Título: A Incendiária

Autor: Stephen King
Editora: Suma
Ano de publicação: 2018
Páginas: 448
Nota: 4/5

Andy McGee e Vicky Tomlinson eram dois universitários comuns, que viviam de forma pacata e só queriam se formar. Tudo muda quando ambos aceitam participar de um experimento controlado no departamento de psicologia (eles ofereciam 200 dólares aos voluntários, e quem é ou já foi universitário sabe que dinheiro é algo que sempre falta no bolso). O Dr. Wanless, chefe do experimento, garantiu que não haveria efeitos colaterais graves e que todos poderiam ficar tranquilos, porém muita coisa saiu do controle... O teste em si tratava da administração de uma substância chamada "Lote Seis", que era nada mais do que um programa do serviço de inteligência dos Estados Unidos, gerenciado por um órgão chamado Oficina, para desenvolver habilidades psiônicas, como telepatia, dominação mental, entre outras paranormalidades.

Felizmente, Andy e Vicky não apresentaram nenhum comportamento drástico, mas viram outros voluntários enlouquecerem e até mesmo arrancarem os próprios olhos. Apesar de todo esse cenário gore, os dois acabaram se aproximando e se apaixonando, o que levou a um casamento e a formação de uma nova família. E foi aí que os problemas deles começaram.

Vicky acabou desenvolvendo uma telecinese fraca, em que fazia portas se fecharem ou luzes piscarem quando ficava agitada, já Andy percebeu que conseguia exercer domínio sobre a mente das pessoas, obrigando-as a fazer aquilo que ele desejava, mas seu 'poder' também não era espalhafatoso e acabou passando despercebido pela Oficina. No entanto, não deu pra esconder as coisas estranhas que aconteciam na casa da família McGee quando nasceu Charlie, filha de Andy e Vicky, que demonstrou possuir um poder muito mais impressionante e destrutivo que o de seus pais: a menina criava fogo a partir da própria mente. Quando ela sentia cólica, quando estava com fome, quando chorava... Qualquer alteração de humor que Charlie sofria era marcada pela incineração de alguma coisa dentro de casa. Isso deixou os seus pais em pânico e despertou o interesse da Oficina, que percebeu que a filha do casal havia herdado os genes modificados pelo experimento a qual seus pais haviam sido expostos.

Com a possibilidade de usar o poder de Charlie nas guerras em que os EUA estavam envolvidos, a Oficina inicia uma caçada para capturar a garota e descobrir o potencial de seu poder. A partir daí, a vida dos McGee se torna um inferno. Fugindo das emboscadas que os agentes da Oficina criam a todo instante, Charlie se vê obrigada a usar o poder para salvar a vida da família, e isso pode desencadear uma série de desastres que nem a própria menina aparenta conseguir controlar. 

Com críticas pesadas aos métodos desumanos que os governos usam para alcançar seus objetivos, A Incendiária cria uma trama de ficção interessantíssima para tratar sobre questões como o abuso de poder do estado, a falta de respeito pelos cidadãos, a política de que "o fim justifica os meios" e todas as atrocidades que sabemos que são cometidas pelos governantes com a desculpa de que são pelo bem comum.

Stephen King nos conta uma história forte, com seu característico dom de prender a atenção do leitor da primeira a última página. Esse clássico dos anos 80 sem dúvida é um dos grandes trabalhos de King, que sempre sai de sua zona de conforto e escreve sobre variados temas. A editora Suma, através da coleção Biblioteca Stephen King, fez um ótimo trabalho ao relançar essa obra com nova tradução e com uma edição espetacular. Recomendadíssimo!

P.S. Também não posso deixar de agradecer pela cortesia da Editora Suma, que disponibilizou o livro para que lêssemos assim que foi lançado e pudéssemos escrever essa resenha. Obrigado!



Era uma vez eu, eu estive convicta de que estava evitando falar sobre como me sinto e sobre todas as atrocidades as quais vejo acontecer. Acontece que até mesmo nessa historinha inventada, eu estava errada: não estava evitando falando sobre isso, estava sendo, sutilmente, silenciada. Mesmo hoje, certa, segura de minhas crenças e minhas lutas, me vejo ainda pisando em ovos, me desculpando desnecessariamente e evitando falar sobre um assunto ou outro porque sei que a resposta vem; e a resposta é violenta, e a resposta tem uma voz mais grossa que a minha, apesar de não ter razão alguma. A resposta que eu recebo é sempre tão irracional que me fez, e ainda faz, cair na pior armadilha de todas: será que estou exagerando? Bom, vamos aos fatos, para citar uma mulher, me valho de uma frase de Ellen Oléria "todo mundo conhece essa história? Pois bem, ela é mais ou menos assim":

