Olá, meu bem. Hoje, por incrível que pareça, eu não vim aqui para perguntar, questionar ou criticar. Veja bem, eu vim explicar e vou começando com um pedido. Meu pedido é: me escreva uma carta. É simples, não demanda grandes esforços. Não vai precisar largar o futebol das quartas feiras para isso. Aliás, não vai precisar largar futebol nenhum:  o das sextas também fica. É claro que investindo todo esse tempo em futebol você, provavelmente, não vai ter muito tempo hábil para assistir toda a filmografia do Woody Allen comigo, mas isso é uma coisa meio minha então tudo bem. Inclusive, você pode usar isso na carta, pode falar sobre a minha paixão incurável pelas artes. Pode me escrever um bilhete pedindo que te conte sobre aquele livro que você não leu. Quer dizer, eu tenho essa coisa toda com as palavras, com a literatura, a linguagem e as linguas mas você não precisa ter. Você não precisa ser bilíngue para me escrever uma carta. Mas se for, pode me escrever em outra língua. Não precisa saber jogar xadrez, aliás, é melhor se não jogarmos jogo algum. Também não precisa saber cantar, tocar algum instrumento e nem ser atleta. Uma carta não precisa de força física e nem de rima: pode ser escrita em um guardanapo de bar, com uma caneta promocional ganhada no banco. 
Então é isso que estou dizendo. Estou respondendo essa pergunta tão recorrente que ecoa em minha cabeça: "o que você espera de mim?". É isso. Tudo que espero, e quero, é que você me escreva uma carta. Muito me interessa e me instiga te ler assim, dessa forma tão exposta que é a palavra escrita. Lendo uma carta sua, eu poderia, quem sabe, conseguir te desvendar - ou descobrir que não há nada em você para ser descoberto. É assim que saberei se fico.
É que, na realidade, todo mundo tem alguma coisa para escrever, todo mundo tem uma razão que te empurra a escrever, pelo menos, uma frase. Se você, por acaso, não tiver nada a escrever; se não tiver nenhum impulso de me dizer alguma coisa; se não tem nada para ser rascunhado em um saco de pão, então, nem venha. 
A carta não precisa ser lírica, barroca, romântica ou bonita. Não precisa rimar e nem brilhar. Não estou, aqui, analisando o que você vai falar, só preciso que fale. Me escreva mesmo que seja para, tortamente, me descrever ou para avisar que não vai aparecer. Mexa-se. Faça com que chegue até mim a inquietação do sentimento que existe em você. É isso: chegue até mim. 

Seja um folheto, um poema, uma frase, um desenho, um rabisco ou uma música. Seja um bilhete, um recado, uma carta ou um adeus. Minha vontade é que exista em você o impulso de quem quer escrever. Quero dizer:  o que mais me interessa é que você tenha a sensibilidade aguçada ao ponto de querer me escrever. Peço que escreva porque se não existe em você a sensibilidade necessária, não existirá, então, estória( nem história) alguma. Estou cansada de escrever amores sozinha, se sentir convidado, entrego a tarefa de começar para você. Antes de tudo, você vai precisar me escrever uma carta. 

Ane Karoline

4 Comentários

Deixe um comentário

O tempo é maior presente que podemos dar à alguém: obrigada pelo seu. As palavras são afeto derretido, que tal deixar as suas? (Caso tenha um site, para que possamos presenteá-lo com nosso tempo,divulgue-o aqui). Forte Abraço.