Fonte: http://mishencetu.tumblr.com
Acho que a felicidade não gosta de mim
Pois nunca me pertence
Não me apetece
Chega rápido e logo desaparece

Não me habita
Vem às vezes para breve visita
Logo se vai
Pela ponta dos dedos se esvai

Cria um ciclo vicioso
Algo que me torna desgostoso
Pois sempre que se apresenta a mim
Acaba me quebrando no fim

Chega e bate na porta
Se instala e se acomoda, toda torta
Mas sempre que começa a criar raízes no chão
Se arranca, ferindo meu coração

Me tornou uma pessoa infeliz
Não consigo acreditar no que diz
Me falam que devo ser minha própria felicidade
Mas não posso ser o que não é minha realidade

Se mudo pra tentar ser algo que não sou
É como ser um pedaço falso que restou
O espelho sempre me acusa a verdade
O sorriso é apenas falso alarde

Enquanto me acostumo aos jogos doentios do tempo
Cavo mais fundo a cova do sentimento
Logo haverei de me tornar estéril como um deserto
Onde sentimentos não brotam, por certo

-A. Rodrigues

Fonte: Imagination.tumblr.com

                Das relações sociais humanas, uma se destaca em relação às demais. Ela não tem uma explicação, e cresce junto ao fator de temporalidade. No entanto, como se para contrastar o efeito do tempo, ela é atemporal. É uma das únicas coisas que pode ser fortificada com o tempo, ao invés de padecer, como tantas outras. Algumas pessoas a veem como uma corrente, outras como asas. Muitos se referem a ela como um milagre, um presente divino para nos ajudar a enfrentar o período miserável de tempo que passamos no globo terrestre.
                Sendo ela divina, biológica ou científica, é inegável que a amizade é uma força de poder considerável, capaz de criar e destruir com a mesma intensidade. O que une as pessoas em laços de amizade é um fator peculiar e desconhecido. Ora, veja, a amizade não está relacionada à quantia de tempo em que duas pessoas se conhecem, mas antes a um encontro e identificação de almas. Uma verdadeira afinidade e sincronia entre dois organismos e mentes, ou ainda, sob um viés mais espiritual, o entrosamento entre duas almas.
A seguir listamos 5 tipos de amizades que todos teremos uma vez na vida

1 – Amizade de infância
Fonte: Tumblr
Aquele amigo que sempre esteve ali, desde que você se lembra de existir. Vocês passaram por tanta coisa juntos que fica impossível não abrir um sorriso só de pensar na pessoa. É o amigo que conheceu seu primeiro cachorro e que estava lá quando a sua avó faleceu. Te deu doces escondido e com ele você quebrou seu primeiro osso e arrancou seu primeiro dente. Pode ser que vocês tenham tomado caminhos diferentes e o contato tenha se perdido, mas, sabem que quando se reencontrarem será como se nada houvesse mudado.

2 – Amizade de escola
Fonte: Tumblr
Aquela amizade que começou com uma borracha ou caneta emprestada e deu frutos. A primeira pessoa para quem você olha quando a palavra “grupo” aparece na escola. É atrás dessas pessoas que você se esconde quando a pessoa que você gosta aparece. Aquele amigo com quem você divide o lanche e seus primeiros segredos. É dela que você vai colar, se precisar. É dessa pessoa que você vai se lembrar quando ouvir a palavra escola na idade adulta.

3 – Amizade de trabalho
Fonte: Tumblr
Aquele tipo de amizade que pode começar por que ambas as pessoas não gostam de alguém em particular, ou até por gostarem de coisas parecidas. Passamos grande parte dos nossos dias trabalhando, são o tipo de amigos que vira segunda família fácil. Aqueles amigos que fazem o churrasco no fim de semana. Muito café e reclamações envolvidos, além daquelas conversas por olhar que só vocês entendem.

4 – Amigos com benefícios
Fonte: Tumblr
Aquele amigo que é um algo mais. Que rola uma troca de olhares, uma atração divertida. Vocês riem o tempo todo, e estão sempre encontrando uma desculpa para encostar um no outro. Pode evoluir para outro tipo de relacionamento, lógico, mas no geral é apenas uma confiança mútua que vem facilmente.