Me parece que eu nasci incomodada, porque não sei dizer quando começou, mas tinha sempre uma pulguinha ali que me fazia parecer brava. Quieta, mas brava - aliás, eu sempre me vi brava, os outros me viam estressada. Um menino de nome Moisés jogou minha prova de matemática embaixo do filtro de água da sala de aula e, quando eu revidei, me disseram que eu era uma criança muito estressada; afinal, ele gostava de mim, achava meu cabelo lindo, por isso, havia destruído minha prova de matemática - não passou pela cabeça de nenhum adulto sorridente que eu havia conseguido uma nota muito melhor que o Moisés. Houveram muitos Moisés em todas as etapas da minha vida, alguns mais agressivos, alguns mais manipuladores, alguns mais cínicos, alguns doutores, alguns linguistas, alguns publicitários e alguns engenheiros; todos eles me diminuindo, todos eles me colocando em dúvida, todos eles me envergonhando e me sacaneando de formas diferentes. Todos eles, por fim, me intitularam de muito, muito estressada, irritadíssima. E eu ficava ali, com oito, com dez, com doze, com quinze, com vinte anos, boquiaberta, gaguejando, tremendo por dentro, querendo explicar racionalmente todos os motivos pelos quais eu deveria mesmo estar brava; mas nunca consegui explicar, calava a boca. 

Daí, veio o adesivo de carro com a Dilma de pernas abertas que todo brasileiro deve conhecer: o rosto da presidente unido a um par de pernas bem abertas, deixando um espaço no meio, onde o bico da bomba de gasolina seria inserido. Com o adesivo, vieram os insultos de baixo calão, todos eles referentes à feminilidade ou à sexualidade da presidente; não se preocuparam em atacar seu governo com qualquer racionalidade, atacaram-na, sobretudo, como mulher. Eu ali, sentada no banco do passageiro de um carro dirigido por um homem, comecei a me sentir enjoada, enojada dentro daquele posto de gasolina; me senti violentada e, novamente, não disse nada porque, se dissesse, estaria exagerando. Afinal, qual o problema de desmoralizar (mais uma vez) uma mulher usando o corpo dela como público? O corpo feminino não é público?

Não resolveu, mesmo que meu medo de ser considerada histérica tenha me calado, eu continuei sendo vista como histérica; uma histeria emburrada. Ao invés de ser bonitinha e ordinária, virei a bonitinha, mas histérica. Fala demais. Para quê esse tom mesmo? Se for para falar alto, que seja gemendo, oras. Ou para ser líder de torcida, né? Uma boquinha tão bonita, mas fala demais. 

Não teve jeito, aconteceu foi que de passo em passo, caminhei para a histeria completa quando comecei a acompanhar o trabalho da deputada Manuela D'ávila. Tive que garimpar muito antes de conseguir chegar nela, antes disso, me deparei com um cerco de insultos sexuais ao redor dela. Novamente, pouquíssimos se dispunham a questionar as propostas e os posicionamentos políticos dela racionalmente, insultos e mais insultos. O corpo público dela se estendeu ao processo de maternidade e à Laura (filha dela): todo mundo opinou. Sobre política, nada. 

Demorou, mas consegui. Caminhei de volta para a racionalidade, juntei dois mais dois, quando a situação ilustrativa foi o Michel Temer. O preço da gasolina nas alturas e o máximo que se ouve sobre ele é: corrupto. Nada de adesivos, nada de piada, quando tem insulto, é direcionado à mãe dele. Não vejo, de forma alguma, insultos e zombarias com bons olhos; mas foi só então que percebi como a imagem de um homem, ainda que corrupto, é imaculada. O corpo dele é sacro, do qual ninguém fala, no qual ninguém toca,  sobre o qual ninguém opina. Só política dele é criticada, ele é visto como um profissional - como as mulheres também deveriam ser. 

