na garagem de casa, dei uma checada no celular e vi que o Maurício estava online, mandei uma mensagem convidando para jogar em casa na sexta, para testar. Ele respondeu rápido e eu acabei contando por alto o que tinha acontecido, longos minutos de espera se passaram antes que ele respondesse “liga para ela” e eu liguei. Liguei no impulso, coisa que não era muito minha, ela que era toda impulsiva, toda cheia das maluquices de quem não pode esperar, não pode ponderar e age de forma passional. Três toques. A voz dela era sonolenta, grogue “alô?”. Eu não disse nada, desliguei e disse para o Maurício que não liguei, que a ideia era ridícula. Madrugada de um domingo para segunda, imagina só se eu iria ligar para ela, e se o tal vendedor de seguros atendesse? Certo, ela não costumava ser do tipo que levava um cara para dormir na casa dela, mas e se agora ela fosse? Como é que eu tinha chegado a esse ponto, não sei; tão pouco saberia dizer se era adrenalina, sono ou as cervejas que havia tomado na tarde do domingo. Tudo que sabia era que o tal vendedor de seguros não atendeu o telefone dela e não ligou de volta perguntando quem era; havia uma chance de eles não estarem dormindo juntos e, de repente, isso me pareceu vital: descobrir se ela estaria dormindo com ele, descobrir se ela pintava quadros dele nu com aquele rosto roliço dele, descobrir se eles dividiam a cama e sabe-se lá o quê mais dividiam.

A coisa de pedir conselho para o Maurício era essa: ele não tem paciência e te joga logo no meio do caos. Me mandou procurá-la e, mesmo sem admitir isso para ele, eu fui sem hesitar; como se só precisasse de um cachorro de rua para me olhar como confirmação. Na hora não deu nada, ela dormiu, mas e depois? E se ela ligasse de volta? Eu ia ter que mentir de novo, que diferença isso faria à essa altura? Demorei vinte minutos, ainda dentro do carro, sujo e com frio feito um vagabundo, para conseguir decidir que, caso ela ligasse, eu diria que liguei sem querer, que esbarrei no celular, aliás, que o celular estava no bolso, eu, no bar, esbarrei no celular e nem percebi. No minuto seguinte, decidi como descobriria se estavam juntos ou não; era só isso, prometi para mim mesmo, só descobriria e depois a mandaria para o quinto dos infernos de onde ela nunca deveria ter saído.
Caminhando para dentro de casa, procurei novamente o perfil do vendedor de seguros, encontrei o telefone, abri o aplicativo de mensagens e digitei o que eu achei que seria o atestado de óbito dela dentro de mim “Tenho interesse em fazer um seguro. Podemos nos encontrar amanhã?”

Ane Karoline