5 – Melhor amigo
Fonte: Tumblr
Esse te surpreende, pois pode ser qualquer um dos listados acima, ou nenhum. Pode ser um esbarrão na padaria, ou um colega do cursinho de inglês. Um dia a pessoa é um desconhecido, e na outra ela tem um prédio inteiro construído no nome dela dentro do seu coração. É aquele amigo que vai conhecer sua família, roubar da sua comida e pegar suas roupas emprestadas para sempre, e você não vai se incomodar. É o amigo que vai deixar os outros amigos com ciúmes, e você não vai fazer nada para se explicar. É o amigo que é porque é, e se te pedirem para explicar, você não sabe o que dizer.
                Amizade é energia capaz de gerar mais energia. É impulso, que joga para frente, segura e pulsa e deixa que as forças se misturem. É compartilhar pedaços de nossa vida com outro alguém, sem que se cobre nada do mesmo, e nem se coloque pressão sobre o outro. É criar um filme de memórias preciosas, uma das formas de combater o egoísmo. É conhecer o mundo sob um ponto de vista diferente, mesmo que seja próximo ao próprio. A força da amizade faz com que haja sempre uma mão para te segurar quando o abismo se aproxima.
                É claro, há pessoas que não acreditam nela, ou que confundem suas fundações e conceitos. Daí temos os abusos, as traições, e tudo o mais que o ser humano é capaz de fazer. Mas antes de tudo isso, existe a luz da amizade. Nada mais instintivo do que encontrar um desconhecido e permitir que nosso coração julgue se aquela pessoa é alguém para se unir ou se afastar. E quando notamos aquele estranho já ocupa um lugar em nossas vidas, e não mais é um estranho. É a pessoa em quem pensamos quando queremos ir a algum lugar, ou compartilhar uma notícia ou emoção. Às vezes nos surpreendermos por conhecer alguém por anos, antes de aprofundar uma amizade com esta mesma. Amizade acontece na hora certa, da forma certa. É um caminho que pode ser adiado, mas não cancelado.
                Amizade é destino, é milagre, é energia e calor. Muitos dizem ser cármico. Já outros, reencontro espiritual. A única forma de saber se uma amizade real é não saber explicar o porquê de ela existir. Pois, amizade de verdade não precisa de porquês, não carece de motivos, explicações ou reflexões. Apenas é. Não há interesse egoísta, não há obrigações e sim instinto e fluência. Amizade é sol em meio à tempestade, é chuva no deserto, é água na sede, repouso no cansaço, alívio na dor.
                Não perca mais tempo. Espalhe a semente da sua por aí, pois, com ela, vem maravilhas e surpresas, aprendizados e realizações além do imaginável. Acredite, nunca se perde ao escolher alguém para chamar de amigo...

-A. Rodrigues

O mandamento, ou conselho, maior; aquele que deveria governar todos os outros; se perdeu. Uma prática que, de tão simples, não consegue ser praticada: amar ao próximo como a ti mesmo. Amar o próximo o suficiente para respeitá-lo e permiti-lo sê-lo quem é. Amar o próximo o suficiente para não  ser capaz de torturá-lo a ponto de fazê-lo odiar a si mesmo. Esse amor, genuíno e fraternal, que é dito, repetido, e pregado, existe, muitas vezes,  só no discurso. Quando é hora de praticar, existe uma exclusão: se o próximo for homossexual, nao vai dar para amá-lo. Mas por que? 


Sobre essa prepotência em achar que se pode escolher quem é digno ou não de amor, escreve o ex Padre Krzystof Charamsa em seu livro " A primeira pedra. Eu, padre gay, e minha revolta contra a hipocrisia da Igreja Católica". Além de abordar a homofobia sofrida pelas pessoas homossexuais por parte da comunidade não-cristã, Charamsa, destaca, primordialmente, a crueldade da Igreja Católica para com essas pessoas. O livro não é escrito por um leigo, todo o discurso do autor é embasado cientifica, historica e sociologicamente, além de ter todo o peso de ser escrito por alguém que conhece a Igreja Católica minuciosamente e que, portanto, tem pleno domínio para falar sobre o assunto. Krzystof Charamsa, além de padre e professor em Universidades Católicas, trabalhou diretamente para o Santo Ofício da Igreja (saindo em 3 de outubro de 2015). Um padre que construiu carreira dentro da Igreja, trabalhou fielmente, para, então, perceceber que jamais seria aceito por essa mesma igreja. 