Aí, eu vi: meus argumentos sempre foram plausíveis, mas não adianta apresentar respostas racionais para pessoas que não me consideram um ser racional, no máximo, inteligente, mas muito emotiva - se for no vigésimo oitavo dia do mês então, né? A ficha foi caindo pedacinho por pedacinho: por mais que eu tenha dez anos no estudo de uma língua, insistem em ouvir a voz do vizinho que conhece inglês só a partir de video-games; por mais que eu passe noites (de bom grado, por sinal) lendo, relendo, procurando acervos, fazendo pesquisas e cursos sobre política, rebatem todas as minhas colocações e aplaudem ao primo que repete discurso de facebook. Mas, agora, isso não me deixa mais com medo; não me deixa mais histérica; me mostra, ao contrário, que devo me colocar mais, falar mais, gritar mais alto, rasgar todos os adesivos de mulheres com pernas abertas. Se tenho que me colocar com mais força, se tenho que estudar duas, três, quatro vezes mais que um homem qualquer para poder ser ouvida, o farei. E, a partir de agora, o próximo que me perguntar " mas você está estressada?" vai saber que o que não me faltam são motivos para estar estressada e que, com maestria, posso enumerá-los, fazer um gráfico deles, escrever um artigo em três línguas diferentes ou, para os mais limitados, desenhar. Quem sabe assim fica mais claro?


Ane Karoline

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Verão

O fundo da minha garganta em brasas, meus olhos vermelhos, cada gota que escorre pelo meu rosto é tão quente que me queima. Me ardo toda em cólera. Duas e dezessete da manhã marca meu relógio digital de pulso. Me livrei de todos os relógios de ponteiro porque eu estava certa de que eram eles que me atormentavam o juízo com aquele tique-taque todo. Logo eu, a criança prodígio que se orgulhava de usar relógio analógico aos oito anos de idade, fui me livrar de todos os meus relógios de ponteiro porque estava ruim da cabeça e precisava de algo, algo que não fosse o verdadeiro culpado, para culpar pelas minhas neuroses crescentes. Às duas e dezoito percebo que estou tremendo. Literalmente. Meu corpo inteiro treme, o café chacoalha dentro da xícara e eu olho para aquele pequeno mar negro redondinho trêmulo, solto, líquido, como eu. Há muito tempo não sou mais matéria física inteira e palpável; me derreti, me diluí.  

Outono

Eu mesma me pareço tão árida, estéril, que já não sei se tremo de medo, dor ou de frio. Meu cabelo molhado, pingando, ensopando a camiseta fina de algodão, me lembra que ainda existe fisicalidade em mim e que posso sentir frio; pelo menos, penso, os problemas físicos são mais fáceis de resolver. Se tivesse cortado o cabelo, como combinei comigo que faria, não estaria com tanto frio; mas deixei de cumprir as promessas que me faço, meu maior problema foi ter perdido a fidelidade comigo mesma: me cobro muito e me cumpro pouco. Me deixei passar frio por mais alguns minutos para não ter que enfrentar o tremor interno, o tremor do oco, do vazio que existe dentro de mim – o qual venho evitando enfrentar há tanto tempo. 
Duas e vinte e um, ao trocar a camiseta molhada, eu me olho bem, olho o corpo que abriga a minha alma e vejo que é mesmo um corpo que parece frágil, um corpo comum, nada excepcional. Não sei quando foi que enfiei isso de querer ser excepcional na cabeça, um corpo frágil, sim, mas é um corpo bom, abriga minha alma, deveria ser tratado com mais carinho. Duas e vinte e dois, duas vezes a minha idade, agora agasalhada e sem o tremor de frio, me ouço e percebo que estou realmente vazia, oca, parece que dividi tudo que sou em pedacinhos e dei às pessoas para que elas completassem sua incompletude. Deixei o que restou da minha alma habitando o vazio, esse último e único pedacinho, necessário para que eu exista, está persistindo isolado à vácuo; só ele só. Se eu gritar agora, vou receber o eco de volta, ninguém vai ouvir. Quando eu era uma criança prodígio, eu gritava dentro do guarda-roupas e ficava sentindo a leveza das ondas sonoras que voltavam no eco; cientista, sempre fui. Exceto de uns tempos para cá, nesses últimos tempos tenho me traído muito; me sacaneei tanto que não sei se vou me perdoar. 

