imagem: weheartit.com


Venho toda acanhada, sem jeito, vacilante e turva porque não sei muito bem como dizer o que eu tenho, com tanto empenho, evitado dizer. Venho dizer, mas escolhi dizer baixinho - que é mais para por para fora que para ser ouvida. Escuta aí, você, minha voz sussurrando. Espero que escute. Você se lembra da minha voz? Se não se lembra, tenta lembrar daquele dia que te contei aquela história; a minha. Se não conseguir lembrar mesmo, imagina. Imagina minha voz sussurrando, como quem tem um bebê dormindo em casa e teme acordá-lo. Imagina minha voz, bem baixinha, dizendo isso que eu tenho evitado dizer: eu tenho medo. 

Foi por isso mesmo que eu não disse antes, por medo. Logo eu, logo eu, logo eu. Não disse antes, sabe por quê? Por medo de cair em um buraco sem fundo, medo de não ter quem quer que fosse para me içar de lá. Se sou eu que iço os outros, imagina só, como é que eu poderia me permitir ao luxo de ter medo? Imagina só se eu ia lá cair nesse buraco sem fundo que eu achava que era o medo. Não podia. Por isso mesmo foi que o escondi, dobrei bem dobradinho e coloquei no fundo de uma gaveta trancada. Não queria ver o medo e nem queria que alguém o visse; por isso, não disse. Mas acontece que não dizer, não impediu o medo de fazer a morada que fez; construiu mansão em mim. Medo de cair, medo de tropeçar, medo daquelas pedrinhas que seguram a barragem na beira da pista, medo de apendicite, medo do estalo da madeira a noite, medo de não ter dinheiro do almoço, medo de um avião precisar pousar no meu quintal, medo de não ter mais um quintal, medo do moço que entra no ônibus e me olha, medo da censura. Me censurei, por medo. Achei que, se dissesse, se revelasse minha insônia por medo, cairia em um buraco. Agora, falei tudo e: não caí.

Está certo que falei meio sem querer, falei porque a verdade escorreu de mim. Escorreu de mim como eu mesma me escorro todos os meses. Escorreu como escorreram as lágrimas no rosto do rapazinho, quando achou que a mocinha morreria aos dezessete anos. Escorreu de mim, como sangue e lágrimas, involuntariamente. A verdade revelada é essa: tenho medo. E, agora, depois de revelada a verdade, me pareço mais inteira, mais corajosa, até. Imagina que antes eu pensava: logo comigo, comigo não. Fechava os olhos que era para não ver o medo, fechava a boca para não dizer. Dizia "está tudo bem, tudo bem". Imagina que antes eu pensava que não podia ter medo, que meu medo latente era fraqueza. Logo eu, eu pensava. Eu que, não raramente, ouço aclamarem minha coragem. O medo que eu tinha era de perder a coragem.

Acontece que, até aí, eu não sabia. Veja bem, eu ignorava o fato de que medo e coragem coexistem dentro do coração da gente. Finalmente, por um escorregão, acabei descobrindo que foram os meus medos que acabaram me empurrando para fazer a coisa mais corajosa que já fiz: admitir minhas fraquezas. Agora, se me perguntam, digo mesmo que tenho medo. É isso que me faz corajosa: reconhecer meu medo, mesmo sabendo-o ser um abismo sempre pronto para me puxar.

Ane Karoline 

Ultimamente, os vídeos têm tomado conta de todas as nossas timelines, algumas vezes, é raro encontrar umas palavrinhas escritas para nos distrair. Pois bem, para quem sente falta de conteúdo escrito de qualidade, esse post chegou em hora! Nós, do Rearteculando, separamos cinco blogs muito interessantes para serem visitados. Vamos conferir?



1- Começamos nossa lista com o blog parceiro do nosso blog: Amigos de Cena. É um blog de conteúdo amplo e bem descontraído. A chamá-los para conhecer, deixo as palavras do criador do blog, Kiones: "Todo mundo tem um amigos, todo muito tem cenas engraçadas, divertidas, constrangedoras e perrengues. #AmigosDeCena é um blog feito de relatos pessoais, criticas e tudo o que gira em torno de nós! Então, venha para cá e mergulhe nesse mundo editado e personalizado de historias incríveis."
 LINK












2- Atualizado diariamente, o Pétalas de Liberdade traz postagens sobre livros dos mais diversos gêneros e épocas.