Unida com toda a poesia e sinceridade presentes no livro, está uma reflexão valiosa sobre o estudo de gêneros e a importância do entendimento acerca da homossexualidade, a desmitificação sobre o poder  de julgamento acerca sexualidade alheia. O autor discute que a homossexualidade, apesar de estar diretamente ligada à sexualidade, vai muito além disso: é a essência de alguém como um todo, não uma preferência ou uma inclinação à perversão. De muitas frases marcantes presentes no livro, escolho essa para resumir bastante do que é dito no livro e convidar a todos vocês, meus leitores, a uma reflexão: "Dos outros se herda a homofobia; a homossexualidade é dada". 



Em apoio ao seu discurso que criminaliza, com razão, o repúdio às pessoas homossexuais, o autor ressalta vários problemas e contradições dentro da Igreja: a falta de amor, a competição venenosa entre as pessoas, a falsidade, a grande quantidade de padre gays existentes dentro da igreja, o alto número de menores e freiras abusados por padres. Ainda assim, ao contrário do que se pode pensar, existe um discurso espiritual muito forte e sensível no livro. A ideia de um Deus justo e amoroso, que não julga e nem apedreja se sobressai à ideia de um Deus punidor muitas vezes disseminada pela Igreja. Dentre toda a hipocrisia citada pelo padre, ele menciona a resistência do alto clero com relação ao atual Papa Francisco - que é considerado muito liberal e um "progressista irresponsável". Traz diversos trechos de discursos do atual Papa em contraponto com atitudes crueis do Clero. 


Tentando não correr o risco de estragar a surpresa do livro, me limito a dizer que é um livro manifesto; divisor de águas entre os tempos. É um manifesto em nome da insustentabilidade da homofobia. É um livro delicado, escrito por alguém que cansou de escrever sua vida nas entrelinhas. Um livro escrito como uma revolução para aqueles que nunca tiverem direito de existir, aqueles que sempre foram torturados, julgados, humilhados e maltratados. É preciso, sim, falar sobre sexualidade e estudo de gêneros. É preciso repeitar e dar voz aqueles que sempre foram amordaçados. Não basta acolher, igreja, tem que aceitar. Não existe cura gay, homossexuais não estão doentes, adoecida está uma sociedade que distorce o discurso, de alguém que jamais julgou alguém, dito há 2000 anos atrás. Ninguém tem o direito de julgamento sobre a sexualidade de ninguém. Se um casal homossexual te incomoda, quem deve procurar ajuda médica é você. Quem sabe você não vem engolindo pílulas de discurso de ódio a vida inteira sem questionar? 


INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:
autor: Krzystof Charamsa
editora: Seoman - Grupo Editorial Pensamento
ano: tradução, 2017
minha nota: 10

Com todo o meu amor, 
Ane Karoline

imagem: pinterest


Ai, que dor do lado esquerdo do peito eu sentia quando ainda nem sabia qual era o lado esquerdo. Mas já a sentia; ela vinha acompanhada de bochechas esquentando de vergonha e mãos nervosas, inquietas. Um ritual já conhecido, porém, inevitável. Era ativado cada vez que alguém me golpeava com a pergunta: o que você vai ser? Essa sede de saber o que eu viria a ser em algum outro momento triturava meu senso de mim mesma. A pergunta era sempre feita com um tom capaz de expressar a indiferença pelo que eu já era, era como se me dissessem: o que você vai ser quando, finalmente, for alguma coisa?

Enquanto eu não era coisa alguma, me apressava em responder para não decepcionar ninguém: médica, advogada, dentista, cirurgiã, engenheira, veterinária. Deus é que me livre de fazer alguém pensar que eu eu não iria ser nada - e o próprio me perdoasse por todas as vezes em que menti só para ter alguma coisa para dizer. Era como se dizer, resolvesse o problema de não ser nada. Era como se dizer me desculpasse. Era como se aos 6;7;10;15 anos de idade, não sendo nada, eu teria que decidir  o que eu iria ser, minha redenção.