Inverno

É silêncio lá fora, mas a ventania dentro da minha cabeça está sacudindo minha massa cefálica, me tirando o juízo. Agora sei que não são os relógios de ponteiro porque eu dei um fim em todos, eu me livrei de tudo que fazia barulho na minha cabeça, eu queria o silêncio total – antes de saber que ele dói tanto, que ele é gélido como o vento frio no dia quatro de julho no Brasil. 
Decido que não vou mais olhar as horas e, já que haverei de ficar acordada mais uma vez, haverei de enfrentar esse tremor que existe dentro de mim e que, agora, não é mais frio, é medo. Eu tenho tanto medo de ter estado errada esse tempo todo. Ter estado é um tempo perfeito que nem, sequer, existe na minha língua materna. Não é possível que eu tenha aprendido tantos idiomas para me olhar agora e me achar tão pequena, não é possível que eu have been wrong esse tempo imenso da minha vida.  Meu plano era muito claro, muito simples, muito nítido e prático; no final, tudo daria certo e eu, à essa altura, estaria sorrindo feliz pensando em, quem sabe, ter filhos em alguns anos; publicando dois livros por ano e ajudando todas aquelas crianças descalças que entregam papelzinho no ônibus. Eu achei mesmo que era uma coisa passageira o sofrimento do mundo e que, à essa altura, eu teria dado um jeito naquela menininha descalça que tinha as solas dos pés calejadas; achei que havia algo de excepcional em ser essa alma líquida, ainda que dentro desse corpo esquálido, nada excepcional. Minha mente fica ecoando as palavras que li: não existe nada de excepcional em nós. Não é possível que já passem das três horas e eu esteja, ainda que agasalhada e sob um teto, tremendo pura e simplesmente por ter me descoberto irrisória. Pode parecer irrelevante, me disseram, e não parece: é. Existiu sempre essa voz na minha cabeça, tirando meu juízo para me alertar da minha insignificância e eu fui abafando o som, me enchendo de um monte de sons alheios; se alguém quisesse me contar um problema, olha eu ali, a problem solver dos outros para evitar os meus. A voz aqui o tempo todo, dentro da minha cabeça, me dizendo que tinha alguma coisa me tirando o juízo, que era melhor eu parar para pensar. Parar para pensar. To stop. Pare. Reprovei duas vezes no teste de direção por excesso de velocidade. Está claro que não parei, não parei para pensar porque eu não quis pensar, eu não quis ver o que eu veria se eu parasse para pensar como parei agora. Eu não queria ver esse cenário desastroso e, finalmente, acreditar que as pessoas são egoístas. Não, eu insistia com alguém em um debate na aula de filosofia: o homem não é naturalmente mau. Não, eu quis gritar na cara de todo mundo quando aquele homem roubou um quilo de carne moída no supermercado, ele não é um perigo. Eu quis gritar e não gritei, não gritei porque eu não grito. Ninguém nunca me viu gritar e é por isso que eu estou me tremendo agora. Na aula de teatro a professora disse: gritem. Eu fiquei olhando todo mundo gritar, todo mundo vivo e eu, morta, congelada, fiquei com a boca aberta com o grito preso em algum lugar dentro de mim, sem gritar. Achei que a minha excepcionalidade era essa: não gritar. Mas não existe nada de especial em falar baixo, eu falo baixo e ninguém me houve. Nem aqui, passando a madrugada em claro, com um cabelo molhado sem pentear, me tremendo de ressentimento, se me aparecesse alguém e dissesse: grite. Ainda assim, eu sei que não gritaria porque minha natureza é ser contida. Contenho, contenho, até me explodir. E agora, à essa altura, não tenho mais mesmo o que gritar; não existe nada dentro de mim para ser gritado, levaram tudo. Agora há pouco,  ainda me acusaram de insipidez: tem algum problema físico com você, ouvi. Tem. Tenho o problema físico de estar, milagrosamente, de pé depois de ter me doado tanto. Achei que havia algo de heróico nisso de se doar e, principalmente, de acreditar. Acordei todos os dias até hoje crente, acreditando nas pessoas, acreditando em alguma coisa.  Até que acreditei tanto, mas tanto, que deixei de acreditar em mim. Não é possível que eu tenha acreditado até aqui para cair nessa versão ridícula de decadência burguesa pálida e triste. Não é possível que tenham me usado tanto, me atormentado o juízo a ponto de me fazer virar niilista; ou é? Como é, me pergunto, que deixei me jogarem no fundo do poço. Parando para pensar agora, que é tarde mas não é nunca, percebo que já não tremo mais, se era medo, frio ou dor, não sei. Fecho os olhos e conto: um dois, três, até vinte e três. Lá dentro, sinto uma pontada última quando penso, involuntariamente, no rosto que não queria ver. Deixei que a onda de dor reverberasse no meu corpo com força. Tem um poema que diz: para curar, beije a dor até a raiz; foi o que eu fiz: doeu, doeu, doeu até não doer mais. 

