Não percebi de onde veio. Foi uma brisa muito leve que encontrou meu rosto e me vi, instantaneamente, girar nos calcanhares. Não tinha nada ali além de uma multidão de desconhecidos mas o cheiro me era conhecido. Lembrei que já era agosto. Muito tempo sem vê-la e o cheiro ainda era forte o suficiente para me fazer parar em uma avenida movimentada e olhar ao redor. Contei o tempo mentalmente e peguei o celular. Melhor não, me freei, nem feliz aniversário eu desejei para ela, não tem como aparecer agora out of the blue. Fiquei uns bons minutos nessa divagação, andando sem rumo. Andando devagar, do jeito que ela sempre me pedia para andar - para o tempo durar mais, ela dizia. Bobagem. 
Segui. Não tenho tempo para isso, nunca tive. Me ocupando passa. O cheiro passou, foi só um fantasma, um lapso. Mas uma semente de desordem ficou ali no meu peito, fazendo morada onde ela ficava quando, miudinha, me abraçava e fazia de mim seu lar. Não doía não, oco não dói. Mas incomodava. Tomei dois cafés seguidos para... Para quê? Nem sei. A inquietude é que me guiava, devia ser da mesma espécie da inquietude que a movia. Peguei o celular, horário do almoço. A gente costumava se falar na hora do almoço, quando não tinha ninguém perto e eu tinha coragem de ligar para ela... Tenha Santa Paciência! Respirei, uma, duas, três... Ela tinha umas loucuras de exercício de respiração, será que isso funciona? Eu, por fora calmo, por dentro estava uma pilha. Me senti metafórico e comecei a achar que ela tinha me escrito. Uma gota de suor pingou na mesa. Tudo isso por conta de uma brisa que resolveu me lembrar de um perfume.  Aquele mesmo perfume que ficava impregnado em minha jaqueta nas segundas e quartas. Bobagem.
Ocupa. Ocupa que  uma hora o fantasma vai embora. Almoço, cerveja, email, trabalho, planilhas, excel, futebol, facebook. A primeira postagem era dela. Cheia de opinião, como sempre, imaginei que deveria estar se posicionando em causas universais outra vez.  Pensei que fosse um sinal para forçar contato, reatar o que eu mesmo havia destruído. Me enganei Não era texto, era uma foto. Ela estava linda, o cabelo crescido, cara de doutora, cara de feliz. Mais feliz ainda era o cara com ela na foto. Era um sinal mesmo, mas era o contrário: o amor pede licença, a saudade entra sem pedir e, geralmente, quando já não a cabe mais ali.

Ane Karoline (texto sugerido pela Ana Luiza)


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