Decidi. Mais de uma vez, inclusive. Tantas vezes me perguntaram que a pergunta ecoou em minha cabeça até me fazer cair na armadilha da decisão. Caí em no vão daqueles que nada são: queria tanto ser alguma coisa que não era nada. Fui um monte de coisas, umas escolhi, outras me escolheram. Cursei isso e aquilo, trabalhei numa coisa e noutra, estudei cada ano uma coisa diferente. Decidida a calar a pergunta que não calava: o que você vai ser? Por mais que que fosse equilibrista, surfista, bailarina, professora ou escritora, sempre aparecia alguém: o que você vai ser? A fulana, o beltrano, a filha da vizinha de não sei quem, o primo do amigo da cunhada, a moça da padaria e o Faustão: todos eles eram alguma coisa, eu não. 

Tropeçando, segui decidindo e respondendo, cada vez com menos certeza, com menos enfâse. Sempre tive lá aquelas vontades que todo mundo tem, preferências aqui e ali, sonhos, utopias. Sempre tive coisas que caminharam comigo, agora mesmo tenho muitas. Mas a pergunta não era essa, a pergunta nunca foi direcionada ao que eu já era, ao que já sou. Uma pergunta trapaceira, arquitetada para o impossível, não importa onde eu esteja, não importa o que eu já seja, lá vem ela - se não for da boca de alguém, vem do meu reflexo no espelho: o  que você vai ser?

Sei lá o quê, foi o que eu quis dizer dia desses. Eu, já com diploma na mão, alguém me pergunta: mas e de agora em diante, o que você vai ser? Eu poderia ter dito professora. Queria ter dito. A dor do lado esquerdo veio acompanhada da boca cheia para anunciar mais essa certeza, a vontade de deixar claro que eu já sou alguma coisa. Mas aí percebi: quem pergunta, já não sabe? Sabe sim. Quem pergunta já está ali, me vendo em carne, osso e estrabismo. Quem atira essa pergunta já sabe que sou alguma coisa, que eu existo em 1,60m de alma, espírito, utopias, ideologias e amor, e, ainda assim, insiste em perguntar. Foi por isso que resolvi, dessa vez, não me categorizar: de agora em diante, sou um projeto de mim mesma, serei sempre um projeto - respondi. Sou alguma coisa em construção, é assim que posso evoluir e me transformar no que me couber ser a cada dia. De agora em diante, não sou nada. E eu sinto um alívio danado em não ser nada. 

Ane Karoline

(Fonte: http://notofyourbussines.tumblr.com/)


          Tudo começou no chuvisco. Tenho a impressão de que estou sempre debaixo de chuva. Ou talvez seja eu que esteja sempre com o humor nublado. Como eu dizia, aquela sensação começou com o chuvisco. Aquele tipo de agonia que nem vai embora nem se justifica, e você tem que continuar aturando até passar. Não sai com a água do banho, nem com o cochilo da tarde, e fica te perturbando de madrugada. Uma daquelas que parece um zunido no ouvido, e que você tenta até afundar a cabeça na água pra ver se passa. Mas a agonia não passa. Daí você já pode saber que é sinal de mudança séria acontecendo dentro de você.
          Mudança daquelas que te torna uma pessoa melhor, ou uma mais fria. No meu caso, era uma mudança boa. Primeiro veio o cansaço. Cansaço da inércia, da aceitação, da linearidade. Eu mal conseguia me aguentar sentada, e estava em pânico dentro da minha própria pele. Se continuasse daquele jeito eu era capaz de raspar a lateral da cabeça e furar um piercing na sobrancelha, então fui ver TV. Mas não consegui me distrair, e acabei abrindo todas as janelas da casa e observando o cachorro perseguir lagartos pelo quintal.
          Foi quando me atingiu. É sempre dolorido quando o sentimento acerta assim, não importa o quão acostumado se esteja. Bateu com tanta força que as lágrimas desceram sem eu conseguir me controlar. Chorei aquela agonia inteira, e algumas dores reminiscentes de problemas anteriores, enquanto extravasava tudo estava podre por dentro. E, quando havia purgado tudo, com os olhos inchados e o nariz entupido, veio a segunda parte.
          Uma nova consciência, uma bondade e compaixão inata. Tinha cheiro de mel e alfazema. Uma reflexão profunda do "eu" naquele momento. Foi nostálgico e agradável, e eu senti as engrenagens girando dentro do meu cérebro durante todo o processo. Era como se os órgãos dentro do meu corpo estivessem assumindo uma nova configuração, e eu não podia clicar em "cancelar". Naquela tarde cinza e pesada, eu fiz um compromisso comigo mesmo.
          Primeiramente de parar de sobreviver e começar a viver de verdade. Então anotei numa folha de papel velha que faria uma viagem. Depois me prometi dar ao menos um sorriso verdadeiro por dia. Gastar mais tempo dentro de abraços, e jogar mais beijos para as pessoas. Ah, decidi também que ouviria mais as pessoas e ligaria menos para o que elas falassem. Também decidi me fazer de surdo para as vozes que gritam xingamentos na minha cabeça. Abaixei o volume das que querem ver o meu fim até que estivessem mudas. 
          Prometi a mim mesmo valorizar mais as pessoas ao meu redor, ser mais grato à vida que tenho e tentar aprender algo novo. Também vou gastar mais tempo com meus animais, pois eles merecem, e me ajudam mais do que percebem. Comer melhor também está em meus planos. Sair mais com os amigos, e passar mais tardes me dedicando aos meus hobbies. Fiz um compromisso comigo mesmo, de não deixar o peso da vida me esmagar. De não deixar a dor ser maior que o restante do mundo. Fiz, por que quis, e porque o universo dizia que era hora.
          Fácil não vai ser, mas, sempre joguei no nível mais difícil. Logo, tenho experiência. O resultado de tudo isso?
Me pergunte daqui há uns seis meses...
-Sorriso torto

