Falar de amor é como falar de lixo. Vamos lá. Estamos esgotados de tanto ler, ouvir, assistir e repetir: lugar de lixo é no lixo. Não devemos jogar lixo no chão, nas ruas, nas calçadas, nos bueiros: lixo no lixo. É quase um mantra repetido mas as ruas continuam abarrotadas de lixo. Não, o amor não é lixo. Mas é tão dito, entoado, cantado, versificado, escrito, descrito, declamado, recitado e receitado que quase soa como se já tivesse sido dito demais - como a história do lixo no lixo. E isso não faz mal nenhum desde que seja acompanhado por ações.
Assim como os panfletos de reciclagem, o amor parece ser sempre uma filosofia que serve de paisagem de fundo para as nossas vidas. A gente vai falando, lendo, vivendo repetindo os mesmos discursos algumas vezes por ano, desejamos bençãos em dias de aniversários e quando chega, finalmente, dia 24 de dezembro é bonito de ver: luzes, abraços, música, presentes, gente presente, felicitações, mensagens de carinho e apoio. Pelo menos uma vez, um dia, uma lâmpada mágica parece acender-se em nossas cabecinhas e mostrar: dá para apaziguar, dá para pacificar, dá para amar. E dá. 
Ao invés de dizer que não adianta nada, que o lixo vai continuar sendo jogado nas ruas, e que apenas um dia de amor universal é hipocrisia eu quero te convidar a dizer mais.
É, eu sei. Você, provavelmente, vai me dizer que o amor está gasto, mal falado e sem significado, que eu te amo virou bom dia e que amar machuca. Pasme: o amor não foi suficientemente explorado. Precisamos de mais. Precisamos que esse único dia seja multiplicado e não descartado. Que esse único dia seja multiplicado pela quantidade de corações que pulsam nesse exato momento. É um bom começo. Me parece um começo promissor - mesmo que seja no finalzinho do ano. Me parece bem promissor tomar essa energia de amor, cooperação e harmonia como um impulso de esperança: dá para amar. 
Talvez os panfletos de lixo no lixo não façam tanto efeito porque nem todos sabem ler, ainda. Se o lixo no lixo for mostrado, se eu jogar o meu lixo na lixeira e você jogar o seu, talvez o nosso amigo em comum jogue também. Se o amor, além, de estar escrito em outdoors for sentido em abraços, beijos, risadas, choros, e cooperação, o amor com luzinhas de natal dos dias 24 e 25 não será em vão.
Então, quando as ruas estiverem limpas ainda teremos que manter a ideia de como mantê-las. Quando alcançarmos o amor, não vamos mais precisar dizê-lo. E, então, poder agir como Jesus, amando a quem não conhecemos, amando quem não nos agrada muito e amando aqueles que despertam e cultivam o amor em nós. Colocar-se no lugar do outro é um ato de amor satisfatório, seja esse outro quem for.
Feliz Natal! 

6 Comentários

Deixe um comentário

O tempo é maior presente que podemos dar à alguém: obrigada pelo seu. As palavras são afeto derretido, que tal deixar as suas? (Caso tenha um site, para que possamos presenteá-lo com nosso tempo,divulgue-o aqui). Forte Abraço.