3- Alimentado por Gabriella Aleixo - escritora, blogueira, leitora e artesã -o blog é uma forma de compartilhar uma paixão e  trabalho (livros e entrevistas). Quando se ama o que faz, a gente se diverte trabalhando, trabalha divertindo, e faz tudo com muito gosto! No blog, Gabriella posta resenhas de livros e entrevistas. 


4-  O Universo Gemini é um espaço para tudo, músicas, filmes, séries, curiosidades ou até mesmo poesia. Um lugar em que a imaginação é o maior limite do leitor. 

5-  Universo de Contos é um blog dedicado a vários contos de fantasia e ficção científica. Venha conferir as histórias ilustradas mais malucas e inusitadas da internet. 


E, então, vamos conferir? 



imagem: wehearit.com


Tem gente que leva rasteira da vida quando anda para frente, eu não, eu levo rasteira quando insisto em dar uns passos para trás. A última rasteira que levei foi antes mesmo de voltar, apenas me virei em direção à volta, me virei como quem está pronto para voltar e esquecer quaisquer contratempos e injúrias anteriores. Virada para trás, antes mesmo de dar um passo, percebi que, apesar de me chamar, você não queria que eu voltasse; queria apenas despertar em mim a vontade da volta. Você me quer como número, não como presença, quer que eu componha a pluralidade da sua vida, não a singularidade.  

Você quer números, provavelmente, porque quer aplausos. Não te condeno por isso não, pode se acalmar. Acho até normal, sabia? Acho comum. Gente querendo aplauso é o que mais tem, em tudo que é beira de esquina. O danado é que eu achei que você não fosse comum, achei que você queria mais que isso, achei que você almejasse admiração, não aplausos vazios. Não posso mentir, tenho que admitir, não posso negar que acabo te condenando de uma forma ou de outra. Mesmo sem direito algum para fazê-lo, mesmo agora, quando percebo que te conheço menos do que achei que conhecia, mesmo com todos os meus erros (e talvez por causa deles), acabo te condenando. Não te condeno para ninguém e nem diante de ninguém, não tenho tamanho poder e nem vontade, apenas reconheço a sentença quando olho para você: alguém que quer quantidade de companhia, não qualidade.

Eu poderia ficar aqui, de pé, por horas te aplaudindo - como já fiz, com muito gosto e amor. Mas isso não é o que você quer, né? Isso não te preencheria. Você quer multidões, quer uma massa de gente de que não te dá a mínima para te aplaudir. Você quer quantidade, quer casa cheia, quer gente com pedigree, gente com nome anunciado em rádios, gente com passaporte carimbado e delineador bem passado. Variedade, gente saindo e entrando, gente te dizendo maravilhas para, logo em seguida, te abandonar. Tudo bem. Eu espero que, sim, esses e essas daí te aplaudam mas que, também, estejam com você nas noites difíceis, nas noites apáticas e nas viradas de ano. 

Daqui, do meu lugar de quem existe irrisoriamente, torço para que não te faltem holofotes e palmas; já que as minhas eu resolvi recolher. Espero que esses aplausos vazios, te encham, te preencham. Teria gosto em aplaudir, com amor, tudo que viesse de você e, ainda hoje, não posso negar todas as maravilhas que você tem. Acontece que quando a alma deixa de fazer parte da produção de alguém, eu não sou mais capaz de apreciar; quando sinceridade passa a valer menos que imagem, eu não posso mais ficar. Podem descer as cortinas, rufar os tambores, pelo espetaculo das aparências você já pode receber as palmas, sem mim; eu sei a hora de sair de cena. 