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Acho que você deve me achar tão crítica que nem acreditaria se eu te contasse a barbaridade com a qual eu convivo. É uma barbaridade numérica, um relógio que vive fazendo um tique-taque na minha cabeça, como que para me lembrar que o tempo passa e eu não posso ficar parada - por mais que eu não saiba como me mexer. O tempo, em si, é uma barbaridade, né? Há quanto tempo a gente não se vê mesmo? Eu já nem sei mais. Também perdi as contas do tempo que a gente se via. Sem perceber, acabei parando de contar o tempo quando meu relógio quebrou.

Comecemos pelos fatos: eu tenho um relógio quebrado. Literalmente, digo, é um relógio despertador daqueles bem manuais - é preciso girar a engrenagem, que fica atrás, para ativar o alarme e dar um tapinha no sino para desativar o alarme- e é cor de rosa. Mas está quebrado, não funciona. Não me lembro mais quando foi que ele quebrou. Lembro que um dia, por uma ventania que entrou sem aviso pela janela, ele caiu da prateleira e quebrou. Nunca o consertei, não por maldade, mas por descuido. Desde então, todos os dias, quando olho para a minha prateleira, lá está o meu relógio, parado: onze e cinquenta e cinco.

Tique-taque, tique-taque na minha cabeça. Quando alguém fala daquele filme ou começa a cantarolar a tal música tema, um tique-taque desordenado na minha cabeça é ativado. Não tem mais ninguém girando a engrenagem para ativar o alarme em mim, não tem mais ninguém aqui: só eu só. E o alarme continua lá, porque a amolação de tique-taque não precisa de gente, pode ser ativada por sombras, dessas que a gente deixa na vida de alguém quando vai embora. As sombras me amolam tanto que logo percebi o relógio quebrado dentro de mim também, o problema é que não tem ninguém para dar o tapinha no sino e desligá-lo.

É um alarme bem discreto, se infiltra todo cauteloso na minha cabeça e me faz engatar em uma jornada de perder minutos pensando nos minutos que perdi. Por que foi mesmo que a gente nunca conversou sobre as coisas que nos eram importantes? Por que foi mesmo que eu acabei te falando tanto sobre a minha dor de cabeça e tão pouco sobre o quanto minha mãe gosta de skank, como você?O próprio skank, agora, virou uma das sombras que gritam o tal tique-taque. Como é que pode um tempo parado, eu presa em uma história, ainda ouvir o tempo passar? Ouço o tempo passar, como eu costumava te falar, mas ele passa lá fora. Aqui dentro, quanto mais o tempo passa, mais presa fico. Ainda ouço o tique-taque, mas os ponteiros não se movem, continuo aprisionada nas onze horas e cinquenta e cinco minutos, como meu reloginho cor-de-rosa: parada, mesmo que em movimento.

