Era um fato: em menos de 24 horas completaria 18 anos. Ela ansiava por isso, mais do que houvera ansiado pelos outros 17 aniversários anteriores. Significava o início de um novo ciclo, uma nova era, uma nova vida: ao completar 18 anos teria a idade que sua mãe jamais tivera. A mãe, aquela que falecera por complicações no parto, aos 17 anos de idade e não teve a oportunidade de ser conhecida pela própria filha, filha essa que, quando a meia noite chegasse, seria, então, mais velha que sua mãe jamais fora e isso tinha um significado muito especial, estava celebrando a vida que ganhou através do sacrifício e amor de alguém. 

Apesar da dor que, inevitavelmente, sentia sempre que chegava o dia de seu aniversário (e, consequentemente, o aniversário de morte de sua mãe), ela estava feliz. Quando o relógio marcou meia noite, respirou fundo e agradeceu silenciosamente por mais um ano de vida, mais uma oportunidade. Alguma coisa dentro dela sempre temeu por essa data, temia não chegar a tal idade. Mas chegou. E, nessa noite, foi dormir tão cheia de vida a ponto de quase não conseguir aquietar o coração. 

A manhã não tardou em raiar e, apesar da noite mal dormida, sentia-se exalar vida. Olhou-se no espelho: o mesmo rosto manchado de Sol, o mesmo dente um pouquinho torto na frente, a mesma mecha de cabelo rebelde de todas as manhãs. Mas essa manhã era diferente, sentia que algo a esperava, sentia que a vida a esperava, que a vida, finalmente, havia chegado. Nunca se sabe como que é a vida nos bate à porta. Cumpriu sua rotina matinal diária quase aos pulos, enebriada pela energia que os aniversários geralmente causam em seus respectivos aniversariantes. Ao sair para cumprir seus compromissos, recolheu as correspondências- como de costume- e deparou-se com uma caixinha de madeira de aparência velha no meio dos envelopes de contas e cartas. Curiosa, apressou-se em abrir a caixa "Será um presente? Se sim, de quem?" - pensou enquanto procurava uma forma de abrir a caixa sem quebrar o lacre. "Que complicado, será que há um segredo para abri-la?". Por fim, percebeu uma espécie de chave sob a caixa e a girou, a caixa foi aberta.

Assim como a caixa, o presente refletia delicadeza. Um colar, revestido de ouro e com com um pingente, também de ouro: a metade de um coração. Um presente que parecia ter sido escolhido com muito cuidado e apreço. De tão encantada com o presente, demorou-se em enamorar o colar e só depois pensou em procurar o remetente. Olhou superficialmente pela caixa e não encontrou nenhum bilhete, carta ou dedicatória. "Quem é que manda um presente desses sem se identificar?".

Ao perceber-se atrasada, guardou a caixa e partiu para seus compromissos, já exibindo o colar em seu pescoço. O pingente criava uma leve sonoridade ao movimentar-se pelo colar, com o vento, o que a fazia se sentir acompanhada. Mas logo se sentiu sufocada. Depois de algumas horas, o colar parecia apertado demais, cada vez mais apertado. Mal conseguiu se concentrar em suas tarefas: sentia como se seu pescoço estivesse inchando a cada hora que se passava, a ponto de não conseguir retirar o colar sem quebrá-lo. Pediu ajuda a alguns amigos: nada. Tentava manter a calma, "É só um colar, um colar pequeno demais para mim. Quando chegar em casa, conseguirei retirá-lo."

À noite, ao seguir para casa, já planejava procurar o telefone do fabricante na caixa para ligar pedir auxílio. O desconforto já era tal, que o colar não se movia mais em seu pescoço, a pele ao redor começava a inchar levemente pela compressão. Caminhava em passos largos e a esquina nunca pareceu tão longe de casa. Ao chegar, encontrou a caixa onde havia deixado ao sair: no chão da sala. Ninguém em casa, todos já a esperavam no local de sua comemoração de aniversário. Bastaria uma ligação e ela estaria livre do colar.

Ao revirar a caixa, percebeu algo que deixara escapar pela manhã: uma figura colada no interior da tampa da caixa. Era uma foto. No segundo seguinte a caixa estava no chão e ela subia as escadas aos pulos: aquela foto deveria estar dentro de sua última gaveta, escondida em seu diário:a foto de sua mãe, ainda aos 17 anos, exibindo uma enorme barriga do sétimo mês de gestação. Empurrou a porta do quarto e atirou-se no chão, abrindo a última gaveta à procura do diário. Jogando as roupas no chão, em desespero, percebeu que o diário não estava ali. "Mas eu o deixei aqui! Eu tenho certeza!" - pensava atordoada enquanto sentia o colar apertá-la ainda mais, mas de uma forma diferente: como se alguém o estivesse puxando. Virou-se e só deu tempo de tempo de ver o pescoço que carregava a outra metade do pingente de coração antes de ouvir:

 - Achou que a mamãe iria te abandonar nessa vida sozinha?

Ane Karoline

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