Ane Karoline

imagem: google


Eu não sei se vocês sabem, mas nós aqui de baixo também sentimos. Digo, sei que a ordem aí é fazer rir da cara de quem sua a camisa para manter o país de pé. Sei também que, via de regra, a comédia é para ser feita de nós, sei que somos o elenco engraçado da novela das oito: nosso jeito de falar, nossas roupas de flanela que nunca passaram nem pelas portas da forever 21, nossa coleção de sacolinhas para colocar na lixeira dos nossos banheiros de meio metro quadrado. Somos uma alegoria, vem ver, basta ligar a tevê: morreu, matou, roubou, sucumbiu no corredor do hospital. Os nossos costumes e desgraças fazem a graça da família real. Sei de todas essas coisas, e dumas outras que vocês nem suporiam que alguém que vem de onde eu vim saberia. É por saber, que venho dizer: nosso sentimento também existe, de desespero a gente tem rido, nosso riso é latente: para vocês é um latido. 

Por desesperador que seja, fator de distração, nosso riso - do quão ridícula é essa situação - soa como latidos repetidos: incomoda. Não querem nos ver; querem que sejamos só o backstage, nunca os protagonistas - quem limpa, cuida, aplaude; quem nunca é aplaudido. Isso porque somos o oposto da ideia de perfeição de vocês, assumimos nossa incompletude, não há farsa em nossas mazelas: estão tatuadas em nossa pele - seja nas marcas de Sol, que a falta do protetor solar causa; seja nos calos nas mãos por limparmos as suas casas e as nossas próprias. Somos marcados demais, para que sejamos incluídos no conceito de "perfeição clean" de quem finge que de mãos brancas não escorre sangue negro, indígena, mulato. Somos a marca indelével de que, aqui nesse chão, há o costume de se contruir castelos sobre as cabeças das vidas que parecem valer menos; aqui, tem se feito lucro assim: roubando a parte de quem não é visto. Assim, nossa existência, que é uma resistência, deve ser muito incômoda. Que inoportuno, que grande estorvo deve ser, para quem está aí, admitir que, sim, coexistimos, somos feitos do mesmo barro e pó, nós e vocês teremos todos a mesma fetidez após três dias de morte. É por isso que nos pintam como asquerosos quando, na verdade, somos compositores, têm medo da força que temos quando juntos. 

De compositores que somos, até com nossa desgraça vim compor, escrevo agora como quem grita em silêncio: eis me aqui. Empresto minha voz aos meus, aos que olham o mundo, construído por suas próprias mãos sangrentas, e não se veem refletidos nele, não se veem partes do mundo, não veem espaço no mundo. Escrevo, agora, para dizer que sabemos que não somos invisíveis, nossa invisibilidade foi inventada, é proposital - com o propósito de tomar de nós a nossa parte no mundo, de apagar a nossa subjetividade, como se ela valesse menos. Que pareça um latido, então, isso que digo agora. Que pareça tão cru, tão real, tão cortante, tão pungente e tão banal quanto um latido: nós, os desgraçados, também existimos. E valemos tanto, e valemos quanto, e valemos muito, como vocês - vocês que falam de cima de palanques e de dentro dos estúdios da tevê. A nudez da verdade é essa: fingem que não somos relevantes, repetem isso para que acreditemos, nos tratam como cachorros abandonados, porque sabem; sabem que sem nós, não viveriam um dia. 

Injustiçados, seguimos. Levantamos todos os dias para manter o mundo girando. Desrespeitados, seguimos observando venderem, esbanjarem, destruírem tudo que é nosso, sem nos consultar. A esperança é que ainda temos vida, onde há vida, há verbo: a palavra não podem nos saquear. E, se for verdade isso de que todo escritor tem uma pergunta, venho questionar aqui, senhores-doutores-merítissimos-de-coisa-nenhuma: porque é que pelo que é nosso temos que implorar? 

Ane Karoline

"A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece."
                                                                                                                                                         Veracidade





       "Não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios",
diz Isabella de Andrade em seu livro "Veracidade". Eu concordo e assino embaixo: vivemos querendo preenchê-los. O fazemos porque dói. Qualquer sinal de vazio, dói que é uma coisa. Mas existe, sim, coisa mais dolorida que os vazios que fazem morada nos buracos dentro de nós: a tentativa desesperada de preencher esses vazios; vãs tentativas, tentativas naufragadas de preenchimento. Impulso humano é esse de caminhar em busca da plenitude, mesmo que não se saiba que plenitude é essa, afinal. Caminha-se em busca do que nem se sabe, de um caminho certo, caminho verdadeiro, veracidade, voracidade. 

