Foto por: Ane Karoline


   O meu desejo é que a gente não se acostume com metades. Sejamos inteiros para nos relacionarmos inteiramente, para que possamos sentir inteiramente e para que nossas palavras sejam inteiras: sejam palavras carregadas de significado e de verdade. Que as nossas palavras sejam inteiras o suficiente para dizerem exatamente o que devem dizer e não sejam subterfúgios. 
   Que tenhamos a inteireza de ter coragem de dizer o que precisa ser dito, sem deixar nada nas entrelinhas. Porque é que a gente insiste em escrever nas entrelinhas se podemos escrever nas linhas? A escolha de dizer as coisas em meias palavras, com meios sorrisos desenhados no rosto faz com que sejamos figurantes da nossa própria história, afinal, quando a gente não é inteiro o suficiente para ser sincero com o outro, e dizer exatamente o que queremos dizer, é porque a nossa relação pessoal conosco é de mentira: existe mentira pior que mentir para si mesmo?
   Mentir para si mesmo é pedir que o outro minta para nós. Não dizer para a garota do cursinho de inglês que gosta dela e agir despretensiosamente, esperando que ela te note por si mesma, pode ser a chave para que ela se sinta desprezada: no happy ending. Não dizer para uma amiga de infância que está chateada com ela, com sorriso no rosto e a mágoa crescendo no coração é perder a chance de esclarecer a situação e cultivar a amizade. Não dizer ao seu avô que o ama e esperar que ele saiba disso porque você o visita uma vez por mês é perder amor.
  Não ter a coragem de dizer que gosta de alguém, por medo, ou não ter a coragem de resolver um mal entendido, por achar que é perca de tempo, para mim, é conversa de quem tem preguiça de viver. É papo de quem vive na beirada mas nunca pula, de gente de que joga a sujeira para baixo do tapete. É papo de gente que não tem vontade para escrever a própria história, ou que nem tem história para escrever.
   Já me dizia alguém que amo muito: quando a gente tem que escolher as palavras é porque a relação ainda não é verdadeira. Se não somos inteiros para dizer o que o nosso coração pede, sem filtros e nem freios, não inteiros o suficiente para receber palavras inteiras. Se não fizermos questão da verdade, não somos dignos de recebê-la.
   O meu desejo é que a gente não se acostume com metades. O meu medo é que já tenhamos nos acostumado. 

Ane Karoline

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