"E aí, passa teu whatsapp pra nóis trocá uma idéia?"
   Não sei se foi a menção à palavra conhecida ou aquele dialeto (que, por sinal, esfaqueava a gramática) que chamou a minha atenção, mas me coloquei em posição de bisbilhotar a cena. Observei,com aflição,a mocinha digitar algo no smatphone do rapaz possuidor do dialeto peculiar. Ela não parecia ofendida com o fato de o digníssimo não ter se apresentado, se ficou ofendida disfarçou bem. Quase não acreditei quando ele saiu cuspindo um "falou". Pensei: NÃO É POSSÍVEL! Mas era, e foi. Esse foi o início, meio e fim da conversa. 
   O escândalo com a cena só não foi maior do que o de perceber que a situação era (é) extremamente comum. Me dispus, então, a investigar em minha memória onde raios tudo isso havia começado. Vasculhei a caixinha de memórias e: não soube dizer.
    Saber dizer eu não soube,mas me lembrei de uma época em que aquele que tinha o numero de telefone da casa (sim, da casa, celular não era mais importante que água) da gente podia se considerar amicíssimo. Quer dizer, era preciso muita intimidade para pedir o número de telefone de alguém. Contudo, essas lembranças são muito remotas.
    Depois de algum tempo, os mais ousados diziam "você tem E-mail?" - que se transformou em MSN, orkut, facebook e, finalmente, whatsapp. Os e-mails atualmente são vistos apenas como algo ultra sério: está bancando o substituto da carta.
     O engraçado (ou triste) é perceber o quanto essa revolução tecnológica influencia nas relações não-virtuais. Os aniversários, por exemplo já maior importância. Até porque, as pessoas tinham que, minimamente, lembrar os aniversários sem uma rede social virtual que fizesse isso por elas (e, nesse quesito, o orkut era muito mais eficiente que o facebook). E o melhor: tinham que ir até a sua casa ou ligar, se quisessem desejar-lhe bonanças. E por mais que nas ligações de aniversário a gente sempre fique tipo "ahã, obrigada, ahã, hehe", as ligações são muito mais pessoais do que um "parabéns" em nossa timeline. 
   Inclusive, esse momento histórico da ligações-ahã foi simultâneo ao momento histórico das fotos reveladas. Pasmem: as pessoas fotogravam para guardar as fotos ao invés de postá-las online. E o mais maluco: não viam o resultado final da fotografia no ato de tirá-las. Esse tempo existiu, tia?
    Certa vez ouvi o vento me dizer que "a internet aproxima quem está longe e afasta quem está perto". É clichê mas me parece apropriado até certo ponto. 
     O fato é que, somando os prós e contras na calculadora digital da vida, eu ainda ficaria com os convites de aniversário feitos de papel que diziam "seria uma honra tê-lo em minha festinha". Não digo que largaria a tecnologia, sem radicalizar, mas optaria por não conhecê-la, se fosse possível. Ou não. Ouvi dizer também que as memórias são um exagero só. 
      

4 Comentários

Deixe um comentário

O tempo é maior presente que podemos dar à alguém: obrigada pelo seu. As palavras são afeto derretido, que tal deixar as suas? (Caso tenha um site, para que possamos presenteá-lo com nosso tempo,divulgue-o aqui). Forte Abraço.