"Quer ler, moça?" me perguntou o senhorzinho, ao meu lado no ônibus, que lia um jornal e me notou me esticando na tentativa de ler o jornal que segurava. A matéria intitulada "Comovidos, policiais pagam fiança de ladrão e fazem compra para ele" me chamou atenção e fui bem audaciosa "Quero sim, obrigada. Obrigada." A situação foi inusitada desde o início, quer dizer, ele viu o meu interesse, me viu. A situação foi inusitada porque nós não temos mais o costume de ver uns aos outros. A gente esbarra em gente o tempo todo mas não as vemos. 
   O que li- me deem licença poética, e humana, para dizer-  foi igualmente inusitado e me deu esperanças de ver gente agindo como gente, seres humanos usando sua capacidade  de associar o afeto e a razão para ponderar, refletir e, sobretudo, agir e não ficar de braços cruzados. Aprender a ficar de braços cruzados foi o nosso pior aprendizado. Na verdade, essa atitude de ficar de braços cruzados está equiparada à de fingir que não viu. Afinal, se eu fingir que não vi a criancinha, esfarrapada, vendendo bala no sinal ela some, né? E aí, ufa, eu não tenho nada com isso. Se eu colocar os óculos escuros quando passar pela fila de gente, esperando no Sol quente, por atendimento no hospital eu não vou tê-los visto e não vou ter que testemunhar nada. Se eu fingir que não vi que o meu vizinho é o cara que aparece na TV por ter roubado carne para alimentar o filho eu, provavelmente, não vou ter nada a ver com isso até o momento em que o dono da carne roubada seja eu. É mais ou menos isso, né?
    Obviamente que a solução não é que saiamos todos para atacar os supermercados e pegar o que falta em nossas geladeiras - até porque, na situação em que estamos, não acho que os supermercados estejam equipados para matar a fome de todos que a tem. Contudo, a solução também não é desacreditar na bondade das pessoas e nem pedir fiança para o moço que roubou a carne: isso não mata a fome dele e nem, tão pouco, do filho dele. A solução para a nossa descivilização não é, definitivamente, agir mais desumanamente ainda. Eu não acho que seja. Eu não acho que alguém que roube carne para o almoço seja nocivo à sociedade, eu acho que esse alguém não conhece opções. Eu não acho que para ensinar à uma criança de 12 anos, com fome, que ela não deve segurar uma arma de fogo e ameaçar alguém para conseguir o que comer tenhamos que colocá-la em situações de miséria piores ainda. Eu acredito que alguém que segura uma arma de fogo, sendo capaz de tirar a vida de alguém, não escolheria estar ali se tivesse certeza de suas capacidades e potencialidades, se soubesse contribuir para o bem e fosse valorizado por isso. E eu digo isso, sendo quem viu os olhos de alguém que segurava a arma. Eu acho que todo mundo escolheria estar bem, vivendo em paz, se pudesse escolher. Eu não acho que eu tenha supremacia para contradizer um filósofo que é referência, mas vou ter que discordar de Thomas Hobbes: eu não acho que as pessoas sejam naturalmente más. Eu acho que Rousseau estava certo quando disse que o meio nos transforma, mas ele esqueceu de dizer que nós também transformamos o meio. Eu acho que podemos ser bons o suficiente para dar a mão àquele que não está sendo bom e mostrá-lo a bondade, apresentá-lo à bondade. 
     Longe de mim ser dona da razão, ser quem diz o que está certo e o que está errado, ser quem julga o vilão e o mocinho, até porque, cá entre nós: a minha opinião também não é certa e nem errada, não é absoluta e nem inócua. Mas, com base nessa minha opinião, posso dizer que sei que não estaremos na civilização, nem caminhando para ela, se não conseguirmos ver que o outro é um ser tão falho e tão maravilhoso como nós. Se não conseguirmos mais nos colocar no lugar de um outro (seja ele o dono da carne, ou quem tem fome), não podemos viver em sociedade e, sinceramente, não conheço ninguém que seja capaz de viver - ou sobreviver- sozinho.

Ane Karoline

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