Não desisto de me movimentar, mas parece que sigo no mesmo lugar. Vez em quando parece que vou parar lá longe, longe de nothing but a song, longe do cartãozinho sem dedicatória comprado em Washington-DC, longe do tique-taque. Aí, parece que caminhei milhas, que desbravei horizontes, que o relógio funciona e marca as horas de hoje. Só que, de só que sou, outras vezes o tique-taque volta e sou obrigada a encarar o relógio quebrado na minha prateleira. Ainda, assim, em alguns outros momentos concluo que preciso parar de brincar com esse boomerang - que quanto mais longe jogo, com mais força volta - para, assim, voltar a ver o tempo passar, desemperrar meus ponteiros internos.

Tanto quanto sei que um dia o tempo vai voltar a passar normalmente, sei que não vai ser hoje, nem amanhã o dia em que vou, finalmente, me livrar dos fantasmas e consertar meu relógio. Hoje mesmo olhei e estava lá: onze e cinquenta e cinco. Já não sei mais se foi dia ou noite, não sei quando essas onze horas pararam. Não sei se me aproximava de marcar as doze horas do meio do dia ou as do final, que marcam a hora zero de um novo dia. Até hoje estou presa nesse limbo, segue o tique-taque: cheguei na hora zero da nossa história ou ainda estou no meio dela?

Ane Karoline



"Todas as vezes que amei, amei sozinho..."

          Amei de forma desenfreada, entregue e profunda. Amei em demasia, pois apenas assim sei amar. Se eu pudesse me alimentar apenas do amor que existe dentro de mim, estaria consideravelmente acima do peso. Pois o amor nasce em mim. Brota como semente, e lá pela tardinha já se tornou planta. Em algumas semanas é árvore frondosa, de folhas verdes e saudáveis. As raízes se espalhando profundamente, agarrando tudo aquilo o que tocam, fincando-se cada vez mais fundo no solo fértil dentro de mim. Meu amor dá belas flores, de diferentes cores, cheiros e sabores.
          No entanto, sem ninguém para colher os frutos, eles caem. Se espatifam no mesmo solo que os gera, apodrecem no mesmo lugar que os nutre, e se tornam combustível para repetir o ciclo. Pois nem todos querem amor. Nem todos sabem receber o amor. Alguns, piores, o recebem sem nada dar em troca, aproveitando-se dos frutos suculentos, até não mais precisar dele. Palavras duras e de acusação, sim, mas verdadeiras, e necessárias de ser ditas em voz alta. Pois nem toda amizade ou relação é saudável, e quase nenhum amor é correspondido. 
          Não que seja fácil viver na solidão profunda que é se abster de germinar amor. Não. O que resta desses amores não correspondidos é um grande cemitério de árvores sem folhas, vivendo à míngua do que um dia já foram. O tempo passa e as experiências ruins te impedem de voltar a plantar amor. A terra seca e murcha sem as plantações, e logo a vida se torna cinza. Todos os dias, enquanto se levanta, a pessoa que não cultiva o amor deseja que não tivesse se levantado. Pois, viver sem amor, não é viver. 
          Viver sem amor é sobreviver de migalhas, sorrir às metades, aproveitar sem gostar. É seguir o fluxo, caminhar sem direção, mergulhar sem planos de voltar à superfície. É nunca trocar aquela lâmpada queimada, porque já se está acostumado à escuridão. O coração que não germina amor, germina tristeza. E a tristeza é a erva daninha de qualquer plantação. Pois ela se alastra mais rápido e com mais facilidade, devido à facilidade em conseguir combustível. Medo, ansiedade, decepções, e quando se vê a tristeza virou floresta e eclipsa a luz que deveria alcançar o solo. 
          É aí que os monstros começam a procriar e aumentar de número e tamanho. É quando chegam os pensamentos insanamente altos e acusadores, que te gritam dia e noite coisas que ninguém deveria ouvir. É quando o vento frio da culpa se arrasta lascivamente pelo solo, congelando tudo aquilo que poderia ser bom. O único remédio para essa praga é uma dose concentrada de amor verdadeiro. Doses diárias de afeto, recheadas de abraços e beijos. Sempre que possível, ouvir palavras bonitas, ou fazer algo que se gosta. 
          Se a infecção da tristeza não for tratada logo, torna-se praticamente incurável. Ama, mesmo que ame sozinho. Pois quem hoje desperdiça amor, amanhã o há de implorar. E o amor é a única cura para uma alma doente. Escolha a cura, não o veneno...
- Frio