Uma semana ruim. Um mês sofrido. Um clima desagradável e um cansaço sobrenatural. Mesmo assim, me coloquei de joelhos para ouvir o que aquela pessoinha tinha a me dizer com tanta urgência. Ela me chamou com carinho e, enquanto olhava para aqueles olhos castanhos imensos e urgentes de seis anos de idade, ouvi: "Teacher, você pode me dar outro desenho, por favor?" Apesar de saber que dispúnhamos de várias outras cópias do desenho, fiquei intrigada em saber a razão da troca já que o desenho parecia muito bem colorido na mãozinha pequena e gordinha dela. Perguntei. Ela me olhou decidida "Teacher, eu não errei nada mas esse não ficou legal. Eu posso fazer melhor, sabe? Eu estava com preguiça, mas decidi fazer o melhor que eu posso. Se não, eu não faço direito e depois vou jogar fora." Entreguei o desenho a ela. Permaneci de joelhos por mais alguns segundos mas, agora, quase em reverência.
A lâmpada da compreensão se acendeu em minha mente. É inegável: as coisas, mais uma vez, parecem ruir ao meu redor e, com toda a certeza do mundo, isso já te aconteceu e, provavelmente, vai acontecer novamente. Eu sei como funciona quando isso chega: a gente perde as forças. Sentimo-nos débeis e incapazes perante as injúrias da vida. Todos os dias soam iguais. E nos levantamos, andamos, saímos, falamos, um risinho de canto de boca aqui e outro ali, deitamos. Essa é a parte de sobreviver. Se você está lendo isso, você sobreviveu até aqui. Parabéns. 
Mas aqueles olhos castanhos cheios de vida me disseram que sobreviver não é o suficiente. É imensamente doloroso, eu sei, sair dessa zona. Dá trabalho. Requer coragem, primeiramente, de assumir que sobreviver não é suficiente. Necessário, sim. Suficiente, não.  Essa sensação de que está tudo "ok" não é, e nem deve ser, a final, o veredicto. Pode ser melhor. 
Cada pequena coisa tem valor, obviamente, mas cada pequena coisa feita da melhor forma possível. Mesmo que dê errado. Mesmo que o seu melhor no dia de hoje seja sentar e chorar. Mesmo que o seu melhor agora seja dizer "não consigo".  Encontre o seu melhor, agarre-se a ele.  Comece por aí, quem sabe, talvez você ainda não saiba para onde ir. Talvez, você ainda não saiba qual é a página mal colorida da sua vida e aí é só com você e você. Mas, quando souber, não tenha medo de arrancar essa página e fazer diferente: com outras cores, de outro jeito. Não aceite pintar na faixada da sua vida um grande "ok", não seja preguiçoso, prefira um "excelente". A menos que, para você, não haja problema em ter tudo jogado fora. 


Sempre gostei de falar, é um ofício ao qual me entrego com prazer. Contudo, não costumo falar muito sobre mim: desvio o assunto, ou sempre busco outro que pareça mais interessante. Essa, talvez, seja a razão para que poucas pessoas saibam coisas verídicas sobre mim - que vão além de primeiras impressões. Mas algumas coisas não são passíveis de negação, estão escritas na testa da gente. Para mim, é assim com lecionar. Você, você aí,  você que está lendo isso agora, pode não me conhecer (muito provável), pode não saber nada sobre mim (extremamente provável) mas, basta me ver para saber: eu acredito em ensinar. Eu acredito na construção mútua do conhecimento, na relação educacional, na educação, na ajuda e no auxílio. Eu acredito, fielmente, em acreditar nas pessoas. Eu acredito em acreditar. 

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