Primavera

Abro os olhos, olho para o café frio pensando em quantas pessoas iniciei nesse hábito de tomar café. O silêncio cortante me disse que o que me tirava o juízo era o medo; o medo de estar errada sobre todas as minhas crenças infantis criadas a partir de filmes da Disney, nos quais não havia crianças descalças, genocídio e, muito menos, relacionamento abusivo. O café me olha de volta e, se mexendo com minha movimentação, parecia me aplaudir quando, finalmente, eu entendi. Abusivo, que resulta de uma situação injusta, incorreta; impróprio, diz o dicionário. Ah, meu santo dos juízos perdidos, então é assim que acontece; a gente não vê. Então é assim, tira o nosso juízo, suga tudo que a gente tem e, ao ir embora, nos culpa dizendo que não somos excepcionais. Olhando minhas mãos que, agora, sem um referencial maior não parecem tão minúsculas, quase pude ver as chagas por ter segurado a barra por tanto tempo. Então é assim, pensei de novo, que mesmo tendo lido tanto sobre um assunto, a gente cai na armadilha. Pensei que eu jamais cairia, e estava errada. Estava errada, mas não como achei que estivesse. Eu estava errada por todo esse tempo porque achei que alguém que nem, sequer, consegue perceber minha excepcionalidade fosse capaz de me amar. Estive errada esse tempo todo em me subjugar, me sujeitar a gastar tantas horas e tantas palavras para tentar entender uma relação que nunca fora nada além de uso. Tive que gastar mais essas mil e seiscentas palavras para entender que entrar e sair da vida de alguém, quando bem convém, é abuso.

Ane Karoline

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Meu bem, não se assuste com minha mania de nudez, eu não gosto de disfarces; para mim, as coisas devem estar sempre tão nuas quanto for possível. Tudo em panos limpos e bem expostos: alma, sentimentos e verdades. É por isso que me desnudo para ti e te revelo coisas que requerem tanta intimidade: não quero que a gente se desgaste tanto para realizar nossas recíprocas vontades. Por isso, repito, sente-se, acalma-se; não chego nesse rompante por querer atordoar-lhe, longe de mim querer roubar a tua paz - eu luto muito para manter a minha própria, imagine se haveria vontade para perturbar a tua.

Apesar de todo o meu exposto deleite em te ter, não quero amarrar você, não posso garantir que ficarei aqui, e nem isso espero de ti. Não estou, e suspeito que nunca estarei, totalmente entregue nem a ti e nem a ninguém; só sou capaz de me entregar por completo a mim. Portanto, não se escandalize ao saber que te amo; não é por exagero, maldade, loucura ou carecimento de coisa alguma que revelo, sem pudor, amar você. Talvez você não tenha me ouvido dizer ainda, mas deve ter notado que te amo pela forma como respiro em sossego perto de ti; deve ter notado que te amo por ter minhas mãos sempre ao alcance das tuas e, sobretudo, deve ter percebido como é fácil para mim estar com você. Não é fácil para mim deixar que as pessoas me acompanhem, me desnudar e conversar sobre meus anseios e receios, mas contigo é. É por isso que sei que te amo e, também, sei que isso assusta você. Pois bem, não se deixe alvoroçar por isso, meu amor é calmaria.

Contudo, e exatamente, por amar você com calmaria é que não me mascaro. A gente vai chegando em uma idade, ou melhor, em uma fase da vida (já que idade não vem com um rótulo de estado de espírito) que se cansa de gente difícil. A graça que pode ter, um dia, existido no mistério de gente que some, gente que tem gosto por complicação, acaba. Pode anotar aí: o fetiche, o desejo latente e o interesse por gente desinteressada, se esvaem. Depois de um tempo, a gente começa a desviar de quem gosta de sonegar sentimento e quando, por acidente, esbarra em alguém assim, procura logo outro rumo.

É assim que te digo que não tenho intenção alguma de tomar o teu espaço, entrar na tua vida com força e roubar a tua paz - nem nada disso quero de ti. O que acontece aqui, na verdade, é que não me atrai em nada criar complicações, mon miel. Se tivermos de jogar, que seja no mesmo time, um jogo que seja aprazível para ambos. Fato é, tesoro mio, que estamos, diariamente, nos acabando, a vida que nos foi dada é finita e, à essa altura, não mais tão longa quando nos era há cinco anos atrás; portanto, por que haveríamos nós de gastar o tempo que temos com complicações desnecessárias? Deixe de se escandalizar com meu desnudamento e traga tuas vontades também à tona; sei bem que há muito aí dentro de ti para evidenciar.

 Ane Karoline



Quem é fruto da periferia tem sempre a cabeça muito cheia. Não é uma escolha: a pessoa nasce e vai crescendo, vai crescendo, vai se fazendo gente e percebendo que a vida de quem nasceu ali é mais difícil que a vida de uns outros tantos. É correndo de bala perdida, ou carregando um fuzil no ombro que, ali por volta dos doze, treze anos, o filho da favela percebe que a vida é selvagem: matar ou morrer. É vendendo o almoço para comprar a janta e entregando panfleto de loja de calçado que a molecada aceita logo cedo o seu destino desgraçado. 

