imagem por: Ane Kelly

Comecei a chorar, de novo, noite passada. E, de novo, meu primeiro impulso foi conter. Meu primeiro impulso é sempre conter. Mas dessa vez, enquanto tentava engolir as lágrimas, vi no espelho o reflexo de alguém se afogando. Foi assim que chorei a noite inteira. Chorei pelo que foi, pelo que não foi, pelo que poderia ser e pelo que poderia ter sido. Chorei porque me importo com a composição de cada detalhe e foi, aí, que percebi que não há mal nenhum nisso. Chorei porque queria conter. E chorei, principalmente, porque percebi que não chorar melhora sua imagem social- e piora todo o resto  Na verdade, olhando assim, se importar é uma maravilha. É raridade.
Apesar de todo o martírio das noites de choro, do quanto me perco, me afogo, me afundo e naufrago em minhas próprias sensações, a manhã seguinte é sempre brilhante. Quer dizer, já viu como fica o dia quando, depois da chuva, o Sol resolve aparecer? É disso que estou falando. O dia seguinte é quando digo: ainda bem que sinto! Imagina só que vida sem cor essa de quem não se importa: não dói, não incomoda, não machuca e não ama. 
É que, colocando na balança, chorar é uma dádiva. Não falo do choro de alegria, esse já vem acompanhado de satisfação. Falo do choro que é transbordar. Me refiro às lagrimas que já não cabem mais no peito. Me refiro à expressão de agonia. Estar agoniado é coisa boa? Por si só, não. É tortura. Longe de mim defender o sofrimento, sou defensora da felicidade. Mas, hoje, estou advogando em favor da vivacidade, da humanidade. Infeliz aquele que vive a dissimular. Aflito aquele que resolve camuflar as sensações. Esse é um erro colossal: calar quando se quer gritar.
Parece que, através da repetição, tornou-se normal ouvir e concordar: vemos seres humanos, mas humanidade não há. Não me agrada essa afirmativa, se há algo com o que concordar é que não existe razão para as sensações limitar. Ser humano é repleto de conflitos, confusões e confissões. Sorri, chora e em desespero conta estórias, faz história.
Já é suficientemente triste que o mundo não seja (ainda) um lugar confortável; que seja um lugar onde, constantemente, somos afogados, oprimidos e bloqueados,  mas é inaceitável que sejamos os bloqueadores, é intolerável que impeçamos a nós mesmos.
Sendo assim, gostaria de recordar o nosso direito de sentir sem freios. Quero, aqui, colocar em prática a ideia de que, sim, é direito estar chateado, é direito chorar quando parece bobagem: mesmo quando estão olhando. É direito dar uma gargalhada alta quando algo te faz sorrir de verdade. É direito ser o primeiro a dizer que ama. É direito dizer a verdade, mesmo que doa. É direito dizer adeus quando não há mais razões para ficar. É direito assumir que a ajuda é necessária.
Hoje, quando acordei, vi meu reflexo no espelho e os sinais do choro nos olhos; então sorri. Sorri por todas as vezes em que tive vergonha de sorrir, sorri por todas as vezes em que não tive vontade de sorrir, sorri por não saber quantas vezes ainda poderei sorrir e sorri por todas as vezes em que me disseram "engole o choro que vai passar". Agora eu sei que passa. Passa, sempre passa. As nuvens escuras sempre passam quando a gente deixa a tempestade passar, abrindo espaço para o Sol raiar.

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