Estranho mesmo foi perceber que cheguei ao ponto de dissimular, mas cheguei. Ah. todo mundo chega. E, é claro, tive boas razões.
   Quando te revi, meu coração não acelerou e nem ficou aos pulos: pasmei. Mas senti algo ao vê-lo e nem sei dizer o que foi. Tive uma pontada de medo: tipo uma agulhinha que me beliscava sempre que o olhava. E, simultaneamente ao medo, senti falta: falta do que nem chegamos a ser, falta de quem eu era antes de conhecê-lo.
   Arrisquei uma olhadinha vez ou outra mas, para a sua surpresa, não iniciei nenhuma conversação, como costumava fazer: deixei que o buraco, que você mesmo havia engenhado em meu coração aflito, falasse por mim. E falou. Falou por nós: ficou entre os nós. De cara percebi que você não tinha costume com o vazio que dói. Por quê? Porque quando começou a cair no abismo existente entre nós, se apressou em construir uma ponte. Que foi? Tem medo de cair? Eu sei que tem, então vou pontuar umas coisinhas: a gente tem medo de cair - todo mundo- mas cai mesmo assim. Eu tive medo também, acredita? Mas isso não me poupou da queda e você não me jogou um pára-quedas. Só para te situar: a queda foi tamanha que abri um buraco e fui parar no núcleo terrestre. Você não notou, mas eu fiquei nesse buraco por um bom tempo e, ainda hoje, carrego-o comigo. Mas o mais importante é que enfrentei o abismo for my self, entende? E agora, que emergi, você me aparece todo blasé, bancando a simpatia personificada, querendo entender meu recuo? Pois quero informá-lo de que já me adiantei e formulei uma boa metáfora- daquelas que você costumava jogar no lixo- para a gente.
  Dizem por aí que quando a gente amassa uma folha de papel, não conseguimos desamassá-la totalmente. Mas, no nosso caso, não somo uma folha amassada: somos uma folha escrita, e você fez questão de escrever tudinho à caneta. Acho que deu para entender, né? Poderia ter pensado melhor no que ia escrever, enquanto éramos uma página em branco. 

Ane Karoline

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