Os filhos da favela são muitos e estão por aí, aglomerados em qualquer ônibus velho; mesmo assim, não são representados: uma maioria esmagadora que vive sendo esmagada. Nem nos livros, nem nos filmes, nem nas telenovelas; ninguém parece querer retratar aqueles que mantém o país andando, ninguém parece achá-los dignos de representação - nem eles mesmos. QWN

Contrariando a maré, Geovani Martins escreve O Sol na Cabeça. O livro é um grito determinado a contar histórias de pessoas silenciadas através da re-humanização daqueles que são sempre marginalizados. Em seus contos, o autor traz à tona as condições de vida das pessoas que vivem nas periferias do Rio de Janeiro no Brasil, coloca sua escrita sobre a linha tênue que existe entre a realidade e a ficção abordando temas reais e atuais através de seus personagens fictícios - os quais, inclusive, representam muitas pessoas reais. 

Dentre os temas abordados no livro estão: o problema do tráfico de drogas nas comunidades, a criminalização de crianças, corrupção policial e intolerância religiosa. Martins coloca tudo de uma forma tão rasgada e natural que é um soco na boca do estômago do leitor ao se deparar com a realidade cruel tão nua - realidade essa que, sempre que possível, é posta de lado, é tida como normal. Citando o autor: "A gente se acostuma com cada bagulho sinistro, que pena é coisa que dá e passa".

De minha parte, só posso dizer que vejo o livro como um manifesto extremamente importante na literatura brasileira. Além disso, acrescento que é muito bem escrito e, sobretudo, que os contos são muito interessantes. Recomendo a leitura a todos e, em especial, a todos os brasileiros.

NOTA: 9,5/10

Ane Karoline


Título: Tartarugas até lá embaixo
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2017
Páginas: 256

Nota: 4/5


John Green é protagonista de um dos maiores fenômenos literários recentes: sua obra encontra cada vez mais espaço entre jovens e adultos que procuram por livros relevantes e que conversem com suas dores e questões íntimas. Autor do best-seller A culpa é das estrelas e outros três grandes sucessos editoriais, Green finalmente voltou à ativa com o seu mais novo livro, intitulado Tartarugas até lá embaixo. Título curioso, né? Mais curiosa ainda é a temática da obra: o transtorno obsessivo compulsivo (TOC). 

(Aqui eu preciso fazer uma pausa e dizer que, quando descobri o tema do livro, fiquei bastante animado. Sou portador de TOC desde os 7 anos de idade e sempre me entristeci ao ver como o transtorno quase sempre é abordado na mídia, de forma superficial e rasa, prestando um desserviço para quem luta por reconhecimento e melhores condições de vida para quem sofre com esse distúrbio ou qualquer outra desordem mental.)

A trama é narrada em primeira pessoa por Aza Holmes, uma adolescente de 16 anos que enfrenta problemas com o TOC desde quando se entende por gente. As suas obsessões são, em sua maioria, relacionadas ao medo de contrair bactérias e doenças virais que podem levar à morte. O seu círculo de convivência se resume a sua mãe e sua amiga Daisy, e é esta segunda que inicia uma jornada que mudará para sempre a vida de Aza.

Daisy convence a amiga a se juntar a ela em uma investigação sobre o sumiço do dono das empresas Pickett, o maior conglomerado empresarial da cidade, a qual desapareceu recentemente após se tornar alvo de uma investigação sobre corrupção. A polícia está oferecendo uma recompensa de 100 mil dólares para quem der pistas sobre o paradeiro do empresário e Daisy crê que, pelo fato de Aza ter tido uma pseudo-amizade na infância com o filho do magnata, elas podem se reaproximar da família Pickett e investigarem o caso, afinal não é todo dia que surge uma oportunidade de faturar essa grana toda.

O problema é que Davis, filho do bilionário e alvo principal dos planos de Daisy e Aza, se mostra muito mais humano e profundo do que as duas amigas imaginaram, o que cria espaço para o desenvolvimento de uma relação de amizade (ou até algo mais) e a resposta para as questões internas desses três adolescentes.

Perpassando toda a história, as obsessões e compulsões de Aza exprimem o sofrimento de quem enfrenta o TOC no dia a dia,  considerado pela OMS um dos dez transtornos mais debilitantes. John Green permite que mergulhemos na mente de um obsessivo-compulsivo e vivamos a espiral, metáfora usada por Aza para descrever o sentimento de impotência gerado pelos sucessivos pensamentos intrusivos que obrigam o portador a realizar compulsões no intuito de aliviar a sua mente agitada.