Eu, que sou voraz, quando leio um livro, engulo os livros, devoro as páginas. Com Veracidade, foi diferente: a escrita de Isabella me engoliu - cheia de doçura, mas o fez. Cada palavra colocada despretensiosamente com um cuidado todo pessoal, bordadas. Uma escrita contemporânea e atemporal, simples e complexa, que em frase curta resume um dramalhão da humanidade inteira. Jogos de repetições bem colocados, como quem sabe que na vida a gente repete passos todos os dias, mas nunca de forma igual. Escrita sensível que incentiva, empurra o ser à criação.  Isabella discute as belezas e mazelas do processo de criação do artista; o que ronda o criador e a criação.

É um livro muito simbólico. A palavra silêncio, a exemplo,  tanto aparece no texto, quanto se faz presente quando lida, silêncio que grita: silêncio é necessário para respirar. A autora consegue criar uma atmosfera de convite à reflexão, sem jamais deixar de ser leve, doce, suave. É um livro que vem de encontro, não em contraste.

Tenho lido bastante nos últimos anos, lido de tudo, lidado com tudo, e poucas coisas me tocaram como Veracidade. Eu, como ser sensível, como ser criador, como ser humano, me senti atravessada pela afabilidade das palavras que li; me lembrei de Clarice Lispector, me lembrei de mim, lembrei do meu primeiro amor e dos amores que ainda sinto, me lembrei da humanidade inteira - algumas vezes a gente sente tanto e vive tão pouco. Por fim, concluí com Isabella que inquietude é coisa de gente e que "nem todos os pontos, nem todas as vontades e nem todos os amores, precisam virar conexão".

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:

Onde comprar o livro: Mandar mensagem no email: isabelladeandrade@gmail.com 
ou na loja da Editora: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=343




Sobre a autora:
Autora do livro Veracidade (Patuá, 2015), Isabella de Andrade é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e graduanda em Artes Cênicas no mesmo local. Trabalha atualmente como repórter de cultura do jornal Correio Braziliense e já trabalhou como arte-educadora no CCBB. Acredita firmemente no poder transformador e enriquecedor da arte na vida e no desenvolvimento de cada indivíduo. Estuda as possibilidades do jornalismo literário, da literatura, da poesia, da dramaturgia e uma possível convivência harmônica entre eles. É autora e produtora do projeto de arte e cultura www.ociclorama.com. Brasiliense apaixonada pelo céu da capital e pelo modo como as palavras nos possibilitam viver várias vidas. 

Instagram: @isabella_deandrade e @ociclorama



Ane Karoline

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Acordo de ressaca. Um raio de sol tímido entra pelo vidro meio aberto da janela e me convida a levantar. Meus olhos ardem. Um silêncio ensurdecedor. Vovó costumava dizer que, acontecendo o pior dos vendavais durante a noite, alguém sempre precisa colocar as coisas em ordem ao amanhecer. Levanto da cama em um pulo e arrumo o quarto. Passo o café e tomo banho sem pensar demais em coisa nenhuma. A cabeça dói e confiro a caixa postal duas vezes antes de ir ao trabalho. Nada além de uma voz feminina dizendo que não, não há nenhuma nova mensagem. Começo a pensar que o problema é com o telefone. Atravesso a avenida sempre tão movimentada e vejo alguns rostos desconhecidos conversando baixinho, em uma espécie de luto coletivo. Chego ao escritório e invento tarefas para que Katia, a tagarela, permaneça em minha sala. Isso, querida, continue falando. Processos, novelas e aquecimento global. Evito o silêncio, só por hoje.


— [...] sobre essa espécie de ave. Mas eu não entendi muito bem, não terminei de assistir a reportagem porque o Paulo ligou. Processos, processos, processos. Dane-se, eu quis dizer. Tanta espécie em extinção e as pessoas só pensam em papeladas. 

Meu corpo foi inteiro incendiado por uma espécie de esperança. 

— O Paulo ligou? Você disse para ele retornar quando eu chegasse?

