foto por: Ane Karoline

Existe um buraco dentro de mim. Estive tentando evitá-lo. Tive um medo doido de cair nesse buraco, imagina só: cair em si! Deus é que me livre. Sendo assim, desviei-me dele, contornei-o e tentei ignorá-lo. Me tornei, então, refém de mim. Fui refém de minha ansiedade e das minhas inverdades. Me vi presa em dilemas e problemas criados para dissimular e ocultar-me. Escondi-me através do silêncio adiando o encontro comigo. Encobri-me com companhias fúteis para evitar a minha. Mascarei o medo da solidão permitindo que o espaço, reservado para mim fosse ocupado por outros. Enchi-me dos outros por estar vazia de mim.
Entretanto, me convenci que um buraco dentro da gente é uma coisa que precisa ser preenchida. Editei-me tentando encaixar coisas e pessoas no tal buraco. Nada cabia, nada combinava, nada era suficiente. Foi, então, justamente o excesso de contato com os outros que me empurrou ao ato: pulei. Tive coragem de mergulhar nesse precipício que sou. Que bagunça encontrei! Restos de relações e pretensões que não me pertenciam - não tinham nada a ver comigo. Vi convicções que tinham vindo de qualquer outro lugar, mas não do meu ser. Aspirações e objeções que foram construídas através de ambições alheias. Resolvi correr o risco: deixei apenas aquilo que me construía. Sobre o que me não me era próprio: joguei fora. Não precisamos de nada que nos domine ou nos esmague. 
Cavei cada vez mais fundo o buraco esse abismo, sem medo de me encontrar e de ser essa incompletude que, por vezes, não se identifica e não se encaixa mas que sempre pode encontrar, dentro de si,  um lugar seguro e confortável para ficar. Parei de me envenenar com certezas que não me representavam, não me edificavam. Quando, finalmente, abri mais espaço para essa lacuna, sem tentar recheá-la, descobri o pote de ouro que há em mim (e que há em todos nós). Descobri onde moram as coisas boas e, melhor,  como compartilhá-las. Entendi que, ao invés, de enchermo-nos de coisas que não nos cabem, podemos compartilhar com o mundo o que temos de melhor, sem impor nada. Desistindo, assim, de buscas incessantes, e infrutíferas, por coisas que só existem em um único lugar: dentro de nós. A busca mais produtiva e prazerosa é a que nos leva a nós mesmos.  
Agora, quando sinto o vento bater no buraco que existe em mim, fico satisfeita por saber que, se não há nada lá, tirei de mim o que não me era pertencente ou, pelo menos, não mais. Fico satisfeita em saber que sempre há em mim um espaço para ser, cada vez mais, quem sou, para me exercer. E, ainda mais satisfeita, em saber que vez ou outra consigo me derramar em palavras e dá-las de presente às pessoas (incluindo a mim).


  

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