No geral, é um livro muito bom e necessário para os dias em que vivemos, onde os transtornos psíquicos viraram epidemia e o número de pessoas diagnosticadas dobra diariamente. Eu fico extremamente feliz por ver que um autor relevante como o John Green tenha entrado nessa luta pela saúde mental e espero que esse livro ajude muitas pessoas a reconhecerem os seus problemas e encontrarem forças para se manterem lutando por mais qualidade de vida.

Em um mundo doente, se manter são é um trabalho árduo, mas quando somos compreensivos e honestos com a nossa própria história, a luta se torna menos debilitante e passamos a contar com uma ajuda importantíssima: a nossa própria.

imagem: Ane Karoline

Ninguém me ensinou, ninguém sequer me avisou. Ninguém bateu em minha porta para me alertar, pegou em minha mão para me ensinar e, muito menos, me incentivar. Eu descobri por mim mesma, com livros nas mãos, o que ninguém quis me dizer: uma mulher também pode escrever.

Lembro com vividez o quão absorta eu ficava em minhas tardes aos dez anos de idade: buscava palavras que ligassem os hiatos, rimas, palavras que completassem as lacunas em meus poemas inventados. Escrevia pouco ou quase nada, mas inventava. Nasci inventiva com paixão pela rima, pela prosa e pela poesia - que, por sinal, me dizem mais da vida do que manuais prescritivos secamente escritos. Não fosse essa curiosidade latente, então, eu não teria descoberto; não teria me aberto para a escrivinhação.  Ainda que todos ao meu redor tivessem já, muito cedo, percebido meu anseio em criar  toda hora, nunca direcionaram a mim a palavra escritora. Escritora, inclusive, foi uma palavra que conheci muito, muito recentemente. Me apresentaram, e a isso eu sou grata, os grandes poetas um a um, mas, infelizmente, não me mostraram poetisa alguma. Aprendi, ao contrário, que poetisa é o feminino de poeta; poeta é quem escreve poesia; a poetisa é só uma derivação do verdadeiro criador. 

Mesmo eu tendo mantido diários bagunçados e escrito cartas confusas a todos aqueles com quem convivi em meus tenros anos, nunca me falaram sobre Clarice Lispector; meu professor de português do oitavo ano, quando o questionei sobre ela, me disse apenas que ela era uma escritora "confusa e muito emotiva". Seria melhor, segundo ele, ler algo mais concreto como Machado de Assis. Ele poderia ter me explicado que realismo e modernismo são duas escolas literárias diferentes ao invés de depreciar uma grande escritora - que, ali, estava sendo lida por uma mocinha de treze anos. Talvez eu o tenha assustado. Falo de Clarice mas poderia falar de Cecília Meireles, Adélia Prado e Cora Coralina. Falo de escritoras brasileiras para mostrar o quão fácil seria terem me apresentado tais mulheres de caneta afiada, mas poderia falar das precursoras, poderia falar de Jane Austen, de Emily Bronte, George Eliot e Virginia Woolf. 

Digo tudo isso, construo toda essa teia, para dizer que muito mais fácil, menos insegura e menos dolorosa teria sido minha jornada se tivessem me mostrado os fatos: existiram e existem mulheres extraordinárias e, muitas delas, na literatura. Quando descobri que mulheres podem lutar como Dandara, militar como Hipólita Jacinta, pensar como Nísia Floresta e escrever como Lygia Fagundes Telles, percebi que não estava só. Quando descobri Um teto todo seu, de Virginia Woolf, percebi que ser mulher não é ser o que esperam que sejamos, é ser o que, verdadeiramente, se é e, sobretudo, o que se quer ser: e eu quero ser escritora. 

Durante todo o mês de março, então, em busca de me tornar o que sou e, sobretudo, o que quero ser, me coloquei a ler livros  escritos por mulheres. Reli um e li cinco; seis livros extraordinários escritos, organizados e traduzidos por mulheres extraordinárias. Segue a lista e minha impressão sobre os mesmos. 

1. The Sun and Her Flowers - Rupi Kaur 
Página 143 - the sun and her flowers

   Ano passado (2017) falei em outro texto sobre o livro "Outros jeitos de usar a boca" (originalmente honey and milk) que é o primeiro livro da poetisa Rupi Kaur. The Sun and Her Flowers (traduzido no Brasil para O que o sol faz com as flores) é o segundo livro de poemas da escritora e, ainda mais intensamente que o primeiro, explora a sensibilidade e as obscuridades do universo feminino. Dessa vez, Kaur extrapola para temas de maior profundidade e consegue, em sua síntese, criar uma harmonia singular entre as palavras de forma a convidar o leitor para uma autodescoberta. De todos os poemas, o que mais gostei (apesar de ser muito difícil escolher só um) foi o escrito para a mãe dela, cujo nome é to witness a miracle.