— E precisa falar? Ele liga o dia inteiro. Você já arrumou a sala, Katia? Ele pergunta. Eu respondo que sim, senhor. E ele me arruma outra tarefa. 

A faísca foi apagada. Paulo, o meu chefe, havia ligado. Não você. Lembro, então, que você sequer tinha o número do escritório: nunca fez questão de certas intimidades. Anota, eu insistia, caso aconteça alguma emergência. Você me olhava apático e respondia que nunca haveria uma emergência. Olho para Katia sem ouvi-la, tento lembrar o momento exato em que conheci você. Não lembro. Lembro que, antes de você, cada Paulo era um Paulo. Eu ouvia o nome e perguntava de quem se tratava: Paulo, o meu chefe, Paulo, o florista ou Paulo, o homem grisalho do outro quarteirão. Percebo a imensidão egoísta por trás do ato de tomar posse de um nome   ainda que inconscientemente. Volto para casa sem prestar atenção nos rostos da avenida, agora, agitada. Confiro a caixa postal. A gravação repete a ausência de mensagens, quase com pena de mim. Me olho no espelho e me vejo. Olheiras, marcas de sol e a cicatriz do braço direito – caminhos que trilhei sozinha. É só mais um fim. Em paz, durmo.

Ane Kelly


foto por: Ane Karoline em Museu nacional de Brasília
Hoje estou seca, não derramo mais lágrimas por você. Não que eu não chore, muito pelo contrário, cada vez que você me diz "tá bem" sem que estejamos bem; cada vez que você age como se eu fosse louca por questionar; cada vez que você anda de mãos dadas com as mãos que me atiraram lanças em chamas, eu choro.  Acontece que é um choro seco, tão cheio de dor, que é seco. É um choro tão dolorido, parece que as lágrimas querem sair das minhas entranhas, mas não saem; elas se esgotaram, para sair uma é um custo. Meu choro é aquele choro que soluça, que engasga, que falta o ar. Parece que levo socos repetidos no estômago, não consigo respirar, não consigo me levantar. De joelhos, me pergunto como foi que cheguei aqui, como foi que fiquei sem forças para argumentar, como foi que esgotei todas as minhas lágrimas. 

Aí, você vem, me faz umas perguntas e usa a mesma retórica de quem me feriu da última vez: "o que você quer que eu faça?". Eu não quero nada, digo. E, como sempre, sou sincera. Eu sempre fui sincera, talvez, demasiada e imediatamente sincera. Digo que não quero nada e repito aqui: eu não quero nada. Não quero que você faça nada. Se você não vê o que fazer, se você não me vê aqui, de joelhos, aos pedaços, não quero nada. Não há como resolver um problema que a gente não vê. Você me pergunta, ainda, o que foi que houve: você me ouve, mas não me escuta. Haver, no sentido de existir, muitas coisas existiram entre nós, mas você diz que não. Não, não, não. Escrevi páginas e páginas para tentar organizar meus pensamentos e conseguir te mostrar que dois e dois são quatro, que desleixo e alheação, juntos, são sinônimos de colapso, quebra. Não sei se nos quebramos ou eu me quebrei. 

A cabeça ainda está zonza, cheia dos zumbidos das nossas risadas, conversas, dos meus soluços e do jeito como agora você pronuncia o meu nome - quase soletrado para demonstrar afastamento. Mas apesar da zonzeira, da falta de ar, eu sei que a culpa não foi sua. Não é culpa sua que minha forma de amar seja expansiva, seja radical, sem hesitações, sem omissão, sem medo de gritar para o mundo, sem vergonha de que todo mundo saiba. Mas nada disso é amor se não for genuíno: não tenho direito de esperar que você seja como eu, posso apenas respeitar e me recolher. Portanto, culpa você não tem, mas a escolha foi sua -  você escolheu não escolher, você escolheu me dizer que eu estava exagerando, você escolheu usar exatamente a palavra que você sabia que me magoaria e que já haviam usado para me ferir antes: exagerada. Portanto, saiba que quando você me diz "a escolha é sua", você já escolheu por mim, escolheu por nós: escolheu continuar não me escolhendo. 

Com amor, 
Ane Karoline