2. Todos os meus ex-heróis são machistas - Taís Bravo

  Também no ano passado, aproveitei a black friday para comprar alguns ebooks baratinhos na Amazon. Contudo, ainda não tive tempo de ler todos e entre os não lidos estava esse livro da Taís Bravo.  Todos os meus ex-heróis são machistas  é um livro pequeno, li em alguns minutos, mas de um impacto gigantesco; me atingiu fortemente. Taís Bravo, usando fluxo de pensamento, discorre sobre as impressões e repressões com as quais conviveu por ser uma mulher e, sobretudo, uma mulher forte e opinativa. 

3. Para educar crianças feministas - Chimamanda Adichie

  Conheci Chimamanda através de um vídeo de sua palestra de nome O perigo da história única  (onde ela fala sobre problemas de representatividade, sobretudo negra, na literatura). Depois de algum tempo, vi sua palestra Todos nós deveríamos ser feministas (onde ela explica de uma forma maravilhosa e bem didática o que é o feminismo e como é benéfico para a sociedade como um todo - homens e mulheres). Na mesma onda de black friday que comprei o livro da Taís Bravo, comprei esse de Chimamanda Adichie pois eu, como professora, me preocupo muito em como não perpetuar o machismo e ensinar nossas crianças formas livres e mais humanas de viver em sociedade. O livro não é exatamente direcionado a professores, mas é uma ótima leitura; ela escreve uma carta para uma amiga Nigeriana, que acaba de ter uma filha, respondendo à pergunta dessa amiga em como educar sua filha para ser feminista. Durante todo o livro, Chimamanda discorre sobre como devemos ensinar às crianças a igualdade e explica como o feminismo e a ideia de igualdade entre os gêneros é benéfica para a sociedade. 

4. Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil - Duda Porto de Souza e Aryane Cararo

  Em reconhecimento ao meu trabalho como escritora e à minha personalidade de leitora voraz, a Companhia das Letras e a Editora Seguinte me mandaram um dos melhores presentes que uma mulher pode receber no dia das mulheres: um livro. Não um livro qualquer, mas um livro que traça a história de mulheres essenciais na história do Brasil - e que, em sua maioria, não são conhecidas. Mulheres das quais eu jamais havia ouvido falar, mulheres que lutaram por direitos dos quais desfruto hoje, mulheres extraordinárias estão reunidas no livro de forma interessantíssima, sucinta e, por sinal, muito bem ilustrada. Além de uma exposição histórica e biográfica dessas mulheres, o livro conta com um panorama histórico da vida das mulheres no Brasil e com um glossário de termos, em geral, desconhecidos. É um livro que, por mim, seria leitura base de história no segundo ensino fundamental (eu sou uma grande incentivadora da educação através da literatura).

5. Profissões para mulheres e outros artigos feministas - Virginia Woolf

   Somente depois de ingressar na Universidade (que, por sinal, é uma das maiores Universidades em pesquisas literárias do mundo), pude ouvir o nome de Virginia Woolf. E, somente agora, em 2018 a li pela primeira vez. Por se tratar de algo muito recente, ainda não sou capaz de dizer o quão grata sou e o quão enormemente cresci através deste livro; é uma pequena coletânea de ensaios e cartas de Virginia Woolf nos quais ela, brilhantemente, discute as mulheres escritoras e como as mulheres são vistas dentro das outras profissões. 

6. Um teto todo seu - Virginia Woolf

   Por último, mas não menos importante (na verdade, esse foi o livro que me inspirou a fazer esse post), venho falar sobre Um teto todo seu. Esbarrei por acaso com esse livro na livraria e, só depois de começar a lê-lo, percebi que se tratava de um lindíssimo ensaio, justamente, sobre escritoras; sobre mulheres da ficção e quais os obstáculos para que uma mulher escreva. Woolf discute bastante sobre os séculos XV e XVI, quando as mulheres eram condicionadas a depender financeiramente de seus maridos (por não serem permitidas a trabalhar e nem a terem posses) e como isso dizimou as chances de que as escritoras pudessem ter voz. Sem mais delongas, recomendo esse livro a todas as escritoras, sobretudo, as iniciantes. 

E então, vamos ler?

Agradecimento especial à Companhia das Letras que tem me enviado livros regularmente e feito de mim uma escritora em construção. 

com amor, 
Ane Karoline